O Contrato / The Contract

Nota: ★★½☆

O Contrato, que o experiente Bruce Beresford dirigiu em 2006, é um competente filme ação com um toque de aventura e algum bom humor. Não é, e claramente não pretende ser, nada mais que isso. Para quem gosta desse tipo de coisa, é um prato cheio. Quem não gosta deve passar longe dele.

Os dois personagens centrais da história não poderiam ser mais díspares, opostos, antípodas. Morgan Freeman, ótimo como sempre, sem fazer qualquer esforço – para o ator, é como ligar o piloto automático e pronto, ele nos dá uma bela interpretação –, faz Frank, ex-major, ex-agente de uma das agências federais americanas, talvez o FBI, mais provavelmente a CIA, hoje um assassino de aluguel para quem pagar melhor. Na verdade, mais que um assassino de aluguel: o chefe de uma equipe de assassinos de aluguel. A equipe, formada por ele e mais quatro sujeitos, é afiadíssima, perfeita. Ele, então, o chefe, é assim daquela espécie de super-homem que só existe na imaginação dos roteiristas de filmes de ação do cinemão comercial.

John Cusak interpreta Ray, o típico americano médio, o sujeito normal – ou quase. Está ali perto dos 40 anos, mora em Cedar Pine, uma pequena cidade do Estado de Washington, no extremo noroeste do país; dá aula de educação física no colégio local, e é treinador dos times de beisebol e futebol americano. Perdeu a mulher para o câncer, e agora enfrenta o tipo de problema mais comum do mundo: seu filho único, Chris (Jamie Anderson), adolescente aí de uns 15 minutos, perdido como quase todo adolescente, com uma saudade, uma falta absurda da mãe, anda faltando às aulas, aos treinos esportivos e fumando maconha.

Na primeira sequência em que vemos Ray, durante os treinos do time de beisebol, o policial da cidadezinha está levando Chris para entregá-lo ao pai, depois de ter flagrado o garoto fumando um.

De um lado, um matador profissional, um super-herói, que acaba de matar mais um e se prepara para cumprir outro contrato. Do outro lado, um all-american comum, vivendo seu dia-a-dia de tentar estabelecer com o filho.

Matar pessoas sem deixar qualquer rastro – parece dizer o filme – é muito mais fácil do que entrar em sintonia com um adolescente perdido.

As vidas do assassino super-herói e do homem comum se cruzam num parque nacional

O espectador vai acompanhando as histórias paralelas de Frank e Ray. Como na mais previsível das comedinhas românticas, o espectador está cansado de saber que os destinos de Frank e Ray vão se cruzar. A questão é saber como, quando e onde.

Será aos cerca de 20 minutos de filme, num parque nacional, longe de lugares habitados e onde os telefones celulares não pegam. Ray tinha ido parar lá porque teve a idéia de propor uns dias no meio da natureza com Chris – acampar no parque era uma das poucas coisas que Chris gostava de fazer, e Ray pensou que poderia ser uma forma de ele se aproximar o filho inaproximável.

Já Frank tinha ido parar lá após uma série imprevista de acontecimentos. O contrato que ele tinha a executar era exatamente naquela região do país, em Cedar Pine. Mas mesmo na vida dos super-heróis acontecem imprevistos, e Frank acabou se envolvendo – não por culpa dele, é claro – num tremendo acidente de trânsito na pequena cidade. Ao ser levado para o hospital, os médicos viram a arma que ele carregava, a polícia estadual foi chamada, e, quando Frank recobrou a consciência, no hospital, estava algemado à cama, e àquela altura o FBI, a CIA, provavelmente também o serviço especial e as demais agências federais já haviam sido avisadas de sua prisão. Algumas pessoas nessas agências o queriam preso, outras o queriam morto, silenciado.

É bastante evidente, embora não se explicite muito como, que as agências do governo dos US of A já haviam usado no passado os talentos assassinos de Frank em algumas de suas próprias operações.

Mas então chegam ao distante Estado de Washington delegados federais para cuidar de Frank. Ele está sendo levado pela estrada que atravessa o parque nacional quando o carro é interceptado pelos quatro homens de seu grupo. A interceptação não dá cem por cento certo: o carro em que viajavam Frank e um delegado federal no banco de trás, um algemado ao outro, despenca num precipício, vai parar num rio lá embaixo; Frank e o delegado vão sendo levados pela correnteza do rio, enquanto vão lutando ferozmente.

Naquele exato instante, o homem comum Ray e seu filho maconheiro estão cruzando o rio numa pequena ponte.

O assassino diz a coisa errada – e desperta a teimosia feroz do homem comum

O delegado federal já havia sido ferido de morte por Frank, mas, antes de morrer, conta para Ray, que consegue tirar os dois de dentro do rio, que aquele é um criminoso muito perigoso. O delegado entrega a Ray a chave da algema e sua arma.

Frank tenta, com calma, argumentar com Ray que é melhor deixá-lo ali e sumir, pois há um grupo de homens altamente treinados que estão vindo em seu socorro. Gente que está muito além do nível das coisas que ele, Ray, conhece, domina.

