O Último Dançarino de Mao / Mao’s Last Dancer

Nota: ★★★☆

A vida Li Cunxin é absolutamente extraordinária, fascinante. O australiano Bruce Beresford tem competência. Não poderia dar errado: O Último Dançarino de Mao, baseado na autobiografia do bailarino, é um belo filme.

O roteirista Jan Sardi, australiano como o diretor, autor do roteiro de Shine – Brilhante (outro filme que retrata a vida de um personagem real, o pianista David Helfgott), optou por contar a trajetória de Li Cunxin não de forma cronológica, e sim misturando três épocas diferentes de sua vida: ele garoto, ele adolescente com 15 anos, e ele jovem adulto, a partir dos 18 anos.

O filme abre com Li jovem adulto (interpretado por Chi Cao, na foto abaixo) chegando ao aeroporto internacional de Houston, no Texas, em 1981. É recebido por um grupo grande, chefiado por Ben Stevenson (Bruce Greenwood, também da na foto), o diretor artístico da Companhia de Balé de Houston.

Um close-up mostra o broche no paletó de Li – o rosto de Mao Tsé Tung.

O jovem chinês está completamente aturdido com tudo o que vê. No caminho do aeroporto até a casa de Ben, onde ficará hospedado, olha extasiado, mesmerizado, para os arranha-céus da grande cidade americana.

Ao entrar na sala da casa de Ben, exclama, espantado, chocado:

– “Casa grande, Ben. Você tem família grande?”

E Ben responde: – “Não, sou só eu.”

Choque cultural é isso aí.

Uma tomada de Li deitado na banheira, na imensa casa de diversos cômodos onde Ben vivia sozinho – e ele, Li, dormia com os irmãos e os pais em um único cômodo. Abre-se espaço para o primeiro flashback. Vemos Li garotinho (Huang Wen Bin), na área rural da província de Shandong, em 1972 – letreiros trazem as indicações de local e data para facilitar a vida do espectador.

Veremos, bem rapidamente, que o garotinho Li foi escolhido por mensageiros do corpo de balé da esposa do presidente Mao para ser levado para Pequim, onde, em um regime de internato, com disciplina extremamente rígida, será treinado como bailarino, juntamente com outros garotos escolhidos em todo o território chinês.

À noite, no dormitório comunitário que divide com dezenas de outros garotos arrancadas de suas famílias, o garoto Li chora de saudade dos pais e dos muito irmãos. (A política de filho único ainda não havia sido estabelecida em 1972.)

Num espaço de dez anos, o garotinho do interiorzão da China vai para Pequim, e de lá para os EUA

O destino bateu duas vezes na porta de Li Cunxin. A primeira foi ter sido escolhido, ainda garotinho, para o balé da Madame Mao. A segunda foi quando Ben Stevenson, o diretor artístico da Companhia de Balé de Houston, o viu dançar, na escola de formação de bailarinos, em Pequim.

O filme não se preocupa nada em explicar isso, mas vivia-se, no início dos anos 80, a época do degelo nas relações entre a China comunistz e o Ocidente. Estados Unidos e China haviam estabelecido relações diplomáticas, a partir do gesto ousado de Richard Nixon e seu secretário de Estado Henry Kissinger. Procurava-se criar laços entre os dois países. Ben Stevenson e parte de sua equipe fizeram uma visita à China, e as autoridades comunistas naturalmente levaram os visitantes para conhecer a escola de bailarinos de Pequim.

O faro afiadíssimo de Ben Stevenson o fez prestar atenção em Li Cunxin. Através dos canais diplomáticos oficiais, ele encaminhou o pedido para que Li fizesse um estágio em Houston. As autoridades chinesas deram o consentimento.

Eis por que Li Cunxin desembarcou, sozinho, no aeroporto de Houston, em um dia de 1981, e foi recebido por Ben Stevenson e alguns de seus colegas do Balé da cidade.

Em um período de menos de dez anos, o garotinho de uma província do interiorzão da China profunda foi levado para Pequim, e de lá desembarcou numa metrópole do império capitalista.

Choque cultural é isso aí.

Quando estamos com oito minutos de filme, há uma sequência em que Ben leva Li a um belíssimo shopping center, para comprar roupas ocidentais para o rapaz. As expressões de absoluto estupor do ator Chi Cao são extraordinárias. O espectador vê o choque cultural ali, fisicamente colocado.

Uma trajetória de vida absolutamente especial, uma epopéia

Na seqüência seguinte, Li, com seu terno chinês, vai ao consulado geral da República Popular da China, onde ouve do cônsul o seguinte discurso:

– “O que você está vendo é só uma parte dos Estados Unidos. A melhor parte. O país é muito mais do que isso. Não aceite presentes. Seja educado. Não confie em ninguém, especialmente mulheres. Elas vão distrair você. Quando estiver em dúvida, siga os princípios comunistas. Lembre-se de que você está representando a China e os chineses. Mostre aos americanos como somos honestos e trabalhadores.”

Mais uma volta no tempo, e vemos o Li garotinho se despedindo de sua família, antes de ser levado para Pequim.

Na seqüência seguinte, estamos de volta Houston, e o jovem Li examina a grande quantidade de roupas que acabara de ganhar de Ben. Vai com as roupas até a sala, e diz para ele:

– “Meu pai trabalhava muito, e ganhava US$ 50 por ano. E você gasta US$ 500 num dia. Por que você faz isso?”

O que ainda virá, na vida de Li Cunxin, é tão extraordinário quanto o que foi mostrado neste início de filme.

É uma trajetória de vida absolutamente especial. Uma gigantesca epopéia.

