Os Girassóis da Rússia / I Girasoli

Nota: ½☆☆☆

Nunca tinha visto Os Girassóis da Rússia, o filme que Vittorio De Sica fez em 1970 reunindo mais uma vez Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Deveria ter continuado sem ver.

O filme me pareceu muito, muito ruim. Bobo. Uma história boba – e inverossímil até a medula. Um filme feito por todos esses imensos talentos, mas sem talento. Nem os dois monstros sagrados estão bem, na minha opinião.

Pode, é claro, ser um problema meu. Acontece muitas vezes de a gente não sintonizar com o filme. Pode ser, sim, e então vou inverter a ordem com que usualmente anoto sobre os filmes, e começar com outras opiniões e informações objetivas.

Informação objetiva importante: Girassóis da Rússia tem a importância histórica de ter sido o primeiro filme italiano – e provavelmente o primeiro de um país ocidental – rodado, em boa parte, na União Soviética. Isso é realçado nos créditos iniciais, que informam que as cenas passadas na URSS foram de fato rodadas lá, com o apoio da produtora oficial, governamental, a Mosfilm.

Tanto o guia de Maltin quanto o de Tulard falam mal do filme

Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido do mundo, dá 2 estrelas em 4 e usa apenas duas frases: “Fraca história de amor de mulher que procura por seu amor perdido. Sophia é desperdiçada nesta trama chorosa”.

De um best-seller americano para um mestre francês. Transcrevo, além da apreciação do Guide des Films de Jean Tulard, também a sinopse, o que me desobriga a falar eu mesmo da história:

“Ao final da guerra, Giovanna, uma jovem napolitana, se recusa a crer que seu marido Antonio tenha sido morto no front russo. Devido a pesquisas obstinadas, ela ouve de um soldado que Antonio está vivo. (Bem, não é exatamente assim: ela ouve de um soldado que Antonio estava doente e não conseguia mais caminhar para fugir do ataque russo. Mas, de qualquer forma, não estava morto quando o soldado o viu pela última vez.) Ela parte rumo à União Soviética onde ela…. (e eu paro por aqui na transcrição da sinopse para não dar spoilers.)”

Agora, a avaliação do Guide:

“O filme é certamente generoso em seu/sua arrazoado contra os absurdos da guerra que castiga as pessoas simples em suas intimidades. No entanto, mesmo que De Sica tenha conseguido realizar diversas boas cenas de multidões, ele infelizmente se contentou em ser o mestre de cerimônias para a Senhora Carlo Ponti. Só os fãs incondicionais da bela Sophia Loren terão qualquer interesse nesse filme de resto bastante frouxo.”

É isso aí. Falou e disse. A maldade sobre o fato de o filme servir de escada para mostrar Sophia, a mulher do produtor, pode ter algum exagero – até porque Sophia Loren brilha mesmo quando o diretor não está procurando agradar ao produtor Carlo Ponti –, mas não está de todo errada. Há close-ups de Sophia ao longo de todo o filme (ainda bem!). Sophia parecendo jovem, de cabelos curtos e encaracolados, Sophia mais velha e sofrida de cabelos presos, Sophia partindo para a vida novamente com os longos cabelos lisos soltos. E cenas em que aparecem as pernas magníficas de Sophia, sempre que possível.

Grandes multidões na tela, como num filme de Cecil B. De Mille

E, sim, de fato há belas seqüências de multidões. Foi uma produção cara, e De Sica pôde contar com um número de figurantes que não desagradaria a Cecil B. De Mille. São suntuosas as sequências na estação ferroviária de Nápoles, onde desembarcam os soldados italianos retornando do front russo – assim como são suntuosas as muitas seqüências de multidões na Rússia, nas ruas de Moscou, nas estações de metrô de Moscou, nas proximidades da Praça Vermelha.

