Balada Sangrenta / King Creole

Nota: ★☆☆☆

A direção é de Michael Curtiz, o grande Michael Curtiz de Casablanca. Baseia-se em livro de Harold Robbins, autor de tantos best-sellers. Tem no elenco Carolyn Jones, um jovem Walter Matthau como um vilão nojento e a garota Dolores Hart num papel angelical, perfeito para seu rosto de anjo.

Tinha uma vaga lembrança de ter lido em algum lugar, muito tempo atrás, que era um dos melhores filmes da carreira de Elvis. É de 1958, e portanto Elvis estava bastante jovem.

Me sentei para ver o filme com a maior das boas vontades.

Achei tudo absolutamente ruim. Uma gigantesca porcaria. Tudo é estupidamente ruim – ou, vá lá, quase tudo.

Há duas coisas boas, na minha opinião: a interpretação de Carolyn Jones como a mulher inteiramente dominada pelo bandido e a bela fotografia em glorioso preto-e-branco, que realça a decadência do Bairro Francês de New Orleans.

Mas não vou ficar desancando o filme. Tento fazer uma sinopse objetiva, e depois reúno informações dos alfarrábios e outras opiniões.

Aí vai uma sinopse objetiva, puramente factual – se é que consigo

Danny Fischer (o papel de Elvis Presley) está tentando terminar o colegial, a high school. É um rapaz revoltado e bom de briga. Mora com o pai (Dean Jagger) e a irmã Mimi (Jan Shepard) num apartamento pequeno, simples, no French Quarter de New Orleans. A família já esteve em situação bem melhor, mas o sr. Fischer, farmacêutico há 25 anos, perdeu muito do gosto pela vida quando sua mulher morreu, três anos antes; afundou-se em dívidas, perdeu a farmácia, não consegue emprego.

O maior desejo do pai é que Danny se forme no colegial, para depois poder ter uma profissão. Mas Danny já foi reprovado no último ano, e, quando a ação começa, envolve-se numa briga na escola e é reprovado de novo.

Danny faz bicos: trabalha como ajudante de garçom num dos muitos night-clubs de propriedade de Maxie Fields (o papel de Walter Matthau), um gângster cruel. No último dia da escola, acaba enfrentando uns amigos do patrão que estavam agredindo uma mulher, Ronnie (o papel de Carolyn Jones).

Essa Ronnie, veremos depois, é uma espécie de propriedade de Maxie Fields. Uma escrava – já que não consegue se libertar do jugo do bandido que ela odeia.

Maxie Fields fica sabendo que Danny canta, e manda que ele cante. Danny sobe ao palco, canta e arrasa.

A apresentação é asssistada por Charlie LeGrand (Paul Stewart), homem simpático, honesto, bom caráter, dono de um night-club, o King Creole do título original, concorrente dos do bandido Maxie Fields. Oferece a Danny um emprego como cantor. Danny acabará aceitando – para a fúria de Maxie Fields, que quer porque quer ser ele próprio o patrão do rapaz que faz imediatamente um sucesso fenomenal na noite de Nova Orleans.

Aí foi. Me esforcei ao máximo para fazer uma sinopse objetiva, puramente factual.

É o melhor filme de Elvis. Se este é o melhor, o resto, então…

Foi o quarto filme de Elvis, depois de Love me Tender (1956), Jailhouse Rock e Loving You (os dois de 1957), e o último em preto-e-branco: depois deste, todos os filmes da carreira do cantor seriam em cores.

E, sim, minha vaga lembrança estava correta: King Creole é em geral considerado o melhor dos filmes de Elvis, e o próprio cantor o tinha como seu preferido. Essas informações estão no IMDb.

Em 1958, ano de lançamento do filme, Elvis estava com 23 anos. Sua ascensão havia sido absolutamente fulminante. As primeiras gravações, para a Sun Records, o pequenino selo de Sam Philips, foram feitas entre 1954 e 1955, ano em que foi contratado pela RCA. Seu primeiro disco pela grande gravadora, um single com “Heartbreak Hotel”, foi lançado em janeiro de 1956 e chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos e ao segundo na Inglaterra. Ao longo de 1956, foram seis discos de ouro, e ele se tornou, como diz uma velha enciclopédia inglesa de rock, “o mais poderoso símbolo do rock e da rebeldia juvenil na América e na Europa”.

