Cavalo de Guerra / War Horse

Nota: ★★★☆

Será que vou ter coragem de dizer? Vamos lá: Cavalo de Guerra é inacreditavelmente sentimentalóide, piegas. E no entanto é um brilho de filme.

Só mesmo Steven Spielberg, mago, gênio, poderia fazer um filme assim.

Confesso que estava com uma certa preguiça. Um filme sobre um cavalo? Um cavalo como personagem principal, como protagonista? Um cavalo heróico?

Mas como não ver um Spielberg, novinho em folha? E então disse pra Mary: então tá, vamos ver o cavalinho do Spielberg.

É piegas desde o começo, o rapazinho filho do fazendeiro pobre acompanhando com o olhar embevecido o potrinho crescendo, cavalgando, brincando sob a companhia protetora da mãe.

O rapazinho, Albert (Jeremy Irvine, na foto), será o segundo personagem principal da história, o segundo herói. O primeiro, naturalmente, é o cavalo.

E aí o pai de Albert, Ted Narracott (Peter Mullan), enfrenta o malvado proprietário das terras em que vive e trabalha, Lyons (David Thewlis), no leilão em que o cavalo é vendido. Ted Narracott bebe um gole a cada lance do leilão, mas consegue derrotar seu locador, e carrega para a fazenda o belíssimo animal. Leva um danado de um esporro da mulher, Rosie (a maravilhosa Emily Watson), que argumenta que aquele bicho não serviria para arar a terra pobre e cheia de pedras. Mas Albert intervém, diz que treinará o cavalo, logo batizado por ele de Joey.

A seqüência em que toda a aldeia se ajunta em torno do terreno ruim de Ted Narracott para acompanhar a tentativa de jovem Albert de domar o bravo Joey e transformá-lo em burro de carga carregando o arado roça o risível, o ridículo.

Haverá ainda muita coisa beirando o risível, o ridículo, na história de Joey, o cavalo heróico – mas como resistir à câmara de Steven Spielberg e seu fiel diretor de fotografia Janusz Kaminski? Como resistir àqueles planos gerais da belíssima paisagem do interior inglês, a câmara sempre andando suavemente em cima de uma grua?

Quando chega a primeira batalha dos elegantes soldados ingleses, na França de 1914, contra os aparentemente despreparados e pegos de surpresa homens do Kaiser – começando com um plano geral de um lindíssimo campo de trigo, de onde assomam os cavaleiros ao montarem em seus belos animais –, aí a mágica de Spielberg já tomou conta.

O sentimentalismo excessivo, a pieguice continuarão firmes. Mas elas que se danem. Meu Deus do céu e também da terra, quantas tomadas maravilhosas, quantas seqüências brilhantes, extraordinárias, de uma beleza fenomenal, deslumbrante!

Algumas das mais memoráveis seqüências de batalha da história do cinema

Em algumas cenas de batalhas – das mais memoráveis cenas de batalha de toda a história do cinema, realçadas ainda por um sensacional, requintadíssimo trabalho dos engenheiros de som –, me peguei pensando: cacete, o cara consegue se suplantar! São sequências tão maravilhosas, tão perfeitas, tão impressionantes quanto as que ele havia feito no início de O Resgate do Soldado Ryan! E, ao ver O Soldado Ryan (preciso rever o filme!), a gente tem certeza de nunca mais ninguém vai fazer cenas de batalha tão extraordinárias.

Pois Spielberg faz. Spielberg se suplanta.

Não há como não lembrar de Feliz Natal, o belo manifesto pacifista de Christian Carion, de 2005, na sequência na Terra de Ninguém, a no man’s land, o espaço entre as trincheiras alemãs e aliadas, que vem depois de uma outra sequência especialmente brilhante, a fuga de Joey, sua cavalgada pelas trincheiras. Claro, Feliz Natal veio antes – mas o que Spielberg fez é belo, tocante, emocionante.

Também não dá, nessa sequência, para não lembrar de “No Man’s Land”, a canção forte, inesquecível, de Eric Bogle.

E, no final, com aquele céu vermelho forte, a lembrança de … E o Vento Levou é inevitável. Mais um toque piegas.

O filme é piegas, sim – e brilhante.

O autor do livro infanto-juvenil que deu origem ao filme aparece em uma seqüência

Cavalo de Guerra teve seis indicações ao Oscar: melhor filme, melhor trilha sonora, melhor fotografia, melhor direção de arte, melhor som e melhor mixagem de som. Não levou nenhum. Teve o prêmio de Filme do Ano do American Film Institute, concorreu a cinco Baftas. Ao todo, teve seis prêmios e 45 indicações.

Foi, é claro, uma produção cara – custou cerca de US$ 66 milhões. Os produtores empregaram 5.800 pessoas, entre extras e pessoal das equipes técnicas. Até abril de 2011, tinha rendido US$ 177 milhões.

