Face Oculta / Peacock

Nota: ★★★½

Face Oculta, no original Peacock, é um filme apavorante, aterrorizador. Sabe criar um clima forte, denso, pegajoso, desses de fazer o espectador se remexer o tempo todo, inquieto, na poltrona.

E traz uma interpretação impressionante, extraordinária, antológica, das melhores interpretações dos últimos tempos, a desse garoto irlandês Cillian Murphy. É espetacular, estrondosa, a atuação do rapaz. Não dá para entender que ele não tenha sido indicado a todos os prêmios possíveis e imagináveis.

Talvez seja porque o filme é chocante demais.

Acho que não exagero se disser que este Face Oculta/Peacock é tão apavorante quanto aqueles especialíssimos O Iluminado, Repulsa ao Sexo, O Inquilino, A Mão Que Balança o Berço, O Bebê de Rosemary.

Não que seja um filme de terror. É, exatamente como os três primeiros filmes citados aí acima, sobre loucura.

A loucura é muito, muito apavorante. Mais que qualquer Freddy Kruger, fantasma, lobisomem, vampiro.

Nos minutos iniciais, antes mesmo de aparecer o título do filme, uma grande surpresa

Vejo que este foi o primeiro longa-metragem do diretor Michael Lander, que antes havia feito apenas um curta.

Talento é uma coisa muito impressionante.

O filme abre com uma foto em preto-e-branco de um garoto à mesa. Uma voz de mulher, em off, diz:

– “Estou fazendo isso porque te amo. Não fale com ninguém. Eu avisei.”

E a frase “não fale com ninguém” passa a ser repetida pela mesma voz, diversas vezes, como num jogral, num coral, numa fuga bachiana. Diversas gravações superpostas da mesma voz dizendo “não fale com ninguém” – e o engenheiro de som fez um trabalho brilhante, e a voz vem de todos os alto-falantes da sala, num crescendo.

Corta, some o som. Silêncio – e vemos um plano geral de um campo, grama, uma árvore lá longe.

Vemos uma casa ampla, um sobrado, bem próxima a uma linha férrea; passa um trem, e o barulho do trem é alto, forte, ensurdecedor dentro da casa. Uma mulher recolhe a roupa no varal, e entra na casa, em passos rápidos. Entra e tranca a porta.

Um garotinho passa de bicicleta, joga o jornal do dia na varanda. A mulher abre a porta, pega o jornal e fecha a porta novamente, bem depressa. É óbvio que ela não quer ser vista por ninguém.

A mulher, na cozinha, prepara o café da manhã. Deixa um prato de comida, embrulhadinho, com um bilhete em cima dele, dentro da geladeira.

Coloca o prato com a refeição matinal numa mesa, entre um copo de leite e um guardanapo.

Senta-se numa cadeira bem perto da janela fechada por cortinas. Por uma fresta entre as cortinas, espia o movimento matinal da vizinhança, um pai que se despede da mulher e do filho para ir trabalhar, um ônibus escolar que passa para pegar crianças.

O relógio da sala marca 8h15.

A mulher sobe a escada. O espectador vê que o corredor do andar de cima é o mesmo da sequência inicial, aquela das vozes da mulher ordenando que o filho não falasse não ninguém.

Senta-se diante da penteadeira, tira a peruca.

A câmara agora mostra a pessoa de frente, tirando o vestido. Não é uma mulher – é um homem.

Surge na tela o título do filme: Peacock – pavão. Veremos depois que Peacock é o nome daquela cidade, uma cidadezinha de apenas 800 habitantes, no interior do Nebraska.

O homem que antes era mulher come solitário o café da manhã deixado prontinho, com cuidado, com afeto, metodicamente, enquanto lê o jornal. Está de terno, gravata.

Do lado de fora da casa, retira a tábua de um dos degraus da escada que leva à varanda. Pega uma caixinha que contém uma pequena chave – veremos depois que é a chave do cofre do banco.

O homem pega sua bicicleta e vai para o banco em que trabalha.

