Mulher Solteira Procura / Single White Female

Nota: ★★★☆

Parece que Mulher Solteira Procura não agradou muito à crítica. Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido no mundo, por exemplo, deu nota 2.5 em 4 e desceu o pau. No entanto, eu tinha uma boa lembrança dele – e gostei muito de revê-lo agora.

Me parece um dos bons filmes de suspense dos anos 90. E ele é bem anos 90.

Um bom filme de suspense, que beira o terror, mas aquele terror psicológico, sem absolutamente nada de sobrenatural. Tem um toque dos filmes claustrofóbicos de Roman Polanski, com boa parte da ação passada dentro de um apartamento – como Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary, O Inquilino.

Me fez lembrar também o clima agoniante de A Mão Que Balança o Berço, o grande filme de Curtis Hanson.

Pode até não ser tão bom quanto esses quatro filmes citados aí – mas tem uma pegada semelhante à deles.

E tem dois desempenhos extraordinários, assombrosos, admiráveis, de duas grandes, soberbas atrizes: Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh.

Começa suave, baixinho – e, como o Bolero de Ravel, vai subindo, subindo

Me lembrei do Bolero de Ravel. Como o Bolero, o filme do diretor Barbet Schroeder começa muito suave, bem baixinho. O primeiro sinal de estranheza vem – verifiquei o ponto exato – aos 31 minutos da narrativa. A partir daí as coisas vão se acelerando, a tensão vai aumentando, constantemente, sem parar.

Começa como uma doce, melosa história de amor. Allie e o namorado, Sam (Steven Weber), estão no belo apartamento dela, em Manhattan, o umbigo do mundo, trocando juras de amor. Falam em casamento – e quem traz o assunto à baila é ele, o macho, neste mundo em que os machos costumam fugir do compromisso, o commitment, feito diabo da cruz.

Allie vem na pele de Bridget Fonda, jovem, linda, faiscantes olhos azuis como os da tia, Jane, do pai, Peter, e do avô, Henry. No seu belíssimo livro de memórias, Jane Fonda confessa seu passado de bulimia, doença de que só iria se livrar já na maturidade. Me lembro disso agora porque, estranhamente, a sobrinha Bridget era – como se pode ver bem no filme – bem mais magricela do que a tia, que, jovem, tinha saudáveis, grossas, maravilhosas coxas.

As coxas de Bridget são belas, mas magrelinhas. Aparecem muito ao longo do filme, porque Allie, sua personagem, jovem designer de talento, então recém-chegada a Nova York, iniciando uma promissora carreira como autora de design de moda e também dos softwares para computador voltados para o comércio de roupas, é uma mulher que prima pela elegância, e usa minissaias um palmo ou mais acima dos joelhos.

Designer gráfica, criadora de softwares. Isso era novidade, em 1992, o ano da produção do filme.

Um acidente, e Allie ouve a ex-mulher do namorado dizer que haviam trepado

Mas então lá estão os namorados, pombinhos apaixonados, falando em casamento.

No meio da madrugada, toca o telefone – é a ex-mulher de Sam, de quem ele estava se separando, ou de quem já estava separado. Allie sai da cama, sai do quarto, vai para a sala de seu belo apartamento.

Acontece um pequeno problema: por um acaso qualquer, a secretária eletrônica da sala está acionada, e Allie ouve o que diz a mulher que àquela altura já deveria ser a ex de seu namorado. E a ex diz a ele algo do tipo: “Você não pode fazer isso comigo, vir aqui, dormir comigo, e depois sair e não atender aos meus telefonemas”.

Allie está bastante apaixonada por Sam, mas é uma mulher de vontades fortes, e não está disposta a manter uma relação com um homem que mente para ela. Bota Sam para fora de casa naquela madrugada mesmo, e vai ao andar de cima procurar o único ombro amigo de que dispõe na metrópole para onde se mudara havia pouco tempo, o de Graham (Peter Friedman), gente fina, solidário, bom caráter, gay assumido.

Aos 15 minutos de filme, Ally sela o compromisso de dividir o apartamento com Hedra. Tadinha

Exatamente como acontece em A Outra/Another Woman, o filme de Woody Allen de 1988, o apartamento em que Allie vive tem o incrível defeito de que tudo o que se diz nele pode ser ouvido no apartamento de cima, ou de baixo – um tubo de ventilação leva todos os ruídos de um para o outro. O espectador percebe esse pequeno detalhe bem cedo, no filme – muito antes de Allie.

Ela dividia o aluguel do belo, amplo apartamento de dois quartos e imensa sala, num grande prédio muito antigo, com Sam. Sem ele, precisará encontrar alguém para morar com ela. Publica um anúncio no jornal, o que dá o título do livro em que se baseia o filme, SWF Seeks Same, e que os produtores adaptaram para o significado da sigla, Single White Female.