Algumas informações do IMDb:

O filme se baseia num livro infanto-juvenil de mesmo nome, escrito por Michael Morpurgo, lançado na Inglaterra em 1982. Em 2007, o livro foi adaptado para o teatro, e fez grande sucesso tanto no West End de Londres quanto na Broadway de Nova York.

Morpurgo, o autor, tem uma pequenina participação especial no filme, à la Hitchcock. Ele está de pé ao lado de David Thewlis na cena do leilão no começo da narrativa.

Também faz uma ponta a neta do capitão Budgett, um dos veteranos da Primeira Guerra Mundial que inspiraram Morpurgo a escrever seu livro.

Foi o primeiro filme de Spielberg montado digitalmente. O montador Michael Kahn, que trabalhou com o cineasta em quase todos os filmes dele, sempre usava a velha Moviola – mas, desta vez, rendeu-se à computação.

Catorze cavalos foram filmados no papel de Joey. O principal deles, o mais utilizado, Finder, apareceu também em Seabiscuit – Alma de Herói, de 2003.

Foi a primeira obra sobre cavalos a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme em oito anos; o anterior havia sido exatamente Seabiscuit.

Esse cavalo Finder ainda acaba recebendo um Oscar honorário…

Para ler uma outra opinião – um pau solene no filme -, veja O Rato Cinéfilo.

Anotação em abril de 2012

Cavalo de Guerra/War Horse

De Steven Spielberg, EUA, 2011

Com Jeremy Irvine (Albert Narracott), Peter Mullan (Ted Narracott), Emily Watson (Rose Narracott), Niels Arestrup (o avô de Emilie), David Thewlis (Lyons), Tom Hiddleston (capitão Nicholls), Benedict Cumberbatch (major Jamie Stewart), Celine Buckens (Emilie), Leonard Carow (Michael), David Kross (Gunther), Matt Milne (Andrew Easton), Robert Emms (David Lyons)

Roteiro Lee Hall e Richard Curtis

Baseado no romance de Michael Morpurgo

Fotografia Janusz Kaminski

Música John Williams

Montagem Michael Kahn

Produção DreamWorks SKG, Amblin Entertainment, Kennedy/Marshall Company, Touchstone Pictures. DVD Touchstone.

Cor, 146 min.

***

6 Comentários

  1. Postado em 25 junho 2012 às 12:11 pm | Permalink

    Ena, Sérgio, você foi bem meigo com este filme, hein? Estou a acabar de escrever sobre ele (vi-o neste último fim-de-semana) e mais logo o post respectivo vai estar já no Rato Cinéfilo. Confira!

    Abraço

  2. José Luís
    Postado em 27 junho 2012 às 2:26 pm | Permalink

    Caro Sérgio,
    Eu não vi o filme e não vou fazer nenhum comentário sobre ele.
    Só quero dizer que o preâmbulo do comentário que o Rato escreveu me parece certo, quando diz sobre Steven Spielberg ““Terminal de Aeroporto” [2004] foi o último filme (bastante) interessante de Steven Spielberg. A partir daí – e já lá vão 8 anos – a carreira do realizador americano não tem parado de me desiludir”.
    Devo dizer que não vi nem verei o TimTim, gosto demasiado das bandas desenhadas para gramar adptações.
    Já há uns tempos que penso como o Rato e deste realizador já não espero nada com qualidade.
    Vai continuar a fazer filmes mas para meter mais uns milhões no bolso.
    Este “Cavalo de Guerra” também vou dispensar.

  3. Danilo Vicente
    Postado em 3 julho 2012 às 11:59 pm | Permalink

    Sergio, neste discordamos inteiramente. Belas imagens e cenas grandiosas. De resto, um cavalo que só falta falar. O cavalo é mmmmmuuuiiiittttooooo inteligente. Consegue ler pensamentos. E antecipa problema de seus “donos” e “colegas” cavalos. Também sou fã de Spielberg. Mas nao neste.

    Abs.

  4. paloma
    Postado em 15 Março 2013 às 6:58 pm | Permalink

    ameii[

  5. José Luís
    Postado em 16 setembro 2013 às 9:28 pm | Permalink

    Afinal vi o filme e achei que era bem pior do que tinha imaginado, longo, aborrecido, sem chama, sem nada para recordar, é o filme que se esquece imediatamente depois de acabar. E o fim? Lamentável este fim, é demasiado mau, até custa a acreditar que o Spielberg o tenha feito.

  6. Postado em 22 Maio 2016 às 10:07 pm | Permalink

    caro Sérgio,eu vi o seu filme e gostei muito dele.meus parabens pelo seu grande filme

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Amistad em 24 Fevereiro 2013 às 10:14 pm

    […] – que ainda não vi – a rigor é assim a terceira parte de uma trilogia de filmes do judeu Steven Spielberg sobre a condição dos negros nos Estados Unidos da América, esse país fascinante e paradoxal que […]

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