Minha Quase Verdadeira História / Mein Führer – Die wirklich wahrste Wahrheit über Adolf Hitler

Nota: ★★★½

A sensação que se tem é de que Minha Quase Verdadeira História é um filme feito com ódio. Indignação, revolta e um profundo ódio – de Hitler, do nazismo, e do fato de os alemães terem permitido que aquele horror existisse.

É uma sátira violentíssima, virulenta, exagerada, propositadamente exagerada, caricatural a não mais poder. Passa muito longe do “naturalismo”, do “realismo”, em tudo por tudo, a começar pela forma de interpretação dos atores. É uma trama da mais pura e tresloucada ficção, naturalmente, sem correspondência com fatos históricos. No entanto, o retrato de Hitler e do Reich que o roteirista e diretor Dani Levy constrói expressa – da forma mais corrosiva e irreal que se poderia conceber – a mais pura verdade.

A mais pura verdade: na pátria da racionalidade, um louco varrido assumiu o poder. Foi idolatrado pelas massas, cercou-se de uma camarilha, construiu uma poderosa máquina de guerra e promoveu uma das maiores tragédias de toda a história da humanidade, que resultou em mais de 70 milhões de mortes.

Um louco varrido, furioso. É assim que Minha Quase Verdadeira História mostra Adolf Hitler – interpretado por um ator, Helge Schneider, que não economiza caretas e exageros. Um louco varrido, furioso, que, no finalzinho de 1944, já não controla nada, não chefia nada – vive num bunker que é um universo de ficção, de faz de conta. Finge para si próprio que é o grande chefe do Reich que durará mil anos, mas na verdade é controlado pelo seu homem forte da área de propaganda e marketing, Joseph Goebbels (Sylvester Groth). Goebbles é o titeriteiro, o manipulador do jogo de marionetes, e Hitler é o boneco principal da encenação.

Finge para si próprio que ainda é o grande Führer – o condutor, o guia, o líder, o chefe –, mas às vezes até parece que nem mesmo ele acredita.

O Hitler de Dani Levy, na pele de Helge Schneider, é um louco patético, grotesco, perseguido pelas lembranças da infância cruel, quando apanhava sem parar do pai autoritário, tirânico. Tem ódio dos judeus por temer o sangue judeu do pai do pai. Acorda de seus pesadelos depois de mijar no ridículo pijama-combinação. Broxa em cima de uma Eva Braun que morre de medo dele. Nem isso o retrato tresloucado de Dani Levy poupou: seu Hitler tem um pintinho pequeninho.

O Hitler insano e impotente do filme berra no meio da madrugada que quer comer uma batata – e umas 20 pessoas do bunker são acionadas para providenciar a batata para o Führer –, mas, quando ele exige um carro para andar por Berlim, Goebbels manda os oficiais que guardam o bunker explicar que o carro está no conserto, e o passeio não poderá ser feito.

Um judeu para treinar o discurso de Hitler

A história que Dani Levy – um suíço radicado na Alemanha – criou para sua sátira demolidora é basicamente assim:

Em dezembro de 1944, todo o alto comando nazista já dava a guerra como perdida; do Oriente, as tropas do Exército Vermelho avançavam pelos países que haviam sido conquistados pelo Reich, como Tchecoslováquia, Polônia; do Ocidente, vinham as demais tropas aliadas, de Inglaterra, Estados Unidos e a França não ocupada; a aliada Itália já havia caído. E então Goebbels teve a idéia de botar Hitler para fazer um discurso ao povo alemão no primeiro dia do ano novo, um discurso que precisaria ser histórico, forte, convincente, que enchesse o povo de uma moral forte, uma exortação à resistência heróica para tentar mudar o curso da guerra.

Mas, para isso, seria necessário treinar Hitler – então aquele traste dominado pela loucura, sem a força oratória de antes. Goebbels sabia de um homem que poderia fazer Hitler interpretar o papel do Hitler dos anos anteriores: um famoso, talentoso ator, que havia trabalhado como professor do ditador antes de ele tomar o poder. O homem se chamava Adolf Grünbaum, era judeu e estava preso com a família em um campo de concentração.

Grünbaum é interpretado por Ulrich Mühe (à direita na foto acima), o ator que fez o papel do oficial da Stasi, a polícia política da Alemanha Comunista, em A Vida dos Outros. Ulrich Mühe brinda os espectadores com outro desempenho brilhante.

O filme mostra um período de insanidade coletiva; usa o surreal para demonstrar o absurdo

É afiada, cortante, a sátira que o filme faz da burocracia da Alemanha nazista. Todo Estado forte, totalitário, afunda-se na burocracia – e Minha Quase Verdadeira História repete as seqüências hilariantes em que os diversos aparelhos do Estado, o Exército regular, a SS, a Gestapo, exigem uns dos outros papéis, carimbos, autorizações, assinaturas.

A saudação “Heil, Hitler”, exigida em todas as instâncias e repetidas ad nauseam, é motivo de situações ridículas, grotescas – e engraçadas, às vezes engraçadíssimas.

Situações engraçadas, engraçadíssimas? Como assim?

Pois é. A intenção do filme – me pareceu – é fazer uma sátira escrachada, que leve à gargalhada, mas também, é claro, à reflexão.

A história louca, irracional, implausível, os atores em atuações exageradas, caricatas, a trilha sonora que mistura um tom marcial com uma veia cômica – tudo é concebido para mostrar que aquele foi um período de insanidade coletiva. Usa-se o quase surreal para demonstrar que tudo aquilo foi louco, insano, inadmissível por mentes lúcidas.

Algo que não teve, não tem hoje, não terá no futuro qualquer explicação racional simples. Que não seremos jamais capazes de compreender. Que os alemães jamais serão capazes de compreender, explicar.