E aí, no auge da explosão na música e no cinema, foi convocado pelo Exército. Consta que, para Elvis concluir as filmagens de King Creole, foi necessário obter uma licença especial de 60 dias do Exército. Em 24 de Março de 1958, como soldado raso 53310761, foi embarcado para prestar serviço na Alemanha.

Planejou-se ter James Dean como o protagonista. O mito morto, o papel foi para Elvis

No livro de Harold Robbins A Stone for Danny Fisher, lançado em 1952, o talento do protagonista não é a música – é o boxe. A ação se passava em Nova York, em meados dos anos 20; com a Grande Depressão, iniciada a partir da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, Danny Fisher é obrigado a usar seu talento para o boxe para ajudar no sustento da família.

Houve planos em Hollywood para filmar a história de Harold Robbins com James Dean no papel título. Com James Dean morto – em um acidente automobilístico em 1955, aos 24 anos, quando o terceiro e último filme, Giant, Assim Caminha a Humanidade, ainda estava em fase de pós-produção –, Elvis era sem dúvida a escolha certa para substitui-lo.

Os roteiristas Herbert Baker e Michael V. Gazzo fizeram as adaptações. Em vez de Nova York nos anos 20 e início dos 30, New Orleans nos anos 50. Em vez de boxe, música.

Michael Casablanca Curtiz teria dito que Elvis tinha talento – poderia virar um grande ator

Alguns fatos:

O diretor Michael Curtiz, já experiente, respeitadíssimo, foi convidado para o projeto pelo produtor Hal B. Wallis, um dos figurões da Paramount. A princípio, ele se recusou, mas acabou aceitando. Consta que, depois que as filmagens terminaram, Elvis disse: “Agora eu sei o que é um bom diretor”. E consta também que Curtiz disse que Elvis tinha talento para se transformar em um grande ator.

Após a morte de Elvis, Walter Matthau fez elogios a ele: “Era um ator instintivo. Era bastante inteligente. Não era um punk. Era elegante, tranquilo, refinado, sofisticado”.

Foi cortada do filme toda uma sequência em que, antes de Danny Fisher-Elvis Presley se apresentar, no night-club de Charlie LeGrand, o King Creole, uma dançarina, com roupas mínimas, os coxões à mostra, diversas bananas amarradas ao biquíni, canta uma música chamada “Banana”. Enquanto canta, e dança, e requebra, a bailarina joga uma e outra banana na direção do público.

Essa fantástica mistura de Carmen Miranda com o Chacrinha que ainda não existia em 1958 era, obviamente, demais para os padrões dos anos 50. Somente nos anos 2000 foi relançada a versão original contendo essa seqüência cheia de alusões fálicas. A cópia exibida pelo Telecine Cult inclui a seqüência.

Dolores Hart, tão angelical que abandonou o cinema e virou freira

Dolores Hart, a atriz de rosto angelical que interpreta Nellie, a garota toda pura de cabelos e olhos claros que se apaixona por Danny (em contraposição à nada pura e de cabelos negros Ronnie feita por Carolyn Jones), já havia feito papel de namoradinha do personagem de Elvis no filme Loving You.

Uma figura, Dolores Hart. Quando eu tinha 12 anos – parece que foi em outra encadernação, digo, encarnação –, tive uma incrível paixonite por ela, por causa de O Inspetor/The Inspector, um drama dirigido por Philip Dunne sobre judeus no final da Segunda Guerra. Vi o filme quatro vezes, conforme atesta meu primeiro caderninho de filmes.

Dolores Hart nasceu em Chicago, em 1938, descendente de irlandeses e italianos – era sobrinha de Mario Lanza. Sua carreira, que incluiu 17 títulos no cinema e na TV e diversos papéis no teatro, na Broadway, durou de 1957 a 1963. Aí a moça entrou para um convento e virou freira. Está viva, em 2012; é a madre superiora de uma abadia em Connecticut.

Carolyn Jones, bem ao contrário de Dolores Hart, teve uma vida bem mais curta e carreira mais rica. Morreu em 1983, aos 53 anos. Sua filmografia chega perto dos cem títulos.

