In July (O Outro Lado das Férias) / Im Juli

Nota: ★★★☆

Este In July (O Outro Lado das Férias), no original alemão Im Juli, é uma gostosa, inteligente, talentosa mistura de road movie com comédia romântica.

O alemão de origem turca Fatih Akin adquiriu respeito mundial entre os críticos e os apreciadores de filmes sérios, ditos “de arte”, com Contra a Parede/Gegen die Wand, de 2004, Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, mais 22 outros prêmios e 11 indicações. É um drama pesadíssimo, soturno, violento, sobre desajuste, loucura e choque cultural, protagonizado por um casal de origem turca na Alemanha.

Em 2005, Akin fez Atravessando a Ponte – O Som de Istambul, um fascinante documentário sobre a música turca atual. Em 2007, nos brindou com Do Outro Lado, um belíssimo drama sobre três duplas de pais e filhos, em dois países diferentes, a Turquia e a Alemanha, cujas histórias se entrelaçam – uma maravilha de narrativa sobre choques de civilizações diferentes mas que se centra, sobretudo, na relação entre pais e filhos.

Soul Kitchen, de 2009, foi saudado como uma mudança brusca na carreira do realizador. Críticos do mundo inteiro babaram: ah, Fatih Akin deixou de lado o tom sombrio de seus filmes anteriores e fez um filme alegre, bem humorado, gostoso.

In July/Im Juli, de 2000, mostra que Soul Kitchen não foi, de maneira algum, um rompimento com o passado. Na verdade, ele alternou, em seus filmes, o tom alegre, bem humorado, com o drama pesado.

E, nas comédias e nos dramas, todos escritos por ele mesmo, sempre se manteve fiel a seus temas – a convivência entre gente de duas civilizações tão diferentes, alemães e turcos, numa Europa em grande mudança – e a seu estilo narrativo, algo um tanto circular, que termina de volta ao começo: em In July, assim como em Do Outro Lado, os personagens viajam entre a Alemanha e a Turquia, e acabam descobrindo a existência de ligações entre suas histórias pessoais que não percebiam antes.

O realizador tinha apenas 27 anos quando fez o filme, e já mostrava grande talento

Era muito jovem, quando fez In July, em 2000: nascido em Hamburgo em 1973, estava, portanto, com apenas 27 anos. Havia feito antes dois curtas e um longa metragem. Talento é algo muito impressionante. Seu segundo longa já mostra que vinha aí um realizador importante, respeitável.

A ação começa numa estrada de duas pistas apenas, perdida no meio do nada. O único carro que passa por ela é um Mercedes, dirigido por um sujeito alto, cabelo cortado bem baixo, com barba por fazer, com aparência de uns 30 e poucos anos e uma pinta meio de punk. Veremos que se chama Isa. (É interpretado por Mehmet Kurtulus, que havia sido o protagonista do primeiro filme do realizador, Kurz und schmerzlos, de 1998, e faria uma ponta em Contra a Parede).

Isa pára o carro na beira da estrada para observar um eclipse que acontece naquele momento. Aí sente um cheiro. Abre o porta-malas, e a câmara mostra os pés de uma pessoa lá dentro. Há mosquitos voando ali, e Isa joga um spray dentro do porta-malas, para afastá-los. De repente, alguém chega por trás dele, e Isa reage com rapidez e violência, derrubando o estranho no chão.

O estranho, um rapaz também aí de uns 30 anos – veremos logo depois que se chama Daniel Bannier, e é interpretado por Moritz Bleibtreu, esse bom ator que parece estar em todos os filmes recentes feitos na Alemanha -, argumenta rápida e firmememente que apenas quer uma carona.

Isa não dá a menor bola para o estranho. Volta para o carro, dá a partida – Daniel corre para a frente do carro, Isa não pára, Daniel passa por cima do pára-brisa, por cima do carro, cai lá atrás. Isa está furioso. Volta até onde o Daniel está deitado no asfalto, tenta reanimá-lo – nada. Pega o corpo inerte do desconhecido, coloca-o no banco de trás, e dá a partida de novo. Berra alto, para si mesmo, seu estupor:

– “Por que essas coisas só acontecem comigo? Se não bastasse um cadáver, agora tenho que lidar com dois!”

