O Bebê de Kabul / Kabuli Kid

Nota: ★★½☆

O Bebê de Kabul, primeiro longa-metragem de ficção do documentarista afegão Barmak Akram, feito com ajuda financeira e técnica da França, é uma bem-vinda possibilidade de vermos um pouco da realidade desse país tão miserável, tão sofrido.

Houve Às Cinco da Tarde, da iraniana Samira Makhmalbaf, de 2003 – belo e triste filme, mas que é o olhar de uma estrangeira sobre o Afeganistão. Houve O Caçador de Pipas/The Kite Runner, que Marc Forster fez em 2007 com base no romance do afegão radicado nos Estados Unidos Khaled Hosseini. Parte da história se passa na Cabul de 1975, antes da invasão soviética – e o filme não foi rodado na capital afegã, e sim na China, por questões de custo.

O Bebê de Kabul (o título do filme usa o k no nome da cidade), ao contrário, foi rodado recentemente – o filme é de 2008 – na própria capital do Afeganistão, e criado por um afegão. A maior parte das tomadas do filme é de externas, nas ruas da cidade. E o que se vê é chocante, de dar pena, de machucar o coração. É uma cidade miserável, como se imagina que sejam as cidades grandes mais pobres dos países mais pobres da África. Em Cabul sequer há espaço definido para os carros e os transeuntes. Os carros trafegam em meio a imensas multidões. O número de aleijados, vítimas de décadas de guerras, é assustador. Os prédios, as casas, têm uma aparência lastimável, resultado da mistura de miséria com batalhas, tiroteios, bombardeios.

É tudo mais desolador do que uma favela carioca ou paulistana.

A família de Kahled, o protagonista (interpretado por Haji Gul Aser), é próxima da classe média. Kahled é motorista de táxi, pobre, mas não miserável – e, no entanto, sua casa não tem nem água corrente nem luz elétrica.

Para lembrar: o Afeganistão enfrentou, no século XIX e início do século XX, três guerras contra os britânicos. Em 1979, foi invadido pelas tropas soviéticas, e durante dez anos os invasores guerrearam com rebeldes afegãos financiados pelos Estados Unidos; um milhão de afegãos foram mortos nos conflitos. Depois que os invasores soviéticos foram expulsos, os talibans – muçulmanos ultra-fanáticos que transformaram o Islã numa doutrina medieval – acabaram de destruir o que os russos haviam deixado de pé no país. O domínio taliban acabou em 2001, mas de lá até hoje ainda há conflitos armados entre tropas americanas e grupos ultra-fanáticos em algumas regiões do país.

Pobre Afeganistão.

Uma mulher de burca abandona seu bebê no táxi de Khaled

No filme, fala-se, de passagem, nessas questões todas. Khaled, o motorista de táxi, o protagonista da história, é anti-taliban; agradece pelo fato de a cidade não ser mais dominada por eles. Refere-se aos buracos nas ruas – a maioria de terra, sem calçamento -, deixados pelas bombas dos americanos, que prometeram consertar os estragos mas nunca o fizeram direito.

Nas ruas, a todo momento a câmara mostra soldados armados, tanques passando entre os carros, a multidão que toma conta de todos os espaços.

A história – criada pelo próprio Akram, ele também autor do roteiro e da trilha sonora – é um fiapinho, apenas. A narrativa começa mostrando Khaled em seu dia-a-dia de motorista de táxi no meio daquele caos. Uma mulher de burca – o traje que cobre completamente o corpo da mulher, não permitindo que se vejam sequer seus olhos – entra no táxi carregando um bebê aí de uns cinco meses. Khaled reclama da burca da mulher, diz que não gosta de levar passageiras com burca – o traje, diz ele, pode esconder uma terrorista.

A mulher paga a corrida antecipadamente.

Num momento em que Khaled pára o carro, cercado por transeuntes que não o deixam avançar, a mulher desce rapidamente.

Um homem entra então no táxi. Andam um tanto, e o novo passageiro avisa Khaled que o filho dele está chorando.

Khaled entra em pânico ao perceber que a mulher havia deixado o bebê em seu carro. Apesar dos protestos do seu passageiro, volta atrás, até o local em que a mulher havia descido do táxi, tenta procurar por ela. Em vão.

Estamos aí com uns dez minutos de filme. Ao longo da uma hora e meia seguintes, acompanharemos Khaled em suas tentativas de encontrar alguém que queira ficar com o bebê que a mãe abandonou em seu táxi.

Não é propriamente um casal; o que se vê é um macho e sua serva, escrava

Enquanto se desenrola esse fiapinho de história, o espectador tem a oportunidade de conhecer um pouquinho dos costumes de uma família pobre na Cabul de hoje.

Khaled é casado; não se fala o nome de sua mulher (interpretada por Helena Alam). Têm cinco filhas, todas mulheres – quatro em escadinha, a mais velha aí por volta de uns 12 anos, e um bebê temporão. Ele gostaria de ter tido um filho homem – e há momentos em que parece que, não tendo outro jeito, não tendo para quem passar o bebê da mãe fujona, a família poderá criar mais aquele.

