O Novato / The Recruit

Nota: ★★☆☆

O Novato/The Recruit, me pareceu, tem muitíssimo a ver com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, embora não haja qualquer menção direta a eles.

Tem a ver, acho, com o clima, a atmosfera reinante nos Estados Unidos logo após os brutais ataques. Feito em 2003, com o mundo – e especialmente o país – ainda sob o impacto da ação terrorista, ele traça um retrato surpreendentemente positivo da CIA, a Central Intelligence Agency, a agência federal de informação e espionagem.

O cinema americano em geral não costuma tratar bem a CIA, nem o FBI, nem as demais agências federais da área de segurança. Muito ao contrário: de uma maneira geral, essas instituições são tratadas nos filmes como gigantescas demais, gastadoras demais, incompetentes, capazes de erros atrozes, injustiças, crimes, sem qualquer respeito pelos cidadãos comuns que as financiam com seus impostos.

O 11 de setembro mostrou a fragilidade do Império, a facilidade com que estrangeiros puderam deflagrar ataques mortais a símbolos americanos, como as Torres Gêmeas e o Pentágono. Assim, seria compreensível que boa parte da opinião pública naquele momento achasse importante o trabalho de espionagem da CIA – afinal, uma das armas para evitar possíveis novos ataques terroristas.

O filme mostra como são treinados recrutas que vão trabalhar na agência. São um grupo de jovens talentosos, inteligentes, hábeis em diversas tarefas – desde trabalhos que requerem QI altíssimo, cultura vasta, domínio de outras línguas, até os que exigem agilidade física a toda prova, e até mesmo a resistência à tortura.

Quando estamos aí com uns 20, 30 minutos de filme, o agente veterano bem treinadíssimo Walter Burke (o papel de Al Pacino) faz um discurso aos recrutas. Pergunta a eles por que estão ali, submetendo-se a testes duríssimos – e ele mesmo responde: não é por dinheiro. Ele, Burke, 27 anos de bons serviços prestados à CIA nos países mais distantes e também nos escritórios centrais de Langley, na Virgínia, recebe por ano um salário de US$ 75 mil – bem menos que diversos outros trabalhadores nas mais diferentes áreas. Não dá nem para comprar um bom carro esporte, exemplifica.

E então por que aqueles jovens talentosos, inteligentes, estudados, seguramente com carreira promissora em empresas privadas, estão ali? Não é também pela fama, pelo reconhecimento. Porque o trabalho dos agentes da CIA é em geral secreto – o público não toma conhecimento deles.

Não é pelo dinheiro, não é pela fama – discursa o agente especializado em treinar novos recrutas. É pela crença. Por acreditar que existe o bem e o mal, o certo e o errado – e vocês que estão aqui escolheram o bem.

Não que O Novato seja um filme abertamente patrioteiro. Não é. Mas é muito mais simpático à CIA especificamente e às agências de segurança do governo federal de maneira larga que qualquer outro de que eu consiga me lembrar.

O Novato me parece mesmo um produto da sua época, do ano em que foi feito – o país ainda em estado de choque diante dos ataques terroristas e das centenas de mortes.

Jovem gênio da informática é procurado pelo caçador de talentos da CIA

A narrativa se centra em um dos recrutas, James Douglas Clayton. Ao longo dos créditos iniciais, vemos que um Clayton, funcionário da Shell, desapareceu no Peru, depois de um acidente aéreo. Era o pai do jovem James, que, veremos, passou boa parte da vida tentando obter mais informações sobre quem foi na realidade seu pai, morto quando ele ainda era bem garoto.

Hoje, James é um daqueles gênios da informática; teve uma vida escolar primorosa, e brilhou muito no MIT, o lendário Massachussets Institute of Technology, de Cambridge, onde só são admitidos jovens de currículo majestoso.

Ele será procurado no MIT por Walter Burke. Burke se orgulha de ter faro perfeito para identificar os talentos de um possível futuro agente da CIA. E sabe tudo sobre a vida de James Clayton, inclusive seu especial interesse pela história de seu pai. Parece também saber coisas sobre a vida do pai do rapaz.

James Clayton, o novato, é interpretado pelo jovem irlandês Colin Farrell, que, depois de alguns filmes na Inglaterra, havia chegado a Hollywood com tudo para se transformar num astro de estatura gigantesca, algo como o novo Tom Cruise. Em 2002, estrelou, ao lado do próprio Tom Cruise, sob a direção do mago Steven Spielberg, Minority Report; no mesmo ano, fez o segundo papel mais importante em outra produção cara, ao lado de outro grande astro, Bruce Willis, A Guerra de Hart, e ainda estrelou outra grande produção, Por Um Fio.

Estava com tudo e não estava prosa, o moço, quando estrelou O Novato. E está bem no papel do gênio da informática que se inscreve como candidato a agente da CIA.

O grande Al Pacino também está bem, é claro. Pacino precisa fazer imenso esforço para não atuar bem. Está aqui um tanto Al Pacino demais – um pouco careteiro, repetindo suas atuações de outros filmes daquela época. Fala sempre em voz alta, num estilo teatral – mas é o tal negócio, sua interpretação combina com o personagem, um profissional testado, veterano, cheissimo de si mesmo, que parece ter todas as certezas do mundo.

Na mesma turma de aspirantes a agentes da CIA está uma bela moça, Layla Moore (interpretada por Bridget Moynahan). James Clayton, evidentemente, vai se interessar pela colega, a mais bela da turma.

E a partir daí começa uma trama em que, como diz e repete o veterano Walter Burke, nada é exatamente o que parece ser.

Tanta revireavolta, e um final tão inesperado, que o filme desaponta

Vejo que o Movie Guide de Leonard Maltin dá 2.5 estrelas; diz que é uma boa história, com ótimos momentos e grandes interpretações dos atores, mas tem tanta reviravolta, e a reviravolta final é tão inesperada e implausível que acaba sendo um desapontamento.

Concordo com ele. Foi muito feliz na sua sintética definição.

Na minha opinião, é um filme bem realizado, correto, que pode (e deve) agradar a quem gosta de filmes de ação. É isso e não passa disso. É daqueles filmes que, pouco depois que a gente acaba de ver, pode perfeitamente esquecer.

Anotação em fevereiro de 2012

O Novato/The Recruit

De Roger Donaldson, EUA, 2003

Com Al Pacino (Walter Burke), Colin Farrell (James Douglas Clayton), Bridget Moynahan (Layla Moore), Gabriel Macht (Zack), Karl Pruner (Dennis Slayne), Kenneth Mitchell (Alan), Mike Realba (Ronnie Gibson)

Argumento e roteiro Roger Towne, Kurt Wimmer e Mitch Glazer

Fotografia Stuart Dryburgh

Música Klaus Badelt

Produção Touchstone Pictures, Spyglass Entertainment, Epsilon Motion Pictures

Cor, 115 min

**

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 11 Abril 2012 às 8:19 pm | Permalink

    Eu vi e não fiquei com saudades, antes pelo contrário.
    Não me lembro muito bem mas acho que também fiquei desapontado como final.
    E quanto ao Al Pacino penso que já não faz nada de aceitável há uns bons anos.
    O Colin Farrell é outra história; tem algumas boas interpretações, esperemos que continue no bom caminho.

Um Trackback

  1. […] velhinho sai da cadeia, depois de cumprir 28 anos de pena. Chama-se Val, e é interpretado por um Al Pacino fazendo a pior caricatura que se poderia fazer de um Al Pacino trabalhando com uma preguiça […]

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