Caminho da Liberdade / The Way Back

Nota: ★★★☆

Caminho da Liberdade/The Way Back é um belo filme, como não poderia deixar de ser, já que é da autoria de Peter Weir, um dos melhores diretores em atuação no cinema hoje. Mas o que é mais absolutamente impressionante nele é o fato de que se baseia numa história real.

A frase aparece na tela logo após os logotipos das diversas produtoras que se reuniram para fazer o filme:

“Em 1941, três homens chegaram à Índia vindos do Himalaia. Tinham sobrevivido a uma caminha de 6.400 quilômetros rumo à liberdade. Este filme é dedicado a eles.”

Seis mil e quatrocentos quilômetros. Quase a extensão de toda a costa brasileira, do Oiapoque ao Chuí. Só que os 6.400 quilômetros que aquelas pessoas percorreram a pé separam a Sibéria russa, um dos lugares mais gelados do continente, até a Índia, passando, portanto, por todo o deserto da Mongólia e toda a extensão da China, de Norte a Sul, mais a cordilheira mais alta do planeta.

É inimaginável. É humanamente impossível. Se fosse uma obra de ficção, os autores deveriam ser obrigados revelar que droga alucinógena tão poderosa foi que tomaram para imaginar uma história assim.

E no entanto aconteceu.

Um filme de imagens belíssimas – mas que comça com palavras

Peter Weir, seu diretor de fotografia Russell Boyd e a equipe deles captaram imagens impressionantes, acachapantes, de florestas geladas, tomadas pela neve, de desertos infinitos, de cordilheiras – imagens de imensa beleza plástica, mas que dão um frio na espinha do espectador quando se imagina que um grupo de pessoas caminhou ao longo de tudo aquilo.

São de fato imagens fantásticas, planos gerais de imensidões, de superfícies vastas, a perder de vista. Não é à toa que uma das várias produtoras do filme é um braço da National Geographic.

O filme cheio dessas imagens começa, no entanto, só com palavras.

Primeiro vemos a frase que reproduzi acima – um letreiro branco no fundo preto.

Aí surgem os nomes de várias das companhias produtoras: Exclusive Films, National Geographic Films, Imagenation Abu Dhabi FZ, On the Road, Point Blank Productions, Polish Film Institute. Foi necessário reunir capital dos Estados Unidos, dos Emirados Árabes, com o apoio do Instituto Polonês do Filme, para produzir este Caminho da Liberdade – o orçamento foi de US$ 30 milhões.

Mas, depois dos nomes das produtoras, e do título do filme, The Way Back – em um tipo de letra que, visto de perto, faz lembrar os caracteres do russo –, ainda há mais palavras em branco na tela preta:

“Setembro 1939. Hitler invade a Polônia vindo do Oeste. Alguns dias depois Stálin invade vindo do Leste. Dividem o país entre eles.”

Só então aparece a primeira seqüência do filme. Interior, não se sabe se é dia ou noite; na parede, um retrato de Stálin. Um oficial soviético uniformizado estende, sobre a mesa, um papel para que o prisioneiro que está sendo interrogado assine. O prisioneiro se nega a assinar. O oficial manda o guarda trazer a testemunha – entra na sala a mulher do prisioneiro.

É visível que os dois, marido e mulher, haviam sido torturados.

O oficial faz perguntas à mulher, ela responde o que os torturadores queriam que ela respondesse: sim, o marido é um espião estrangeiro.

No inferno do gulag, o americano diz que a bondade pode matar

Corta, e estamos num campo de concentração na Sibéria. O prisioneiro da seqüência de abertura é um dos diversos homens que chegam ao campo de concentração, o gulag. Chama-se Janusz (o papel do jovem inglês Jim Sturgess), é polonês. O espectador não ficará sabendo o motivo da prisão de Janusz; sabe, é claro, que ele não é espião coisa alguma. Pode ter sido preso por qualquer motivo – talvez uma cara feia em público diante de um retrato de Stálin, ou qualquer outro crime tão grave quanto esse.

Peter Weir usa 30 minutos dos 133 de duração de seu filme para mostrar as condições desumanas, brutais, infernais da vida no gulag. Não usa meio tons, nem qualquer sutileza. Muito ao contrário.

Na fila pela comida horrorosa, que um cão sarnento rejeitaria, um velho deixa cair uma porção na neve. Chega um homem e pisa na porção, antes que o velho a apanhe, e depois a cata para comer. Janusz vê a cena, aproxima-se do velho e dá para ele parte da sua própria comida.

O homem – veremos em seguida que é um americano, que se apresenta como Mister Smith (interpretado pelo sempre bom Ed Harris) – se dirige a Janusz: – “Pretende sobreviver com meia porção, filho?”

