Inferno na Ilha / Kongen av Bastøy

Nota: ★★★☆

Inferno na Ilha é um drama barra pesadíssima, um soco no estômago. Baseado em fatos reais, mostra o funcionamento de uma instituição que abrigava menores infratores na ilha de Bastøy, na Noruega, em 1915. O tratamento dado aos menores é de fato infernal. É a palavra mais apropriada para descrever tanta crueldade.

Co-produção Noruega-Suécia-Polônia-França, de 2010, o filme é o oitavo dirigido pelo norueguês Marius Holst, nascido em Oslo em 1965. Seu estilo – ao menos neste filme aqui – é absolutamente sóbrio, clássico. Mostra um perfeito domínio da direção de atores e talento para sequências de ação. Alterna belos planos gerais da paisagem inóspita, gélida, com close-ups dos rostos dos personagens.

Pelo tema duro, forte, violento, me fez lembrar Entre os Muros da Prisão/Les Hauts Murs, de Christian Faure, de 2008, também baseado em fatos reais: no caso, o relato autobiográfico de Yves Tréguier sobre seus anos em uma escola-presídio na França dos anos 1930; na maturidade, Tréguier adotaria o pseudônimo de Auguste Le Breton, e seria o autor de cerca de 70 livros, muitos deles histórias policiais, com gângsteres, bandidos de diversos tipos, deserdados da fortuna, inclusive Du Rififi Chez les Hommes e Le Clan des Siciliens, ambos levados para o cinema, por, respectivamente, Jules Dassin e Henri Verneuil.

Os ricos países europeus também têm suas histórias trágicas das Febens vergonhosas.

Erling, o protagonista, cometeu um crime grave – não saberemos qual

Antes de qualquer imagem, letreiros situam o contexto para o espectador: “O internato de Bastøy existiu entre 1900 e 1953. Era uma instituição para garotos desajustados. Este filme é baseado em uma história real.”

A história criada pelos roteiristas Dennis Magnusson e Eric Schmid a partir de fatos reais passados na ilha de Bastøy em 1915 se centra em um rapaz, Erling (interpretado, com brilho, por Benjamin Helstad, na foto acima). Não se fala a idade de Erling, nem que crime ele cometeu. Os indícios são de que foi um crime grave – um estupro? um assassinato? Não saberemos.

Erling parece mais um jovem adulto do que propriamente um um garoto, um menor de idade. Parece ter 18, 20 anos. É alto, forte, vigoroso; já trabalhava na marinha mercante, num baleeiro.

As primeiras imagens são do alto mar, enquanto uma voz em off – a de Erling – diz:

– “Uma vez, vi uma baleia sendo atingida por três arpões, mas mesmo assim ela continuava. Ela levou um dia inteiro para morrer.”

Erling está num navio, sendo levado para o internato na ilha de  Bastøy juntamente com outro garoto, Ivar (Magnus Langlete), mais jovem e bem mais franzino que ele. Há sinais de luta no rosto de Erling, certamente de quando foi preso e resistiu.

Erling e Ivar são recebidos por um tutor, Bråthen (Kristoffer Joner, ao centro na foto abaixo), que dá as primeiras instruções aos recém-chegados. É proibido fumar, conversar durante o trabalho e as refeições, usar roupa civil, ter pertences. Todas as regras devem ser seguidas estritamente. “Eu olho tudo, vejo tudo, ouço tudo”, diz o tutor.

Os cabelos dos dois são cortados rentes; tomam um banho, e são conduzidos nus – naquele frio nórdico – até seu dormitório, o dormitório C. Não terão nomes: a partir de então Erling será C-19 e Ivar, C-5.

Já com o uniforme do internato, Erling, C-19, é levado à presença do diretor (o papel de Stellan Skarsgård, em grande desempenho). O diretor faz um pequeno discurso, cujo cerne é o seguinte:

“Nosso objetivo, o seu objetivo, é achar um rapaz humilde, prestativo e cristão aqui dentro (e ele toca o dedo no peito do rapaz). Transformá-lo e poli-lo. Se não o acharmos, você fica aqui. Entendido?”

As tensões vão aumentando constantemente naquele barril de pólvora

Veremos dezenas e dezenas de jovens presos no internato de Bastøy, mas os personagens centrais, além de Erling, são estes: Ivar, o tutor Bråthen, o diretor, e mais Olav, ou C-1 (Trond Nilssen).

Olav é o líder do dormitório C. Está ali há seis anos, tem bom comportamento, e, se não houver problemas, deverá ser libertado daí a algumas poucas semanas.

Além desses cinco homens – três garotos presos, o tutor e o diretor –, haverá apenas um outro personagem com alguma importância, embora apareça bem pouco. É a mulher do diretor, bem mais jovem do que ele. Será ela que dará outro indício de que o crime cometido por Erling seguramente foi muito grave. Ela diz ao marido que não gostaria que aquele rapaz ficasse ali.