De Sica repete algumas vezes um recurso de que ele gostava muito – o zoom. Numa das sequências em Moscou, a câmara parte de um plano geral, a multidão nas ruas da capital do império soviéticos, e zoooooom no rosto de Giovanna-Sophia Loren, uma napolitana perdida num país cuja língua ela, assim como a maior parte da humanidade, desconhece completamente.

Há momentos em que fica parecendo que o propósito do filme era fazer amigos dentro do império soviético e influenciar pessoas fora dele, botar abaixo a tal Cortina de Ferro de que falava a propaganda capitalista imperialista. Parece que De Sica quis mostrar que naquela época, 1970, Stálin morto, a União Soviética era um lugar em que se vivia bem, e normalmente, e ninguém comia criancinha. As ruas estavam sempre cheias, agitadas, como em qualquer outra metrópole do mundo, a vida corria normal, as crianças eram alegres e gentis, e todo mundo se alimentava direito e tinha um teto digno – e isso apenas 50 anos após a revolução que botou abaixo o regime czarista da concentração de riqueza nas mãos de pouquíssimos.

Logo no começo, sequências exageradas, caricatas

Mas não é por isso, de forma alguma, que o filme me pareceu ruim. Não tem nada a ver com ideologia. O problema é estético mesmo. Já nos primeiros 15 minutos de projeção fica claro que De Sica, autor de filmes belíssimos, fundamentais, mas também capaz de obras fracas, ruins, naquela vez errou a mão.

Já no primeiro longo flashback, em que Giovanna se recorda de como conheceu Antonio, e como começou a romance, fica claro que o realizador não estava num momento feliz. Da mesma forma que em Matrimônio à Italiana, feito seis anos antes, com a mesma formidável dupla Loren-Mastroianni, De Sica exagera no tom cômico, farsesco. O início do namoro de Giovanna e Antonio é caricato – assim como é muito caricato a tentativa do casal de fazer com que Antonio fugisse do exército.

E, quando o tom cômico, exagerado, desaparece para dar lugar à tragédia da guerra, do front, tudo fica desbalanceado, troncho, bambo.

Soma-se a isso a total inverossimilhança do que vem a seguir na trama, e temos um terrível fracasso.

É quase inacreditável que, naquele mesmo ano de 1970, o mesmo De Sica tenha dirigido O Jardim dos Finzi-Contini, um filme tão espantosamente belo, cheio de nuances, de sutilezas.

Ou talvez não, talvez seja o contrário. Talvez a co-existência dos dois filmes, no mesmo ano, explique tudo: a Finzi-Contini, o realizador pode ter dedicado todas as suas atenções, seus cuidados, seu talento. Essa grande produção, certeiro sucesso de bilheteria, ele pode ter dirigido apenas ligando o taxímetro, no piloto automático. É. Pode ser isso.

A melhor coisa do filme, na minha opinião, além da estonteante beleza de Sophia – ela brilha mesmo quando sua interpretação é mais fraca – é a trilha sonora do prolífico Henry Mancini. Mancini criou uma trilha soberba, com um belo tema romântico e melodias fortes, vigorosas, para as cenas do front de batalha. A trilha foi indicada ao Oscar. É de fato uma beleza.

Anotação em dezembro de 2011

Os Girassóis da Rússia/I Girasoli

De Vittorio De Sica, Itália-França, 1970.

Com Sophia Loren (Giovanna), Marcello Mastroianni (Antonio), Lyudmila Savelyeva (Mascia), Galina Andreyeva (Valentina), Anna Carena (a mãe de Antonio), Germano Longo (Ettore)

Argumento e roteiro Tonino Guerra e Cesare Zavattini, com a colaboração de Gheorghij Mdivani

Fotografia Giuseppe Rotunno

Música Henry Mancini

Produção Carlo Ponti, Joseph E. Levine, AVCO Embassy Pictures, Compagnia Cinematografica Champion, Les Films Concordia. DVD Versátil/Coleção Folha Cine Europeu

Cor, 101 minutos.

