O Despertar / The Awakening

Nota: ★★★☆

Para mim, este O Despertar, além de ser um filme muito bom, vem confirmar que Rebecca Hall é uma das grandes atrizes de sua geração. Está excelente, brilhante, como a protagonista desta história de suspense-terror para adultos.

Houve momentos em que Rebecca Hall – com aquela sua figura magrinha, longilínea, cabelos muito longos, e o rosto forte de uma beleza que não tem nada a ver com o que se considera padrão de beleza – me fez lembrar a Shelley Duval de O Iluminado/Shining, de Stanley Kubrick, provavelmente o filme de suspense-terror para adultos mais apavorante que já foi feito.

É um personagem riquíssimo, esse que Rebecca Hall interpreta, criado por Stephen Volk e Nick Murphy, o último também diretor de O Despertar. Na Londres de 1921, Florence Cathcart é uma mulher à frente de seu tempo. Fazia apenas três anos que as mulheres inglesas tinham passado a ter o direito de votar; a imensa maioria delas ainda aspirava apenas à condição de dona de casa – e Florence Cathcart, embora muito jovem, tinha diploma universitário, algo raríssimo para pessoas do sexo feminino. Era uma respeitada autoridade na área do ceticismo, da negativa de existência de fantasmas e fenômenos mediúnicos, e autora de um livro de grande sucesso sobre o tema.

Mulher forte, de opiniões e ações firmes, dava ordens em homens, algo absolutamente impensável na época. Mas, por trás dessa aparente fortaleza, escondia-se uma alma torturada, frágil, e cansada, à beira de um colapso por absoluta exaustão.

O filme nos mostra isso, com maestria, logo nas suas primeiras seqüências. Passando-se por outra pessoa, Florence participa de uma sessão mediúnica, em que um grupo de gente tentaria trazer para uma conversa a filhinha morta de uma jovem mulher. Quando a sessão parece estar atingindo seu clímax, Florence desmascara os charlatões, e dá ordens a um grupo de policiais que só aguardava seu sinal para intervir.

A ação é fulminante, e bem sucedida. Os charlatões são presos em flagrante. O policial encarregado se queixa a Florence, pede que ela não volte a dar ordens a ele em público.

A mãe que participava da sessão, no entanto, indignada, dá uma bofetada no rosto de Florence, e grita que ela faz aquilo porque não tem filhos.

Florence, a aparente fortaleza, exibe no rosto, de imediato, um conjunto de sensações – estupor, cansaço, mas também incerteza, fragilidade.

A heroína é pega em flagrante num ato grotesco de presunção, de vaidade exacerbada

Pouco depois de chegar à sua casa – uma casa ampla, confortável, de gente de meios –, alguém bate à porta, e a própria Florence atende. Diante dela, na soleira da porta, está um homem segurando o livro da autora. Segura de si, presunçosa, ela não pensa sequer um segundo: tem a certeza de que ali está um fã à espera de um autógrafo. Com rudeza, grosseria, toma o livro da mão do homem, assina seu nome na página do frontispício, e diz a ele que aquela é sua casa e ela está exausta.

O homem – Robert Mallory, numa excelente atuação de Dominic West (na foto acima) – não é fã de Florence Cathcart, nem tinha vindo pedir autógrafo. É professor de História em um internato para garotos, a escola Rookford, em Cumbria. Estava ali para pedir os serviços profissionais da cientista cética: três semanas antes, Walter Portman, um dos alunos, havia sido encontrado morto. Ele se dizia perseguido por um fantasma. Alguns anos antes, naquela mesma edificação, quando ela era a residência de uma família muito rica, um garoto havia sido morto, segundo se dizia. Seria o fantasma dele que estaria agora aterrorizando todos os alunos.

Mallory exibe para Florence uma série de fotos, tiradas em diversos anos, de 1904 em diante, na frente do prédio da escola, em que aparentemente há um fantasma.

E não era dele, Mallory, a idéia de procurar a ajuda de Florence. A idéia tinha sido da governanta da escola, a senhora Maud Hill (o papel da sempre excelente Imelda Staunton, na foto abaixo), ela, sim, uma fã da autora, que tinha o livro dela sempre à mão, ao lado da Bíblia.