A câmara está mostrando o rosto furibundo de Isa; neste momento, Daniel se levanta no banco de trás, seu rosto fica visível no quadro, e ele pergunta, com um ar espantado e curioso:

– “O que você disse?”

Isa é um sujeito de modos violentos. Ao ver que o sujeito que acabara de atropelar está vivo, pisa no freio com tudo, volta-se para o banco de trás. A câmara focaliza os dois – Isa em primeiro plano, virado para o banco de trás, Daniel em segundo plano –, enquanto se dá este diálogo delicioso:

Isa (furibindo): – “Você está bem?”

Daniel (ainda assustado): – “Estou bem.”

Isa (furioso): – “Ótimo. Saia do carro.”

Daniel (botando a mão no pescoço): – “Nossa! Acho que fraturei o pescoço.”

Isa (sempre furioso): – “Eu disse saia do carro!”

Daniel (entre irritado e solícito): – “Preste atenção, cara. Você quase me matou, mas estou bem. Sendo assim, porque você não me dá a carona?”

(E, depois de uma pausa, com expressão de súplica: ) “Por favor”.

Isa (depois de pensar um segundo): – “OK. Sente-se aqui na frente.”

Daniel desce do carro, Isa dá a partida e dispara. Daniel xinga. Isa pára o carro mais à frente. Daniel anda até lá. Quando chega perto do carro, Isa dá a partida de novo. Mas de novo pára, e então Daniel entra e senta-se no assento do carona.

Isa finalmente está um pouco mais calmo. Começam a conversar. Isa faz perguntas. Daniel é de Munique. Isa comenta que tem uma tia em Munique. Daniel é professor, ainda está cursando Magistério. “Professor?”, espanta-se Isa; “mais parece um vagabundo”. E está indo para o Sul, para a Turquia? Daniel diz que sim. E por quê? Daniel explica que está indo atrás de uma mulher. “Sua esposa?” Não. “Está apaixonado? Me conte mais sobre sua história.”

Daniel suspira: – “É uma longa história. Muito longa.”

Isa agora está com o humor melhor. – “Temos tempo. É uma longa viagem até a Turquia.”

Uma longa viagem atrás de uma linda mulher – ao lado de outra mulher linda

E então vemos a história de Daniel. É uma história longa – e fantástica, louca, divertida, cheia de peripécias. O flashback em que vemos a história de Daniel ocupará a imensa maior parte da narrativa, até o momento em que ele, perdido no meio do nada numa área rural da Romênia, avista o Mercedes de Isa parado numa estrada deserta. A narrativa voltará ao ponto inicial, e aí seguirá em frente no tempo.

No começo da história surge Juli (Christiane Paul, de A Onda, nas duas fotos abaixo), uma garota linda, meio hippie, que tem uma queda por Daniel. Vende para ele um anel com a imagem do Sol; diz que o anel é mágico, e o fará encontrar a mulher de sua vida. Convida-o para um show de música mais tarde. Daniel vai até o tal show – mas lá vai dar de cara com uma outra mulher, Melek (Idil Üner, na foto acima), uma imigrante turca que vive em Berlim, belíssima, fascinante.

Daniel se apaixona perdidamente por Melek.

As peças que o destino prega nas pessoas – e, em especial, nos personagens criados por Fatih Akin. Daniel acabará embarcando para uma viagem até Istambul à procura de Melek – e fará a viagem ao lado exatamente de Juli.

Juli, como o mês, diz ela. Tudo se passa no mês de julho, verãozão.

A trama romântica do filme é um pouco assim como o Rio Tietê, ou o Iguaçu

A trama é uma absoluta delícia. Envolverá situações engraçadas, gostosas, às vezes até implausíveis, e personagens interessantíssimos, em especial Leo (Jochen Nickel), um motorista de caminhão que num momento parece um bronco porco-chauvinista estuprador, mas na verdade é outra coisa completamente diferente, e Luna (Branka Katic), também ela motorista de uma van, mais uma mulher de grande beleza na vida de Daniel, que à primeira vista parece uma visão celestial, mas na verdade é outra coisa loucamente diferente.

