O Filho de Frankenstein / Son of Frankenstein

Nota: ½☆☆☆

É tratado com respeito e admiração, nos guias e outros alfarrábios, este O Filho de Frankenstein, lançado em 1939 pela Universal, o terceiro da série com Boris Karloff como o Monstro, depois de Frankenstein, de 1931, e A Noiva de Frankenstein, de 1935.

Os dois primeiros, tremendos sucessos de bilheteria, são grandes clássicos do cinema de horror, que ajudaram a estabelecer a Universal como o estúdio que mais soube aproveitar o filão do terror nos anos 30. Foram dirigidos pelo inglês James Whale, um realizador que adquiriria, ele próprio, um status quase mitológico; seus últimos dias de vida foram o tema de Deuses e Monstros, de 1998, em que foi interpretado por Ian McKellen

Este terceiro filme da série já não teve a direção de James Whale, substituído por Rowland V. Lee, que foi também o produtor. Além de manter Boris Karloff, já então um semideus para os aficionados pelo horror, no papel do Monstro, O Filho de Frankenstein tem ainda outro dos maiores nomes do gênero, Bela Lugosi, no papel de Ygor.

E, para fazer o personagem título, o filho do barão de Frankenstein original, foi escalado o sul-africano de nascimento e inglês de criação Basil Rathbone, outro grande astro da época, com dezenas de filmes importantes, inclusive a Anna Karenina de 1935, de Clarence Brown, estrelada por Greta Garbo, Capitão Blood, de Michael Casablanca Curtiz, do mesmo ano, o David Copperfield também de 1935, de George Cukor, e As Aventuras de Robin Hood, de 1938, também de Michael Curtiz, em que fazia o principal rival do herói interpretado pelo mocinho Erroll Flynn.

No mesmo ano de 1939, Basil Rathbone iniciaria uma série de filmes no papel de Sherlock Holmes – e há muitos sherlockistas, ou sherlófilos, que ainda hoje dizem que ele foi o ator que mais perfeitamente encarnou o grande detetive.

Para ser considerado péssimo, o filme teria que ser bem melhor

Pois muito bem. Então me sentei para ver O Filho de Frankenstein com a maior das boas vontades, sem qualquer tipo de prevenção – muito antes ao contrário. Sou apaixonado pelos filmes americanos dos anos 30, gosto muito dos velhos filmes de horror.

Me pareceu um horror, o filme – com mil perdões pelo trocadalho.

É uma absoluta, total, imensa, gigantesca porcaria. Não dá medo algum, não provoca arrepio – dá vontade de rir do ridículo das situações, dos personagens, das atuações, de tudo por tudo.

É um daqueles trágicos filmes que, para serem considerados péssimos, teriam que melhorar demais.

Não há absolutamente nada que o salve. Na minha opinião, tem uma característica interessante, admirável, e só esta: o inesperado, implausível, estranho, incoerente desenho de produção, a construção dos cenários.

O castelo dos Frankensteins, do lado de fora um tosco castelo medieval desenhado no papelão, por dentro tem uma arquitetura de vanguarda – ou o que talvez pudesse ser considerado uma arquitetura de vanguarda em 1939.

Está mais para o futurologista Metrópolis de Fritz Lang de 1927 do que para um castelo medieval.

A biblioteca, por exemplo, tem o pé direito triplo, e praticamente toda a parede que dá para a área externa é de vidro. Imensos janelões de vidro, para que a luminosidade dos raios da noite tempestuosa penetrem mais impressionantemente.

Do teto pendem grandes tiras de madeira arredondadas que fazem lembrar os desenhos iniciais de toda e qualquer obra de Oscar Niemeyer.

A grande escada que leva do imponente hall de entrada para os aposentos íntimos, no segundo andar, tem os degraus vazados e irregulares, antecipando a famosa escada torta que Santos Dumont criaria na sua casa em Petrópolis. Não estou bem certo, mas acho que a escadaria futurista, torta, lembra também outra criação do expressionismo alemão, O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, de 1920.