Pega em flagrante num ato grotesco de presunção, de vaidade exacerbada, Florence mantém a pose. Diz que não está aceitando novos casos. A uma menção feita por Mallory ao fato de ela ser caçadora de fantasmas, ela replica: “Não se pode caçar o que não existe”.

          Um casarão perfeito para abrigar fantasmas. Uma governanta que parece amiga de fantasmas

Acaba expulsando Mallory de sua casa. Mas ele não se dá por vencido: dá a ela o nome do hotel em que está hospedado.

Na seqüência seguinte, estão num trem em direção à escola Rookford, no pacífico, tranquilo, belíssimo campo britânico.

O gigantesco prédio da escola no meio do pacífico, tranquilo belíssimo campo britânico, que surge pela primeira vez quando estamos aí com uns 15 minutos de filme, parece o perfeito lugar para fantasmas habitarem.

E a primeira seqüência em que aparece a governanta da escola, na pele de Imelda Staunton, pronta para receber a caçadora de fantasmas que não acredita em fantasmas, diante do prédio da escola, deixa o espectador absolutamente convencido de que ela, Maud Hill, é uma amiga de fantasmas.

Era uma época tão terrível que as as pessoas tinham mesmo que crer em fantasmas

E aqui faço um flashback.

Antes daquela primeira sequência do filme, que mostra a sessão mediúnica, aparece na tela uma epígrafe.

“Observação: Entre 1914 e 1919, guerra e gripe tiraram mais de um milhão de vidas só na Grã-Bretanha. Conclusão: Estamos na era dos fantasmas.”

O autor: Florence Cathcart, no livro Seeing Through Ghosts, vendo através dos fantasmas.

Não me lembro de nenhum outro filme que comece com uma epígrafe de um autor que jamais existiu, em um livro que jamais foi escrito – a não ser na imaginação de roteiristas de cinema.

Embora fruto da imaginação dos roteiristas Stephen Volk e Nick Murphy, essa epígrafe atribuída a Florence Cathcart é um brilho. Mostra, em poucas palavras, o contexto da época em que a história se passa. Como escreveu, com precisão, Jason Buchanan, na resenha do filme no AllMovie: “Enquanto o alto custo da guerra (a Primeira Mundial, 1914-1918) pesa duramente sobre a psique nacional, muitas pessoas se voltam para o espiritualismo e o sobrenatural à procura de uma garantia de que algo melhor nos espera no além.”

Sobram filmes de terror para adolescentes. Há poucos feitos para adultos

Nas últimas décadas, em especial dos anos 1980 para cá, os filmes de suspense-terror parecem cada vez mais feitos para adolescentes. Sobram coisas como Sexta-Feira 13, A Hora do Espanto, A Casa do Espanto, Pânico – em geral com parte 2, parte 3. Personagens como Freddy Kruger, Jason Voorhees, são idolatrados pelos adolescentes.

A partir dessa adoração dos adolescentes por espanto, pânico, criou-se o subgênero do slasher movie, aqueles que adoram sangue esguichando da carótida.

Entender esse fenômeno quase sobrenatural, esse prazer que os jovens sentem por emoções fortes e sangue esguichando de carótidas, cabe a sociológos, antropólogos, gente estudada, acadêmica. Eu apenas0 aponto a existência do fenômeno – para tentar realçar que são muito menos numerosos os filmes de suspense-terror voltado para platéias adultas.

O horror psicológico, o horror que está na cabeça das pessoas. Este O Despertar pertence a essa linhagem – na minha opinião muito mais fina, inteligente, nobre do que a dos filmes de suspense-terror para adolescentes. A linhagem de filmes como O Iluminado, de Kubrick, O Inquilino e O Bebê de Rosemary, de Polanski, O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan, Os Outros, de Amenábar.

E, dentro dessa linhagem nobre, não importa muito se a história avança de fato para o sobrenatural, para o lado de lá, do depois da morte, ou não. Se a trama é bem feita, bem construída, e mostra o horror dentro da alma, da cabeça das pessoas, então é um bom filme. Na minha opinião, é claro – e não sou dono de verdade alguma.

