O Selvagem / Le Sauvage

Nota: ★☆☆☆

O filme se chama O Selvagem, Le Sauvage. Nunca tinha ouvido falar dele, mas é com Yves Montand e Catherine Deneuve. Não me lembrava que os dois gigantes haviam trabalhado juntos. Coisa não muito recente, de quando estavam jovens – depois veria que é de 1975.

E o diretor não é desconhecido – é Jean-Paul Rappeneau, autor, entre outros, de Viagens do Coração/Bon Voyage, de 2003, um grande filme.

Então tá. DVD alugado, nos sentamos para ver. É interessante ver filmes sobre os quais não se sabe absolutamente nada. Pode ser uma porcaria, mas também pode ser uma bela surpresa. No mínimo, no mínimo, tinha a garantia da beleza de La Deneuve e do charme de Montand.

Com dez minutos de filme, apesar da beleza de La Deneuve – e ela está estonteante, espantosa, loucamente bela, aos 32 aninhos, parecendo 21, quase com o mesmo rosto de estátua grega da época de Os Guarda-Chuvas do Amor, de 1964 – e do charme de Montand, me parecia que o certo era parar com aquilo e tocar qualquer outra coisa.
Mas prosseguimos, para ver onde ia dar.

A rigor, a rigor, não vai dar em lugar algum. É um gigantesco abacaxi, uma bobagem, este O Selvagem. É daquele tipo de comédia que faz lembrar os piores programas humorísticos da TV brasileira. Há momentos do filme que fazem os piores figurantes de coisas como A Escolinha do Professor Raimundo parecerem grandes atores shakespereanos.

Mas tem La Deneuve, e tem Montand. É uma porcaria absoluta, mas tem La Deneuve, e tem Montand.

Há momentos em que dá vergonha por eles. Tadinha da Deneuve, tadinho do Montand – que dureza as pessoas têm que enfrentar para ganhar a vida! A que nadires os profissionais são obrigados a mergulhar para poder levar o pão e o leite para casa!

E, no entanto – é surpreendente –, há momentos em que a gente pensa: e não é que pode ser que eles tenham se divertido, fazendo um filme bocó como este?

Uma grande festa italiana. Todos estão felizes, menos a noiva

Começa num festivo jantar de família e um grupo grande de amigos. Um cantor passeia entre as mesas, cantando no que me pareceu um dialeto qualquer da Itália, talvez de Nápoles. La Deneuve, linda de morrer, de matar, está no centro da grande mesa principal. Veremos que ela é Nelly, noiva de Vittorio (Luigi Vannucchi), sentado ao lado dela com um paletó berrante, como convém a um italianão do Sul, num filme ruim, feito de arquétipos, estereótipos.

Um senhor de mais idade, em uma outra grande mesa, com aparência do cappo da família, talvez cappo di una famiglia mafiosa, pede silêncio, e inicia um brinde à bela Nelly, que vai, daí a poucos dias, casar-se com Vittorio. Começa o brinde em francês, as pessoas pedem que ele fale em italiano, Vittorio apóia, diz que Nelly compreende o italiano, e o cappo faz o seu brinde.

Muita alegria, todo mundo sorridente. Jantar encerrado, passa-se à dança – e todos estão italianamente do Sul felizes, se divertindo a rodo. Todos, menos Nelly. Nelly sorri pouquíssimo. Nelly evidente, obviamente, não está muito feliz naquele ninho de italianos do Sul felizes.

Vêm os créditos iniciais.

Corta. Nelly e Vittorio estão deitados, quarto escuro. Vittorio dorme o sono feliz – quem não dormiria o sono feliz ao lado daquela Deneuve toda? Nelly-Deneuve está acordada. Levanta-se, faz às pressas uma malinha, e casca fora. Vai para a rua, sob chuva forte, à procura de um táxi que não passa.

E aí – surpresa total: não estamos na Itália, na região de Nápoles ou qualquer outra. Estamos em Caracas, Venezuela!

O que fazia uma francesa lindérrima em Caracas, metida com um italiano em meio a grande colônia italiana na Venezuela?

Mais ainda: a Venezuela tem uma grande colônia italiana?

Faço a pergunta para Mary, e ela, que tolera muito menos que eu filmes ruins, responde seca: “Tem colônia de italianos em todos os lugares do mundo”.