O braço direito mecânico do inspetor antecipa o do Dr. Fantástico

De resto, há uma outra curiosidade: o braço direito mecânico do bom inspetor Krogh (Lionel Atwill). No passado, quando Krogh era garotinho, o Monstro arrancou seu braço direito. Foi substituído então por um braço mecânico, com a tecnologia disponível em 1939. Pois bem. Não dá para garantir, é claro, mas eu apostaria minhas fichas em que foi no braço mecânico do inspetor Krogh que Stanley Kubrick se inspirou para fazer o braço do dr. Strangelove no filme de mesmo nome, o Dr. Fantástico – aquele braço que, malgrado as tentativas de seu dono de esconder sua ideologia, insiste em fazer a saudação nazista.

O mulher do barão Wolf von Frankenstein, Elsa, interpretada por Josephine Hutchinson, é séria concorrente ao troféu de mulher mais sem sal nem doce de toda a história do cinema. E o filhinho do casal, Peter (Donnie Dunagan), seria páreo duro na disputa pelo troféu de criança mais implausível dos últimos milênios.

Boris Karloff como o Monstro… Bem, é Boris Karloff como o Monstro. Bela Lugosi faz um Ygor que em vez de dar medo dá vontade de rir. Mas o coitado do Basil Rathbone é quem vai ficando cada vez mais ridículo, à medida em que a ação vai avançando.

O Monstro havia morrido no filme anterior, mas não tem problema: foi ressuscitado

Mas tudo isso que eu falei nos parágrafos acima é apenas a minha opinião, e, como eu digo sempre, a minha opinião vale no máximo uns três guaranis furados.

Antes de passar para as opiniões de quem sabe mais, só gostaria de registrar: o delicioso, engraçadíssimo O Jovem Frankenstein, que Mel Brooks faria em 1974, tem muito a ver com a trama original deste O Filho de Frankenstein.

Eis o que diz Leonard Maltin, que dá 3 estrelas em 4 para o filme:

“Terceiro da série (depois de Bride) encontra o filho do finado doutor tentando limpar o nome da família ao transformar o Monstro em ‘bom’. Ele teria que viver muito. Terror feito suntuosamente, é absorvente e assustador, talvez um pouco tagarela, com sets maravilhosamente bizarros de Jack Otterson e a melhor interpretação de Lugosi como o malvado pastor de pescoço quebrado Ygor. O último aparecimento de Karloff como o Monstro. Tente descobrir Ward Bond (!) como um policial guardando o castelo dos Frankenstein dos moradores furiosos da vila, lá pelo final do filme.”

Naturalmente, li essa resenha do Maltin após ter visto o filme. Não reparei em Ward Bond, esse ator que trabalharia em praticamente todos os filmes feitos por John Ford a partir daí.

Diz o livro The Universal Story:

“O fato de que o monstro de Mary Shelley tinha sido visto morrer tão espetacular e conclusivamente no final de The Bride of Frankenstein (1934) não impediu o roteirista Willis Coooper de ressuscitá-lo para causar estrago de novo – desta vez como uma ferramenta para a vingança de Ygor, um pastor ensandecido (Lugosi). Segundo a trama, Ygor sobreviveu à forca, para a qual foi condenado por suspeita de roubar corpos, teve seu pescoço consertado no processo, e tem sido o responsável (através do Monstro) pelas mortes de seis dos jurados que o sentenciaram. Foi a última vez que Karloff interpretou o Monstro e, tristemente, sua interpretação de despedida não trouxe nenhum dos traços de ‘humanidade’ que ajudaram a fazer com que sua criação original fosse única.

E diz Pauline Kael:

“O terceiro e último da série de Boris Karloff, dirigido por Rowland V. Lee, em vez de James Whale, que fez Frankenstein e o mais extravagante Bride of Frankenstein. A concepção aqui não tem a ressonância dos dois primeiros filmes; esse aqui vai embora da memória, a não ser por algumas cenas e o Ygor criado por Bela Lugosi, o pastor e assaltante de túmulos que se transforma no único amigo do Monstro. Karloff tem alguns poucos momentos inventivos – a mudança repentina quando ele se vê no espalho, seu grito agonizante quando descobre que Ygor está morto. (Lugosi voltaria como Ygor em The Ghost of Frankenstein, mas sem Karloff.) O desenho dos cenários contribui para a atmosfera sonhadora, fora deste mundo, e atores como Basil Rathbone como o barão, Lionel Atwill como o inspetor de polícia (cujo braço artificial é arrancado), Edgar Norton e Gustav von Seyffertitz dão à produção uma certa quantidadek de classe. Emma Dunn e a tímida, aterrorizada Josephine Hutchinson, não.”