A segurança da personagem de Rebecca Hall desmorona feito um castelo de cartas

O horror que persegue essa Florence Cathcart tão bem interpretada por Rebecca Hall é de fato pavoroso, assustador. É do tamanho do horror que persegue a Grace feita por Nicole Kidman em Os Outros, ou a Wendy de Shelley Duvall em O Iluminado, ou a Rosemary de Mia Farrow no Bebê de Polanski.

Naquele primeiro encontro entre o professor Robert Mallory e Florence Cathcart, há o seguinte diálogo:

Mallory: – “Houve outras visões (do fantasma). Os meninos crêem…

Florence (interrompendo, cheia de si, dona da verdade): – “Os meninos crêem em Papai Noel e na Fada dos Dentes. Estou certa de que alguns deles até acreditam em Deus.”

Toda essa empáfia, esse conjunto firme de certezas absolutas, essa vaidade, essa extrema segurança de aparente fortaleza vai desmoronar feito um castelo de cartas – e as expressões do rosto de Rebecca Hall demonstram uma impressionante gama de emoções.

É, de fato, uma interpretação preciosa, a dessa garota.

Falei que ela se confirma como uma das grandes atrizes de sua geração. Não é uma geração de poucos talentos, de forma alguma. Nascida em Londres em 1982, Rebecca Hall é contemporânea de Michelle Williams, Natalie Portman, Bryce Dallas Howard, Anne Hathaway, Kirsten Dunst, Alice Braga, Emily Blunt, Scarlett Johansson, Keira Knightley – todas nascidas entre 1980 e 1985.

Rebecca Hall, com 24 títulos no currículo, já teve seis prêmios e 12 outras indicações. Foi dirigida por Woody Allen, Ron Howard, Christopher Nolan, E, diacho, tem, em 2012, 30 anos! Está apenas começando.

Anotação em outubro de 2012

O Despertar/The Awakening

De Nick Murphy, Inglaterra, 2011

Com Rebecca Hall (Florence Cathcart), Dominic West (Robert Mallory), Imelda Staunton (Maud Hill), Isaac Hempstead-Wright (Tom), Shaun Dooley (Malcolm McNair), Joseph Mawle (Edward Judd)

Roteiro Stephen Volk e Nick Murphy

Fotografia Eduard Grau

Música Daniel Pemberton

Produção BBC Films, StudioCanal, Creative Scotland. DVD PlayArte.

Cor, 107 min

***

3 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 7 dezembro 2012 às 1:01 pm | Permalink

    Como este é um filme de terror para adultos perdeu-se pelo caminho, se fosse para adolescentes idiotas ou atrasados mentais chegava cá de certeza.
    Tenho pena porque filmes assim há poucos.

  2. Postado em 14 dezembro 2012 às 8:19 am | Permalink

    Já vi, Sérgio (não consigo dizer não a um filme de terror, independentemente da qualidade do mesmo) e também gostei. Mas é claro que não se pode comparar às obras citadas do Kubrick e do Polanski.

  3. Ivan
    Postado em 24 julho 2013 às 3:06 pm | Permalink

    Passeando pelos filmes do site cheguei aqui.
    Tenho em minhas anotações, vi este filme em maio do ano passado. Também gostei muito.
    Para mim, excelente e belíssimo filme.
    Rebecca Hall, belíssima e ótima atriz. Também gosto do Dominic West e,palmas sempre para a grande Imelda Staunton.
    Também na minha opinião, este filme não fica devendo nada aos outros do gênero que voce citou do Kubrick,do Polanski,do Shyamalan, e do Amenabár é tão bom quanto.E,assisti todos.
    Maravilha de filme.
    Um abraço !!

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Garota / The Girl em 8 fevereiro 2013 às 3:57 pm

    […] a ação de The Girl começa, Hitch está recitando para Alma (interpretada pela excepcional Imelda Staunton) como pretendia filmar determinar cena. A TV está ligada, e Tippi Hedren está na […]

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