Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual / Medianeras

Nota: ★★★★

Medianeras é uma obra-prima. Destas gemas raras, que soltam faíscas de brilho, assim como outras da mesma estirpe: Todas as Mulheres do Mundo, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, (500) Dias com Ela.

Antes de mais nada, Medianeras é um filme extremamente inteligente. O talento sobra, excede, sai pelo ladrão. O texto é um primor, uma delícia, puro encantamento. Quem gosta de texto, aprecia, curte, admira, vai babar. Quem vive de texto, também, da mesma forma – com o risco de, além de babar, ficar com uma certa inveja por não ter escrito aquilo.

Eu confesso que fiquei.

E esse Gustavo Taretto, filho da mãe, uniu seu texto brilhante a imagens à altura dele.

Texto brilhante, imagens estrondosamente belas, uma história interessante, gostosa, contada de forma esperta, pessoal, cheia de belas sacadinhas, invencionices, criativóis. Atores incrivelmente bem dirigidos, excelentes. Trilha sonora gostosa.

Precisa mais?

Aleluia, Gustavo Taretto!

Um dos filmes que foram mais fundo no retrato da solidão das pessoas das metrópoles

Medianeras – assim como aqueles três excelsos, augustos filmes citados no primeiro parágrafo, de autoria respectivamente do brasileiro Domingos Oliveira, do francês Jean-Pierre Jeunet e do americano Marc Webb – é uma prova cabal de que uma comedinha romântica pode perfeitamente ser genial. Tão obra de arte quanto um drama existencial de Ingmar Bergman, um épico de David Lean, um western de John Ford, um libelo anti-corrupção de Satyajit Ray.

É verdade que acaba também servindo para que a gente não tenha muita paciência com comedinhas românticas menores, destituídas de inteligência, inventividade, como tantas que o cinemão comercial produz ais borbotões, feito a indústria produz sabonete, tipo o francês Enfim Viúva, o espanhol Dieta Mediterrânea, o brasileiro A Mulher do Meu Amigo ou o americano Casa Comigo?, só para citar alguns exemplos.

Claro: Medianeras, assim como os filmes de Domingos, Jeunet e Marc Webb, é muito mais que uma comedinha romântica. É comedinha romântica, sim – mas é mais.

Dos filmes que já vi (e já vi alguns), Medianeras é um dos que mais fundo foram no retrato da solidão das pessoas nas metrópoles, e na neo-solidão do planeta tornado aldeiazinha global pela internet, em que todos falam com todo mundo a toda hora – à distância, à mais fria distância.

Medianeras é Buenos Aires até a medula – mas é quando um autor escreve sobre sua aldeia que ele se torna universal. São Paulo é como o mundo todo, no mundo um grande amor perdi, escreveu o gênio baiano. A Buenos Aires de Gustavo Toretto nunca se pareceu tanto com São Paulo – e com Nova York, Berlim, Moscou, Londres, Los Angeles, Chicago, ou até mesmo com Paris, San Francisco e Rio de Janeiro, que são lindas, estas últimas, mas são metrópoles do mesmo jeito, aglomerada solidão, como escreveu outro baiano que ao falar da aldeia ficou universal.

Aglomerada solidão. A solidão das pessoas dessas capitais, os humilhados do parque com os seus jornais, como escreveu um cearense. Fortaleza hoje, com seus três milhões de habitantes, deve estar bem parecida com a Buenos Aires que Medianeras mostra.

Ele teve síndrome de pânico, ela padece de claustrofobia. São nervosos, neuróticos

Martín e Mariana, os protagonistas da história, não chegam a ser humilhados do parque. São classe média, como o protagonista que Caetano criou em “Alegria, Alegria”, sem fome, sem telefone no coração do Brasil. Na época de “Alegria, Alegria”, telefone, coisa de empresa estatal, era bem de poucos. Hoje há mais telefones que pessoas, e então Martín e Mariana são sem fome, com telefone, com computador, com internet, com apartamento (pequenos, minúsculos, é verdade), mas padecem de solidão, ansiedade, insônia, stress. São nervosos e neuróticos, como o título brasileiro de Annie Hall de Woody Allen – como tanta gente solitária destas capitais, aglomerada solidão.