Verdade, verdade. Correndo o risco de ser tão simplista e bobo como uma comédia ruim que tenta fazer graça à base de estereótipos, é preciso reconhecer que italiano é quase como brasileiro: fala alto, e está em todo lugar do mundo, como uma praga planetária.

A francesa lindérrima e o noivo italiano partem para o desforço físico

Nelly hospeda-se num hotel.

Daí a pouco aparece no hotel Vittorio, o italiano seduzido e abandonado. Partem para o desforço físico. No meio da briga, Vittorio entra no apartamento ao lado do de Nelly e dá de cara com Yves Montand na banheira, tomando banho. O desforço físico de Nelly e Vittorio prossegue, de volta ao quarto de Nelly. Yves Montand – veremos depois que ele se chama Martin – acompanha a briga através dos ruídos do quarto ao lado. Nelly mune-se do secador de cabelos e tasca com ele uma porrada na cabeça do noivo agora talvez ex-noivo. Martin, o vizinho ocasional, vai até o quarto dela ver se pode ajudar em alguma coisa. Nelly se aproveita para cascar fora de novo: foge do hotel carregando a malinha com que havia fugido da casa de Vittorio – usando, na segunda fuga, o carro do noivo agora talvez ex-noivo.

Dirige-se a um clube noturno. Exige de um dos sócios, Alex (interpretado pelo americano Tony Roberts, que já trabalhou com Woody Allen), não sei quantos mil dólares, seu salário de tantos meses não pago. Dá para deduzir daí que Nelly trabalhava naquela boate de Caracas, não se sabe como quê – cantora? dançarina? puta? Não ficaremos sabendo, não importa.

Estão a discutir a forma de pagamento dos direitos trabalhistas a bela e o sócio do empreendimento quando chega à boate um ensanguentado e enfurecido Vittorio. Alex, o sócio, desce do escritório para o salão da boate para discutir com Vittorio. E aí Nelly aproveita para cascar fora pela terceira vez em menos de dez minutos de filme – desta vez carregando um Toulouse-Lautrec original que Alex tinha em seu escritório.

Casca fora pela terceira vez, e vai até o quarto de Martin, que tentava dormir para trabalhar cedo no dia seguinte.

“Um misantropo vê uma deslumbrante cabeça-de-vento cair em seus braços”

Estamos aí com dez, 15 minutos de filme, e as interpretações que fariam dos convidados menos especiais de Didi, Dedé e Zacarias autênticos Laurence Olivier já nos convenceram de que estamos diante de uma bobagem inominável.

Bobagem inominável vista até o fim, dou uma olhadinha no Cinéguide, o guia francês de 18 mil filmes que consegue tudo o que eu jamais terei na vida, a capacidade de síntese. O Cinéguide não costuma fazer juízos de valor: apenas resume as tramas em frases de no máximo três linhas. Aqui, limita-se a uma linha: “Un misanthrope voit une ravissante écervelée tomber dans ce bras”.

Glória nas alturas àqueles que têm o dom da síntese. Dez palavras, 63 toques contando com os espaços, e os caras contam o que é o filme! Tudo bem, vou precisar do dicionário para saber o que é écervelée, mas ravissante é exatamente o que Catherine Deneuve é. Ravissantíssima Catherine Deneuve.

Écervelée. Será que tem a ver com cerveau, cérebro? Bem, lá vai: estouvada, estroina, leviana, doidivana, cabeça-de-vento.

Um misantropo vê uma deslumbrante cabeça-de-vento cair em seus braços.

Uma sinopse perfeita!

Tudo bem, mas o Cinéguide não faz juízo de valor, só sintetiza o tema, do que trata a história.

Aí fui ao Guide des Films de Jean Tulard, esperando ver lá um pau virulento no filme. Nada. O guia do mestre trata o filme como se ele não fosse idiota, imbecil, babaca, e além de tudo com interpretações muito piores que o pior programa da TV brasileira. Trata o filme como se ele fosse normal: “O misantropolo e a emmerdeuse.” Acho que não seria necessário traduzir essa palavra – ela se traduz por ela mesma, a partir da raiz merde, mas os dicionários, pudicos, em vez de emerdadora, dizem importuna.