Janusz: – “Ele é um velho!”

Smith: – “Eu sou velho, mas estarei vivo amanhã. Ele não. (E, depois de uma pausa:) Bondade… Isso pode matar você aqui.”

Um russo se aproxima de Janusz, quer ser amigo dele; está preso há algum tempo, se oferece para dar informações para o polonês, situá-lo sobre quem é quem no campo de concentração. Chama-se Khabarov (o papel do inglês de origem italiana Mark Strong).

Trocam informações, os motivos pelos quais cada um está preso. Khabarov diz que foi acusado de sabotagem:

– “Eu era ator. De cinema. No meu último filme fiz o papel de um aristocrata. Me prenderam quando o filme foi lançado. Disseram que eu elevava o status da velha nobreza.”

“A União Soviética se tornou uma vasta prisão”

Não, o filme não quer saber de sutilezas.

Pouco depois, Janusz e Khabarov estão dentro de um dos imensos dormitórios onde centenas e centenas de presos se amontoam. Janusz observa um grupo de sujeitos mal encarados, cheios de tatuagens – no meio deles está um chamado Valka (o papel do irlandês Colin Farrell). Khabarov explica que são os urki, criminosos profissionais, assassinos e ladrões.

Khabarov: – “Não olhe fixamente para eles. Os guardas deixam que eles mandem aqui e devem ser temidos pelos outros presos.”

Janusz: – “Por que os guardas permitem que eles mandem aqui?”

Khabarov: – “Por que são o produto da burguesia, e, portanto, amigos do povo. Somos prisioneiros políticos, e portanto inimigos do povo. A União Soviética se tornou uma vasta prisão.”

Um panfleto escrachado contra o totalitarismo, uma ode à solidariedade

Não são 30 minutos agradáveis de se ver, este trecho do filme passado no campo de concentração soviético na Sibéria. É um retrato pavoroso, apavorante, que o filme faz do gulag.

Os 103 minutos restantes do filme mostrarão a jornada, a caminhada do grupo que consegue fugir do gulag sempre rumo ao Sul, através de 6.400 quilômetros. É, como não poderia deixar de ser, outro retrato pavoroso, apavorante, de uma caminhada em regiões geladas, e depois, no deserto, sob calor intenso, sol forte, com imensa dificuldade para obter comida e água.

É, o filme inteiro, uma barra pesadíssima de se ver.

É também um belo filme, como já falei. É um panfleto escrachado contra o totalitarismo – e uma ode às coisas boas de que os homens são também capazes, a bondade, a solidariedade, a amizade, mesmo nas situações mais difíceis. Ou, talvez, exatamente por causa delas.

No ótimo elenco, brilha a garota Saoirse Ronan

O elenco que Peter Weir reuniu, gente de diversos países, uma grande Liga das Nações, é todo muito bom. Jim Sturgess, como o jovem polonês de imenso coração, e Colin Firth, como o russo bandido, talvez exagerem um pouquinho, aqui e ali, mas não a ponto de comprometer o conjunto. Ed Harris – que já havia sido dirigido por Weir na obra-prima The Truman Show – está muito bem, assim como os demais atores menos conhecidos escolhidos para interpretar os caminhantes: Hustaf Skarsgard, Alexandru Potocean, Sebastian Urzendowsky, Dragos Bucur.

Para o único papel feminino de destaque (fora dele, há apenas o da mulher de Janusz, que aparece apenas na sequência inicial, interpretada por Sally Edwards), as diretores de elenco tiveram a felicidade de escolher Saoirse Ronan, essa jovem irlandesa nascida em Nova York, atriz de talento impressionante, que interpretou Briony Tallis em Atonement, no Brasil Desejo e Reparação.

Saoirse Ronan interpreta Irena, uma adolescente que se junta ao grupo de caminhantes. Está maravilhosa. Sorte do filme por ela ter sido escolhida, sorte dela por acrescentar ao currículo um filme sob a direção de Peter Weir.

Ao contrário dos alemães, os russos não documentaram seus campos de concentração

Se eu visse este filme uns 20 anos atrás, teria certamente ficado nauseado com o que chamaria de “propaganda anti-comunista”. Ainda tem gente, hoje, que seguramente reagiria dessa maneira ao filme.

