O Último Metrô / Le Dernier Métro

Nota: ★★★★

O Último Metrô é uma das mais emocionantemente belas declarações de amor à vida, à arte, ao amor, aos perigos, à resistência contra o mal, qualquer que seja ele. É uma maravilha extraordinária.

François Truffaut, o cineasta da ternura, fez uma declaração de amor à literatura em Fahrenheit 451 (1966), uma ao cinema em A Noite Americana (1973). O Último Metrô (1980) é uma declaração de amor ao teatro. Mas, a rigor, todos os filmes dele são amplas declarações de amor a todas as formas de arte, a todas as formas de amor – mesmo os mais trágicos, mais amargos.

A ação se passa num dos momentos mais trágicos, mais amargos da história do mundo e de seu país em particular: os anos em que a França esteve dividida em duas partes, uma invadida, ocupada fisicamente pelas tropas nazistas, e a outra que se fingia de livre, embora na verdade fosse governada por títeres do regime hitlerista. A trama trata da ocupação de Paris pela ditadura estrangeira, mostra a atmosfera asfixiante, sufocante, claustrofóbica de uma metrópole dominada pelo terror, pela ignóbil, absurda caça aos judeus.

Havia o toque de recolher – qualquer pessoa que andasse pelas ruas depois da meia-noite corria o risco de ser presa –, e por isso era fundamental não perder o último metrô.

Apesar de tudo isso, no entanto, o filme não tem um travo amargo, pesado, duro. Ou, melhor dizendo, tem, sim, um travo amargo, pesado, duro – mas seu tom não é desesperançado, lúgubre, derrotado. É de imensa ternura pelas pessoas de bem. De homenagem, ode, louvor à capacidade de resistência, de sobrevivência.

A vida que imita a arte que imita a vida

Posso estar completamente enganado (não seria nada incomum se estivesse), mas acho que O Último Metrô é também um filme em que propositalmente, muito propositalmente, Truffaut fez questão de misturar arte e vida, a tal ponto que o espectador não fica sabendo exatamente se é a arte que imita a vida, a vida que imita a arte, ou são duas coisas que se imitam a si mesmas o tempo todo, de tal maneira que é impossível saber o que vem primeiro, o que vem depois.

Um ano depois de O Último Metrô, Karel Reisz filmaria A Mulher do Tenente Francês, o romance do canadense John Fowles; no filme, os atores que estão fazendo um filme sobre um amor proibido na Inglaterra do século XIX vivem eles mesmos um amor proibido. A vida copia a arte.

A metalinguagem de Reisz foi antecipada por Truffaut. Em O Último Metrô, os atores Marion (Catherine Deneuve) e Bernard (Gérard Depardieu) ensaiam e enfim encenam uma peça – La Disparue, A Desaparecida – sobre um amor que enfrenta todo tipo de obstáculo até finalmente ter condições de se assumir, de desabrochar. O que acontece no palco é exatamente o que acontece na vida real de Marion e Bernard.

Mas o que importa não é só a metalinguagem, a vida que imita a arte que imita a vida na trama. A própria atmosfera teatral parece invadir toda a narrativa, e os atores nunca foram tão teatrais em um filme de Truffaut quanto em O Último Metrô, mesmo quando não estão no palco, ensaiando ou representando.

Nas atuações de seus atores, Truffaut estiliza, ao longo de todo o filme, um teatro filmado.

Nas atuações dos atores, bem entendido. Porque de resto é cinema, cinema de primeira, o tempo todo. Ele não abandona seu estilo de travellings suaves, mas suavemente onipresentes – mesmo quando sua câmara está aprisionada em um espaço fechado como o palco, a platéia e as coxias de um pequeno teatro, nem mesmo quando o ambiente de huis-clos, entre quatro paredes, é ainda mais minúsculo, mais claustrofóbico como o porão no subsolo do teatro.

E é fascinante que o diretor de fotografia de O Último Metrô seja um dos melhores que atuaram no cinema europeu da segunda metade do século XX, o espanhol de nascimento e cubano de criação Nestor Almendros. Apenas uns 5% – ou talvez ainda menos que isso – das tomadas de O Último Metrô são em ambientes abertos, em exteriores. Mas gênio é gênio, e a fotografia do filme é um deslumbre, ainda que quase totalmente em interiores.