Quando adolescente, vi Carolyn Jones no western Duelo de Titãs, ao lado de Kirk Douglas e Anthony Quinn; em Calvário de Glória/Career, um drama sobre o mundo do teatro em Nova York; na comédia romântica Os Viúvos Também Sonham/A Hole in the Head, ao lado de Frank Sinatra, Edward G. Robinson e Eleanor Parker – o penúltimo filme dirigido pelo mestre Frank Capra.

Muito tempo e algumas encadernações depois, já em 2000, revi Calvário de Glória, e achei que a interpretação de Carolyn Jones era a melhor coisa do filme. Aí fui checar o Movie Guide e vi que Leonard Maltin disse exatamente a mesma coisa.

As opiniões do autor do guia mais vendido e de um mestre francês

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4 para este Balada Sangrenta/King Creole: “Elvis está bastante bem como jovem cantor de night-club de Nova Orleans que é eventualmente levado ao submundo do crime. Adaptação algumas oitavas abaixo de A Stone For Danny Fisher, de Harold Robbins (que se passava em Chicago), co-roteirizado por Michael V. Gazzo. Entre as canções, ‘Hard Headed Woman’, ‘Trouble’ e a canção título.”

O Guide des Films de Jean Tulard fala o seguinte sobre Bagarres au King Creole:

“O roteiro foi inicialmente pevisto para James Dean, que deveria interpretar um boxeador de Chicago! A fim de apagar a deplorável impressão deixada pelo filme anterior de Elvis, os produtores engomaram conscientemente a violência do personagem. E no entanto virou um film-culte (os fãs franceses tiveram que esperar dois anos pelo lançamento), admiravelmente fotografado e com alguns boas canções (‘King Creole’, ‘Trouble’, ‘Crawfish’, etc).”

Bagarre, me explica aqui o dicionário, é tumulto, barulho, desordem. Confusões no King Creole.

A minha opinião? Ah, preguiça danada

Muito bem. Botei aí um monte de informações, mas ao contrário do normal, do que faço sempre, quase não dei minha opinião.

Achei o filme horroroso. Beirando perigosamente o grotesco, o ridículo. Não vou nem tentar explicar como, quando e por quê. Preguiça. Digo só o seguinte: Elvis Presley, como ator, não chega aos pés de Victor Mature, o maior canastrão da história do cinema americano. Comparado com Elvis, Victor Mature é assim, digamos, shakespeariano. Um Laurence Olivier.

Que os fãs de Elvis passem longe deste comentário aqui – e se divirtam.

Anotação em março de 2012

Balada Sangrenta/King Creole

De Michael Curtiz, EUA, 1958

Com Elvis Presley (Danny Fisher), Carolyn Jones (Ronnie), Dolores Hart (Nellie), Dean Jagger (Mr. Fisher), Liliane Montevecchi (“Forty” Nina), Walter Matthau (Maxie Fields), Jan Shepard (Mimi Fisher), Paul Stewart (Charlie LeGrand), Vic Morrow (Shark), Brian Hutton (Sal), Jack Grinnage (Dummy), Dick Winslow (Eddie Burton)

Roteiro Herbert Baker e Michael V. Gazzo

Baseado no romance A Stone for Danny Fisher, de Harold Robbins

Fotografia Russell Harlan

Música Walter Scharf

Coreografia Charles O’Curran

Figurinos Edith Head

Produção Hal B. Wallis, Paramount

P&B, 116 min

*

Título na França: Bagarres au King Creole.

7 Comentários

  1. Postado em 7 maio 2012 às 6:07 am | Permalink

    Ora nem mais, amigo Sérgio, tudo o que é fan do Elvis passa ao lado de qualquer crítica, má ou boa, e quer é ouvir as canções interpretadas pelo King. Tal qual como aqui o Rato. Os filmes não valem mesmo nada (excepção feita a “Jailhouse Rock” ou “Viva Las Vegas”), as interpretações são do piorio (muito boa a elevação do Mature a actor shakespeariano, eheheh), mas a atracção por esses filmes é mesmo real. Um tanto ou quanto inexplicável, mas real. Ao fim e ao cabo há que enfrentar os nossos “guilty-pleasures” sem qualquer prurido. E, no caso do Elvis, sou um completo desavergonhado!

