Maverick

Nota: ★★★☆

Maverick é uma daquelas arrematadas bobagens deliciosas, extremamente agradáveis de se ver. É totalmente contra-indicado para mal-humorados em geral e para a turma de nariz empinado e papo-cabeça em particular. Para o resto da humanidade, é uma ótima diversão.

Tínhamos visto o filme em 1995, Mary e eu, não muito depois de seu lançamento, em 1994. Na época, tasquei nele duas estrelas e anotei duas linhas: “Gostosinho, bem feitinho, embora descartavelzinho, é claro. Não fez sucesso, mas merecia.”

Gostamos muito mais agora, na revisão.

E não sei exatamente de onde tirei, na época, que o filme não fez sucesso. Devo ter lido a informação em algum lugar. Aparentemente, não foi, de fato, um sucesso de crítica, mas teve boa bilheteria – US$ 183 milhões, segundo o site especializado Box Office Mojo.

Uma comédia escrachada, que não se leva a sério e beira as loucuras de Mel Brooks

A série de TV Maverick, criada por Roy Huggins, foi produzida entre 1957 e 1962. James Garner fazia o papel do protagonista, Bret Maverick, um almofadinha, extraordinário jogador de pôquer no Velho Oeste. A série que teve milhares e milhares de fãs entusiasmados.

O roteiro do filme, que usa o mesmo personagem da série de TV em uma trama inteiramente nova, é de autoria de William Goldman, o mesmo de Butch Cassidy and the Sundance Kid, o delicioso western com Paul Newman, Robert Redford e Katharine Ross de 1969. Autor de 29 roteiros, vencedor de dois Oscars, por Butch Cassidy e Todos os Homens do Presidente, Goldman sabe muito bem, portanto, como unir western e humor.

Só que aqui ele foi muito fundo na comédia do que no hoje clássico filme de 1969. Soltou a franga – Maverick é uma comédia escrachada, sem vergonha de fazer rir com piadas às vezes bobas, juvenis, mas também com belas tiradas, diálogos inteligentes, irônicos. Às vezes o clima do filme beira as loucuras de Mel Brooks.

Definitivamente, é um filme que não se leva a sério. É pura diversão, farra.

James Garner, que fazia o Maverick da TV, aqui é o xerife Zane Cooper

O diretor Richard Donner e Mel Gibson – que interpreta Maverick – se entendiam à perfeição; tinham feito juntos os três filmes da série Máquina Mortífera, entre 1987 e 1992. Para homenagear a série de TV que inspirou o filme, Donner colocou diversos atores do Maverick original para fazer pequenos papéis. Atores que haviam trabalhado em outras séries de TV também tiveram participações especiais, assim como um bom número de cantores country: Carlene Carter, Waylon Jennings, Hal Ketchum, Vince Gill, Clint Black, Kathy Mattea.

E, claro: na maior homenagem possível à série original, o filme tem James Garner, o Maverick da TV, no terceiro papel mais importante, o do xerife Zane Cooper.

Entre Maverick-Mel Gibson e o xerife Cooper-James Garner está Jodie Foster. E ela é uma das melhores coisas deste filme cheio de coisas boas.

Jodie Foster é um daqueles talentos que soltam faísca. Criança prodídio, atriz extraordinária, diretora de poucos mas ótimos filmes, está no auge da beleza como Annabelle Bransford, jogadora de pôquer, malandra em tempo integral, ladra sempre que pode.

Artista séria, atriz e diretora de filmes pesados, parece inteiramente à vontade nesta comédia descompromissada. Exatamente como Mel Gibson, que vinha de uma série de dramas e filmes de ação.

Estavam os dois no topo de suas carreiras, na época do filme. Ela havia estreado na direção três anos antes, com Mentes Que Brilham/Little Man Tate, um filme sério sobre uma criança superdotada. Ele também havia começado a dirigir um ano antes de fazer Maverick, com O Homem Sem Face/The Man Without a Face, drama pesado sobre o relacionamento entre um garoto de 12 anos e um ex-professor solitário e recluso.

Jodie Foster continuaria brilhando em tudo em que encosta a mão. Exigente, cuidadosa, tem uma filmografia bem mais rala que muitos atores de sua geração – e em geral escolhe bem seus papéis.

Mel Gibson se meteria em encrencas tanto por causa de seu comportamento quanto por seus filmes. Foi preso por dirigir bêbado, seu A Paixão de Cristo despertou imensa polêmica – e ele, que havia sido um imenso astro nos anos 80 e 90, virou um Judas em quem a imprensa voltada para celebridades adora descer a lenha.

Continuou sendo sempre um bom ator.

