Pequenos Milagres / Backlight / Contraluz

Nota: ★★★☆

O português Fernando Fragata é o diretor de Pequenos Milagres (no original inglês Backlight, em Portugal Contraluz). É também um dos montadores, um dos diretores de fotografia e um dos membros da equipe de iluminação.

O cara tem talento.

Muito legal isso – um português, muito provavelmente jovem (ainda não li coisa alguma sobre o filme ou sobre ele, enquanto faço este início de anotação), que mete a mão nas várias etapas e processos da realização, e já teve oportunidade de fazer um filme nos Estados Unidos.

E fez questão de botar no elenco, num papel importante, um compatriota. Joaquim de Almeida é um ator de experiência internacional, já filmou com os irmãos Taviani nos Estados Unidos (o belo Bom Dia, Babilônia, de 1987), fez o papel de Sherlock Holmes numa co-produção Brasil-Portugal, O Xangô de Baker Street, de 2001, trabalhou com Guillermo Arriaga na produção americana Vidas que se Cruzam, de 2008, fora trabalhos com realizadores portugueses, Mulheres – Amizades Simples, Vidas Complicadas e Capitães de Abril, para dar só alguns exemplos.

Bom, isso de Fernando Fragata botar no elenco de sua produção americana um grande ator português. Demonstra bom caráter, na minha opinião. (Na verdade, conforme vi depois, o filme é uma co-produção Portugal-EUA.)

Mas o melhor de tudo, o que é realmente admirável, impressionante, é que Fernando Fragata é também o autor do argumento e do roteiro deste Pequenos Milagres.

Não é um grande filme, uma absoluta maravilha. Mas é muito bom – e a trama, a história, é admirável, extraordinária.

Uma trama inventiva, criativa, surpreendente, inteligente, bem costurada, bem amarrada

Fernando Fragata mostra no próprio filme que gosta de Philip K. Dick e de Stephen King. Este Pequenos Milagres é um ficção-fantasia, com um pé no sobrenatural, como os contos e romances dos dois escritores.

A trama que o camarada criou é de colocá-lo no nível de um Alejandro Amenábar, um Guillermo Arriaga, um Álex de la Iglesia. É de babar.

Fala de coincidências, destino, encontros absolutamente inesperados. As pequenas trapaças do destino de que é feita a vida. Ou, para quem preferir enxergar assim, o jeito com que as coincidências ocorrem, de forma a manter Deus no anonimato.

É uma trama inventiva, criativa, surpreendente, inteligente, bem costurada, bem amarrada – desde, é claro, que o espectador não seja um idiota da objetividade, da mais absoluta lógica, do pão-pão, queijo-queijo.

Afinal, como entrega o título brasileiro, é uma trama que fala de pequenos milagres. Alguns nem são tão pequenos assim. E os milagres ocorrem graças a aparelhos, engenhocas, gadgets: um GPS, um telefone celular, uma máquina fotográfica digital. Ah, e também uma prosaica tesoura.

Ou seja: quem exige objetividade, racionalidade absoluta, não deve ver o filme. Se vir, certamente não vai gostar.

Um homem que, um ano após perder a mulher, ainda está absolutamente perdido, atordoado

Exatamente porque é uma trama surpreendente, esta anotação não deveria – e não vai – revelar muito sobre ela. Apenas apresento um pouquinho sobre os personagens.

O primeiro que conhecemos é o interpretado por Joaquim de Almeida – que, de resto, é o único do elenco que eu já conhecia. Ele faz o papel de Jay, um sujeito que, um ano após a morte de sua mulher, Claire, ainda não se recuperou, ainda não andou um milímetro para a frente. Continua tão angustiado quanto no dia em que a perdeu.

No dia do seu aniversário, Jay recebe o telefonema de um amigo. Na verdade, é a secretária eletrônica que recebe o telefonema, que Jay não atende. O amigo dá os bons conselhos, diz que Jay precisa reagir, ir em frente. Conta que deixou umas compras e um pequeno presente na porta da casa. E incentiva Jay a abrir o presente de aniversário que ganhou de Claire no ano anterior, e ainda não tinha tido a coragem de abrir.

Ele vai até a porta de sua casa e pega as compras que o amigo havia deixado lá para ele. O presente é uma tesoura. Com ela, Jay finalmente corta os lacinhos do presente que Claire havia dado para ele um ano antes, pouco antes de morrer. É um GPS.

Como Wim Wenders, como Walter Salles, Fragata quis fazer nos EUA um road movie

A cidade em que Jay vive é pequena, não identificada, e fica no Oeste americano. Não há referência, em momento algum, ao local exato – mas é seguramente naquela região dos grandes espaços vazios, com canyons, formações rochosas impressionantes. Pode ser Novo México, Arizona, Nevada, talvez até alguma região desértica da Califórnia. É o Velho Oeste das paisagens descomunais de John Ford – embora o clima seja mais chegado a Paris, Texas, o filme mais western do alemão Wim Wenders.

