As Neves do Kilimanjaro / The Snows of Kilimanjaro

Nota: ½☆☆☆

Os ingredientes são muitos, e todos de primeira. Direção de Henry King, artesão mais do que competente. Gregory Peck e duas grandes estrelas, uma bela, Susan Hayward, outra simplesmente o animal mais belo do mundo, Ava Gardner, todos os três no auge da fama e da formosura – As Neves do Kilimanjaro é de 1952, época de grandes filmes de Hollywood.

Trilha sonora de Bernard Herrmann, um dos compositores mais eruditos da época de ouro do cinema americano, autor de trilhas para filmes de Orson Welles, Alfred Hitchcock, mais tarde François Truffaut. Fotografia de Leon Shamroy, quatro Oscars em cima da lareira de casa – o camarada que dirigiu a fotografia de Cleópatra de Joseph L. Manckiewicz, o filme tão caro que quebrou a Fox. Produção esmerada – assinada por Darryl F. Zanuck, um dos grandes tycoons dos estúdios de Hollywood, o chefão da Fox em sua época áurea.

Paisagens de Paris, Côte d’Azur, Tanzânia. O charme da Espanha, com dançarino de flamengo e tourada.

Tomadas em planos gerais de animais na África de fazer inveja ao melhor diretor de fotografia do National Geographic – leões, impalas, girafas, hipopótamos, rinocerontes, todos soltos na natureza, no cenário arrebatador.

E, para coroar essa riqueza absurda de ingredientes, tudo isso reunido para transformar em filme um conto do incensado, reverenciado, adorado, Nobelzado Ernest Hemingway.

As Neves do Kilimanjaro é – me pareceu agora – um filme horroroso. Pavoroso. Um desastre. Uma rotunda porcaria.

Tinha visto o filme em 1963, conforme informa meu caderninho de criança/adolescente. Nunca tinha revisto. Estava andando na locadora, procurando filmes velhos, e bati o olho no DVD. Comecei a ver com a maior boa vontade. Queria gostar. Tentei gostar. Não dá. É ruim demais.

Cometeram um crime usando o santo nome de Hemingway. Ele, coitado, não tem culpa

O problema maior é o roteiro, a história.

Não li o conto homônimo de Hemingway em que o roteirista Casey Robinson se baseou – o conto foi publicado originalmente na revista Esquire, em 1936, e não consta do livro de contos que tenho dele. Mas dá para perceber que há na história filmada muita coisa que não está no conto – situações criadas pelo roteirista.

Segundo a Wikipedia, a personagem interpretada por Ava Gardner, Cynthia Green, não existe no conto de Hemingway; foi inventada para o filme.

E acontece que Cynthia Green é absolutamente fundamental na história mostrada no filme. Ela é o grande amor da vida de Harry Street, o protagonista. É o motivo de sua infelicidade, seu sentimento de culpa, sua dor, sua angústia.

E o fim do filme é completamente diferente daquele do conto, segundo o verbete da Wikipedia. O final do conto justifica o título, as neves do Kilimanjaro. Na história do filme, fala-se, sim, é claro, nas neves do Kilimanjaro, mas de uma forma bem mais distante da vida de Harry Street.

Essas duas informações – de que o principal personagem do filme não existe no conto, e de que o final do filme não poderia ser mais diferente que o do conto – justificam plenamente a impressão que tive de que o roteirista inventou um monte de coisa, que a história não é fiel ao original.

E assim, portanto, o pobre Hemingway não tem culpa alguma. Cometeram, em nome dele, um crime: criaram uma história babaca, imbecil, com personagens que não param de pé, mal construídos, mal ajambrados – e, além de tudo, fizeram um filme palavroso.

Hemingway é o cara do texto enxuto. O filme tem falas pomposas, grandiloquentes, presepadas

Ernest Hemingway é o escritor do texto enxuto, em que menos é mais e os adjetivos são raros. Algo próximo ao estilo de Graciliano Ramos. Texto enxuto, seco, direto.

(O contrário do meu. Tadinho do meu texto, tão cheio de adjetivos e advérbios, adiposo, balofo, repetitivo.)

Pois o tal Casey Robinson encheu o roteiro de falas pomposas, grandiloquentes, filosofadas, presepadas.