Estamos com seis minutos de filme; os créditos iniciais – que começaram no momento em que o personagem sentou-se para tomar seu café da manhã – ainda estão rolando, e o espectador já foi devidamente informado daquilo que ninguém, absolutamente ninguém na cidade de Peacock sabe: John, o timidíssimo, recatado, solitário funcionário do banco da cidade tem duas personalidades. Durante o dia, socialmente, é John, que a cidade toda conhece desde que nasceu, naquela mesma casa em que hoje mora. À noite, e até as 8h20 da manhã, é Emma. (Os dois estão nas fotos acima.)

Ninguém, absolutamente ninguém em Peacock sabe da existência de Emma. Mas o espectador já sabe, desde o iniciozinho da narrativa.

Um acidente – e de repente toda a cidade fica sabendo da existência de Emma

É uma grande sacada, essa, porque o espectador, desde o início, partilha com John e Emma o segredo deles.

Uma manhã bem cedo – quando estamos com 11 minutos de filme –, Emma está no quintal, recolhendo a roupa lavada, quando ocorre um acidente: um vagão de um trem que passa pertinho da casa descarrilha, entra no quintal, por pouco não atinge Emma. O barulho gigantesco do acidente desperta as pessoas ao redor, o quintal de Emma se enche de gente, uma foto é tirada, sairá no jornal do dia seguinte.

A rotina sagrada de John e Emma desaparecerá para sempre. Toda a cidade fica sabendo então que John – sempre solitário, sempre recatado, pouco ou nada sociável – casou-se em segredo com uma mulher que ninguém conhecia.

John e Emma vão sofrer mais do que suportável – e o espectador sofre junto com eles

É louco, profunda, absolutamente louco. É angustiante, apavorante, tudo o que acontecerá a partir daí. John e Emma vão sofrer muito mais do que é humanamente suportável – e o espectador sofrerá junto com eles.

John e Emma são interpretados por Cillian Murphy – e, repito, sua interpretação dos dois personagens é magistral.

Cillian Murphy, 32 anos de idade em 2008, ano em que o filme foi rodado, ofusca os demais atores do filme – e são atores de primeiríssima. Susan Sarandon (na foto acima, com Emma, e na foto ao lado, com John) faz o papel de Fanny, a mulher do prefeito da cidade, Ray Crill, que é também o dono do banco, patrão de John. Logo após o acidente com o vagão do trem descarrilhado, Fanny irrompe na casa de John e é recebida por uma Emma em absoluto pânico – são quase 8h15 da manhã, e é a hora de ela subir para o quarto e encarnar John.

Ray, o prefeito e patrão, é interpretado por Keith Carradine, um ator sempre competente. O chefe imediato de John no banco, French, é feito por Bill Pullman , outro bom ator. Josh Lucas, também bom, correto, faz o policial da cidade, Tom.

E ainda há Ellen Page (na foto abaixo), uma das atrizes mais fantásticas de sua geração – a de Keira Knightley, Lindsay Lohan, Scarlett Johansson, Emily Blunt, Alice Braga.

Ellen Page está brilhante – bem, Ellen Page é sempre brilhante. Ela só surge na história quando a narrativa já está bem avançada. Maggie, o personagem dela, vai à casa de John, levando Jake, seu filhinho de uns dois anos, para dizer a ele que está precisando muito do dinheiro que recebia mensalmente, até um ano atrás. John não sabe de nada daquilo – que dinheiro? E Maggie explica que a mãe de John mandava mensalmente um cheque para ela. John conta a ela que sua mãe morreu um ano antes. Foi quando Maggie parou de receber os cheques.

Maggie pede desculpas a John. Não queria incomodar, mas o dinheiro realmente estava fazendo falta.

A vida de John e de Emma vai ficando um inferno cada vez mais insuportável.

Um cineasta estreante que mostra ser discípulo de Polanski e Hitchcock

Essa história tenebrosa, alucinante, foi criada pelo próprio diretor Michael Lander e pelo co-roteirista Ryan O. Roy.

Não há informações sobre Michael Lander no IMDb, a maior enciclopédia de cinema da internet, a não ser o fato de que, antes deste Face Oculta/Peacock ele realizou um curta-metragem, Solid Waste.

Não há informações sobre Michael Lander, mas o fato é que o sujeito tem imenso talento. E eu aposto que é um fã abnegado de Roman Polanski, esse cineasta que mergulha fundo na loucura.

