Flechas de Fogo / Broken Arrow

Nota: ★★★½

Flechas de Fogo pode ter lá seus defeitinhos – e tem. Foi impossível não percebê-los, ao rever o filme agora como se fosse pela primeira vez (tinha visto garoto demais, não me lembrava de quase nada). Mas esses defeitos ficam ínfimos, de somenos importância, diante da grandeza do filme.

Flechas de Fogo, no original Broken Arrow, dirigido por Delmer Daves em 1950, é um western avançandíssimo, muito, muito à frente de seu tempo. Tem respeito e admiração pelos índios. Condena a matança deles, condena o racismo, o supremacismo, e defende a convivência harmônica entre o conquistador branco e o dono original das terras.

Foi o primeiro western estrelado por James Stewart, então com 42 anos – a partir daí, o ator faria um grande número de westerns, com os grandes diretores do gênero, John Ford e Anthony Mann.

Mas, sobretudo, foi o primeiro filme importante, produção A, de bom orçamento, elenco com grandes nomes, fotografia magistral, trilha sonora assinada por um mestre, Alfred Newman, a retratar o ponto de vista dos índios. Antes dele houve um ou outro filme simpático aos índios, mas eram produções menores, obscuras, exceções num gênero em que, até ali, os habitantes originais do território invadido pelos brancos eram retratados como os vilões, bandidos sanguinários, impiedosos, brutais.

O narrador avisa, logo na abertura: os apaches vão falar em inglês

O filme é tão à frente do tempo, tão avançado, que de cara já trata, abertamente, de um problema permanente e jamais muito bem resolvido no cinema americano: o fato de que todos os seres – humanos ou alienígenas, de qualquer ponto do planeta ou do universo – sempre falam inglês.

Essa questão é abordada no monólogo que abre a narrativa. Enquanto vemos um cavaleiro solitário percorrendo aquela imensidão do Oeste, a voz de James Stewart diz o seguinte:

– “Esta é a história de uma terra, do povo que vivia nela no ano de 1870, e de um homem cujo nome era Cochise. Ele era um índio – o líder da tribo chiricahua apache. Eu participei da história e o que vou contar aconteceu exatamente como vocês vão ver – a única mudança é que, quando os apaches falarem, vão falar na nossa língua.”

O camarada que escreveu essa frase brilhante, o autor do roteiro de Flechas de Fogo, se chama Albert Maltz, embora seu nome não constasse dos créditos iniciais na época do lançamento – e tiro meu chapéu para ele. (Volto a Albert Maltz mais tarde.)

– “O que aconteceu é parte da história do Arizona, e começou para mim aqui onde vocês me vêem cavalgando. Desde que saí do Exército da União, tenho procurado ouro. Um dia fiquei sabendo que um coronel veio a Tucson e queria me ver. A história começou quando eu vi alguns abutres circulando no céu.”

Plano geral do céu cheio de abutres.

– “O abutre é um pássaro esperto. Alguma coisa ou alguém está para morrer. Imaginei que poderia ser um veado ferido, ou um coelho, ou uma serpente.”

Plano de conjunto mostra um índio ferido cambaleando na ravina.

– “Não era um coelho, nem um veado… Seu tipo era mais perigoso que uma serpente. Era um apache. Por dez anos estamos em uma guerra selvagem contra seu povo – uma guerra sangrenta, sem perdão.”

E então o cavaleiro interpretado por James Stewart – veremos que se chama Tom Jeffords – desce do seu cavalo, aproxima-se do jovem índio e oferece a ele água do seu cantil. O apache bebe um pouco de água – mas em seguida surge uma faca em sua mão direita, e ele tenta apunhalar o branco que acabou de matar sua sede.

Que beleza de abertura de um filme!

Um branco que se casa com uma índia! Em um filme de 1950!