Num gesto de coragem e de amizade, Jodie Foster o escolheu para fazer o papel principal em seu terceiro filme como diretora, o drama Um Novo Despertar/The Beaver, de 2011.

Na abertura, super-hiper-big-close-ups de homens brutos e feios: uma citação de Sergio Leone

A abertura de Maverick é ótima. Maverick-Mel Gibson está com a corda no pescoço – literalmente. Monta seu cavalo, e a corda está devidamente atada a um galho alto de árvore. Homens bastante mal-encarados o botaram lá. Um deles, o líder do grupo, Angel (Alfred Molina), despede-se dele com frases irônicas – e joga no chão, bem próximo do cavalo de Maverick, um saco com uma grande cascavel.

Claro: a cascavel espantará o cavalo. Sem o cavalo, o herói do filme que está começando será enforcado.

Neste iniciozinho do filme, a câmara de Richard Donner e seu diretor de fotografia, o grande Vilmos Zsigmond, focaliza os rostos daqueles homens em super-hiper-big-close-ups. Homens suados, com cara de péssimos bofes. Deve ser proposital, é claro que é proposital: Richard Donner está citando, copiando, homenageando, ou gozando, ou todas as alternativas anteriores, o estilo de Sergio Leone!

Aquela série de grandes close-ups iniciais nos remete diretamente aos western spaghetti do grande Leone, em especial Era Uma Vez no Oeste, de 1968.

Uma grande sacada: um western cômico americaníssimo que cita o diretor que reinventou o western, Italian style, em filmes estilizados, às vezes gozativos.

Maverick começa fazendo paródia da paródia do western clássico.

Prestes a ser enforcado, nosso herói se dirige a Deus – e ao espectador

O herói prestes a ser enforcado conversa diretamente com o Criador – e também com o espectador. Para o primeiro, ele diz:

– “Senhor… Seja o que for que eu tenha feito para deixá-lo puto da vida… Se você pudesse me livrar desta e de alguma forma me dizer o que foi, prometo que vou retificar a situação.”

Uma frase dirigia ao Criador alternando um linguajar chulo (“whatever I’ve done to piss you off…”) com uma expressão um tanto refinada (“I promise to rectify the situation”).

Uma bela frase para se abrir um filme, essa do afiado William Goldman.

E então o herói-anti-herói dirige-se ao espectador do filme, e diz que ele andava mesmo numa maré de azar. Aquela última semana tinha sido difícil…

E aí, claro, flashback. Voltamos uma semana no tempo. Maverick está entrando numa cidadezinha do Oeste montado num burro – seu cavalo puro-sangue havia sido roubado. Um sujeito todo vestido como almofadinha montado num burro é algo de fato impagável.

Dirige-se a um estábulo.

O menino do estábulo, gritando: – “Ô pai, esse homem quer saber se você quer comprar um burro”.

O dono do estábulo: – “Esse burro não vale um dólar!”

Maverick: – “Bem, senhor, eu diria que o senhor fez um bom negócio.”

Fica sem o burro e com um dólar.

Diálogos afiadíssimos, aventuras de todos os tipos: uma pândega, uma farra

Daí a pouquinho, no saloon do hotel onde se hospedou, Maverick senta-se à mesa redonda onde um grupo eclético joga pôquer. Está ao lado de uma jovem loura e linda em vestido elegante – em termos de Velho Oeste, claro: um vestido de cor berrante. Ela se apresenta a ele com um sotaque sulista falso que nem nota de três guaranis: Annabelle Bransford.

Uns dez minutos e uma briga contra quatro sujeitos mal-encarados depois, Annabelle Bransford beija Maverick e durante o ato surrupia-lhe a carteira. Maverick exige a carteira de volta, e, temendo ser denunciada, a moça a entrega.

E logo Maverick leva até Annabelle sua camisa branca, que havia sujado um pouquinho durante a briga contra os quatro sujeitos.

Maverick: – “Tem uma coisa que eu gostaria que você fizesse para mim”.

Annabelle: – “Nunca. Sou uma dama. Nem se você tivesse cem anos, nem se eu tivesse cem anos…”

Maverick: – “Calma. Não quero ir para a cama com você, lady.”

Annabelle (ofendidíssima): – “Por que não?”

Maverick: – “Por que – por que não. Eu morreria de medo. Deus sabe quantas partes de mim você roubaria. Eu acordaria com todo tipo de coisa faltando.”

Estamos aí com uns 15, talvez 20 minutos de filme, e a aventura está só começando – depois de muitos cortes no laboratório de montagem, que deixaram de fora diversas sequências, Maverick ficou com 129 minutos, o que Leonard Maltin, em seu guia de filmes, considerou longo demais.

