Incendiário / Incendiary

Nota: ★★½☆

Incendiário, feito pela inglesa Sharon Maguire em 2008, tem algumas boas qualidades. A principal delas é a atuação da americana Michelle Williams, excelente como a jovem inglesa da working class que sofre como uma condenada, enfrenta a barra mais pesada que se possa imaginar.

Outras qualidades são a fotografia, o trabalho de câmara inventivo. Outra ainda é o texto. Há belas frases, boa parte delas dita em off por Michelle Williams, a protagonista sem nome que é também a narradora de sua triste história.

E é interessante esse pequeno detalhe, o fato de que o espectador não ficará sabendo nunca o nome da personagem, nem o do filhinho adorado dela, sua razão de viver. Não aparecem também o nome do garoto de origem árabe, muçulmana, que será um dos personagens principais da trama, nem o nome da mãe dele.

Duas mães sem nome, uma inglesa, uma de origem árabe; dois filhos sem nome, de novo um inglês e um filho ou neto de imigrantes.

Quando estamos aí por volta de 20, 25 minutos de narrativa, o filme atinge um clímax, um ponto alto extremamente bem realizado, de deixar o espectador perplexo, chocado, sem fôlego.

De maneira bastante estranha, no entanto, a partir exatamente desse momento de clímax, as coisas começam a desandar. A narrativa se embola, perde o ritmo, tenta ganhar altura de uma imponente epopéia e acaba se perdendo em sua própria pretensão.

Foi essa, pelo menos, a sensação que o filme me deixou. Tenta subir oitavas demais e, um pouco como o coração do poeta, arrebenta.

Talvez fosse areia demais para o caminhãozinho dessa diretora, não tão jovem – nasceu em 1960 –, mas com pouca experiência, currículo pequeno: antes de Incendiário, Sharon Maguire havia dirigido episódios de séries de TV, ficcionais e documentários, um vídeo musical com o R.E.M., e um único longa-metragem, a comedinha romântica O Diário de Bridget Jones.

Mas imagino que mesmo um diretor com muito mais experiência não tivesse conseguido fazer um belo filme a partir da história criada no livro de um tal de Chris Cleave. É uma trama que pretende ser grandiosa, monumental – e em alguns momentos consegue roçar perigosamente em bobagens.

Uma bela abertura: ótima câmara, texto bem elaborado, e Michelle Williams soberba

A abertura do filme promete muito: nela se encontram aqueles principais qualidades – a excelente interpretação de Michelle Williams, a ótima câmara e o texto bem elaborado.

Na primeira seqüência, a mãe e o filho de quatro anos estão no quarto dele, na hora de ele dormir, e estão brincando do jogo de não piscar. Big close ups do rosto de uma, do rosto do outro. O garotinho ganha, é claro.

E então há tomadas em uma praia, o garotinho correndo na praia, chamando a mãe, ela quase dançando de alegria, os dois se abraçando – a imagem da felicidade, 24 quadros por segundo. A trilha sonora é uma melodia suave, suaves acordes de um piano solo. A voz de Michelle Williams começa a narrar em off, conversando com os espectadores:

– “Então, se vou lhes mostrar a minha vida, é melhor começar aqui. Meu filho, e Camber Sands. Por que isso e por que agora? Volto depois a essa parte. A parteira o chamou de força da natureza, quando veio ao mundo uivando, quatro anos atrás. E desde então ele nunca parou. Passamos muito tempo juntos, só eu e ele, porque o pai dele é uma besta miserável. Para ser justa, ele não foi sempre um miserável. Ou talvez tenha sido, sim, e eu é que não percebi. Eu não seria a primeira da família a cair de quatro por um sujeito do exército. Seja como for, para o bem ou para o mal, tive meu filho, e ele a mim. Me lembro que um dia minha mãe me levou a Camber Sands, um dia em que ela estava sóbria.”