Tom Jeffords, ex-capitão do Exército da União, garimpeiro, batedor, até aquele momento jamais havia pensado que um índio poderia ter sentimentos humanos, iguais ao dele. Diz isso para o espectador, com todas as letras. Mas, a partir daí, vai tentar ser amigo dos índios, vai colocar sua vida em risco para tentar uma trégua com os apaches liderados por Cochise (interpretado por Jeff Chandler). E vai se apaixonar por uma índia, a mais bela índia da tribo, Sonseeahray (o papel de Debra Paget), e casar-se com ela.

Um branco que se casa com uma índia! Em um filme de 1950!

Não tenho certeza, mas acho que dá para apostar que este foi um dos primeiros – se não o primeiro – casamentos inter-raciais mostrado em um filme americano.

Pode parecer pouco importante, hoje, mais de seis décadas depois, porque felizmente a humanidade evoluiu um pouco, neste período, e hoje casamentos de brancos com negros ou índios já são algo bem mais comum. Felizmente, felizmente – aleluia! Mas é preciso entender um pouco o contexto, a época, para se ter a dimensão da coisa. É preciso lembrar que apenas em 1964 deixou de ser legal, deixou de ser garantida por lei a segregação racial em diversos Estados americanos. Até 1964, havia banheiros para brancos e banheiros para “colored”. Os “colored” não podiam frequentar diversos dos lugares preservados para os brancos.

Casamento de branco com não branco, então, nem pensar. Nem fod…

Em 1967, ainda causava espanto, e até furor, uma branca apresentar para seus pais, cultos, liberais, avançados, um negro de quem estava noiva, como mostrou Stanley Kramer em Adivinhe Quem Vem Para Jantar.

Consta que Raquel Welch, para filmar uma cena em que abraçava um ator negro, exigiu que houvesse uma toalha para impedir que sua pele encostasse na pele negra do colega. O filme era um western, 100 Rifles, de 1969, e o ator negro era Jim Brown, sujeito bem boa pinta – e, segundo o IMDb, foi um dos primeiros, ou o primeiro, a mostrar uma cena de sexo de pessoas de raças diferentes, a branquela Raquel Welch e o belo negro Jim Brown.

Endeusamento dos índios; a jovem em trajes hollywoodianos – defeitos pequeninos

A rapidez com que Tom Jeffords abandona as idéias supremacistas que eram comuns a todas as pessoas que conhecia, e passa a admirar os índios, é um dos pequenos defeitos deste filme majestoso. É fácil identificar outros. Como diz Ted Sennett, em seu livro Great Hollywood Westerns, o filme, em seu giro de 180 graus em relação à imensa maioria dos westerns feitos antes, faz quase um endeusamento dos índios: “quão belos são os costumes primitivos dessas pessoas simples!” E o personagem de Sonseeahray, com um figurino evidentemente hollywoodiano, distante dos trajes indígenas reais, é bem pouco crível.

Mas isso, repito, é minudência diante da grandeza deste filme importante, avançado, soberbo.

Depois dele ainda haveria dezenas e dezenas de westerns mostrando os índios como selvagens sanguinários que parecem existir apenas para matar os brancos. O ódio abissal por todos os índios de Ethan Edwards, o personagem de John Wayne em Rastros de Ódio/The Searchers, de 1956, é apenas uma das muitas provas disso.

O gigante John Ford iria se redimir de sua visão dos índios como bandidos assassinos em Crepúsculo de uma Raça/Cheyenne Autumn, de 1964 (em que James Stewart, sempre ele, interpreta o xerife Wyatt Earp). E, em vários de seus filmes, Ford colocaria um ator negro, Woody Strode, para interpretar personagens de grandeza de caráter.

E mais tarde haveria outros grandes westerns descaradamente pró-índios, como Pequeno Grande Homem, de Arthur Penn, de 1970, culminando com o belíssimo Dança com Lobos, de Kevin Costner, de 1990, em que boa parte dos diálogos é na língua dos sioux e pawnees.

Uma branquela que interpretou uma índia e uma indiana

Gostaria de falar uma palavrinha sobre Debra Paget, que faz a linda Sonseeahray.