E aí, qual seria a opinião do eventual leitor? Uma porcaria, ou um grande clássico do horror?

Anotação em fevereiro de 2012

O Filho de Frankenstein/Son of Frankenstein

De Rowland V. Lee, EUA, 1939

Com Basil Rathbone (Barão Wolf von Frankenstein), Boris Karloff (o monstro), Bela Lugosi (Ygor), Lionel Atwill (inspetor Krogh), Josephine Hutchinson (Elsa von Frankenstein), Donnie Dunagan (Peter von Frankenstein), Emma Dunn (Amelia), Edgar Norton (Thomas Benson), Perry Ivins (Fritz), Lawrence Grant (o burgomestre)

Roteiro Willis Cooper

Baseado nos personagens criados por Mary Shelley

Fotografia George Robinson

Direção musical Lionel Newman

Música Frank Skinner

Maquiagem Jack Pierce

P&B, 99 min

Produão Univcrsal, Rowland V. Lee,

½

5 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 20 abril 2012 às 1:54 pm | Permalink

    Filmes “Frankenstein” o meu preferido e de longe é “Young Frankenstein” de Mel Brooks.
    Também há uma versão recente “Mary Shelley’s Frankenstein” de Kenneth Branagh de que eu gosto.
    Mas o de Brooks é mesmo excelente.

  2. Carla
    Postado em 20 abril 2012 às 7:49 pm | Permalink

    Li sua crítica de manhã, mas só agora pude comentar. Minha nossa, o filme é ruim assim? Que pena. Porque o elenco e esse visual diferente (reparei em algumas das fotos que você postou) prometiam mais… Eu li que Boris Karloff teve um fim de carreira digno, o mesmo não acontecendo com Bela Lugosi (mas “Ed Wood” já mostra isso, aliás).
    Quanto a “Deuses e Monstros”, está na minha lista a ver no filmow. E “A Múmia”, como comentei no seu post a respeito, tem seu charme…

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 25 abril 2012 às 7:27 pm | Permalink

    Concordo com o José Luís: o “Jovem Frankenstein” do Mel Brooks é excelente.
    Agora, Carla, veja o filme, se você gosta do gênero. Não deixe de ver porque eu achei ruim…
    Um abraço aos dois.
    Sérgio

  4. Valdecir Tozzi
    Postado em 5 novembro 2013 às 2:29 pm | Permalink

    Assiste ao filme e realmente compartilho com a opinião sempre substantiva do Sérgio: o filme deixa a desejar. Talvez o momento mais contrangedor do filme, em minha opinião, é quando o Basil examina o corpo do Monstro e o compara a um superman, isso foi demais, e tira todo o “encanto” de horror do Monstro. Sem dúvida, o melhor filme da trilogia é a Noiva de Frankstein, sem desmerecer o filme original, que nos dava muito medo.

  5. Jefferson Prata
    Postado em 7 abril 2014 às 9:44 pm | Permalink

    Eu acho esse “O FIlho de Frankenstein” um filme excelente dentro da proposta dele… Não tem o impacto do Frankenstein de 1931, nem o lado inventivo de A Noiva de Frankenstein, mas traz diversos elementos memoráveis, e a história, embora um pouco superficial em determinados momentos, não chega a ser ruim.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Frankenstein em 8 setembro 2016 às 2:52 pm

    […] filme teria duas sequências, A Noiva de Frankenstein, de 1935, e O Filho de Frankenstein, de 1939, os dois com Boris […]

  2. […] O Homem Invisível (1933), A Marca do Vampiro (1935). Ou tentativas de imitação deles, como O Filho de Frankenstein […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*