Ó Jerusalém / O Jerusalem

Nota: ★★★☆

Ó Jerusalém é um filme raro, singular. Não tanto por suas qualidades especificamente cinematográficas, mas pelo que diz, e como diz. É uma obra extraordinária por causa das idéias, da postura política. Aborda um dos temais mais difíceis que há – a convivência entre árabes e judeus –, retrata o nascimento do Estado de Israel, sem tomar partido de nenhum dos dois lados.

Isso é absolutamente notável, impressionante.

Ao longo de todo o filme, não fica claro se ele foi feito por um israelense ou por um árabe.

Ó Jerusalém consegue o virtualmente impossível: mostra as razões de cada um dos lados, os argumentos de uns e de outros, as atrocidades cometidas por judeus e por árabes.

Ao fim e ao cabo, o diretor Élie Chouraqui e sua equipe demonstram que a arte consegue proezas de que a humanidade, na vida real, não é capaz.

Élie Chouraqui – vejo agora, depois de ter visto o filme – é francês de Paris; tem a minha idade, nasceu em 1950. É judeu.

Seu filme é uma co-produção França-Inglaterra-Itália-Grécia-Estados Unidos-Israel. Os créditos finais mostram uma maravilhosa, esplêndida babel, uma assembléia das Nações Unidas – entre os atores e as equipes técnicas, há gente das mais diversas nacionalidades.

Não sei o que podem ter achado de Ó Jerusalém os israelenses, os judeus do mundo inteiro e os árabes. É bem possível que muitos árabes tenham achado o filme pró-Israel, e que muitos judeus o tenham tachado de pró-árabes.

Não é nem uma coisa nem outra, na minha opinião. É um filme feito por gente believer, sonhadora, idealista, que acredita na possibilidade de que, um dia, possa haver paz.

Os incréus, os cínicos de toda as categorias poderiam dizer que é um filme ingênuo.

Um árabe e um judeu ficam amigos em Nova York – e logo vão para a Palestina

As primeiras imagens, após os créditos iniciais, são cenas documentais, de cinejornalismo, em preto-e-branco, é claro, de comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial.

Em seguida vemos um grupo de jovens, estreando o carro usado comprado por um deles. Um letreiro informa: Nova York, 17 de novembro de 1946.

Letreiros assim aparecerão ao longo de toda a narrativa, identificando o local e a data do que se mostra. Facilita a compreensão do espectador, e ao mesmo tempo dá um tom de veracidade à narrativa. Veremos depois que Ó Jerusalém é assim como um romance histórico: usa fatos e personalidades reais misturados aos personagens fictícios criados pelo diretor Élie Chouraqui e seu co-roteirista Didier Le Pêcheur.

No grupo que estréia o carro comprado há pouco, numa rua de Nova York, há uma garota e dois jovens, aí na faixa de uns 25 anos. Os dois são judeus nova-iorquinos: Bobby (JJ Feild) e Jacob (Mel Raido). O carro de Jacob custa a pegar – e, quando pega, o rádio começa a dar informações sobre um atentado terrorista que acabara que acontecer em Jerusalém. Num ataque do Irgun, o grupo terrorista de extrema direita judeu, contra um hotel ocupado por oficiais britânicos, 90 pessoas haviam morrido.

Mas logo o motor do carro pára novamente, o rádio silencia, e Bobby sai correndo em direção a um clube ali perto para ouvir mais notícias sobre a atentado. Ao sair de um beco e entrar numa rua movimentada, é atropelado por um carro. Não se machuca, e levanta querendo brigar com o motorista, que havia descido do seu carro para atender o outro. Discutem um pouco, acabam entrando juntos no carro, apresentam-se – o motorista, Saïd (Saïd Taghmaoui), é árabe, criado em Jerusalém; está há pouco tempo nos Estados Unidos.

Ficam instantaneamente amigos, o árabe Saïd e o judeu Bobby (os dois na foto abaixo).

Veremos que Bobby é um pacifista. Não tem ódio dos árabes – e Saïd é como ele, não tem ódio dos judeus. Ao contrário: ele e sua família sempre se deram bem com os vizinhos judeus em Jerusalém.

Jacob é bem mais rigoroso do que o amigo Bobby. É dele, antes de Bobby, a idéia de ir para a Palestina, para, em caso de conflito, combater contra os árabes.

Acabarão embarcando num navio os três, mais algumas amigas, rumo a Tel Aviv.

Era para a ONU criar dois Estados independentes; criou um só

Um locutor de cinejornal da época ajuda o espectador a compreender a situação em 1947: por cinco séculos, a antiga Palestina havia sido dominada pelo império turco-otomano. Nos últimos 26 anos, era um protetorado britânico: militares britânicos mantinham a ordem no território então ocupado por uma grande maioria árabe e uma minoria judia.

Em novembro de 1947, as Nações Unidas começam a discutir a criação de dois Estados independentes na então Palestina – um árabe, e um judeu.

Em 31 de janeiro de 1948, a assembléia geral da ONU aprova a criação do Estado judeu.