Esses fatos e personagens são apresentados nos primeiros 15 dos 120 minutos de duração do filme.

Aliás, aqui é preciso registrar. O filme no DVD lançado no Brasil pela Paramount tem 112 minutos – oito a menos que o original. Foram cortados oito minutos na versão lançada aqui.

O que vem a seguir, após esse início, é um aumento constante das tensões no meio daquele barril de pólvora.

Teoricamente, é uma escola, administrada por uma igreja; na prática, é uma prisão

Um dado que impressiona, e que o filme faz questão de deixar claro, é que aquele inferno não é propriamente uma prisão, nem é administrado pelo governo. Teoricamente, pelo menos, é um internato, uma escola – assim como a escola mostrada no filme do francês Christian Faure. Na prática, no entanto, é, de fato uma prisão – que pertence e é administrada por uma igreja e seus fiéis. Não se especifica que igreja é, mas é obviamente cristã, uma das denominações protestantes.

O diretor – uma figura férrea, austera, severa, dominadora – parece de fato acreditar que aquelas normas absolutamente rígidas, aquela disciplina mais militar que de qualquer exército, serão capazes de “endireitar”, “consertar” aqueles garotos desajustados, que cometeram algum tipo de crime, desde um pequeno roubo até algo muito mais grave como se suspõe tenha sido o cometido por Erling. “Endireitar”, “consertar”, “converter” – seja a expressão que for. Encontrar dentro deles o seu lado bom, poli-lo, como ele mesmo diz.

Ao contrário de tantos diretores de presídio mostrados pelo cinema como abertamente cruéis, sádicos, abusadores, canalhas, filhos da puta (como, só para lembrar o exemplo de um filme que vi recentemente, o maravilhoso A Dançarina e o Ladrão/El Baile de la Victoria, de Fernando Trueba), o diretor interpretado por Stellan Skarsgård (na foto acima) não é o retrato do mal em si. Ou, pelo menos, ele mesmo não se julga assim. Não se julga cruel. O diretor se acha um firme comandante de um navio que quer que seus tripulantes passem a ser obedientes, disciplinados. Ou talvez um pai rígido, severo, cujo dever é educar aquele bando de infratores, desajustados; cujo dever é impedir que eles prossigam no caminho do crime, qualquer que seja ele.

Não é um filme que deixa o espectador satisfeito com a raça a que pertence

E essa é, me parece, uma das grandezas do filme. No fundo, no fundo, o que o filme está expondo é mais do que a realidade específica – e terrivelmente cruel – do internato de Bastøy. É mais amplo, muito mais amplo, é planetário. Ao fim e ao cabo, o que o filme discute, na minha opinião, e também na de Mary, é o seguinte: a humanidade ainda não achou uma maneira de enfrentar os desvios de comportamento, a existência de quem se desvia da regra e infringe as leis, comete crimes.

Mesmo na civilizadíssima, culta, rica Noruega, as pessoas que são encarregadas de cuidar dos infratores, dos criminosos, correm o sério risco de se tornarem, elas mesmas, criminosas.

Não é um filme que deixa o espectador satisfeito com a raça de animal a que pertence. De forma alguma.

Anotação em agosto de 2012

Inferno na Ilha/Kongen av Bastøy

De Marius Holst, Noruega-Suécia-Polônia-França, 2010

Com Benjamin Helstad (Erling, C-19), Stellan Skarsgård (o diretor, Bestyreren), Trond Nilssen (Olav, C-1), Kristoffer Joner (o tutor, Bråthen), Morten Løvstad (Øystein), Daniel Berg (Johan), Odin Gineson Brøderud (Axel), Magnar Botten (Lillegutt), Magnus Langlete (Ivar, C-5)

Roteiro Dennis Magnusson e Eric Schmid

Baseado em história de Mette M. Bølstad e Lars Saabye Christensen

Fotografia John Andreas Andersen

Música Johan Söderqvist

Produção 4 1/2 Film, MACT Productions, St Paul Film, Opus Film. DVD Paramount.

Cor, 120 min (segundo o IMDb), 112 min (segundo o DVD)

***

Título em inglês: King of Devil’s Island. Em francês: Les révoltés de l’île du diable

 

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Amistad em 24 fevereiro 2013 às 10:21 pm

    […] abolicionistas, homens ricos, Joadson (Morgan Freeman) e Tappan (Stellan Skarsgård), tentam no mesmo tribunal conseguir a liberdade dos membros do grupo. Têm a ajuda de um esperto e […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Sombras de Goya / Goya’s Ghosts em 27 setembro 2013 às 9:15 pm

    […] primeira vez que o próprio Goya (Stellan Skarsgård, muito bem no papel) aparece na tela, ele está pintando um retrato de Inês (Natalie Portman, essa […]

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