O próprio bailarino indicou o rapaz que o interpreta

Em todo o elenco bem dirigido e bem escolhido, brilham, em especial, esse Chi Cao, que faz o Li jovem adulto, e Bruce Greenwood, no papel de Ben Stevenson.

Nos especiais do DVD, o diretor e produtores falam sobre a dificuldade que foi encontrar um ator que interpretasse o Li jovem adulto. Era necessário achar um ator chinês, fluente em mandarim, que soubesse também dançar – há diversas cenas de balé, ao longo do filme. Foi o próprio Li Cunxin – radicado hoje na Austrália – que indicou ao diretor Beresford e aos produtores o jovem Chi Cao.

Chi Cao estudou na Academia de Dança de Pequim. Seus pais foram dois dos professores que deram aula para o próprio Li Cunxin naquela Academia. Em 1995, Chi Cao foi admitido na Birmingham Royal Ballet; em 2002, assumiu o posto de bailarino principal da companhia inglesa.

Assim, de fato não poderia haver alguém melhor do que ele para interpretar Li Cunxin. Está ótimo no papel. Seu olhar de profundo estupor diante do que vê nos Estados Unidos é arrasador; é de doer o coração.

Bruce Greenwood é um ator veterano. Nascido em Québec, no Canadá, em 1956, tem mais de 110 títulos na filmografia, iniciada em 1977. Lembro-me dele em alguns filmes, como, por exemplo, o bom Risco Duplo/Double Jeopardy – nunca como o protagonista, sempre como coadjuvante. Está excelente como Ben Stevenson; tem suaves trejeitos afeminados – e a maestria de sua interpretação é que esses trejeitos são de fato suaves. Não são abertos, escandalosos; são suaves, quase contidos – mas ao mesmo tempo claros, nítidos. De fato, uma beleza de atuação.

A China ajudou na produção do filme que mostra arbitrariedade do próprio governo

O filme tem uma produção extremamente bem cuidada. Deve ter tido um orçamento confortável. Feito com dinheiro australiano, foi filmado em parte em Sydney, e em parte nos lugares em que a ação se passa: Houston, Washington – e China. Os produtores tiveram permissão do governo comunista chinês para filmar no próprio país, usando centenas, milhares de extras chineses.

As autoridades chinesas não apenas permitiram que o filme fosse rodado lá: auxiliaram na produção do filme.

Isso é um mistério insondável. Como é que o governo chinês auxiliou na produção de um filme que mostra como o governo chinês lutou para impedir que Li Cunxin permanecesse no Ocidente?

Bem, o Planeta China, definitivamente, é insondável mesmo. Não dá para tentar entender.

O elenco de O Último Dançarino de Mao tem duas mulheres interessantes – uma que eu já conhecia fazia tempo, outra que foi uma total novidade.

Joan Chen (na foto) faz o papel de Niang, a mãe de Li. Além de belíssima, é uma grande atriz. Estudou na Academia de Cinema de Xangai, começou a carreira na China, mas emigrou para os Estados Unidos. Tem no currículo participações em filmes importantes, de O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, de 1987, até o excelente Desejo e Perigo, de Ang Lee, de 2007, passando pela série Twin Peaks.

Amanda Schull faz o papel de Elizabeth, Liz, a moça por quem o jovem Li – desobedecendo os conselhos do vigilante cônsul comunista – se apaixona. É um personagem interessante, bem construído: Liz também é bailarina, e sonha em brilhar – mas, infelizmente, não tem grande talento.

Amanda Schull interpreta bem essa moça de destino triste. Nasceu em 1978, em Honolulu, pelo que vejo agora no IMDb. Trabalhou em J. Edgar, o filme de 2011 de Clint Eastwood, mas não a reconheci lá – parece que faz um papel bem pequeno. Tem feito várias séries de TV. Não sei se vai ter boas oportunidades, mas me pareceu uma bela atriz.

Um detalhe fascinante: a garota Amanda Schull fez parte do corpo de Balé de San Francisco, até 2006, quando abandonou a dança.

O IMDb traz outra informação interessante, sobre as coincidências nas vidas da atriz Joan Chen e do bailarino Li Cunxin: ambos nasceram em 1961, na China comunista. Ambos foram escolhidos pelas autoridades para serem treinados em carreiras artísticas, ela como atriz, ele como bailarino. Ambos foram para os Estados Unidos no mesmo ano, 1981.

É um belo filme, este O Último Bailarino de Mao. A vida desse rapaz é de fato uma epopéia. Li Cunxin é como o título em português de um filme do grande Radu Mihaileanu: um herói do nosso tempo.

Anotação em junho de 2012

O Último Dançarino de Mao/Mao’s Last Dancer

De Bruce Beresford, Austrália, 2009

Com Chi Cao (Li adulto), Bruce Greenwood (Ben Stevenson), Chengwu Guo (Li adolescente), Huang Wen Bin (Li criança), Amanda Schull (Elizabeth), Camilla Vergotis (Mary), Joan Chen (Niang), Kyle MacLachlan (Charles Foster), Madeleine Eastoe (Lori), Penne Hackforth-Jones (Cynthia Dodds)

Roteiro Jan Sardi

Baseado na autobiografia de Li Cunxin

Fotografia Peter James

Música Christopher Gordon

Produção Great Scott Productions Pty. Ltd. DVD Califórnia

Cor, 117 min

***

 

Um Comentário

  1. Celia
    Postado em 24 Maio 2016 às 8:40 pm | Permalink

    É um livro fascinante! O filme muito bem produzido com o grande talento de Chi Cao no papel de Li, o bailarino! Sua expressão é marcante! Encantador! amei tanto o livro como o filme!

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