Um filme feito para colocar a pergunta que não tem resposta: como os alemães permitiram tudo aquilo?

Minha Quase Verdadeira História é uma produção de 2007. Foi lançado, portanto, apenas três quatro anos depois do seriíssimo A Queda! As Últimas Horas de Hitler/Der Untergang, de Oliver Hirschbiegel, com o grande, veterano Bruno Ganz no papel de Hitler. Não podem haver filmes de estilos mais diversos um do outro. Enquanto este filme aqui é uma ficção louca, uma sátira feroz, A Queda! é o mais realista possível, baseia-se no que se conseguiu apurar a respeito dos últimos momentos do ditador em seu bunker.

Antípodas na forma, no tom, na abordagem da História, os dois filmes são extremamente próximos em seu objetivo: manter viva a lembrança daquele horror. Não permitir que aquilo tudo caia no esquecimento.

Talvez mais ainda que A Queda!, o filme de Dani Levy parece feito para inquietar, para chacoalhar a memória coletiva do povo alemão – e do resto do mundo também, é claro. E, sobretudo, para fazer mais uma vez a pergunta que não tem resposta, mas que tem que ser repetida o maior número de vezes possível: como foi que os alemães permitiram tudo aquilo?

No mesmo ano de A Queda!, 2004, o cinema alemão produziu Operação Valkiria/Stauffenberg, que reconstitui, também com a maior fidelidade aos fatos históricos, a tentativa, por oficiais do exército alemão, de assassinar o ditador, em 1944, e com isso apressar o fim da guerra e poupar algumas centenas de milhares de vida. No filme alemão, que os americanos desnecessariamente refariam com Tom Cruise, o oficial Stauffenberg é interpretado por Sebastian Koch – o mesmo ator que faria, em A Vida dos Outros, o intelectual que é vigiado pelo policial da Stasi interpretado por Ulrich Mühe.

Lançado em 2005, Uma Mulher Contra Hitler / Sophie Scholl – Die Letzten Tage mostra que houve, sim, tentativa de resistência ao nazismo, brutalmente esmagada.

Além de belas obras de arte, esses quatro filmes mais ou menos recentes, A Queda!, Operação Valkiria , Uma Mulher Contra Hitler e este Minha Quase Verdadeira História são, na minha opinião, importantíssimos. Assim como são importantíssimos também os livros O Leitor/Der Vorleser, de Bernhard Schlink, publicado originalmente em 1995, e O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, de 2006, ambos transformados em filmes. Boyne é irlandês, mas tanto o livro O Leitor quanto os quatro filmes citados acima são alemães, o que demonstra que o país tem produzido grandes obras com esse propósito fundamental de não deixar que caia no esquecimento a absurda tragédia do nazismo – da mesma maneira que A Vida dos Outros serve para que nos lembremos sempre do absurdo que foi a ditadura comunista na Alemanha do Leste, entre 1945 e 1989.

Dezenas, centenas de livros e filmes falaram e falam do horror que foi o nazismo – mas a imensa maioria deles era de autoria de artistas dos países que combateram o regime hitlerista. São extremamente bem-vindos estes de agora, feitos por alemães.

Assim como são e serão bem-vindos sempre os bons filmes que nos lembrem do horror que foi o regime comunista na União Soviética e seus satélites.

Diversos filmes denunciando o absurdo do regime comunista têm sido feitos nos últimos anos nos países que se libertaram das ditaduras impostas pela União Soviética. A Romênia tem nos dado belíssimos filmes, Contos da Era Dourada, A Leste de Bucareste, Casamento Silencioso; vi pelo menos um da Geórgia, extraordinário, Os 27 Beijos Perdidos. Um diretor romeno radicado em Paris, Radu Mihaileanu, fez uma beleza de filme contra o nazismo, Trem da Vida, e outra beleza de filme contra o comunismo, O Concerto.

E é fascinante ver como vários deles, ou quase todos, têm o mesmo traço marcante deste Minha Quase Verdadeira História: um profundo, profundo, profundo ódio do totalitarismo agora derrotado.

Não dá para falar da crueldade das ditaduras com suavidade.

Anotação em janeiro de 2012

Minha Quase Verdadeira História/Mein Führer – Die wirklich wahrste Wahrheit über Adolf Hitler

De Dani Levy, Alemanha, 2007

Com Helge Schneider (Adolf Hitler), Ulrich Mühe (Adolf Grünbaum), Sylvester Groth (Joseph Goebbels), Adriana Altaras (Elsa Grünbaum), Stefan Kurt (Albert Speer), Ulrich Noethen (Heinrich Himmler), Udo Kroschwald (Martin Bormann)

Argumento e roteiro Dani Levy

Fotografia Carl-F Koschnick e Carsten Thiele

Música Niki Reiser

Produção Arte, Bayerischer Rundfunk, Westdeutscher Rundfunk, X-Filme Creative Pool, Y Filme Directors Pool. DVD Europa Filmes.

Cor e P&B, 89 min

***1/2

Título em inglês: Mein Führer: The Truly Truest Truth About Adolf Hitler

 

Um Comentário

  1. Dininha Torres Luize
    Postado em 31 agosto 2012 às 5:21 am | Permalink

    A primeira vez que eu vi este filme, com minha filha, ri desbragadamente.
    Depois o revi, com meu filho, mas com outro olhar.
    É uma comédia triste, pois a loucura não poupa nem as próprias vítimas. Caso do personagem Adolf Grünbaum, judeu que sabe que terá o mesmo fim de seus semelhantes, mas não consegue resistir ao “carisma” do ditador, mesmo sabendo que ele é uma farsa, e acaba por sentir simpatia e pena do desgraçado, embora que sua mulher consiga se manter lúcida na mesma situação.
    O filme é um primor, inegavelmente!

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