Atração Irresistível / Music from Another Room

Nota: ★☆☆☆

Tadinho deste filme. Ele é tão bobo, tão tolinho, tão babaca, mas  tanto, tanto, que pode até cativar o espectador. Não por admiração, por respeito, mas por dó. Peninha.

Meu Deus do céu e também da terra: mas como foi que conseguiram juntar dinheiro e tantos atores bons para produzir uma bobagem destas?

Vamos lá. Para que haja uma comedinha romântica, tem-se que bolar o jeito de o Moço e a Moça se encontrarem. E vale tudo, porque todas as formas de o Moço e a Moça se encontrarem já foram feitas, e aí os roteiristas do cinemão comercial ficam tentando imaginar novas (?) fórmulas.

Esse Charlie Peters, autor do argumento, do roteiro, e também diretor do filme, bolou uma fórmula um tanto inusitada: o Moço ajuda a Moça a nascer.

Como? Como assim?

Pois é. Literalmente.

Danny, um garotinho inglês aí de uns cinco, seis anos, está lá nos Estados Unidos visitando a casa de Grace, amiga da mãe dele. A mãe morrera havia pouco. Danny (interpretado por Cory Buck quando criança, e por Jude Law quando jovem adulto) é levado lá pelo pai, médico do Exército americano. Acontece que Grace (a sempre ótima Brenda Blethyn) está grávida de nove meses, e então começa a ter as contrações de parto, e então o pai de Danny tenta fazer o parto, mas percebe que o cordão umbilical está em torno do pescoço do feto. E aí ele sugere que o filho meta a mãozinha lá e desfaça o nó, para que então o bebê possa nascer.

O bebê vem à luz – e o garotinho fala: “Vou casar com ela”.

Corta. Passam-se os anos, e Danny-Jude Law acaba de vir da Inglaterra onde foi criado para aquela mesma cidade americana em que tinha, quando garotinho, enfiado a mão no útero da amiga da mãe e dado um jeito de salvar o bebê. Ele viajou da Inglaterra para os Estados Unidos porque estava apaixonado por uma moça – só que, quando chega, a moça não quer mais saber dele.

E aí ele aluga um quarto acima de uma padaria de um casal muito simpático de judeus agradabilíssimos, e parte do contrato de aluguel é que ele entregue uns doces da padaria a seus fregueses. E aí lá vai o nosso Danny-Jude Law entregar um doce quando, sem mais, dá de cara… com a casa da família de Grace!

Uma das filhas de Grace, Nina (interpretada por Jennifer Tilly), é cega. Outra, Anne (Gretchen Mol), a moça que ele ajudou a nascer, e com quem tinha jurado se casar, é estupidamente bela – mas está noiva, prestes a se casar, com Eric (Jon Tenney), um sujeito rico, tranquilo, bem de vida.

Poucos filmes se baseiam em uma trama tão idiota

Vejo muitos filmes na vida. Mas tenho a razoável certeza de que não são muitos os filmes que se baseiam em uma trama tão idiota, tão débil mental quanto a deste Atração Irresistível/Music from Another Room.

Com 15 minutos de filme, eu queria parar, mas ao mesmo tempo não queria, porque gosto de Jennifer Tilly e de Brenda Blethyn, e Gretchen Mol e Jude Law, jovenzinhos, estão lindos, e me dava vontade de ver onde iria parar aquilo.

A cada minuto que passa, o filme vai ficando mais apavorantemente ridículo.

Mas eu ainda pensava: ah, mas é tão inocente a inocência total, geral…

Verdade. É inocente, todo o filme. É naïf. Tome-se um quadrinho naïf: este filme é mais naïf que ele.

No entanto, não ofende nenhum princípio correto. Tadinho: ele é naïf.

É puro como água da fonte.

Tão inocente, tadinho, quanto o Candide de Voltaire.

Foi o primeiro filme de Jude Law nos Estados Unidos como protagonista

Cada cabeça, uma sentença. Fui procurar outras opiniões; estranhamente, o filme não está no Movie Guide de Leonard Maltin, que traz 18 mil títulos. Mas, no ótimo Guia de Vídeo e DVD da Nova Cultural (que, infelizmente, deixou de ser reeditado), encontro elogios – e cotação de 3 estrelas  em 5:

“Fantasia romântica é um prato cheio para amantes do melodrama. O roteiro do diretor versa sobre predestinação, acaso e amores que quebram barreiras. Repleto de frases feitas, o filme leva muitos espectadores ao choro. Presença vibrante de Law (O Talentoso Ripley), em seu primeiro filme americano como protagonista, e emocionante interpretação de Blethyn (Meu Pé Esquerdo), como a mãe de seu interesse amoroso.”