Beleza de imagens de abertura, beleza de frases de abertura. Texto sucinto, e temos uma vasta quantidade de informações. Nossa protagonista teve uma mãe bêbada, um pai ausente. Seu filho tem uma mãe sóbria, mas um pai ausente. Working class. Típica working class. Ah, look at all the lonely people…

Não vivem tão mal assim. Moram num grande prédio, desses de conjunto habitacional construído com subvenção do governo – mas não é uma daquelas pocilgas degradadas que vemos de conjuntos habitacionais em filmes americanos, por exemplo.

O pai do garoto vive com eles, não os abandonou, ao contrário do que as frases iniciais poderiam sugerir. Vemos logo depois uma sequência do pai chegando em casa do trabalho, exausto, exaurido, necessitando urgente de uma grande dose – muito provavelmente de gim, mas nem dá para ver, com a velocidade com que ele engole a bebida oferecida pela mulher. A sequência mostra, com grande competência, como é a vida daquela família: pai e mãe não se falam, mal se comunicam, já que o pai chega em casa sempre exausto, exaurido, sem qualquer força vital. Seu trabalho é o mais estressante possível: ele é do esquadrão antiterrorismo da polícia de Londres, seu dia-a-dia é desarmar bombas.

Mas, se não tem forças para dar um sorriso ou uma palavra à bela, jovem mulher, o pai gosta de brincar com o filho. É torcedor do Arsenal, fanático – em outro relato com a voz da protagonista-narradora em off, saberemos que o Arsenal é sua religião.

Na primeira conversa, a moça e o paquera brincam com suas diferenças sociais

Quem trabalha em esquadrão antiterrorismo não tem horário. Numa noite em que o marido sai para atender a um chamado de emergência, a jovem sem nome leva sua solidão e desconsolo a um pub. Não fica um minuto sozinha: um rapaz boa pinta se aproxima.

Este personagem terá nome. É o único dos personagens centrais do filme que tem um nome, Jasper Black – o papel de Ewan McGregor, bom e incansável ator, que trabalha em uns cinco filmes por ano, sempre bem, é verdade.

Veremos depois que Jasper Black é jornalista, trabalha em um dos jornais sérios de Londres, um dos matutinos, tamanho standard – nada a ver com os tabloides vespertinos. Tem uma situação na escala social muito diferente da da mãe sem nome, embora sejam vizinhos. Jasper mora num bom prédio que dá vista para o conjunto habitacional da jovem.

No primeiro encontro no pub, fazem blague sobre o assunto. Os ingleses são sempre absolutamente conscientes da posição social de cada um. Ela diz que aposta que o apartamento dele, embora de boa qualidade, não deve ser muito valorizado, já que dá vista exatamente para o horror que é o prédio dela.

Ele passa a cantada, ela diz que não.

Quando o marido chega exausto em casa depois de desarmar uma bomba, ela está em seu quarto. A diretora Sharon Maguire, ela própria autora do roteiro, teve aí uma bela sacada: fez uma elipse na hora exata.

Com 20 minutos de filme, acontece a tragédia, imensa, ciclópica

Dias depois, o Arsenal vai jogar com o Chelsea, e o pai e o garoto vão ao jogo, à igreja de sua religião. Saem alegres, cantando. A mãe ficou de preparar a comida para quando eles voltarem, mas, na rua, encontra-se por acaso com Jasper. São demais os perigos desta vida, e a melhor forma de enfrentar a tentação é ceder a ela. Vão para a casa dele.

A televisão está ligada, transmitindo do estádio em que vai começar Arsenal versus Chelsea.

A cena de sexo que Sharon Maguire cria, auxiliada pela competência de Michelle Williams, é nada menos que brilhante.

Estamos com uns 20 minutos de filme – e aí acontece a tragédia, imensa, ciclópica.

Vêm aí uns cinco, dez minutos de clímax bem filmadíssimos, bem elaboradíssimos.

E a partir daí o filme despenca.