O sentimento de antagonismo, de ódio entre judeus e árabes vai crescendo a cada momento. Os ingleses têm consciência de que, quando deixarem o lugar, haverá uma guerra inevitável.

“Se Deus não está aqui, não está em lugar nenhum”

Quando Bobby e Saïd chegam juntos a Jerusalém, são recebidos em festa pela família do árabe. De um terraço na casa da família, os dois contemplam a cidade. Saïd mostra para o nova-iorquino o local onde Cristo foi crucificado, o local em que o profeta Maomé se elevou para o céu, o muro de lamentações construído pelo rei Salomão – as três grandes religiões do mundo ocidental têm raízes naquela cidade. O árabe diz para o judeu:

– “Se Deus não está aqui, Bobby, então não está em lugar algum.”

E então pergunta se o amigo sabe o significado da palavra Jerusalém em hebraico. Cidade da paz.

O filme mostra a cidade da paz cada vez mais mergulhada na guerra. Bobby se aproximará de líderes judeus, inclusive o maior de todos, David Ben Gurion (interpretado pelo grande ator inglês Sir Ian Holm, com uma notável semelhança física com o fundador do Estado de Israel). E Saïd também acabará se tornando uma peça importante do lado árabe da guerra.

Às vezes o filme fica palavroso demais, e a retórica pacifista, um tanto exagerada

Não poderia haver uma forma mais neutra, menos pró-árabe e pró-Israel, do que esta que Ó Jerusalém consegue. Em termos de idéia, de posicionamento ideológico, de como dar a mensagem, Ó Jerusalém me parece a perfeição.

Já especificamente como filme, como linguagem cinematográfica, o filme não me pareceu tão grande. O tema é ambicioso demais, a narrativa é um tanto apressada – e seria mesmo humanamente impossível resumir a história da criação de Israel em parcos 100 minutos. Às vezes fica palavroso demais – a retórica pacifista em momentos fica um tanto exagerada, um tanto óbvia demais. Em diversas passagens a câmara fica nervosa mais do que o aceitável. E os atores principais, embora esforçados, não têm grandes desempenhos. (Na foto, Maria Papas, que interpreta Hadassah.)

São, de qualquer forma, apenas pequenos senões. É um filme importante, importantíssimo, que deve ser visto.

“Se você quiser ver um filme tipo ‘a verdade está aqui’, sugiro que veja um de Michael Moore

Encontro no IMDb um comentário que acho fundamental registrar. Confirma minhas sensações, indica que eu percebi o sentido do filme. É de um leitor do site, um judeu nascido em Israel, que vive na Bélgica e escreve sob pseudônimo.

“Existem muitas ‘visões’ sobre o que de fato aconteceu em 1948. Cada lado tem sua própria visão dos acontecimentos, como em Rashomon de Akira Kurosawa sabiamente nos fala sobre a subjetividade da verdade e a incerteza da acuidade dos fatos. (…) Sim, eu sei que o filme não será agradável ou apreciado por todos. Se você é um extremista árabe ou judeu, você provavelmente vai sair do cinema na metade do filme. Se você quiser ver um filme que toma partido de um lado, ‘a verdade está aqui’, sugiro que veja um filme de Michael Moore. Mas se você deseja ver um filme com um roteiro brilhante que tenta tocar o triunfo humano e as tragédias da guerra de 1948 com um elenco soberbo que fará você chorar – este filme é para você.”

O roteirista e diretor Élie Chouraqui foi assistente de Lelouch e Yves Robert

É impressionante como a gente não sabe nada, não conhece nada – mesmo na área de maior interesse. Eu já considerava esta anotação concluída (os parágrafos que virão depois do próximo intertítulo também já estavam escritos) quando resolvi fazer uma rápida pesquisinha. E eis que vejo que Élie Chouraqui trabalhou como ator e como assistente de direção em filmes de Claude Lelouch!

Foi assistente de direção em A Dama e o Gângster/La Bonne Anné (1973), Toda uma Vida (1974), Se Tivesse que Refazer Tudo/Si c’était à refaire (1976). E trabalhou como ator em A Aventura é a Aventura (1972), La Bonne Anné, Si c’était à refaire e La Belle Histoire (1992).

E foi ainda assistente de direção de outro realizador por quem tenho o maior respeito, Yves Robert, o autor de A Guerra dos Botões, no filme O Doce Perfume do Adultério/Un éléphant ça trompe énormément (1976).

Trabalha como ator em Ó Jerusalém; faz o papel de Issac Roth, um dos líderes judeus nas lutas contra os árabes.

Ora, ora. Então eu já tinha cruzado meus caminhos com Élie Chouraqui – só que não sabia disso.

O filme é assim uma espécie do contrário do Exodus de Preminger

Ó Jerusalém me fez lembrar várias outras obras. Me lembrei de Exodus, a superprodução hollywoodiana feita em 1960 por Otto Preminger, baseado no catatau de Leon Uris, que trata exatamente do mesmo período, do mesmo tema, a criação de Israel. Quando era garoto, vi Exodus várias vezes em seguida, e, adolescente, li o livro.