Ele teve síndrome de pânico, ela padece de claustrofobia.

Ele é informático, criador de sites. Fica diante do computador 20 horas por dia. Ela é arquiteta, mas ainda não construiu nada – trabalha como decoradora de vitrines, e nas horas vagas se entristece mais do que se diverte com os manequins que usará nas vitrines nas quais trabalhará a seguir.

Ele foi abandonado pela namorada, que foi passear nos Estados Unidos e nunca mais voltou, deixando com ele a cachorrinha, ela também estressada, solitária, anti-social.

Ela tentou manter de pé um relacionamento de quatro anos, que se desfez como um castelo de cartas, à falta de cimento, de liga, nem que fosse uma liga feita de cuspe.

Ele tenta encontros insatisfatórios. Ela tenta encontros insatisfatórios.

No meio de um desses encontros, Martín diz para o espectador que encontrar uma mulher que se conheceu pela internet é como ir ao McDonald’s. Nas fotos, tudo é lindo, apetitoso – à primeira mordida, toda a magia se desfaz.

Eta texto bom desse Gustavo Taretto, meu Deus do céu e também da terra.

(Uma coincidência a ser notada, já que me gustan las coincidências: há outro filme argentino mais ou menos recente em que a namorada vai para os Estados Unidos e abandona o namorado – Não é Você, Sou Eu, de 2004.)

Martin e Mariana se cruzam pelas ruas diversas, diversas vezes – e não se vêem

Como em A Fraternidade é Vermelha de Kieslowski, e exatamente como em Toda uma Vida de Lelouch (aposto com quem quiser que Taretto viu ambos os filmes), as trajetórias de Martín e Mariana vão correndo paralelamente – e as paralelas, diz a matemática (ou seria a física?), só se encontram no infinito.

Eu costumava dizer que as coincidências da vida, as pequenas trapaças do destino são lelouchianas, porque Lelouch, mais que Kieslowski, mais até mesmo que Jacques Demy, se especializou em brincar com as coincidências, as pessoas que não se vêem, não se conhecem, e no entanto estão muitas vezes no mesmo lugar, cruzando-se nas ruas. Se tivesse nascido uns 40 anos mais tarde, provavelmente chamaria as coincidências de tarettianas.

Gustavo Taretto exacerba nas coincidências. Martín e Mariana se cruzam na vida diversas vezes, diversas, diversas – sem que no entanto um veja o outro. Taretto chega ao cúmulo de, em uma tomada em que os dois se encontram aguardando a abertura de um sinal de trânsito, traçar um coração unindo as duas cabeças, a de Martín e a de Mariana, que no entanto estão voltadas cada uma para um lado da rua que pretendem atravessar.

Nisso, nesse detalhe específico de se criar um desenho feito à mão em cima de uma cena, Medianeras se aproxima fragorosamente de Todas as Mulheres, de Amélie Poulain e de (500) Dias Com Ela.

Deste último, Medianeras se aproxima especialmente, porque, assim como Mariana, Tom Hansen, o protagonista de (500) Dias com Ela, é arquiteto; os dois filmes falam muito sobre arquitetura, os prédios da metrópole – e sobre as imagens da cidade traçam-se desenhos de arquitetos.

Ao dizer isso, não estou fazendo, pelamordedeus, qualquer denúncia de plágio, de cópia. De forma alguma. Estou apenas chamando a atenção para as coincidências. Posso apostar que Taretto, assim como viu Kieslowski e Lelouch, também viu o filme Marc Webb, muito possivelmente mais de uma vez, mas isso seria apenas uma prova de bom gosto.

Uma homenagem explícita, escarrada, a Manhattan

Manhattan, de Woody Allen, é óbvio que Taretto viu e reviu muitas vezes. Nesse caso nem é preciso apostar, porque Taretto nos mostra uma sequência de Manhattan, enquanto Martín e Mariana também vêem o filme espetacular, cada um no seu pequeno apartamento, sua caixa de sapatos. A seqüência de Manhattan que Martín e Mariana estão vendo, e que nós também vemos, é a do finalzinho: close-up de Woody Allen-Isaac e close-up de Mariel como é bela, meu Deus do céu e também da terra Hemingway-Tracy, ele pedindo que ela não vá para Londres, ela dizendo que ele poderia ter dito aquilo alguns dias antes, que vai, mas volta – e a gente está cansado, exausto, exaurido de saber que ali acabou o que poderia ter sido uma grande história de amor.