Junto com eles, vive também o pai de Khaled (interpretado por Mohammad Chafi Sahel).

Khaled e a mulher não se falam, não conversam, não se comunicam. Há apenas uma ou outra ordem que Khaled dá: quer isso, quer aquilo. Mas não há uma única conversa. O que se vê não é propriamente um casal, mas um macho e uma criada, serva, escrava.

Em uma determinada situação, Khaled diz para a mulher vestir a burca. Ela se espanta, mas entende a ordem: ah, é para ela sair de casa com ele – o que obviamente é algo raro, raríssimo.

Uma contradição, é claro: Khaled diz que não gosta de levar em seu táxi mulheres de burca, mas, na hora em que tem sair com a sua mulher, manda que ela vista a burca.

Também com as filhas Khaled é seco. Não chega a ser ríspido, grosseiro, mas é seco, e distante. Uma das meninas gostaria de ir com o pai para o terraço da casa, onde ele tem uma criação de pombos – mas ele não permite, diz que não é coisa para meninas.

Um machismo arraigado, secular, milenar.

Numa rara conversa com o pai, vemos que Khaled chegou a entrar na universidade, para cursar Medicina. Um irmão dele morreu, e o pai o obrigou a casar com a viúva. Essa revelação, que vem quando a narrativa já está adiantada, serve talvez para explicar para o espectador que o imenso distanciamento entre ele e a mulher não se deve apenas ao machismo: a verdade, parece, é que ele de fato não a ama. Casou-se por obrigação, porque o pai mandou.

Mais importância histórica, documental, que cinematográfica

O que eu acho é o seguinte: O Bebê de Kabul tem mais importância histórica, documental, ao mostrar a vida no Afeganistão de hoje, do que propriamente qualidade cinematográfica.

Onze de cada dez críticos de cinema provavelmente terão dito que O Bebê de Kabul é um belo, grande filme. Não é, não chega a ser. Isso se deve, creio, a viés ideológico: 15 entre cada 10 críticos de cinema tendem a ser bondosos, gentis, com os filmes feitos em países pobres, periféricos. Tendem a ver o mundo com um viés que acham que é marxista.

Não sou crítico de cinema, graças ao bom Deus. Já sou velho o suficiente para ter chutado muito balde na vida, e então digo, com todas as letras: O Bebê de Kabul tem qualidades, sim, mas é um filme chato, muito chato. E é feito na estética da pobreza, essa coisa que fascina desde sempre os franceses, essa vontade francesa de abarcar tudo quanto é cinematografia pobre, dos países miseráveis.

Acho que O Bebê de Kabul nos leva de volta até a Itália de 1948.

Em 1948, Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, chocava pela simplicidade, pela forma direta, sem frescura, de mostrar a dureza da vida na Itália que renascia após a guerra. Chocava, provocava, impressionava, encantava.

O frescor, a força, a simplicidade do neo-realismo italiano ecoaram nos cinemas francês, inglês, americano, brasileiro.

As mesmas características do cinema italiano dos anos 1940 e 1950 foram reproduzidas no Irã dos anos 1990, no breve interregno entre o rigor da revolução dos aiatolás de 1979 e a volta do rigor xiita do final dos anos 1990. E então o cinema iraniano assombrou o mundo.

E agora então, no ano da graça de 2008, vem aí um filme de um diretor afegão, com produção francesa, nos surpreender com aquilo que o neo-realismo italiano nos mostrava 70 anos atrás.

E então digo que O Bebê de Kabul é um filme de importância histórica, documental, pois com ele ficamos conhecendo um pouco da realidade afegã, mostrada pelos olhos de um diretor afegão.

Mas não é um grande filme.

Ao fim e ao cabo daqueles longos 97 minutos de filme, sobra uma sensação assim: temos que, todos os dias, nos ajoelhar em cima do milho, durante pelo menos uma hora, e agradecer aos deuses por não termos nascido no Afeganistão.

Anotação em março de 2012

O Bebê de Kabul/Kabuli Kid

De Barmak Akram, Afeganistão-França, 2008

Com Haji Gul Aser (Khaled), Valéry Schatz (Mathieu), Amélie Glenn (Marie), Mohammad Chafi Sahel (Baba, pai), Helena Alam (a mulher de Khaled)

Argumento e roteiro Barmak Akram

Fotografia Laurent Fleutot

Música Barmak Akram

Produção Fidélité Films, 4 à 4 Productions, Les Auteurs Associés, Afghanfilm, Canal+ .

Cor, 97 min

**1/2

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 27 maio 2012 às 8:35 pm | Permalink

    Fiquei admirada com os olhos desse bebê, toda vez que entro no site me chamam a atenção.

    Não tenho paciência pra ver filme chato, então me dou por satisfeita por ter lido seu texto; você resumiu tudo no último parágrafo. =)

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