Fotógrafo extraordinário, compositor idem. Georges Delerue, companheiro de Truffaut em se não me engano oito filmes, fez uma trilha sonora magnífica para O Último Metrô. Criou pelo menos seis temas diferentes, para as diferentes situações do filme. Há melodias que beiram um assustador tom marcial, apropriadas para os momentos em que vemos na tela a suástica, os edifícios públicos da Cidade Luz tomados pelos nazistas, transformados em seus quartéis. Há melodias para as cenas que revelam segredos, mistérios, suspense – e temas para os momentos mais suaves, românticos.

E, além da trilha criada por Delerue para o filme, há canções incidentais de grande beleza. Nos créditos iniciais, ouvimos a deliciosa “Mon Amant de Saint-Jean”, de Émile Carrara e Louis Agal, na gravação – feita nos anos 40 – de Lucienne Delyle. A canção será depois repetida, tocando no rádio, no porão, enquanto Marion corta o cabelo de Lucas Steiner (Heinz Bennent), o diretor de teatro, seu marido; Steiner diz: “Ouça, Marion: eu adoro esta canção”. “Mon Amant de Saint-Jean” é de fato adorável. É a essência da canção francesa, do som de Paris.

Um Depardieu jovem e belo, uma Catherine Deneuve cuja beleza solta faíscas

A meu lado, Mary se assustou com a beleza de Gérard Depardieu. Confessou que tinha se esquecido de como era belo o moço.

Não nos assustamos tanto com a beleza de La Deneuve jovem em parte porque a beleza de La Deneuve é assustadora sempre, e em parte porque, poucos dias antes, a tínhamos visto em Um Homem em Estado Interessante, de Jacques Demy, de 1973, sete anos antes deste O Último Metrô. Eu havia revisto o jovem Depardieu em A Mulher do Lado pouco tempo atrás, e aí, sim, tinha levado um susto. Mas Mary não reviu comigo A Mulher do Lado.

E a verdade é que a gente se acostumou a ver Depardieu em muitos, muitos filmes, ao longo dos anos, e Depardieu foi crescendo para todos os lados – em talento e em tamanho físico, até chegar ao homenzarrão gordo, enorme, do ótimo Minhas Tardes com Margueritte. Depardieu é hoje um perfeito Obelix – personagem que, aliás, ele interpreta muito bem. Então é de fato assustador vê-lo tão jovem e belo em O Último Metrô: estava com apenas 32 anos.

Catherine estava com 37, e sua beleza solta faíscas. Truffaut sabe aproveitar a beleza estúpida da atriz, e sua câmara se demora em longos, belos closes dela.

O primeiro de uma longa série de filmes em que Catherine e Depardieu contracenam

Truffaut primeiro trabalhou com a irmã de Catherine, a maravilhosa Françoise Dorléac, em La Peau Douce, no Brasil Um Só Pecado, de 1964. Dirigiu Catherine pela primeira vez em A Sereia do Mississipi, de 1969. O Último Metrô foi seu segundo filme com Catherine, e o primeiro com Depardieu; no ano seguinte, Depardieu estrelaria A Mulher do Lado, em que contracena com outra deusa, Fanny Ardant.

Em um texto escrito em 1981, chamado “Introducing Fanny Ardant”, Truffaut conta que teve a idéia de fazer A Mulher do Lado na noite da entrega dos Césars, o Oscar francês, quando O Último Metrô concorria a vários prêmios: “Quando, na noite da entrega do César, em 1980, tive a oportunidade de ver, lado a lado, Fanny Ardant e Gérard Depardieu, pareceu-me que havia ali um belo par para o cinema, duas grandes silhuetas, o louro e a morena”.

O Último Metrô foi o primeiro de uma grande série de filmes em que Catherine Deneuve e Gérard Depardieu trabalhariam juntos, dois dos mais belos e mais talentosos atores do cinema francês. A lista é tão grande que não tenho idéia de quantos são: Le Choix des Armes (1981), Je Vous Aime (1981), Fort Saganne (1984), Drôle d’endroit pour une reencontre (1988), Les Cents e une Nuits de Simon Cinéma (1995), Tempos que Mudam/Les Temps qui Changent (2004), Potiche – Esposa Troféu (2010) – e talvez tenha me escapado algum outro.