1/2

Título em inglês: Sunflower. Título na França: Les fleurs du soleil

16 Comentários para “Os Girassóis da Rússia / I Girasoli”

  1. Eu devia ficar caladinha, mas tenho que confessar: quando vi, gostei (não sei como seria hoje, já faz um tempo). Sou uma deslumbrada com Sophia e Marcello, há alguma luz neles que me atrai irremediavelmente.

  2. De jeito nenhum que você deveria ficar caladinha, Luciana!
    E, de fato, é duro não gostar de ver Sophia e Marcello…
    Quer um conselho de amigo? Não reveja o filme. Melhor guardar a boa lembrança que você tem.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Quando vi, gostei. Quando revi, gostei mais ainda, fiquei enternecida. Aquela busca, aquela negação da morte, ela andando no meio dos girassóis, tão lindo, tão triste. Um amor desencontrado no tempo. E os dois maravilhosos, ah, sempre vale a pena. E guerra é isso, pequenas tragédias em cada lar.

  4. Tem um bom tempo que só leio os teus textos depois de ver o filme.
    Pensei que eu ía ver um grande filme. Errei.
    O filme é muito ruím mesmo. Tem horas que leva para o dramalhão, tentando apelar para as lágrimas. Fôste visceral quanto ao início do namoro deles e da maneira como tentaram fazer para ele fugir do exercito.

    Exato, mesmo o filme sendo fraco, o que se salva é a presença do Marcelo, desse furacão de mulher que é a Sophia, aquele campo de girassóis e a belíssima “Loss of Love” (tema do filme)com H. Mancini, que saudade !!!
    Em tempo, a Lyudmila, uma mulher também muito linda.
    Marcelo e Sophia uma dupla carismática e de um talento sem fim, fizeram vários filmes juntos, este não valeu.
    Um abraço !!

  5. Gostei, neste filme, os Girassóis da Rússia, da ideia de uma mulher apaixonada que vai em busca do amado arriscando-se em uma viagem para o nada, para o desconhecido. Sophia Loren pareceu-me desempenhar com correção o papel. Também gostei muito da música. Cordial abraço!

  6. Girassóis da Rússia é, definitivamente, meu filme predileto. Amo de paixão, me comovo até as lágrimas a cada partida daquele maldito trem, choro com a música na abertura, com aquela paisagem de infinitos girassóis, sofro coma Giovana andando em meio a infinitas cruzes, repito a maioria das falas, dispenso a legenda para não perder nenhum detalhe das cenas, as vozes; quero beber vinho tinto, deitar na areia, andar de moto… Amo esse filme. “Antônio, como eu? Não, como Santo Antônio.”

  7. LINDO FILME. MELHOR FILME DE AMOR QUE VI NESSES 77 ANOS DE IDADE.
    jAMAIS OUTRO CINEASTA FARÁ ALGUM FILME MELHOR
    QUE ESTE, MESMO CONSIDERANDO QUE O CINEMA ACCABOU HÁ MUITO TEMPO

  8. Os Girassóis da Rússia foi um dos melhores filmes que eu já assisti. Dentre as boas lembranças que guardo da minha juventude, uma delas é esse filme.

  9. Amei o filme quando assisti pela primeira vez, quando tinha 15, 16 anos e filmes bons ainda passavam na TV, há uns 30 anos atrás. Assisti novamente agora com 46 anos e posso dizer que amei ainda mais. É dramalhão? Sim. É piegas? Sim. Farsesco, exagerado, exatamente o que espero do cinema italiano dos anos 60 e 70. Marcelo está muito bem e Sofia é a Deusa eterna de sempre. Cada fotograma dela é um quadro maravilhoso. Impossível não se comover e sofrer o amor perdido junto com ela e chorar no final, na fatídica despedida. Continua um dos meus filmes favoritos.

  10. Assisti “OS GIRASSÓIS DA RUSSIA” com 25 anos.
    Tenho 71 hoje e continuo com vontade de vê-lo e também seus astros. É um filme bom. . .ruim. . . não importa a critica, eu sempre que puder ve-lo-ei.

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