Leonard Maltin desceu o cacete neste filme estranho – só salvou Michelle Williams

Contava-se até ali uma história de pessoas simples, comuns – tão simples, comuns, que sequer nome têm. A partir daí, aqueles personagens simples, comuns, vão se tornar protagonistas de uma história de impacto planetário. Não combina. Desfoca, desanda.

Bem – isso na minha opinião, é claro. Qualquer um tem direito à sua própria opinião.

Mary, do meu lado, também se decepcionou com o filme, que prometia tanto no começo. Na imensa maioria das vezes definidora rápida do que acha de um filme, ficou sem adjetivos específicos, a não ser “estranho”.

“Estranho” – ou seja, não propriamente bom.

Leonard Maltin desceu o cacete. Tascou 1.5 estrelas em 4. Na rápida resenha, revela pontos do trama que prefiro não abrir, para evitar spoilers. “Drama quase impossível de se ver, consegue um feito quase impossível: trata de temas relativos a terrorismo e o impacto sobre vidas individuais em um novelão choroso. A atuação figadal de Williams é o único interesse que há.”

Uma coincidência trágica: o livro foi lançado no dia exato dos ataques terroristas em Londres

A novela Incendiário, de Chris Cleave – um garotão nascido em Londres em 1973 –, foi lançada no dia 7 de julho de 2005, exatamente o dia da série de ataques terroristas em Londres, o 7/7, o mais mortal conjunto de ataques dos extremistas islâmicos desde o 9/11 de 2001. Foram 56 mortos e mais de 700 feridos.

Essa fantástica, terrível coincidência de o livro Incendiário ter sido lançado exatamente no 7/7 londrino faz lembrar também outro caso semelhante: o filme A Síndrome da China, de James Bridges (1979), com Jack Lemmon, Jane Fonda e Michael Douglas, retratando um grave acidente num reator atômico nos Estados Unidos, foi lançado na mesma época do acidente real em Three Mile Island, um dos mais graves envolvendo usinas atômicas no país.

O 7/7 e seus efeitos, o pavor e a paranóia após os ataques terroristas em Londres, levaram à morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido pela polícia londrina com um suspeito; a tragédia de Jean Charles foi retratada no filme brasileiro de 2009, que levou seu nome, dirigido por Henrique Goldman e estrelado por Selton Mello.

O terror em Londres foi retratado também em outros ótimos filmes: London River – Destinos Cruzados, de Rachid Bouchareb (2009), Ataque Terrorista/Shoot on Sight, de Jag Mundhra (2007).

Este Incendiário entra para a lista dos filmes sobre o tema. Mas, infelizmente, apesar do começo promissor, da maravilhosa interpretação de Michelle Williams, e do belo, formidável clímax que ele cria aos 20 e poucos minutos, não é, ao contrário dos dois citados acima, um grande filme.

Anotação em março de 2012

Incendiário/Incendiary

De Sharon Maguire, Inglaterra, 2008

Com Michelle Williams (a mãe), Ewan McGregor (Jasper Black),

Matthew Macfadyen (Terrence Butcher), Nicholas Gleaves (Lenny), Sidney Johnston (o filho). Usman Khokhar (o filho do terrorista), Sasha Behar (a mulher do terrorista), Edward Hughes (Danny Walsh)

Roteiro Sharon Maguire

Baseado no romance de Chris Cleave

Fotografia Ben Davis

Música Barrington Pheloung e Shigeru Umebayashi

Produção Aramid Entertainment Fund, Archer Street Productions, Capitol Films, Film4, UK Film Council, Wild Bear Films.

Cor, 96 min

**1/2

Um Comentário

  1. Ivan
    Postado em 22 junho 2012 às 1:35 pm | Permalink

    Acabei de assistir.Também achei que sería um grande filme e, foi,(como vc dise)até o momento da tragédia. Daí prá frente, prá mim,
    ficou confuso, enrolado.
    Afinal, ela se mata devido aquelas lembranças
    do filho tão amado,ou eles ficam juntos e, aquele bebê é filho do Jasper?

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