Ao longo desses 129 minutos – que passam bastante depressa -, surgirá o tal xerife Cooper, interpretado pelo ator que fez Maverick na TV; haverá ataques de índios, chefiados por um de nome Joseph, interpretado por um índio de verdade, Graham Greene (na foto acima), bom ator, homônimo do escritor inglês, num papel hilariante; aparecerão um arquiduque russo à procura de emoções fortes, e um grupo de religiosos atacados por brancos que se fantasiam de índios; e tudo vai terminar a bordo de um daqueles gigantescos navios que passeavam pelo Mississipi, dentro do qual se realizará um torneio mata-mata de pôquer.

E todo mundo trai todo mundo.

Uma pândega, uma farra.

Um filme lackadaisical, sentencia o autor do guia de filmes mais vendido do mundo

Leonard Maltin usa um adjetivo sonoro que eu jamais tinha visto antes para definir Maverick: lackadaisical. Caramba, o que será isso?

O primeiro dicionário que consulto (e é um bom dicionário) não contém o termo. No segundo está lá: lânguido, afetado. Bem, lânguido Maverick não é. Então suponho que Maltin tenha querido dizer afetado.

“Afetada atualização da série de TV que desperta boas recordações, o filme depende do charme pessoal para levar adiante uma trama que perambula de maneira lenta demais – e longa demais. Gibson está engraçado como um tubarão das cartas a caminho de um jogo de pôquer de apostas altíssimas, e o elenco é cheio de rostos familiares do universo de velhos westerns da TV e da música country contemporânea. Garner, que estrelou a velha série de TV, foi escalado aqui como um xerife. Roteiro de William Goldman.”

Jean Tulard, no seu Guide des Films, sintetiza que a dupla de Máquina Mortífera (na França, L’Arme Fatale), Donner-Gibson, se reencontra para um novo sucesso popular. “Western para fazer rir, Maverick foi filmado com muito cuidado, atenção”.

Jodie Foster tem um elogio a fazer a um ator com quem contracenou: Anthony Hopkins!

No Blu-ray (e acredito que no DVD também), o filme vem acompanhado de um making off bastante diferente dos making offs tradicionais, sui generis mesmo. É tão bem humorado quanto o próprio filme. Em vez de ter aquelas padronizadas loas dos atores ao diretor e aos colegas, e vice-versa, tem um monte de gozações de uns aos outros. O diretor Donner comenta que Mel Gibson e Jodie Foster, recém-tornados diretores eles mesmos, sempre tinham alguma sugestão de como fazer tal e tal cena. E mesmo James Garner, que não se meteu a dirigir filmes, mas é um veterano, tinha também as suas próprias sugestões.

Mel Gibson não sabia mexer com revólver nem com cartas de baralho, e a produção teve que botar experts nas duas coisas para tentar ensinar os truques básicos ao rapaz.

E Jodie Foster lá pelas tantas diz que tem um elogio a fazer a um colega que contracenou com ela: Anthony Hopkins. (Claro, Anthony Hopkins, intérprete do assassino canibal que assustou a agente do FBI Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes, feito três anos antes de Maverick.

Depois do elogio a Hopkins, tomadas rápidas de Mel Gibson, James Garner e Richard Donner, todos os três perguntando:

– “Anthony Hopkins???”

Maverick é tão escrachado que não se leva a sério sequer no making off. Uma absoluta delícia.

Anotação em maio de 2012

Maverick

De Richard Donner, EUA, 1994.

Com Mel Gibson (Bret Maverick), Jodie Foster (Annabelle Bransford), James Garner (Zane Cooper), Graham Greene (Joseph), Alfred Molina (Angel), James Coburn (Commodore), Paul Smith (Arquiduque)

Roteiro William Goldman

Com base no personagem da série de TV criada por Roy Huggins

Fotografia Vilmos Zsigmond

Música Randy Newman

Montagem Stuart Baird e Mike Kelly

Produção Donner/Shuler-Donner Productions, Icon Entertainment International, Warner Bros. Pictures. Bly-ray e DVD Warner Bros.

Cor, 129 min

R, ***

3 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 11 julho 2012 às 10:30 pm | Permalink

    É mesmo uma absoluta delícia, concordo inteiramente.

  2. Postado em 7 Abril 2016 às 5:25 pm | Permalink

    como posso consegui a série completa de Maverick com James Garner da década de 50?

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 7 Abril 2016 às 5:38 pm | Permalink

    Já tentou o Amazon, Paulo?
    Eu, se fosse você, tentaria.
    Um abraço, e boa sorte.
    Sérgio

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Poder Absoluto / Absolute Power em 23 novembro 2013 às 9:39 pm

    […] roteiro de Poder Absoluto é de William Goldman, novelista, dramaturgo, autor de livros de não-ficção e um dos roteiristas mais respeitados do […]

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