Cada cabeça, uma sentença. Ainda bem.

Pelo Guia da Nova Cultural fiquei sabendo que o filme já havia sido lançado em vídeo no Brasil. Não me lembrava de ter ouvido falar nele; foi relançado agora em DVD por uma dessas empresas pequenas, que aparentemente não pagam direitos autorais, uma tal de New Way Films. Mary descobriu o filme entre os lançamentos na locadora; só quando começamos a vê-lo soubemos que não é novo coisa alguma – é de 1998.

Jude Law tinha então 26 anos, e uma baby face que parece bem menos que isso. A mesma idade tinha Gretchen Mol.

Vejo também que Charlie Peters é principalmente roteirista: tem 12 títulos na filmografia como roteirista, inclusive Tudo Por Você/My One and Only, sobre uma fase da adolescência do ator George Hamilton. Só dirigiu dois filmes: Passed Away, de 1992, com Bob Hoskins e Jack Warden, e este Atração Irresistível.

Uma curiosidade: Judith Malina faz um pequeno papel no filme, como a mulher do dono da padaria onde o protagonista Danny vai trabalhar. Judith Malina e seu marido Julian Beck tiveram grande fama nos anos 70 e 80 como os criadores e diretores da companhia teatral nova-iorquina Living Theater. Me lembro vagamente que, durante a ditadura militar, Judith Malina e Julian Beck vieram ao Brasil, creio que para participar do Festival de Inverno em Ouro Preto, e acabaram ficando um tempo presos sob a acusação de portarem maconha.

A memória não me falhou. Vejo na Wikipedia em português (na versão em inglês, isso não aparece):

“Julian Beck e Judith Malina estiveram no Brasil, ao início dos anos de 1970, trabalhando com o grupo Teatro Oficina. Vieram convidados pelo grupo, para dar palestras sobre seu teatro inovador e anárquico. Durante o Festival de Inverno de Ouro Preto, o grupo foi preso, por posse de maconha. Mas a denúncia foi feita porque as apresentações do grupo chocaram a provinciana cidade mineira. 13 integrantes foram levados à prisão em Belo Horizonte. O caso ganhou repercussão mundial e um abaixo-assinado foi feito em protesto à prisão dos artistas, com assinaturas de John Lennon, Marlon Brando e Bob Dylan. Com tamanha visibilidade, o governo militar expulsou o grupo do Brasil, acusando-os de denegrir a imagem do país.”

Anotação em julho de 2012

Atração Irresistível/Music from Another Room

De Charlie Peters, EUA, 1998

Com Jude Law (Danny), Gretchen Mol (Anna), Jennifer Tilly (Nina), Martha Plimpton (Karen), Brenda Blethyn (Grace), Jon Tenney (Eric), Jeremy Piven (Billy), Vincent Laresca (Jesus), Jane Adams (Irene),

Bruce Jarchow (Richard), Jan Rubes (Louis Klammer), Judith Malina (Clara Klammer)

Argumento e roteiro Charlie Peters

Fotografia Richard Curdo

Música Richard Gibbs

Produção MGM. DVD New Way Films

Cor, 104 min

*

 

2 Comentários

  1. Cesar Adr
    Postado em 20 julho 2014 às 10:59 pm | Permalink

    Um bom filme. O destino é o último recurso dos desesperados hehehe…..não é isso que dizem no filme?

    Pra mim vale pela nostalgia do final dos anos 90, amo essa época …e a loirinha faria em 99 o clássico 13 andar.

  2. Bianca
    Postado em 13 agosto 2014 às 7:04 pm | Permalink

    Hahá como citado acima: ” O destino é o último recurso dos desesperados” não poderia haver frase melhor para descrever esse filme apelaram tanto pra fantasia do destino que o filme saiu bem ruinzinho kkk apesar de tudo eu gostei dos diálogos inteligentes apesar de cansativo hahá no final das contas achei legalzinho é puro romantismo rs

4 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » 360 em 4 janeiro 2013 às 1:19 pm

    […] Michael Daly (Jude Law) é o diretor de um empresa inglesa, que visita Viena a negócios. Ele requisita os serviços de […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Outra / Another Woman em 26 março 2014 às 2:29 pm

    […] mas sem filhos), de quem gosta bastante – veremos que ela é mais próxima da enteada, Laura (Martha Plimpton) do que o próprio […]

  3. […] isso não bate com a realidade dos fatos. London River foi filmado na Inglaterra, e Brenda Blethyn tem uma interpretação […]

  4. […] que sequer prenome tem – é tratada sempre com a mãe, ou sra. Maclean, e é interpretada por Brenda Blethyn, essa maravilhosa atriz […]

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