Cidades vão aparecer pouco. A maior parte do filme será em estradas, em paisagens vastas, ao ar livre. O português Fernando Fragata, como o alemão Wim Wenders, como o brasileiro Walter Salles, quis fazer nos Estados Unidos um road movie para chamar de seu. E fez um road movie repleto de imagens belíssimas, seqüências de planos gerais de encher os olhos.

Um dos maiores realizadores de todos os tempos, o checo Milos Forman, uma vez disse que, se fosse um arquiteto seis mil anos atrás, teria ido para o Egito, para construir pirâmides; como era um cineasta, foi para os Estados Unidos, a terra em que se constroem as pirâmides do cinema.

Um telefone que, a cada dia, diz uma palavra que salva a vida da garota Lucy

A segunda personagem que vamos conhecer não tem nome – nem reparei nisso enquanto víamos o filme, mas agora, ao ir ao IMDb para pegar o nome dos atores e dos personagens, vejo que não tem nome a mãe de Lucy – é apenas a mãe de Lucy (interpretada por Michelle Mania). Ela foi chamada para uma reunião com o diretor da escola da filha, porque Lucy anda desobedecendo à ordem de não usar celular na classe.

A mãe de Lucy fica surpresa, porque nem sabia que a filha tinha um celular. Vai confrontar-se com a garota, uma adolescente aí de uns 17 anos (interpretada por Skyler Day). Com a imensa dificuldade que os adolescentes têm para conversar com os pais, Lucy explica que encontrou o celular na rua; na verdade, ele não funciona. Mas, quando Lucy o segura, ouve do telefone palavras que acabam salvando sua vida. A cada dia, uma nova palavra – e essa palavra acaba sendo a chave para que Lucy escape de uma situação extremamente perigosa.

Lucy tem o nome de Philip K. Dick escrito na sua blusa, um moleton azul. Mais tarde ela ganhará da mãe uma edição capa dura de Shining, de Stephen King, o livro que deu origem a O Iluminado, de Kubrick.

Houve um momento em que pensei em desistir de ver o filme. Ainda bem que continuei

Nesse ponto do filme, quando vemos os diálogos entre Lucy e a mãe, cheguei a pensar em desistir. Basicamente porque essa Michelle Mania, que faz a mãe de Lucy, é ruim demais da conta. Dá para perceber que o argumentista-roteirista-montador-fotógrafo-iluminador-diretor Fernando Fragata, seja ele quem for, ainda não domina um dos pontos mais difíceis de seu ofício, o de saber como dirigir atores.

Não há nenhuma grande intepretação neste Pequenos Milagres. Mas a maioria dos atores se sai bem, faz a obrigação direitinho. No entanto, essa Michelle Mania, tadinha, ela é uma absoluta lástima. É daquele tipo que exagera, overact. Não fala – berra. Mexe os braços freneticamente, como se fosse Elis Regina cantando “Arrastão” no festival da TV Excelsior. É tão ruim que até as falas dela destoam do resto dos diálogos do filme.

Então cheguei a pensar naquelas coisas – a vida é curta, tem filme demais pra ver, não dá pra perder tempo com coisa ruim.

Mas o filme não é ruim, de forma alguma. E a trama é fascinante, inteligente – e então fomos adiante. Não me arrependi nem um pouquinho.

Os destinos dos diversos personagens vão todos se encontrar

Depois de conhecer Lucy e sua mãe, conheceremos Daniel (Joey Hagler), um adolescente aí de uns 18 anos. No momento em que Lucy sai do carro da mãe insuportável, anda um pouco e vê um belo lago, Daniel está num barquinho, tirando uma foto de si próprio e em seguida se jogando na água – obviamente procurando a morte.

O personagem que aparece depois de Daniel é Matt (Scott Bailey), um rapaz aí chegando aos 30 anos, cuja irmã, uma psiquiatra, enviou a um hospício o rapaz Daniel, um suicida em potencial.

A história de Matt é complexa, comprida, e não é o caso de contá-la aqui.

O fato é que, depois de termos conhecido Matt e o garoto Daniel, conheceremos um velho fazendeiro (Donovan Scott), que anda por aquelas estradas e acaba dando carona a Daniel. Daniel pegará carona depois com Helena (Evelina Pereira), que tem um caminhão para reboque de carros.

Os destinos de todos esses personagens vão se encontrar, na trama belíssima criada por Fernando Fragata, essa espécie de aprendiz de Stephen King, Philip K. Dick, Guillermo Arriaga, Alejandro Amenábar, Álex de la Iglesia.

