Hanna

Nota: ★★☆☆

Em Hanna, reecontraram-se Joe Wright e Saoirse Ronan. Só pelo fato de que o diretor de Atonement dirigiu de novo a atriz que ele havia transformado em pequena estrela, em fetiche, na maior promessa do cinema nos últimos muitos anos, me sentei para ver Hanna com o babador abaixo da boca aberta.

Pois bem. Hanna é um filme estupidamente, mas estupidamente bem realizado. Em termos de realização, é um show, um espetacular desfile de sequências extraordinariamente bem feitas.

Mas a verdade é que dá saudades dos outros filmes desse jovem realizador inglês: Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação/Atonement (2007), O Solista (2009).

Orgulho e Preconceito, mais uma de tantas versões do clássico de Jane Austen, é um filme brilhante. Atonement é a ousada filmagem de um romance a rigor infilmável, deste que é um dos melhores escritores do final do século XX e início do XXI, Ian McEwan, cuja narrativa é toda baseada em sensações, em pensamentos, na corrente de pensamentos, coisas que se passam no coração, na mente. O Solista é um drama urbano atualíssimo, sobre homeless, loucura, a miséria no coração do lugar mais rico que já houve no planeta.

O garoto nasceu em 1972, e já fez pelo menos três grandes filmes, de gêneros diferentes, passados em épocas e locais distintas.

Mas parece que queria mais; queria provar que pode fazer qualquer gênero. Pode gritar shazam!, e fazer – por que não? – um filme de ação, um thriller ficção-científica.

Joe Wright chamou Saoirse Ronan, gritou shazam!, e fez um filme extraordinariamente bem realizado, que põe no bolso, no chinelo, qualquer um do tipo Trilogia Bourne, Missão Impossível – para não falar de James Bond, que hoje é um franquia tão irregular que não dá para levar em consideração.

E, no entanto, ao contrário do que ele havia feito antes, seu novo filme não tem alma.

Uma garota que é mais fodinha do que todas as super-mulheres dos quadrinhos

Uma garotinha de 15 anos numa paisagem gelada, sendo treinada pelo pai para ser uma super-mulher, capaz de tudo, do impossível. Quando ela parece já ser uma super-mulher mais fodinha do que todas as super-mulheres da Marvel Comics, e de todas as historinhas em quadrinhos que concorriam com as da Marvel Comics, e, além de tudo, ainda é uma espécie assim de Wikipedia ambulante, embora nunca tenha visto um computador, ou sequer uma lâmpada elétrica, o pai diz a ela: aqui está um aparelhinho que poderá fazer você se expor ao mundo. Você pode continuar aqui como está, como sempre esteve, ou então ligar este aparelhinho. Se ligar, estará iniciada uma luta fatal – a bruxa virá atrás de você, e só haverá uma saída: ou você mata a bruxa, ou a bruxa te mata.

A menininha, claro, é Saoirse Ronan. O pai é Eric Bana, extraordinariamente careteiro, fora de qualquer sintonia. É, seguramente, sua pior atuação até aqui.

A bruxa virá na pele de Cate Blanchett – e a fantástica atriz também trabalha mal, acho que pela primeira vez na vida. Parece um robô, um autômato – talvez até porque seja no fundo um robô, embora nos seja apresentada como um figurão da CIA.

Os contos de fada de hoje são como os slasher movies de quinta categoria

Uma jovenzinha princesa super-humana. Um pai abnegado que a prepara para a pior de todas as guerras. Uma bruxa que vem na pele de uma agente especial da CIA.

Talvez eles estivessem querendo fazer um conto de fadas ao contrário, nesta época em que o cinemão comercial, na falta de outras idéias, cria Chapeuzinho Vermelho num “novo” enfoque, Branca de Neve e a Madrasta num “novo” enfoque.

Joe Wright é tão absolutamente talentoso que consegue criar sequências belíssimas, várias delas como se fossem de um anti-conto de fadas gótico, sanguinolento. A era em que vivemos é tão desesperançada, tão amarga, tão sem rumo e saída, que os contos de fada viraram pesadelos para jovens viciados em sangue esguichando da carótida.

Joe Wright é tão absolutamente talentoso que quase nos consegue convencer de que os contos de fada de hoje são como os slasher movies da pior qualidade.

Tanto talento, tanto talento – não poderiam fazer um filme sobre pessoas?

Ao fim e ao cabo, enquanto eu via Saoirse Ronan, a mais brilhante atriz de cinema das novíssimas gerações de que tenho notícia, sair de cena de um jeito que é impossível não pensar na possibilidade haver um Hanna 2 – caso o filme faça sucesso na bilheteria –, me percebi triste, acabrunhado.

Tudo bem: respeito o direito desse garoto superdotado de fazer todo tipo de cinema que ele quiser. Idem ibidem para essa garota superdotada, extraordinária.

Mas será que não daria para esses dois usarem tanto talento para fazer no futuro um filme sério? Um produção baratinha, simples, falando de algumas das pequenas grandes questões que preocupam as pessoas?

Anotação em abril de 2012

Hanna

De Joe Wright, EUA-Inglaterra-Alemanha, 2011

Com Saoirse Ronan (Hanna), Eric Bana (Erik), Cate Blanchett (Marissa), Vicky Krieps (Johanna Zadek), John MacMillan (Lewis), Tim Beckmann (Walt), Jessica Barden (Sophie)

Roteiro Seth Lochhead e David Farr

Argumento Seth Lochhead

Fotografia Alwin H. Kuchler

Música Tom Rowlands e Ed Simons

Produção Focus Features, Holleran Company, Studio Babelsberg.

Cor, 111 min

**

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