Aos 67 anos, o australiano Peter Weir não parece preocupado com o que poderão dizer dele os “blogueiros progressistas” e as demais viúvas do stalinismo:

“Sabemos bastante sobre os campos de concentração nazista”, diz ele, com uma voz e um semblante tranquilos, em uma entrevista no making of que acompanha o filme, “mas pouco sobre os campos de concentração soviéticos, os chamados gulags. Havia uma rede de 450 por toda a União Soviética, construídos a partir da época da revolução (de 1917). E, com o desenrolar da Segunda Guerra, prisioneiros russos, ou aqueles em territórios ocupados, foram levados para esses campos de concentração. Eles passaram por sofrimentos inimagináveis.”

Ed Harris como que complementa, em outra entrevista no making of:

“Ninguém estava a salvo. Havia 20 milhões de pessoas nesses campos. Mas isso é apenas uma estimativa. Não há números exatos, pois os russos não documentaram os fatos, ao contrário do que os nazistas fizeram. Os russos não tiraram fotos, não guardaram imagens. Como se quisessem manter segredo. Enquanto os nazistas tinham orgulho do que estavam fazendo.”

Já disse várias vezes aqui, mas repito: já se fizeram trocentos filmes sobre os campos de concentração nazista, e é bom que se continuem fazendo outros tantos. É uma barbaridade que precisa ser denunciada sempre. Da mesma forma, todos os filmes que denunciarem os horrores do stalinismo serão sempre muito bem-vindos.

A elegia da jornada da humanidade para longe dos dois totalitarismos

A ênfase maior do filme, me parece, é o elogio à força do grupo de fugitivos, da solidariedade dos seres humanos, da capacidade de vencer os mais terríveis obstáculos. Mas, ao final, Weir transforma seu filme em uma elegia à jornada da humanidade ao longo do século XX, para longe dos dois totalitarismos, o nazista e o comunismo.

Não é um filme fácil de se ver. É muito, muito duro, pesado. Mas é um belo filme.

Anotação em novembro de 2011

Caminho da Liberdade/The Way Back

De Peter Weir, EUA-Emirados Árabes Unidos, 2010

Com Jim Sturgess (Janusz), Ed Harris (Mr. Smith), Colin Farrell (Valka), Saoirse Ronan (Irena), Mark Strong (Khabarov), Hustaf Skarsgard (Voss)

Alexandru Potocean (Tomasz), Sebastian Urzendowsky (Kazik), Dragos Bucur (Zoran), Sally Edwards (a jovem esposa de Janusz)

Roteiro Keith Clarke e Peter Weir

Baseado no livro The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom, de

Slavomir Rawicz

Fotografia Russell Boyd

Música Burkhard Dallwitz

Produção Exclusive Films, National Geographic Films, Imagenation Abu Dhabi FZ, On the Road, Point Blank Productions, Polish Film Institute. Blu-ray e DVD Califórnia Filmes.

Cor, 133 min

***

4 Comentários

  1. Mário Marinho
    Postado em 10 janeiro 2013 às 2:50 pm | Permalink

    Concordo: o filme é uma porrada! E pesado e é espetacular. Assisti em horário que, normalmente, já estaria dormindo, mas não consegui sair de frente da tevê.
    Ao final, senti falta de informação, como se costuma fazer nesse tipo de filme: que aconteceu cm cada um dos personagens.
    Para variar, brilhante o seu comentário.
    Abraços,
    Mário Marinho.

  2. José Luís
    Postado em 2 fevereiro 2013 às 9:27 pm | Permalink

    Isto não é bem um comentário, para comentar há pessoas melhores do que eu.
    Fico-me apenas por dizer que apesar de não ser, a meu ver, um dos melhores filmes de Peter Weir, gostei muito.
    Sobretudo porque aborda um tema que eu nunca tinha visto em cinema – os campos de concentração soviéticos.
    Ainda é um assunto sobre o qual sabemos pouco e que é necessário tirar do silêncio.

  3. Felipe Loubach
    Postado em 24 agosto 2014 às 2:10 pm | Permalink

    Assisti a esse filme apenas ontem à noite, 23/08/2014, e fiquei muito impressionado com o realismo. É, de fato, uma viagem, para quem gosta do gênero. Os comentários desta página são de igual realismo e talento. Tanto que fiquei com vontade ver o filme novamente.
    Parabéns!
    Felipe Loubach
    Serra/ES/Brasil

  4. Alvin
    Postado em 28 janeiro 2015 às 5:28 pm | Permalink

    Na verdade essa história não é verdade, pesquisem aí por favor, talvez só encontrem conteúdo em inglês. Mesmo assim é fantástica.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Um Dia / One Day em 7 janeiro 2013 às 12:14 am

    […] o par central, foram escolhidos a ótima americana Anne Hathaway e o jovem inglês em ascensão Jim Sturgess. A trilha sonora é de uma compositora maravilhosa, Rachel Portman. A fotografia, de Benoît […]

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