Debra Paget nunca foi uma grande estrela – nem propriamente uma grande atriz. Mas era bela, e vinha de uma família de artistas: a mãe, atriz, pôs todos os filhos para trabalhar no showbusiness. Debra estreou no cinema aos 14 anos de idade, em Uma Vida Marcada/Cry of the City, um film noir de Robert Siodmak, de 1948, estrelado pelo canastrão Victor Mature. Foi o primeiro dos 20 filmes que faria sob contrato com a 20th Century Fox – westerns, capa-e-espadas, musicais. Um de seus papéis mais famosos, no entanto, foi num filme da Paramount – a super hiper big produção Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille, de 1956.

Interessante é ver que os dois papéis mais marcantes de Debra, moça branquinha de Denver, Colorado, foram como uma índia neste Flechas de Fogo e como uma indiana no díptico de Fritz Lang O Tigre de Bengala e O Sepulcro Indiano, de 1957. Nessa aventura exótica do então veteraníssimo realizador austríaco de nascimento e alemão de formação, Debra Paget, praticamente nua, executa uma das danças mais absurdamente sensuais que o cinema já mostrou. É um espetáculo de encher os olhos.

Branquela – tornada pele-vermelha e depois morena pelo departamento de maquiagem –, Debra Paget casou-se pela terceira vez em 1962 com um bilionário chinês e não quis mais saber desse negócio de trabalhar. Aposentou-se aos 30 anos. Está viva.

“Minha Bíblia não diz nada a respeito dos pigmentos da pele das pessoas”

O roteirista Albert Maltz escreveu alguns belíssimos diálogos para o filme de Delmer Daves. Quando a narrativa já está bem adiantada, o protagonista, o capitão aposentado Tom Jeffords, conversa com o general Oliver Howard (Basil Ruysdael), que havia sido enviado pelo presidente Grant para tentar estabelecer um acordo de paz duradouro com os apaches sob o comando de Cochise. É um homem experiente, religioso, leitor da Bíblia – tem o apelido de O General Cristão. Tom Jeffords, no entanto, já está cético sobre as promessas de paz e acordos que representantes do governo federal faziam e depois descumpriam.

O general: – “Minha Bíblia fala de irmandade entre todos os filhos de Deus.”

Tom Jeffords: – “Se eles não forem brancos, ainda assim são filhos de Deus?”

O general: “Minha Bíblia não diz nada a respeito dos pigmentos da pele das pessoas”.

Ah, mas cacete, que frase maravilhosa: Minha Bíblia não diz nada a respeito dos pigmentos da pele das pessoas!

Pois o nome de Albert Maltz (1908-1985), o roteirista que escreveu essa frase, não apareceu nos créditos do filme, na época do lançamento, 1950. O roteiro foi assinado por Michael Blankfort. Era a época do macarthismo, da caça às bruxas promovida pela histeria anti-comunista, e Albert Maltz havia entrado na lista negra das pessoas que não podiam ser contratadas pelos estúdios ou pelas emissoras de TV.

Seu nome voltou a figurar nos créditos iniciais depois do fim daqueles tristes tempos paranóicos.

O roteiro que Albert Maltz não pôde assinar com seu próprio nome foi uma das três indicações ao Oscar que o filme recebeu. As outras duas foram para melhor direção de fotografia, de Ernest Palmer, e melhor ator coadjuvante para Jeff Chandler.

Não levou nenhuma estatueta. O que não desmerece filme algum. Flechas de Fogo é um filme para o qual tiro o chapéu.

Anotação em fevereiro de 2012

Flechas de Fogo/Broken Arrow

De Delmer Daves, EUA, 1950

Com James Stewart (Tom Jeffords), Jeff Chandler (Cochise), Debra Paget (Sonseeahray), Basil Ruysdael (General Oliver Howard), Will Geer (Ben Slade, fazendeiro), Arthur Hunnicutt (Milt Duffield, agente dos Correios)

Roteiro de Albert Maltz (creditado inicialmente a Michael Blankfort) Baseado no romance Blood Brother, de Elliot Arnold

Fotografia Ernest Palmer

Música Alfred Newman

Produção 20th Century Fox.