Uma janela na parede. Em um filme, razão de drama pesado; neste aqui, deliciosos momentos

Um parênteses para falar de uma não coincidência. E, aproveitando, para falar do título.

No mesmo ano em que Medianeras entrava em pré-produção, 2009, o cinema argentino lançava O Homem do Lado/El Hombre de al Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat. O Homem do Lado também é um filme sobre a vida na grande cidade – mas, muito diferentemente de Medianeras, é um drama, e pesadíssimo. Um dos personagens é um arquiteto, e vive numa casa que é xodó dos alunos de arquitetura, a única casa idealizada por Le Corbusier construída na América Latina.

Todo o imenso drama de O Homem ao Lado se dá porque, à procura de mais luz em seu apartamento, um homem quebra um pequeno trecho de uma parede, para fazer ali uma janela.

Martín e Mariana fazem, cada um no seu apartamento, uma janela numa parede em que antes não havia janelas, e nem poderia haver.

As janelas que os protagonistas abrem ficam na medianera – a parede que não é a da frente nem da traseira do apartamento, a parede lateral dos prédios. Desconheço uma palavra na língua portuguesa para identificar a parede lateral dos prédios.

Um dos títulos que o filme teve em inglês foi Sidewalls – paredes laterais.

No Brasil, o filme foi exibido como Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual, e não foi uma invencionice apenas dos exibidores brasileiros. Em inglês, outro título do filme foi Medianeras: Buenos Aires in Times of Virtual Love.

Mas é interessante que a mesma ação – abrir uma janela numa parede – tenha resultado em um grande drama num filme, e aqui resulte em cenas belíssimas, engraçadas, gostosas.

O ator que faz Martin está começando, a atriz que faz Mariana é veterana

Martín é interpretado por Javier Drolas. Nunca tinha visto antes, e vejo agora que sua filmografia está só começando. Faz maravilhosamente o Martín que ganha a vida na internet e nas horas vagas também fica na internet, e é mais nervoso e neurótico do que os personagens de Woody Allen.

Mariana vem na pele de Pilar López de Ayala. É uma mulher bela a não mais poder, só que é seculovintemente magra, que nem uma biafrenta, que nem uma modelo anoréxica antes de a Vogue mundial decretar que não publicará mais modelos anoréxicos.

Se Javier Drolas tem filmografia bem curta, a de Pilar López de Ayala é bastante grande. Espanhola de Madri, nascida em 1978 (credo, três anos depois que minha filha!), tem 27 títulos no currículo, iniciado em 1995, quando ela estava, portanto, com 17 anos.

O rapaz com poucos filmes e a moça com muitos trabalham extraordinariamente bem.

Uma abertura esplendorosa – belíssimas imagens de prédios, e um texto fascinante

Acho que Gustavo Taretto viu Lelouch, viu Kieslowski, deve seguramente também ter visto muito Jacques Demy, mas o que ele viu muitas vezes antes de escrever este filme maravilhoso foi sem dúvida Manhattan.

Para mim, Gustavo Taretto ficou vendo Manhattan e pensando em como fazer a abertura de um filme que fosse tão brilhante quanto a de Manhattan.

O puto conseguiu.

A abertura de Medianeras é esplendorosamente genial.

Como em Manhattan, imagens da cidade. Primeiro, e rapidamente, tomadas amplas, gerais. Depois, detalhes de prédios. Uma montagem extremamente ágil, esperta, inteligente, de tomadas de prédios, pedaços de prédios, detalhes de prédios. E a voz em off do protagonista vai falando um texto absurdamente bem construído, bem sacado, bem elaborado, a respeito da arquitetura da grande cidade e da vida dentro daqueles prédios.

Ao ver o filme, pensei que iria depois me sentar diante dele e ter o trabalho de copiar o texto genial de abertura, para botar aqui.

Por preguiça, não degravei o texto.