Neste delicioso road movie de Fatih Akin, as aparências enganam. Nada é exatamente o que parece ser. Aquele início que descrevi com detalhes, por exemplo, poderia indicar um daqueles filmes de terror em que pessoas inocentes se vêem nas garras de um assassino ensandecido, do tipo de A Morte Pede Carona/The Hitcher. Os americanos já fizeram pelo menos uma dezena de filmes de terror cuja ação se passa em estradas, e o começo deste aqui poderia servir para mais um – Aafinal, o motorista está com um cadáver no babageiro do carro.

Mas não é nada disso. Nada a ver com terror. É um road movie comédia romântica, deliciosa, hilariante.

A trama romântica de In July – me ocorreu agora, enquanto faço esta anotação – é um pouco como o Rio Tietê, ou o Iguaçu. O Tietê e o Iguaçu nascem a menos de cem quilômetros do mar – e o destino dos rios, claro, é sempre o mar. Mas, para o Tietê e o Iguaçu, o mar, tão perto, tem que ficar para depois. As águas dos dois rios dão as costas para o mar, viajam centenas e centenas de quilômetros na direção contrária, depois mais outras centenas e centenas na paralela, e só vão cair no mar depois de uma vida inteira.

É mais ou menos o que acontece com o pobre Daniel, um sujeito de sorte imensa, mas que leva uma eternidade para perceber isso.

A trajetória de Daniel é o contrário da linha reta. É circular, cônica – como as narrativas de Fatih Akin.

Ao som dos Cowboy Junkies, a gravidade desaparece

Fatih Akin é mais um realizador que adora brincar com as coincidências, os acasos, as peças que o destino prega aos homens. Segue, nesse ponto, uma linhagem nobre, que inclui Max Ophüls, Jacques Demy, Claude Lelouch, Krzysztof Kieslowski.

Como Hitchcock, gosta de fazer uma pontinha. Em In July, ele faz o papel de um guarda na fronteira da Hungria com a Romênia.

Quando começa o longo flashback em que vemos a história de Daniel, ele está dando uma aula de matemática (ou seria de física? sei lá) num ginásio. Segundo o IMDb, o ginásio mostrado no filme é aquele em que Fatih Akin estudou.

Uma seqüência especialmente fascinante – e bela – do filme é aquela em que Daniel e Juli estão clandestinos em um barco de carga no Danúbio. Fatih Akin se permite um momento de realismo mágico e, deliciosamente, a gravidade desaparece, ao som dos Cowboy Junkies cantando “Blue Moon Revisited (Song for Elvis)”, do disco The Trinity Session, de 1988. O cara tem um extraordinário bom gosto para escolher as músicas incidentais.

Delícia de filme. Grande garoto.

Anotação em janeiro de 2012

In July (O Outro Lado das Férias)/Im Juli

De Fatih Akin, Alemanha, 2000

Com Moritz Bleibtreu (Daniel Bannier), Christiane Paul (Juli), Mehmet Kurtulus (Isa), Idil Üner (Melek), Jochen Nickel (Leo), Branka Katic (Luna), Birol Ünel (Kellner), Sandra Borgmann (Marion)

Argumento e roteiro Fatih Akin

Fotografia Pierre Aïm

Música Ulrich Kodjo Wendt

Produção Argos Filmcilik Turizm, Quality Pictures, Wüste Filmproduktion. DVD Sonar Filmes.

Cor, 99 min

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Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Dama Dourada / Woman in Gold em 15 outubro 2015 às 11:02 pm

    […] alemães da atualidade; nascido em 1971, está chegando aos 80 títulos, e seus filmes incluem In July (O Outro Lado das Férias) (2000), Contratadas para Matar (2008), O Grupo Baader-Meinhof (2008), Soul Kitchen (2009), Jud […]

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