Cor, 93 min

R, ***1/2

8 Comentários para “Flechas de Fogo / Broken Arrow”

  1. Que texto inspirado o seu. Uau. Este é outro filme que preciso ver na íntegra, porque o vi nos tempos de faculdade – vão bem uns vinte anos – e do meio para o fim. Gostei do que vi. Mas James Stewart é James Stewart.
    Quando você começou falando que Albert Maltz não pode levar os créditos do roteiro que escreveu, desconfiei logo do que se tratava. E acertei… Tempos ruins para artistas americanos, aqueles.

  2. Merece ser visto, sim, Carla. Ele andou na programação do Telecine Cult. Não o encontrei no site da locadora que frequento, a 2001…
    Você achou o texto inspirado, é? E isso é bom ou ruim?
    Obrigado pela mensagem. Um abraço.
    Sérgio

  3. “Inspirado” quer dizer maravilhoso, que quer dizer que cria no leitor o desejo de assistir o filme.

  4. Imaginei que poderia ser isso, caríssima Carla. Mas fiquei com um pouquinho de medo de que você estivesse me gozando…
    Grande abraço, e obrigado!
    Sérgio

  5. Parabéns, Sérgio Vaz! Vejo que encontrei alguém de extremo bom senso, que escreve claramente e coisas interessantes e, finalmente, alguém que citou a sensualíssima dança da atriz Debra Paget no filme “O Sepulcro Indiano”! Vi o filme quando tinha 17 anos e jamais poderia esquecê-lo. Com tristeza, converso com muita gente sobre ele, mas ninguém se lembra dele. Até que enfim achei alguém. Gostei muito do seu comentário sobre Flechas de Fogo e assino em baixo tudo o que disse. Quero vê-lo sempre nestas páginas. Grande abraço.

  6. Por que o meu comentário postado às 8h11, ainda “aguarda moderação”? Essa demora é usual ou casual?
    Obrigado.

  7. Caro José Claudio,
    Agradeço muito pela sua mensagem absolutamente gentil, generosa.
    Aquela dança de Debra Paget é realmente inesquecível.
    Quanto à demora na moderação, é o seguinte:
    O WordPress, o programa que uso para editar os textos e postá-los na rede, segura a primeira mensagem, o primeiro comentário enviado por cada leitor. O administrador (eu, no caso) tem que ler o comentário e aprovar – ou não. Moderar, em suma. É uma forma de proteção do administrador, do site. Para impedir, por exemplo, que um sujeito mal intencionado escreva um monte de palavrões e os palavrões sejam automaticamente publicados.
    Uma vez que um leitor teve seu primeiro comentário liberado pelo administrador, aí então ele não precisará mais passar pela espera pela moderação. O programa entendeu que aquele leitor foi aprovado.
    É assim que funciona.
    Se você eventualmente enviar novos comentários, eles serão publicados imediatamente, sem passar pela moderação.
    Um abraço.
    Sérgio

  8. Sérgio, obrigado pela atenção e por me explicar como funciona a tal “moderação”. Justifico-me por duas razões: sou cinéfilo desde criança aqui em minha pequena cidade (Monte Sião – Sul de Minas), daí a minha ansiedade em falar com alguém que entende e gosta de cinema. Segunda razão: sou de outra geração, muito, muitíssimo anterior ao computador e, portanto, não sei manejá-lo bem. Mas, desculpas à parte, gostaria – se possível – ter mais contato com você, por aqui, ou pelo Face, ou ainda e-mail. Whatzap (é assim que se escreve?), tuiter e esses outros troços eu não entendo…ainda! Posso lhe enviar um jornal de minha cidade onde eu (ouso) fazer alguns comentários sobre filmes? Abraços e muito obrigado.

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