Aparecem os mais variados tipos, mostrados em rápidas, bem justapostas tomadas. Nenhuma delas agrada a Allie. Num dia em que ela está deprimida, no meio do choro, com saudade de Sam, arrasada pelo fim do namoro, surge Hedra, o papel de Jennifer Jason Leigh.

Conversam. Hedra parece um doce de moça.

Aos exatos 15 minutos de filme, Allie sela a sociedade com Hedra apertando a mão dela.

Tadinha. Não poderia ter tomado decisão mais errada na vida.

No começo, tudo são flores. Dão-se bem, as duas.

Allie, uma apaixonada por filmes antigos, que vê sempre na TV, passará a chamar a companheira pelo apelido de Hedy, lembrança de Hedy Lamarr, a primeira atriz a aparecer no cinema em uma cena de nu frontal, em Êxtase, de 1933.

Quando estamos com 31 minutos de filme, Allie leva o primeiro susto.

E, a partir daí, o terror e a loucura vão crescer em espiral, exponencialmente.

Como em Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary, O Inquilino, A Mão Que Balança o Berço.

Duas atrizes maravilhosas, em desempenhos esplêndidos

Leonard Maltin diz que, na metade final, o filme parte para exageros. (Mais adiante transcrevo a resenha dele.) Sim, é verdade. Mas nada me pareceu absurdo, despropositado. Talvez porque a primeira metade seja tão extraordinariamente bem construída, e vá preparando o espectador para o fato de que virá barra pesada à frente.

Ou talvez porque essas duas ótimas atrizes estejam tão extraordinárias.

Dão um absoluto show, as duas.

Jennifer Jason Leigh é um talento absurdo. Não me lembro de filme algum com ela que não tenha uma grande interpretação. Está brilhante em Kansas City e Short Cuts, ambos de Robert Altman, em Eclipse Total/Dolores Claiborne, de Taylor Hackford, em Noites Violentas no Brooklyn/Last Exit to Brooklyn, de Uli Edel. Tem imensa facilidade para interpretar tipos estranhos, longe de qualquer “normalidade”, mulheres desajustadas, instáveis – em Noites Violentas no Brooklyn, por exemplo, faz o papel de uma prostituta que se apaixona por um cliente, em Short Cuts o de uma mãe de família que cuida dos filhos enquanto trabalha como telefonista de ligações sexuais, e em Kansas City, o de uma jovem desajustada, apaixonada por um bandidinho de quinta categoria que, em desespero, seqüestra a mulher de um chefão político.

Compõe com perfeição essa Hedy, que primeiro parece mansa, mas vai sendo cada vez mais dominada por suas obsessões, sua loucura.

E Bridget Fonda… Caramba, por que essa moça, descendente de uma das mais ilustres famílias de Hollywood, tão talentosa, além de tão linda, tão capaz de ter mil caras, trabalha tão pouco, faz tão poucos filmes? Tudo bem, é um direito que ela tem – mas como nós, espectadores, saímos perdendo…

Bridget Fonda brilha. Saltam faíscas de brilho quando ela está na tela – e ela está na tela quase o tempo todo. Seu rosto expõe uma gama imensa de emoções – alegria, frustração, desalento, destemor, pavor, irritação, força, desalento.

Segundo o IMDb, os produtores deram a Bridget Fonda o direito de escolher qual papel interpretar – o de Allie ou o de Hedy. A atriz teria dito que escolheu o de Allie por ser mais difícil.

Vejo também no IMDb que os últimos filmes de Bridget para o cinema foram em 2001. Em 2002, fez trabalhos para a TV – e depois disso, nada. (Bridget foi ferida num acidente de carro na Califórnia em 2003; no mesmo ano, casou-se – com Danny Elfman, o músico e compositor de diversas boas trilhas sonoras.)

Foi cuidar da vida. Está certa ela. Mas, para nós, é uma pena. Um absurdo.

Um desconhecido pode perfeitamente ser um doido, um assassino

Atração Fatal, feito cinco anos antes deste Mulher Solteira Procura, em 1987, foi tido, por muita gente, como um filme típico daqueles anos pós disseminação da aids. O personagem de Michael Douglas, homem casado, conhecia uma bela mulher (interpretada por Glenn Close), e sua vida virava um inferno. Disseram que Atração Fatal tinha uma mensagem adequada para os tempos da aids: não trepe com ninguém fora de casa, não trepe nunca com uma estranha, porque você nunca sabe o que pode acontecer depois de uma única puladinha na cerca.

Mulher Solteira Procura parecia dar recado semelhante – mesmo que não haja sexo envolvido: cuidado com quem você convida para dividir o apartamento; fique na sua; não se aproxime de estranhos.