    Abraço

  2. Carla
    Postado em 7 maio 2012 às 6:48 am | Permalink

    Dos filmes de Elvis, era o favorito da minha mãe, e me lembro pouco; eu o vi aos 12, 13 anos e achei maravilhoso…
    Mas a música! Sobre isto, quem aprecia a música de Elvis não pode se enganar. Tem algumas de suas joias. A sequencia inicial com – “Fever”? – uma canção com a voz de Elvis e de uma atriz negra cuja personagem passa pela rua enquanto ele está dentro de casa, no quarto – e “King Creole”, além de outras.
    É outro filme que eu gostaria de rever. Quem sabe vou concordar com você. Quem sabe não.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 7 maio 2012 às 9:30 pm | Permalink

    Grande Rato, caríssima Carla,
    Pois é…
    Sei que é duro falar do Elvis, porque quem é fã é mais que fã, é sempre fanático…
    E eu bem que tentei escrever um monte de coisas objetivas sobre o filme. Mas tinha que dar minha opinião, né?
    Não vi “Jailhouse Rock”. Mas tenho boa lembrança de “Viva Las Vegas”. Talvez por causa de Ann-Margret, aquela maravilha…
    Agradeço a vocês pelas mensagens absolutamente simpáticas.
    E não me queiram mal só porque não estou entre os milhões de fãs do Elvis!
    Um abraço.
    Sérgio

  4. QUETERIA
    Postado em 2 agosto 2012 às 1:55 pm | Permalink

    nossa como era nova

  5. doris
    Postado em 11 agosto 2012 às 7:06 pm | Permalink

    de fato a filmografia de elvis é a pior do cinema,mas elvis não é pior que victor mature,diretores como george stevens,elia kazan,sidney lumet quiseram dirigir elvis,seu empresario recusou como tambem filmes como acorrentados,amor sublime amor e perdidos na noite,clint eastwood e woody allen sao sempre o mesmo personagem mas seus filmes sao bons,uma pena que o mesmo não aconteceu com elvis.mas ainda assim nos 11 anos de elvis em hollywood,descontando dois anos servindo o rxercito em sete anos foi um dos campeões de bilheteria e o popularizou mais que os outros pioneiros do rock dos anos 50.

  6. JOAO CARLOS GONÇALVE
    Postado em 26 março 2014 às 6:34 pm | Permalink

    INFORMAÇÃO A CARLA: ELVIS CANTA CRAWFISH NA ABERTURA DE KING CREOLE (BALADA SANGRENTA) DE 1958. SEU ÚLTIMO FILME ANTES DE IR PARA O EXÉRCITO AMERICANO. JOHN LENNON DISSE QUE ELVIS MORREU DEPOIS QUE FOI PARA O EXÉRCITO. EU PARTICULARMENTE ACHO QUE PARA QUEM ESTAVA MORTO ELVIS CAUSOU UM BOCADO DE DE COMOÇÃO E SUCESSO. É SÓ VER A QUANTIDADE DE IMITADORES DA ÚLTIMA FASE DO CANTOR PRESENTE AINDA HOJE E SEM SINAL DE ARREFECER. TCHAU.

  7. Paulo Pereira
    Postado em 13 julho 2015 às 1:45 pm | Permalink

    É preciso lembrar que Elvis tinha, sem dúvida, talento para atuar. Muitos que o conheceram disseram isso. Mas não estava nos planos de Hollywood, nem de seu empresário, transformá-lo em ator – o que eles queriam era bilheteria, usando sua imagem e sua voz. O diretor Hal Wallis disse que nunca teve intenção de fazer filmes em que Elvis apenas atuasse (sem cantar). E assim acabou a carreira de um provável grande ator, que mal chegou a começar.

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Mildred Pierce em 16 junho 2013 às 7:12 pm

    […] clássico. Tem no papel título uma das maiores estrelas do cinema, Joan Crawford; o diretor é Michael Curtiz, o autor de Casablanca, entre muitos outros belos filmes. Mildred Pierce original (no Brasil, Alma […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Os Comancheros / The Comancheros em 24 setembro 2015 às 3:55 pm

    […] dos anos 60 – e foram ficando cada vez mais raros a partir daí. É dirigido por um mestre, Michael Curtiz, tem bom elenco encabeçado por John Wayne, uma trama sólida, interessante, diálogos saborosos, […]

  3. […] Connor (o papel de Vic Morrow) é um sujeito de mal com a vida. Entra num bar de cara amarrada, cenho franzido. Dois amigos dele, […]

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