O realizador somou suas lembranças sobre a Ocupação às de outros parisienses

Truffaut escreveu que, ao filmar O Último Metrô, queria satisfazer três desejos: “mostrar os bastidores de um teatro, evocar o ambiente da Ocupação, dar a Catherine Deneuve um papel de mulher responsável”. “Estabelecemos então o roteiro, Suzanne Schiffman e eu, com detalhes tirados dos jornais da época e da memória de pessoas da área do espetáculo. Resultou em um filme de amor e de aventura que exprime, espero, nossa aversão a todas as formas de racismo e intolerância, mas também nossa afeição profunda por aqueles que escolheram a profissão de ator e a exerceram pelo resto da vida.”

Em um outro texto, escrito em fevereiro de 1983 para a revista L’Avant-Scène Cinéma, o cineasta diz que O Último Metrô faria parte de uma trilogia: o primeiro, sobre o cinema, havia sido A Noite Americana; e o terceiro, ainda a ser feito, abordaria o ambiente do music-hall. Sabe-se, claro, que ele jamais chegaria a fazer essa terceira parte da trilogia que imaginou.

Nesse texto, Truffaut lembra que tinha oito anos no início da guerra, em 1939, e 12 na Libertação, em 1944. Às suas lembranças pessoais, somou os relatos de vários artistas e escritores que já eram adultos na época da Ocupação; ele e sua co-roteirista Suzanne Schiffman leram diversos livros de memórias sobre o período. Algumas passagens da história que criaram se inspiram em acontecimentos reais descritos nesses livros.

O texto – que foi republicado no livro Truffaut par Truffaut, organizado por Dominique Rabourdin – é fascinante, bastante longo e cheio de detalhes. Não aborda, no entanto, algo que me intriga: por que diabos Truffaut e Suzanne Schiffman criaram eles mesmos uma peça de teatro para ser encenada pelos personagens de O Último Metrô, em vez de simplesmente usar uma peça já existente?

A peça que está sendo montada no Teatro Montmartre, o teatro pertencente a Lucas Steiner, agora gerido por sua mulher Marion, é um clássico norueguês, e será encenada pela primeira vez na França – o filme nos diz isso. Um clássico norueguês – uma clara, óbvia referência a Henrik Ibsen. Fico me perguntando: por que a troupe de Lucas e Marion Steiner não encenaram uma das muitas peças de Ibsen? Por que Truffaut se deu ao trabalho de escrever diversas falas de uma peça teatral?

Uma resposta a esta pergunta talvez tola, inútil, parece ser dada naquele mesmo texto do próprio Truffaut a respeito de seu filme. Lá ele escreve: “Se aprendi alguma coisa nestes 20 anos, é que é mais difícil adaptar um romance do que escrever um roteiro original, ou, mais exatamente, que eu em geral me faço compreender melhor pelo público quando parto do vazio, quer dizer, da página em branco. Se não me arrependo de ter rodado Fahrenheit 451 (de Bradbury) ou A Noiva Estava de Preto (de Irish), eu prefiro Beijos Roubados ou A Noite Americana, que nasceram de uma vontade, de um desejo, às vezes de uma imagem ou de uma lembrança.”

Outra resposta à minha pergunta pode ser, também, o fato de que em nenhuma peça já existente, seja de Ibsen ou de qualquer outro autor, há o diálogo que se encaixa como uma luva para Catherine Deneuve, para quem Truffaut criou o personagem de Marion Steiner.

O diálogo se dá entre os personagens Éric e Helena, interpretados por Bernard e Marion. Eles o repetem infinitas vezes, nos ensaios, enquanto o amor entre os fictícios Éric e Helena vai contaminando Bernard e Marion, os atores que os interpretam.

– “Você é bela, Helena. Tão bela que olhar para você é um sofrimento.”

Ao que Helena-Marion-Catherine contrapõe:

– “Antes você dizia que era uma alegria.”

E Éric-Bernard-Depardieu finaliza, antes que caia o pano:

– “É uma alegria – e um sofrimento.”

Foi o maior sucesso comercial de Truffaut. Só em Paris teve mais de um milhão de espectadores

Truffaut teve grande dificuldade para conseguir financiamento para fazer O Último Metrô. Era uma produção bem mais cara que suas anteriores – até pelo fato de ser um filme de época. Três empresas se recusaram a financiar o projeto. A companhia produtora do realizador, Les Films du Carrosse, dispunha de apenas um terço da quantia necessária. O realizador conta que chegou a pensar em avisar aos atores e técnicos – todos já chamados, contratados – que o projeto não sairia. Mas aí, de repente, as coisas começaram a dar certo: a Gaumont aceitou distribuir, a TF1, o primeiro canal de TV, entrou como co-produtor por 20% das receitas, a S.F.P. (Société Française de Production) aceitou prestar serviços por 10% – e as filmagens puderam começar.

