Paris

Nota: ★★★☆

É um belo filme, este Paris, que Cédric Klapisch fez em 2008. Uma terna, apaixonada declaração de amor à cidade estupidamente maravilhosa.

Como Robert Altman, Klapisch parece gostar de histórias com um grande número de personagens. Albergue Espanhol/L’Auberge Espagnole, de 2002, apresentava uns dez personagens, que gravitavam em torno de Xavier (o papel de Romain Duris), estudante francês que passa uma temporada em Barcelona. Foi um grande sucesso, e, três anos depois, o diretor retomou os mesmos personagens e acrescentou outros, numa gostosa continuação de Albergue, Bonecas Russas/Les Poupées Russes.

O mesmo Romain Duris está presente em Paris. Faz o papel de Pierre, um dançarino profissional que descobre ter uma grave doença cardíaca. É um dos personagens principais da história – mas são muitos os personagens, e nem todos eles se conhecem. Paris é um mosaico, ou estrutura multiplot, como tantos filmes que têm sido feitos ultimamente. Como Short Cuts – Cenas da Vida, do grande realizador americano que, como Klapisch, gosta de histórias com muitos personagens.

Paris me pareceu assim uma espécie de cruzamento de Short Cuts, de 1993, com outro filme francês da mesma época, Bancos de Praça/Bancs Publics (Versailles Rive Droite), de Bruno Podalydès, lançado um ano depois, em 2009.

Com grandes vantagens sobre esses dois filmes.

Ao contrário de Bancos de Praça, que se perde em meio a tantos personagens e acaba virando uma salada um tanto indigesta, Paris é mais centrado, mais focado, e o mosaico de Klapisch resulta num filme muito mais coerente e agradável.

Sobre Short Cuts, Paris tem duas vantagens importantes. Primeira: ao contrário dos personagens do filme de Altman, a maioria deles gente profundamente antipática, desinteressante, chata, as criaturas de Paris são, em sua maior parte, simpáticas, agradáveis. Gente boa.

A segunda vantagem: em vez de Los Angeles, aquela coisa esquisita, troncha, desajeitada, mostra-se Paris. A paisagem é umas 200 milhões de vezes mais bonita que a da metrópole americana.

E, como é Paris, e é uma declaração de amor a Paris, dá-lhe belas, maravilhosas paisagens da cidade. Há tomadas gerais feitas da Torre Eiffell, do alto da colina de Montmartre, junto da Basílica de Sacré Coeur, do alto da torre de Montparnasse.

Há tomadas das ruas, das avenidas, dos prédios, das bocas do metrô, dos jardins, dos parques. A câmara passeia por Paris junto com os personagens da história.

Laetitia encanta o velho Roland e o jovem Pierre, que é ajudado por Élise, que…

Ao saber da doença cardíaca, Pierre, o dançarino interpretado por Romain Duris, pára de trabalhar, refugia-se no seu apartamento. Os médicos haviam falado na possibilidade de um transplante, e ele então se enconde dentro de casa, sem ânimo para sair. Mas tem a sorte de morar num apartamento em Montmartre que tem uma visão privilegiada da cidade. De sua janela pode ver lá longe a Torre Eiffell e o predião gigantesco de Montparnasse, no meio da paisagem deslumbrante de boa parte da Cidade Luz.

Pierre tem também a sorte de poder contar com toda a ajuda da única irmã, Élise (o papel de Juliette Binoche, linda, maravilhosa e boa atriz como sempre). Ao saber das notícias sobre a saúde do irmão, Élise se muda para o apartamento dele, com seus três filhos. Está, atualmente, solteira, e acha-se velha e pouco atraente. Bobagem dela, é claro.

O terceiro personagem mais importante do mosaico criado por Klapisch é Roland (o papel de Fabrice Luchini), um historiador um tanto renomado, que será convidado por um apresentador de TV (Xavier Robic) para participar de um programa falando de monumentos históricos, prédios, locais de Paris.

Roland, homem aí de mais de 60 anos, terá uma atração fortíssima por uma de suas alunas, uma jovem de beleza estonteante, Laetitia (o papel de Mélanie Laurent, na foto abaixo, que parece estar presente em metade dos filmes franceses dos últimos tempos).

Como um bom mosaico tem que estabelecer conexões entre os diversos personagens, a linda Laetitia mora num apartamento em frente ao de Pierre. Pierre, que passa horas na janela, observando o movimento das pessoas nas ruas lá embaixo, também se encanta também com a vizinha. Quem não se encantaria com uma personagem interpretada por Mélanie Laurent?

Muitos, muitos personagens. Mas a principal é a cidade

Alguns dos outros personagens deste mosaico, desta ciranda, desta ronde à la Max Ophüls:

. A dona da padaria perto da casa de Pierre. O personagem, interpretado por Karin Viard, não tem nome, e é uma das figuras mais antipáticas de todo o painel criado por Klapisch. Bajula os clientes com um sorrisinho e uma voz falsas que nem nota de três guaranis, ao mesmo tempo em que implica com todas as empregadas – menos com Khadija (o papel da belíssima Sabrina Ouazani).