O roteiro é esquemático, sem qualquer imaginação, talento. Está lá o nosso herói, Harry Street, escritor de sucesso, admirado por milhares de leitores mas desprezado por si mesmo por ter se rendido às fórmulas fáceis e deixado de lado a Grande Literatura. Está lá Harry Street estendido numa cama de campanha, no meio da savana africana, não muito longe do sopé do Kilimanjaro, sendo paparicado pela atual mulher, Helen (o papel da bela Susan Hayward, das maiores atrizes de Hollywood na época) e pelo servo africano Molo (Emmett Smith).

Harry tem uma grande ferida na perna, que não pára de piorar – e o avião que levou o grupo para o acampamento e o safári próximo do Kilimanjaro insiste em não chegar para levá-lo a um bom hospital. A ferida começou com uma bobagemzinha, um espinho que encostou na perna de Harry durante um safári, e infeccionou, e cresce, e cresce, e ameaça gangrenar ou até a matá-lo, e ele vê urubus rondando o acampamento, e ouve hienas que passam por ali à noite.

E, enquanto jaz ali sem poder fazer nada, mal humorado, amargurado, briga com a bela mulher, e pensa na vida que levou. Pensa, sobretudo, em Cynthia, o grande amor de sua vida.

E aí dá-lhe flashback atrás de flashback com as aventuras de Harry Street em Paris, em Madri, na Côte d’Azur, ali mesmo na África.

O roteiro é tão exageradamente ruim que bota Harry na Guerra Civil Espanhola, onde ele não quer saber de lutar, e sim achar a amada Cynthia.

É tão exageradamente ruim que cria a seguinte situação:

Helen quer, enfim, tomar um uísque. Pede a Harry para pedir um uísque a Molo, porque ela não fala a danada da língua dele. Harry, que não sabia uma palavra de espanhol na Espanha, mas domina o dialeto do servo Molo com uma fluência fantástica, dá a ordem em quatro palavras:

– “Molo, whisky and soda!”

Já deveria chegar, mas ainda quero dizer o seguinte: Cynthia Green é um dos personagens mais mal construídos, mais absurdos da história do cinema.

Ava Gardner ilumina a tela com aquela beleza faiscante. Mas o personagem dela é absolutamente inconsistente.

Os guias de Leonard Maltin e Jean Tulard elogiam o filme

Vou aos alfarrábios ver a opinião de quem entende.

Hum… Pauline Kael não fala do filme no seu 5001 Nights at the Movies. Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4! “Peck encontra seu forte como renomado escritor chegando ao fim da vida na África, tentando decidir se encontrou algum sentido em seu passado; baseado na história de Hemingway”.

O mestre Jean Tulard joga minhas opiniões no lixo. Diz que, sobre um tema intimista, Henry King consegue uma realização “espetacular e eficaz”: “a Espanha em guerra e a África do Kilimanjaro, terrenos da predileção de Ernest Hemingway, que, desta vez, não é traído. Atuações brilhantes”.

Bem, entre mestre Jean Tulard e eu, claro que sou mestre Jean Tulard. Ele deve estar certo, então. Paciência.

Se é que serve de consolo, não estou sozinho. Segundo o IMDb, o próprio Hemingway não teria gostado do filme; achava que a história canibalizava material de seus outros trabalhos para encher linguiça na história – afinal, a Guerra Civil Espanhola foi o tema de Por Quem os Sinos Dobram, Paris está presente em Paris é uma Festa, e em outros romances e contos dele há touradas e safáris na África. Ainda segundo o IMDb, Hemingway teria dito à sua amiga Ava Gardner que as únicas coisas de que ele gostava no filme eram ela própria e a hiena.

O guia de Steven H. Scheuer diz que o filme é “um desapontamento”. O Guia de Vídeo e DVD 2002 da Nova Cultural diz que o enredo é “lento e algo cansativo”.

Eu vou mais longe. O filme é um pavor. Para mim, as únicas coisas boas, além da beleza das atrizes, são as tomadas mostrando animais, à la National Geographic.

Anotação em novembro de 2011

As Neves do Kilimanjaro/The Snows of Kilimanjaro

De Henry King, EUA, 1952

Com Gregory Peck (Harry Street), Ava Gardner (Cynthia Green), Susan Hayward (Helen), Hildegard Neff (Liz), Leo G. Carroll (Tio Bill), Torin Thatcher (Johnson), Emmett Smith (Molo)

Roteiro Casey Robinson

Baseado no conto homônimo de Ernest Hemingway

Fotografia Leon Shamroy

Música Bernard Herrmann

Produção Darryl F. Zanuck, 20th Century Fox.

Cor, 117 min

1/2

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