“O misantropo e a importuna: um casal que já vimos muito no cinema americano.” “Yves Montand e Catherine Deneuve são brilhantes em seus personagens tão diversos.” “O filme é bem feito, bem levado; provoca risos e sorrisos; ele desorienta agradavelmente. Em resumo, é uma comédia alegremente arranjada.”

Quem sabe Rappeneau queria homenagear as comédias amalucadas de Hollywood?

Bem. Eu aqui, quieto no meu cantinho, devo dizer que se O Selvagem é uma comédia alegremente arranjada, terei então que rever filmes que achei grotescos, para reavaliá-los. Deveria começar com A Mulher do Meu Amigo, de Cláudio Torres. Se são alegremente arranjadas as seqüências vexatórias, vexaminosas, deste O Selvagem, então provavelmente as atuações de Maria Luísa Mendonça, Otávio Muller e Mariana Ximenes naquele filme são merecedoras do Bafta.

Falando num tom um pouco mais sério, acho que seria possível dizer que talvez Rappeneau – ele próprio um dos autores do roteiro original de O Selvagem – estivesse querendo fazer uma homenagem às comédias absolutamente amalucadas que Hollywood criou nos anos 30 e 40, aquelas loucuras tipo Levada da Breca/Bringing up Baby, de Howard Hawks, de 1938, com Katharine Hepburn e Cary Grant.

Pode ser. Talvez O Selvagem seja um contraponto francês para Bringing up Baby.

Se for, é fora de época e fora de tom, mas paciência.

Para continuar falando num tom um pouco mais sério, eu lembraria de uma observação que François Truffaut fez sobre O Último Metrô, o filme brilhante que ele realizou com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu em 1980, cinco anos após este O Selvagem. Num texto de 1983, três anos após o lançamento glorioso de O Último Metrô, imenso sucesso de público e crítica, Truffaut observou que, até então, Catherine Deneuve havia feito papéis de moças – em vez de mulheres. “Em seus filmes precedentes, Catherine, segundo o meu gosto, fazia muitas vezes personagens de moças (mais que de mulheres).”

Grande Truffaut.

De fato. Embora, até 1975, o ano deste O Selvagem, La Deneuve já fosse uma imensa estrela, tendo trabalhado com alguns dos maiores realizadores do mundo, seus papéis eram em geral mais de moças que de mulher. Em O Selvagem, faz a perfeita cabeça-de-vento, doidivana. A partir de O Último Metrô, passou finalmente a fazer papéis de mulheres feitas. Não voltou, é claro, a ter aquela beleza faiscante de jovenzinha que tinha em Les Parapluies de Cherbourg e mantinha intacta neste O Selvagem; trocou-a por uma beleza madura que continuou sempre fantástica, deslumbrante, e por papéis sérios, pesados, densos, em que exibe um talento que faísca tanto quanto faiscava sua beleza aos 21 e aos 32 aninhos.

Anotação em junho de 2012    

O Selvagem/Le Sauvage

De Jean-Paul Rappeneau, França-Itália, 1975.

Com Yves Montand (Martin), Catherine Deneuve (Nelly),

Luigi Vannucchi (Vittorio), Tony Roberts (Alex), Bobo Lewis (Miss Mark),  Dana Wynter (Jessie Coutances)

Argumento e roteiro Jean-Paul Rappeneau & Élisabeth Rappeneau e Jean-Loup Dabadie

Diálogos Jean-Loup Dabadie

Fotografia Pierre Lhomme e Antoine Roch

Música Michel Legrand

Produção Lira Films, Produzioni Artistiche Internazionali. DVD Vintage Filmes.

Cor, 107 min

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4 Trackbacks

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  2. Por 50 Anos de Filmes » As Diabólicas / Les Diaboliques em 16 novembro 2015 às 8:08 pm

    […] tem ombros imensamente largos. (Não é à toa que, na vida real, aguentou o fato de o marido, Yves Montand, ter tido um caso com Marilyn Monroe, na época das filmagens de Let’s Make Love, no Brasil […]

  3. […] de Gleneyere, é interpretado por Clive Brook. Sua nora, Lady Jocelyn Bruttenholm, é o papel de Dana Wynter (na foto acima). Lady Jocelyn ficou viúva: o filho do marquês morreu na Segunda Guerra. O neto do […]

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