Espanhóis e portugueses têm se destacado na criação de belas tramas para o cinema

Ainda não procurei nada sobre Fernando Fragata, e penso que é uma coisa estranha que ele, como Amenábar (chileno de nascimento, mas criado na Espanha), de la Iglesia, e também Almodóvar, sejam todos da mesma península. Assim como o México é tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos, a Península Ibérica é tão perto da Europa e tão longe de Deus. Lisboa e Madrid e Barcelona ficam tão perto de Paris e Londres e Berlim – e, no entanto, esses dois países que no século XV dividiram o Mundo Novo entre eles são tão estranhamente periféricos e pobres hoje na Europa unificada.

Dividiram boa parte do mundo entre eles, Portugal e Espanha – e, no entanto, de alguma maneira sempre foram periferia da Europa grandiosa.

Aliás, hoje, o que seria a Europa grandiosa? Tirando a Alemanha com aquela força germânica eterna dela, nada é grandioso na grandiosa Europa em que até Itália e França são membros fracotes da União.

Mas, no cinema, fora a grandeza maior das Ilhas Britânicas, o que tem surgido de mais impressionantemente criativo tem vindo da pobre, pobre, pobre que nem marré de cy Península Ibérica.

Que Fernando Fragata faça ainda muitos, muitos filmes

E vamos às informações. Que não são muitas. IMDb e Wikipedia não trazem sequer a data de nascimento do diretor. Ele começou a carreira na publicidade – dá para perceber isso, pela insistência dele em usar ultra big close-ups –, passou um tempo trabalhando com câmara e iluminação, e estreou como diretor numa série de TV, Jornalouco, de 1992. Em 1995, fez um curta, Amor & Alquimia, que ganhou prêmios em festivais.

Fez três longa-metragens antes deste Pequenos Milagres, todos em Portugal: Pesadelo Cor de Rosa (1998), Pulsação Zero (2002) e Sorte Nula (2004).

Pequenos Milagres é seu primeiro filme realizado fora de Portugal. (O trailer chama atenção para o fato de que é o primeiro filme de um diretor português feito em Hollywood.) Foi o filme mais visto em Portugal em 2010. Teve um orçamento de US$ 4 milhões, uma merrequinha se comparado aos orçamentos de filmes americanos comerciais.

Que Fernando Fragata faça ainda muitos, muitos filmes.

Anotação em setembro de 2012

Pequenos Milagres / Backlight / Contraluz

De Fernando Fragata, Portugal-EUA, 2010

Com Joaquim de Almeida (Jay), Michelle Mania (a mãe de Lucy), Skyler Day (Lucy), Scott Bailey (Matt),  Joey Hagler (Daniel), Evelina Pereira (Helena), Donovan Scott (o velho fazendeiro), Ana Cristina de Oliveira (a recepcionista do motel), Jeff Swarthout (o diretor da escola)

Argumento e roteiro Fernando Fragata

Fotografia Fernando Fragata e Daniel Herman

Música Nuno Malo

Montagem Fernando Fragata e Olena Kuhtaryeva

Produção Virtual Audivisuais. DVD PlayArte

Cor, 107 min (exibido nos EUA com 90 min)

***

Um Comentário

  1. Ivan
    Postado em 15 julho 2013 às 1:34 pm | Permalink

    Belíssimo filme e , eu , em momento algum Sergio, pensei em desistir dele.
    Ao contrário,o filme me amarrou por inteiro.
    É como voce disse , a história, a trama, é admirável e também inteligente e muito bem costurada. Também não gostei da mãe da Lucy e menos ainda da voz desta (Lucy). Assisti o filme em versão dublada. Era uma voz muito infantil para ela.
    E um detalhe que talvez só tenha acontecido comigo: aquela música que toca ao fundo, na maioria das cenas , é algo tão cortante, tão penetrante , tão linda , que me deixava sempre com os pelos arrepiados. Para mim , essa música “falava” pelo filme.
    Tôdas as situações muito bem encaixadas, paisagens belíssimas.
    Não sei voce mas , quanto à mim , não gostei do final. Por que tinha de ser daquele jeito?
    Será que deixei escapar algum detalhe ?
    Um filme muito, muito bom mesmo.
    Parabéns ao Fragata.
    Um abraço !!

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Gaiola Dourada / La Cage Dorée em 30 setembro 2014 às 6:47 pm

    […] Maria é interpretada por Rita Blanco (na foto acima) – uma belíssima atuação. E José, por Joaquim de Almeida (na foto abaixo), esse grande ator que parece estar para Portugal como Ricardo Darín está para a […]

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