. O trio da feira. Trabalham lado a lado, numa feira perto da casa de Pierre, visitada sempre por Élise. São dois amigos um tanto rivais, Jean (Albert Dupontel) e Franky (Gilles Lellouche), mais a ex-mulher de Jean. Jean parece ter uma queda pela freguesa Élise; o espectador percebe isso claramente, antes que a própria Élise.

. Philippe (François Cluzet) e sua mulher Mélanie (Judith El Zein). Philippe é arquiteto, bem de vida, irmão mais novo do historiador Roland. É sentimental, chorão, e tenta de todas as formas ter um filho.

E ainda há uma jovem muito rica, que passou férias no Marrocos e lá conheceu um rapaz que sonha em emigrar para a França. Eventualmente, essa jovem, mais três amigas, vão encontrar Jean, Franky e outros feirantes, num grande centro de abastecimento, o mercadão que veio substituir o antigo Les Halles.

Mas a personagem principal da história é, sem dúvida, a cidade de Paris.

Paris teve três indicações ao César, o Oscar francês: melhor filme, melhor atriz coadjuvante para Karin Viard e melhor montagem.

É de fato um belo filme. Suavemente melancólico, com grande simpatia pela vida das pessoas simples. Mais um gol de Cédric Klapisch.

Anotação em março de 2012

Paris

De Cédric Klapisch, França, 2008

Com Juliette Binoche (Élise), Romain Duris (Pierre), Fabrice Luchini (Roland Verneuil), Albert Dupontel (Jean), Mélanie Laurent (Laetitia), François Cluzet (Philippe Verneuil), Karin Viard (a dona da padaria), Gilles Lellouche (Franky), Zinedine Soualem (Mourad), Julie Ferrier (Caroline), Olivia Bonamy (Diane), Maurice Bénichou (o psiquiatra), Annelise Hesme (Victoire), Audrey Marnay (Marjolaine), Xavier Robic (o apresentador de TV), Judith El Zein (Mélanie Verneuil), Sabrina Ouazani (Khadija)

Argumento e roteiro Cédric Klapisch

Fotografia Christophe Beaucarne

Música Robert Burke, Loïc Dury e Christophe Minck

Produção Ce Qui Me Meut Motion Pictures, Studio Canal, StudioCanal Image, France 2 Cinéma. DVD Imovision

Cor, 130 min

***

7 Comentários para “Paris”

  1. Gostaria de ver o filme “Paris” … Recomendo “Le nuit de Varennes” (Casanova e a Revolução) de Ettore Scola, que retrata um evento histórico e tem um final inusitado!
    E um elenco de primeira!
    Vai um hai-cái em noite de quase inverno:
    Pra quem é feliz
    toda cidade
    é Paris

  2. Não gostei desse filme… Não consegui gostar de nada, nem das crianças, que geralmente dão leveza às tramas (aqui elas aparecem pouco e não acrescentam nada; ainda por cima são feias – que me desculpem os politicamente corretos, nem todas as crianças são bonitas). E por falar em feio quando será que o Romain Duris vai dar um jeito de consertar aqueles dentes horrorosos? Acho que os dentes são o cartão-postal do rosto, ainda mais para um ator. O ator que faz o professor de história também tem dentes assustadores, um sorriso feio, credo! E não tenho paciência para tiozinhos dando em cima ou apaixonados por meninas, zzzzzzzzz.
    Detestei a forma como as mulheres são tratadas; um dos feirantes fala, num dia, que a Élise penteou o cabelo com dinamite (isso porque ele tinha uma quedinha por ela, imagina se não tivesse, hein?!), o outro faz a ex-mulher do Jean de “carrinho” dentro do restaurante, e todo mundo ri. Mas o pior é que depois que passou as duas demonstraram ter gostado das ofensas/humilhações.
    Não entendi aquelas moças irem atrás de homem (sexo) num mercadão… Que bizarrice.

    Gostaria que tivessem desenvolvido melhor a história do marroquino, mas foi o que menos apareceu.
    A dona da padaria é uma das mais antipáticas, certamente, mas eu me diverti com ela – kill me now
    E pode falar que eu estava de mau humor quando vi o filme, não gostei mesmo.

  3. Pra não falar que não gostei de nada, lembrei que a cena onde o professor dança e dubla a música Lands of 1000 dances é bem legal, quase me fez rir. Acho que ele mandou muito bem, sem medo de parecer ridículo, e a cena ficou divertida.

    No mais, só eu achei estranho a sala do Pierre, de 8 metros quadrados, ter se transformado milagrosamente na hora da festa, em um salão de dança onde dava até pra fazer coreografia? Ah, tá!
    E só eu acho nojento o fato d’os franceses pegarem o pão sem luva ou pegador, e depois pegarem no dinheiro, e em seguida pegarem novamente no pão e assim sucessivamente? (nas poucas cenas na padaria isso é bem mostrado).

    Apesar da babação geral em cima da incensada Mélanie Laurent, acho a Sabrina Ouazani (que só conheci esses dias num outro filme francês) mil vezes mais bonita (apesar de neste filme terem feito um estrago no cabelo dela).

    Por fim, quando eu falei cartão-postal do rosto quis dizer cartão de visitas…

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