Mas talvez tenha sido melhor. Se tivesse degravado, se tivesse anotado tudo o que a voz em off de Martín vai falando sobre os prédios, a cidade, as pessoas nesta era internética, a) eu tivesse tido um ataque de depressão por não ter jamais escrito algo tão brilhante, e b) eu tivesse tirado a oportunidade de um eventual leitor desta anotação de se deleitar com o texto tal qual ele vem, de surpresa, no filme. E, se houver ainda um eventual leitor que tenha chegado até aqui neste texto, faço a ele o apelo: veja o filme.

Onde Está Wally? E “Ain’t no mountain high enough”

Dois detalhinhos.

A sacada de fazer com que Mariana seja uma apaixonada por Onde Está Wally? é uma beleza.

Os cartazes, a capa do DVD do filme inspiram-se em Onde Está Wally? E são a perfeita tradução da idéia da aglomerada solidão.

Quando o filme terminou, fui checar o nome da música com que a história se fecha, “Ain’t no mountain high enough”. É um absurdo, mas eu não conhecia essa canção, composta pela dupla Nickolas Ashford-Valerie Simpson, tremendo sucesso de Marvin Gaye e Tammi Terrell, 19 semanas na lista dos mais vendidos da Billboard em 1967. Delícia absoluta de pop da Motown. Ouvi a música diversas vezes, sem parar, no YouTube. Merece um texto à parte.

Delícia que um filme argentino de 2011 homenageie uma canção da usina de sons de Detroit de 1967. O que é bom fica.

E, finalmente, Gustavo Taretto, ex-fotógrafo, redator de publicidade, cineasta de talento

Escrevi toda esta anotação até aqui sem ler absolutamente nada sobre quem é, afinal de contas, esse Gustavo Taretto.

É jovem, como eu imaginava. Nasceu em Buenos Aires, em 1965. Tinha, portanto, 46 anos quando Medianeras foi lançado. Mais jovem que Jeneut quando ele lançou Amélie Poulain – o francês estava com 48. Woody Allen tinha 42 quando fez Manhattan. Marc Weber tinha 35 quando fez (500) Dias com Ela. Domingos Oliveira, mais precoce ainda, tinha 31 ao fazer Todas as Mulheres do Mundo.

Taretto estudou fotografia, e há 20 anos trabalha como redator em uma agência de publicidade.

Medianeras é seu primeiro longa. Antes, havia feito cinco curtas – e o terceiro deles, de 28 minutos, chamava-se Medianeras.

“Em 2004 escrevi o curta Medianeras e o filmei em 2005”, contou o realizador em entrevista para a revista da 2001 Vídeo, de São Paulo. “Ele foi premiado em todo o mundo e fiquei encantado com a maneira como tocava o coração do público, com o entusiasmo que despertava nas pessoas. Foi exatamente isso que me levou a seguir explorando a mesma idéia. Utilizei a estrutura narrativa e o tema, seguindo essa ordem. Se houvesse utilizado somente o tema teria escrito outra história, mas preferi continuar trabalhando sobre essa estrutura, que me permitiu desenvolver uma convivência harmoniosa entre a comédia romântica, uma reflexão quase documentária sobre Buenos Aires e um ensaio sobre a vida moderna nas grandes cidades. Por outro lado, me incomodava a redondeza do curta. Os personagens eram funcionais e aparecia apenas seu lado corajoso, sem nuances. O que mais me entusiasmou ao transformá-lo em longa foi a necessidade de aprofundar os personagens e humaniza-los, mostrando suas fraquezas e conflitos.”

Talento. O cara tem talento – de sobra.

Anotação em julho de 2012

Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual/Medianeras

De Gustavo Taretto, Argentina-Espanha-Alemanha, 2011

Com Javier Drolas (Martín), Pilar López de Ayala (Mariana),

Inés Efron (Ana), Adrián Navarro (Lucas), Rafael Ferro (Rafa), Carla Peterson (Marcela), Jorge Lanata (o médico), Alan Pauls (ex de Mariana), Romina Paula (ex de Martin)

Argumento e roteiro Gustavo Taretto

Fotografia Leandro Martínez

Música Gabriel Chwojnik

Produção Eddie Saeta S.A., Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), Pandora Filmproduktion, Rizoma Films, Televisió de Catalunya (TV3), Zarlek Producciones. DVD Imovision

Cor, 95 min

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