Chris, o garoto maconheiro, percebe que o bandidão falou a coisa errada. Ao dizer que Ray não daria conta de cuidar do assunto, ou seja, entregar o prisioneiro para alguma autoridade, Frank despertou a teimosia do outro. Algo que ele não deveria fazer, de jeito nenhum.

– “Você disse a coisa errada, Mister” – pondera Chris.

Pontuando toda a narrativa, diálogos de um suave bom humor

Estamos aí com uns 25 minutos de filme. A aventura está só começando.

As cenas de ação, de enfrentamento dos perigos da natureza, são feitas com extrema competência. Uma seqüência em que Frank, Ray e Chris descem um grande despenhadeiro é capaz de deixar o espectador com calafrios. Os atores estão bastante bem. Mas o que melhor funciona, ao longo de todo o filme, na minha opinião, é o suave bom humor com que os roteiristas Stephen Katz e John Darrouzet pontuaram a narrativa.

Por exemplo: pouco antes de o carro que conduzia o delegado federal e Frank no banco traseiro ser parado pelos homens do prisioneiro, o motorista e seu colega sentado no banco do carona conversavam sobre os filmes legendados.

Policial no banco do carona: – “Não gosto de ler enquanto estou vendo um filme.”

Policial que dirige: – “Você se acostuma.”

Policial no banco do carona: – “Tudo bem para você que fala espanhol.”

Policial que dirige: – “Não tão bem assim. Ainda tenho que ler as legendas. Admita que você simplesmente não gosta de ver filmes estrangeiros.”

Policial no banco do carona: – “Eu gosto de ver. Se quiser ler, compro um livro.”

Volta e meia surgirão diálogos assim, irônicos, gozativos, sarcásticos – não escrachados, e sim suaves, quase sutis.

Já é uma longa tradição do cinemão comercial mostrar a disputa, a rivalidade entre os policiais locais e os federais. O Contrato vai fundo nessa história, e há diversas situações sutilmente engraçadas mostrando o embate entre os policiais de Washington, o Estado, e os agentes de Washington, a capital federal.

Como nas comedinhas românticas, é tudo – ou quase absolutamente tudo – previsível. No cinemão comercial, ao contrário do que acontece na vida real, e na canção de Leonard Cohen – everybody knows that the good guys lost, canta o bardo –, os bons vencem, os maus perdem.

Só que, em O Contrato, é assim só mais ou menos. Não é exatamente assim. É: na verdade, O Contrato, embora previsível em muita coisa, tem um final bem surpreendente.

É uma boa diversão.

Anotação em fevereiro de 2012

O Contrato/The Contract

De Bruce Beresford, EUA-Alemanha, 2006

Com Morgan Freeman (Frank Carden), John Cusack (Ray Keene), Jamie Anderson (Chris Keene), Alice Krige (agente Gwen Miles), Megan Dodds (Sandra), Corey Johnson (Davis), Jonathan Hyde (Turner), Bill Smitrovich (chefe de polícia Ed Wainwright), Anthony Warren (Royko)

Argumento e roteiro Stephen Katz e John Darrouzet

Fotografia Dante Spinotti

Música Normand Corbeil

Produção Millennium Films, Revelations Entertainment, Emmett/Furla Films, VIP 4 Medienfonds

Cor, 96 min

**1/2

3 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 29 março 2012 às 2:28 pm | Permalink

    Eu vi este filme há uns tempos e não me lembro bem, mas teho a ideia de que é um filme razoável.
    Acho que o John Cusack merecia melhores papéis (personagens) porque tem talento e anda a fazer umas coisinhas que não lhe dão grande proveito.
    Vi um com ele que se chama Identity – Identidade no Brasil, que é muito interessante.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 29 março 2012 às 8:53 pm | Permalink

    Concordo plenamente com você, caríssimo José Luís (mais uma vez): também acho que John Cusak merecia mais e melhores papéis. Não vi esse “Identity”. Ele está muito bem num filme de Stephen Frears, “The Grifters”, no Brasil “Os Imorais”.
    Um abraço!
    Sérgio

  3. amaral milhomem
    Postado em 22 maio 2013 às 8:51 pm | Permalink

    O tipo de filme que so se lembra ao velo zapeando por alguns canais a noite. Sou meio cetico com essa historia de ator escolher papel pelo roteiro e tal. Deve ser mais pela grana mesmo ou comodidade, talvez agenda. Vi deNiro num tal de Poder Paranormal, num tal de Os Especialistas que fiquei com vergonha por ele. Nicolas Cage nem se fala, so anda fazendo bomba. Esse o Contrato e a sintese do razoavel, nem vai nem fica, e o Cusak esta se profissionalizando nisso, como se observa em O Corvo, 1408 e A Ressaca. Ja 2012 e o fim do mundo de ruim.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Amistad em 24 fevereiro 2013 às 10:15 pm

    […] abolicionistas, homens ricos, Joadson (Morgan Freeman) e Tappan (Stellan Skarsgård), tentam no mesmo tribunal conseguir a liberdade dos membros do […]

  2. […] as duas filhas da madrasta são igualmente horripilantes. No filme, a mais velha, Margueritte (Megan Dodds) é horripilante como a madrasta, mas a mais nova, Jacqueline (Melanie Lynskey) tem bom […]

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