Ou seja: o filme meio que acabou sendo taxado de paranóico, com mensagem paranóica, uma louvação do isolacionismo, do individualismo – não confie em estranhos, não confie em ninguém.

Isso tudo é uma bobagem, me parece. Até porque são demais os perigos desta vida mesmo, e é a mais absoluta verdade dos fatos que uma pessoa que você fica conhecendo poderá se revelar um louco, até mesmo um assassino.

Não acontece toda hora. Mas acontece, ora bolas. Por que não se pode contar uma história em que isso acontece?

Ativista de “movimento negro” poderá implicar com o nome do filme

Ao rever o filme agora, fiquei foi pensando que ele tinha, já em 1992, uma coisa que muitos americanos considerariam politicamente incorreta – muitos americanos e muitos brasileiros, já que muitos de nós adoram imitar essa bobagem americana do politicamente correto.

O politicamente incorreto é o próprio título do romance, e também do original do filme. Mulher solteira branca procura idem. Mulher solteira branca. Não faltarão ativistas dos tais movimentos negros para dizer que isso aí é racismo.

Disseram que é um slasher movie. Slasher é o cacete

Os créditos finais do filme rolam ao som de uma canção de Vangelis e Jon Anderson, State of Independence, cantada por Chrissie Hynde, a líder e fundadora dos Pretenders. Leonard Maltin usou esse fato para acabar de espinafrar com o filme. Diz ele:

“Mulher de carreira em Nova York (Bridget Fonda), seu noivado kaput, acaba compartilhando seu apartamento de sonhos com a Colega do Inferno. Persona se encontra com a obra inteira de Roman Polanski em thriller com boas atuações que é sensacional por cerca de uma hora – até que a tolice habitual dos filmes slasher se impõe. A primeira investigação psicológica do mundo do cinema embalada por um vocal de Chrissie Hynde. Baseado na novela de John Lutz, SWF Seeks Same.”

Roger Ebert, um critico que acima de tudo ama os filmes, e faz textos muito longos e, em geral, mais sérios e profundos do que Maltin, dá 3 estrelas em 4. Ele também considera que Mulher Solteira Procura é um slasher movie – e slasher é aquele subgênero de filmes de terror extremamente sanguinários, com cenas de sangue esguichando da carótida, que fazem a delícia de muitos adolescentes. Ele termina sua crítica assim:

“Faz muito tempo que adotei uma forma de avaliar os filmes como exemplos daquilo que eles aspiram ser. Nenhum gênero é além da redenção ou abaixo do desprezo, e aqui o gênero slasher se faz presente com fortes atuações e direção. Naturalmente, você pode desprezar filmes assim, mas isso é outro tema.”

Eu jamais chamaria Mulher Solteira Procura de um slasher movie. Sim, ele tem exageros na sua segunda metade, como eu anotei lá em cima. Muitos exageros. Mas está muito acima do slasher. É um thriller psicológico, com uma violência exagerada nos momentos finais – mas não é um slasher.

Até porque o diretor e roteirista é Barbet Schroeder, bom realizador, autor de filmes para público adulto, não para adolescentes fascinados por sangue esguichando. Isso não é garantia absoluta de nada, mas, pô, o cara estudou psicologia na Sorbonee, e sua filmografia inclui Barfly – Condenados pelo Vício, o ótimo O Reverso da Fortuna, e ainda o seriíssimo documentário O Advogado do Terror.

Maltin e Ebert que me perdõem, mas, como diria o Ancelmo Gois, slasher é o cacete – com todo respeito.

Anotação em novembro de 2011

Mulher Solteira Procura/Single White Female

De Barbet Schroeder, EUA, 1992

Com Bridget Fonda (Allison Jones), Jennifer Jason Leigh (Hedra Carlson), e também Steven Weber (Sam Rawson), Peter Friedman (Graham Knox), Stephen Tobolowsky (Mitchell Myerson)

Roteiro Don Roos

Baseado no romance SWF Seeks Same, de Jon Lutz

Fotografia Luciano Tovoli

Música Howard Shore

Produção Columbia Pictures. DVD Sony.

Cor, 107 min

R, ***

2 Comentários para “Mulher Solteira Procura / Single White Female”

  1. Concordo com tudo que você escreveu, esse filme é muito envolvente… poréeeeem… só discordo de uma coisa: acho SIM meio racista colocar um anúncio dizendo que procura por uma pessoa branca pra dividir apartamento, hahauhuaa. Mas não acho que o filme seja racista, claro que não. É apenas um reflexo de um hábito que tem origem em uma sociedade preconceituosa. Mas nada disso estraga o filme.

  2. Concordo com tudo.E nem chega a ser politicamente incorreto, pois ela tem que identificar sua etnia por lá, por ser costume deles.

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