Claro, é fã e discípulo também de Hitchcock. Mary e eu pensamos em Psicose, enquanto víamos Peacock. Sim, é um pouco como Psicose – com a diferença de que o filme nos revela o tempo todo a existência de John e Emma.

Uma resenha numa publicação chamada The Trades remete a Hitchcock com uma frase boa: “Cillian Murphy (de Batman Begins) apresenta duas interpretações que merecem Oscar no thriller de suspense hitchcockiano de Michael Lander. Peacock é um exemplo perfeito de como fazer um suspense clássico.”

Outra publicação, Disc Dish, diz:

“Cillian Murphy tem uma interpretação dupla brilhante, como duas personalidades no mesmo corpo, um grande retrato de duas pessoas muito diferentes. Os roteiristas estreantes Ryan O Roy e Michael Lander, que também dirigiu, mantêm o suspense revelando a dupla personalidade de Murphy nos primeiros minutos do filme. O abuso a que John foi submetido também é revelado logo, e então o espectador sente simpatia por ele e torce para que seu segredo seja mantido.”

Pois é. E aí eu me pergunto: como acontece de um filme tão bom não ter tido um reconhecimento muito mais amplo?

Anotação em fevereiro de 2012

Face Oculta/Peacock

De Michael Lander, EUA, 2010

Com Cillian Murphy (John / Emma Skillpa), Ellen Page (Maggie), Susan Sarandon (Fanny Crill), Josh Lucas (Tom McGonigle), Bill Pullman (Edmund French), Graham Beckel (Connor Black), Keith Carradine (prefeito Ray Crill), Flynn Milligan (Jake)

Argumento e roteiro Michael Lander e Ryan O. Roy

Fotografia Philippe Rousselot

Música Brian Reitzell

Produção Cornfield Productions, Mandate Pictures. Blu-ray e DVD Imagem Filmes.

Cor, 90 min

***1/2

2 Comentários

  1. Ivan
    Postado em 11 Abril 2012 às 1:43 pm | Permalink

    Assisti este filme ontém, 10/04.De fato, uma interpretação brilhante de Cillian Murphy. Interessante que lembrei logo da atuação dele em Batman Begins aquela personagem com aquela mascara ridícula na cara ( claro )e, esta dupla interpretação maravilhosa. Gostei mais dele encarnando Emma. Talvez, até ele(no filme ) pois vivenciava mais a Emma do que John em termos de horas.
    Isto aqui é opnião minha : achei que em algumas cenas, dava prá perceber que era um homem travestido de mulher. A peruca, o rosto , a voz, (eu vi dublado )talvez uma maquiagem ainda melhor, sei lá… como disse, opinião minha. É que assisti “MONSTER – DESEJO ASSASINO” onde conseguiram fazer a Charlize Teron, lindíssima, ficar horrorosa. Uma maquiagem tão bem feita que eu não vi que era ela. Mas nada disso apagou o brilhantismo da atuação. Gostei demais da Emma.
    Não sei se estou certo mas, achei que o final
    ficou devendo alguma coisa , será ?
    Realmente não tinha como não torcer para o segredo ficar mantido.
    BRILHANTE CILLIAN – LINDA EMMA – GRANDE JOHN
    FILME PARA NÃO ESQUECER.

  2. José Luís
    Postado em 24 agosto 2013 às 3:10 pm | Permalink

    Cillian Murphy é um actor com grande capacidade e já o demonstrou em vários filmes (não Batmans, que horror):
    28 Days Later, Breakfast on Pluto ou The Wind That Shakes the Barley por exemplo.
    Este filme faz realmente lembrar Psycho, gostei bastante mas o fim deixou-me um pouco desconsolado como refere o Ivan.
    Mas merece ser visto.
    Tento sempre ver os filmes com Cillian Murphy, os Britânicos, claro.

2 Trackbacks

  1. […] do Paraíso, no original Something Short of Paradise, disparado, sem qualquer sombra de dúvida, é Susan Sarandon, jovem, já talentosa, e linda, maravilhosa, acachapantemente […]

  2. […] lá os jovens Ellen Page e Jesse Eisenberg, bons atores, dos melhores de sua geração, em ascensão no cinema […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*