Exodus é um filme com a visão dos judeus, dos israelenses. Nunca mais o revi, e creio que, se o revisse agora, provavelmente o consideraria um produto da propaganda sionista.

Exodus é o contrário de Ó Jerusalém.

Ó Jerusalém está bem mais próximo dos filmes do israelense Eran Riklis, como Lemmon Tree e A Noiva Síria. Esses três filmes com toda certeza não agradam aos radicais de direita de Israel, os falcões. Muito ao contrário.

Pelo tom pacifista, esperançoso, talvez até sonhador demais – o que seria da humanidade sem o sonho, a esperança, a utopia? –, Ó Jerusalém me fez lembrar Feliz Natal, de Christian Carion, o belíssimo panfleto contra todas as guerras, inspirado em fatos reais, a breve trégua entre os inimigos separados pela terra de ninguém na Primeira Guerra Mundial. Feliz Natal foi uma co-produção França-Alemanha-Inglaterra-Bélgica-Romênia – tantos diferentes países, que guerrearam entre si diversas vezes.

Se já existisse o Estado Palestino, Ó Jerusalém poderia ter sido uma co-produção França-Inglaterra-Itália-Grécia-Estados Unidos-Israel-Palestina.

(Na foto, os atores Ian Holm e Tovah Feldshuh como Ben Gurion e Golda Meir. Impressionante a semelhança física com as personalidades reais.)

E o filme me fez lembrar também, e muito, a canção “Jerusalem”, de Steve Earle. Steve Earle gravou a música em 2002 – quatro anos, portanto, antes do lançamento do filme. Um ano antes do filme, em 2005, Joan Baez fez uma belíssima gravação da música.

“Jerusalem” de Steve Earle tem exatamente o mesmo tom deste Ó Jerusalém de Élie Chouraqui. Dizem exatamente a mesma coisa, a música e o filme.

“Acredito que um belo dia todos os filhos de Abraão vão deitar suas espadas para sempre em Jerusalém”, diz a canção de Steve Earle. “Bom, posso estar apenas sonhando, e talvez eu seja um tolo, mas não me lembro de ter aprendido a odiar na escola dominical.”

Não resisto à tentação de transcrever a letra.

I woke up this mornin’ and none of the news was good

And death machines were rumblin’ ‘cross the ground where Jesus stood

And the man on my TV told me that it had always been that way

And there was nothin’ anyone could do or say

 

And I almost listened to him

Yeah, I almost lost my mind

Then I regained my senses again

And looked into my heart to find

 

That I believe that one fine day all the children of Abraham

Will lay down their swords forever in Jerusalem

 

Well maybe I’m only dreamin’ and maybe I’m just a fool

But I don’t remember learnin’ how to hate in Sunday school

But somewhere along the way I strayed and I never looked back again

But I still find some comfort now and then

 

Then the storm comes rumblin’ in

And I can’t lay me down

And the drums are drummin’ again

And I can’t stand the sound

 

But I believe there’ll come a day when the lion and the lamb

Will lie down in peace together in Jerusalem

 

And there’ll be no barricades then

There’ll be no wire or walls

And we can wash all this blood from our hands

And all this hatred from our souls

 

And I believe that on that day all the children of Abraham

Will lay down their swords forever in Jerusalem

Anotação em maio de 2012

Ó Jerusalém/O Jerusalem

De Élie Chouraqui, França-Inglaterra-Itália-Grécia-Estados Unidos-Israel, 2006

Com JJ Feild (Bobby Goldman), Saïd Taghmaoui (Saïd Chahine), Maria Papas (Hadassah), Patrick Bruel (David Levin), Ian Holm (Ben Gurion), Tovah Feldshuh (Golda Meir), Mel Raido (Jacob), Cécile Cassel (Jane), Mhairi Steenbock (Cathy), Élie Chouraqui (Isaac Roth), Shirel (Yaël), Tom Conti (Sir Cunningham), Peter Polycarpou (Abdel Khader)

Argumento e roteiro Élie Chouraqui e Didier Le Pêcheur

Baseado no livro de Dominique Lapierre e Larry Collins

Fotografia Giovanni Fiore Coltellacci

Música Stephen Endelman

Produção Les Films de l’Instant, Cinegram

Films 18 Ltd, Titania Produzioni, G.G. Israel Studios Ltd, France 2 Cinéma.

Cor e P&B, 100 min

***

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Paris-Manhattan em 25 dezembro 2013 às 4:17 pm

    […] de ter como protagonista a bela Alice Taglioni, tem no elenco o ótimo Patrick Bruel, que, como tantos no cinema francês, é dublê de ator e cantor. (Um excelente cantor, diga-se de […]

  2. […] tema, o ódio entre judeus e árabes: A Noiva Síria / The Syrian Bride / Ha-Kala Ha-Surit (2004), Ó Jerusalém (2006), A Banda / Bikur Ha-Tizmoret (2007), Valsa com Bashir / Waltz with Bashir (2008), Lemon tree […]

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