A falta de visão da indústria é uma coisa impressionante.

O filme se tornou o maior sucesso comercial da carreira de Truffaut. Só em Paris, teve mais de um milhão de espectadores.

E, na cerimônia de entrega dos Césars, no início de 1981 – aquela em que Truffaut viu a belíssima morena Fanny Ardant ao lado do louro Depardieu, e a partir daí começou a elaborar seu filme seguinte, A Mulher do Lado –, não deu para mais ninguém. O filme teve 12 indicações. Levou 10 prêmios. Só não levou os prêmios de melhor ator coadjuvante para Heinz Bennett, que faz Lucas Steiner, o marido de Marion-Catherine Deneuve, e melhor atriz coadjuvante para Andréa Ferréol, que interpreta a figurinista da peça, uma bela mulher que é paquerada insistentemente por Bernard-Gérard Depardieu mas não quer saber dele, até porque é lésbica.

Levou os Césars de filme, diretor, atriz para Catherine, ator para Depardieu, roteiro, fotografia, trilha sonora, montagem, som e direção de arte.

A edição francesa do DVD, caprichadíssima, como tudo que a empresa mk2 faz, traz, entre os diversos extras, trechos da cerimônia do César. É sensacional.

A concorrência era dura. Concorriam com Catherine Deneuve as atrizes Isabelle Huppert (por Loulou, de Maurice Pialat), Nicole Garcia (por Meu Tio da América, de Alain Resnais) e Nathalie Baye (por Um Olhar para a Vida/Une Semaine de Vacances, de Bertrand Tavernier.

Com Truffaut, concorriam ao prêmio de melhor diretor Jean-Luc Godard, Alain Resnais e Claude Sautet. Ao prêmio de melhor filme concorriam Sauve qui Peut (la vie), de Godard, Meu Tio da América, de Resnais, e Loulou, de Maurice Pialat.

Truffaut subiu ao palco para receber o prêmio mais importante da noite, o de melhor filme, das mãos de – meu Deus do céu e também da terra – Romy Schneider e Yves Montand. Em seu agradecimento, bem curto, lembrou que o filme é sobre atrizes e atores, e portanto de todos os que estavam ali na platéia. Mostrando o César, completou: “É de todos vocês, mas vou guardá-lo em casa”.

Anotação em janeiro de 2012

O Último Metrô/Le Dernier Métro

De François Truffaut, França, 1980

Com Catherine Deneuve (Marion Steiner), Gérard Depardieu (Bernard Granger), Jean Poiret (Jean-Loup Cottins), Heinz Bennent (Lucas Steiner), Andrea Ferreol (Arlette Guillaume), Pauline Dubost (Germaine Fabre), Sabine Haudepin (Nadine Marsac), Jean-Louis Richard (Daxiat)

Argumento e roteiro François Truffaut e Suzanne Schiffman

Diálogos François Truffaut, Suzanne Schiffman e Jean-Claude Grumberg

Fotografia Nestor Almendros

Música Georges Delerue

Produção Les Films du Carrosse, Sédif Productions, TF1 Films Production, Société Française de Production.

Cor, 133 min

R, ****

 

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Pagador de Promessas em 19 junho 2013 às 8:24 pm

    […] Para falar bem a verdade, dos nomes do júri só reconheço Mel Ferrer, Romain Gary, Mario Soldati e François Truffaut. […]

  2. […] Ainda Não Viram Nada! faz lembrar O Último Metrô. São, ambos, uma celebração da arte, do cinema, do teatro, da literatura, do amor, da […]

  3. […] (1962). E depois com Catherine Deneuve, que dirigiu duas vezes, em A Sereia do Mississipi (1969) e O Último Metrô (1980). Com Fanny Ardant, casou-se. Deixou-a viúva, ao morrer jovem demais, em 1984, aos 52 […]

  4. […] Françoise em Um Só Pecado/La Peau Douce (1964), e Catherine em A Sereia do Mississipi (1969) e O Último Metrô […]

  5. […] O Último Metrô/Le Dernier Métro, de François Truffaut, França, 1980 […]

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