Anti-Heróis / The Son of No One

Nota: ★★☆☆

Para realizar seu terceiro longa metragem, o diretor Dito Montiel, americano de Nova York, nascido em 1965, teve um orçamento de US$ 15 milhões e um elenco de nomes respeitáveis.

O protagonista é Channing Tatum, talvez ainda pouco conhecido no Brasil, mas, tudo indica, de grande sucesso nos Estados Unidos. Contracenam com ele Katie Holmes, Ray Liotta e, em participações especiais, os imensos astros Al Pacino e Juliette Binoche.

Teve também uma história e roteiro de sua própria autoria que incluem, entre outros, os seguintes elementos: a corrução e a desonestidade na polícia (pode parecer uma coisa só, mas são duas, diferentes); o espírito de corpo entre policiais; a miséria pavorosa nos conjuntos habitacionais da maior metrópole americana; o tráfico de drogas, a marginalidade; crimes sexuais; o poderio das incorporadoras imobiliárias; os efeitos dos ataques terroristas do 11 de setembro de 2001; a politicagem, a ascensão de Rudolph Giuliani, os discursos de George W. Bush; a imprensa nanica, independente e anti-Establishment; dois assassinatos; os traumas profundos deixados por esses assassinatos em três adolescentes.

Como se não bastasse tudo isso, o diretor e roteirista Dito Montiel teve ainda a ambição de contar sua história misturando ao longo de toda a narrativa duas épocas distintas, e, em algumas sequências, promover uma desconstrução da cronologia, como se estivesse montando as tomadas de seu filme como um espelho quebrado. Como alguns mestres europeus – Resnais, Godard – fizeram nos anos 60.

É o estilo que costumo chamar de Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar?

O resultado foi um filme que tem qualidades, mas acaba tropeçando em tanta pretensão e no final fica confuso e agride a lógica.

Um garoto de uns 13, 14 anos, com um revólver na mão, diante de um agressor drogado

No iniciozinho, o filme até que tenta ajudar o espectador. Vemos um homem chegando em casa após um dia de trabalho duro, onde é esperado pela encantadora filhinha de uns seis anos e pela bela e jovem esposa. Ele é Jonathan White, uns 30 anos de idade, policial – o papel de Channing Tatum. A mulher, Kerry, é interpretada pela bela Katie Holmes, e a filinha, Charlotte, Charlie (Ursula Parker), tem alguma espécie de doença degenerativa – não fica claro qual.

Antes dessa sequência, um letreiro informa: Staten Island, 2002.

Outro letreiro informará: Queensboro Projects, 1986. (Projects é a expressão usada para designar os conjuntos habitacionais construídos pelo governo para a população pobre.)

As seqüências que surgem então, passadas no conjunto habitacional do Queens, são feitas naquela estética dos filmes de ação das últimas décadas, uma coisa pós-MTV: tomadas muito rápidas, muitos cortes, montagem acelerada, câmara de mão. Um sujeito chapado, inteiramente chapado, anda berrando palavrões pelas escadas e corredores de um prédio sujo, degradado. Um garoto de uns 13, 14 anos, com olhar assustado se refugia dentro de um banheiro segurando um revólver. Há também um outro garoto e uma menina, com expressão de pânico, no apartamento muito pobre. O camarada chapado invade o apartamento em que estão os meninos, berrando sem parar. Avança para o banheiro – assim que ele abre a porta, o garoto atira.

Os dois garotos que estavam no apartamento são os irmãos Vinny (Brian Gilbert quando jovem, Tracy Morgan quando adulto) e Vicky (Simone Jones quando jovem, Decorte Snipes quando adulta).

O garoto amigo deles, um dos poucos brancos no conjunto habitacional de maioria negra, o que mata o traficante viciado, este tem o apelido de Milk (Jake Cherry). Seu nome é Jonathan White. Em 1986, Jonathan White matou um homem nos Queensboro Projects; em 2002, Jonathan White, dedicado pai de família e policial, morador de Staten Island, está sendo transferido, por decisão de instâncias superiores, para o 118º Distrito, exatamente o distrito que tem jurisdição sobre os Projetcts, no Queens, do outro lado da metrópole, a umas duas horas de sua casa.

Cartas anônimas acusam a polícia de ter encoberto a autoria de dois crimes

Jonathan não sabe por que foi transferido para o lugar em que morou quando criança e adolescente. Mas o espectador não vai demorar a ficar sabendo que o pai de Jonathan, que em 1986 já estava morto, havia sido policial no mesmo 118º Distrito. Seu parceiro era o detetive Charles Stanford (o papel de Al Pacino). Foi Charles Stanford que investigou o assassinato do traficante drogado – e também de um outro traficante drogado que apareceu morto pouco depois no mesmo trecho do conjunto habitacional.

Agora – ou seja, em 2002, quando se passa a maior parte da ação –, começam a surgir cartas anônimas dizendo que a polícia encobriu a autoria de dois assassinatos cometidos nos Projects em 1986. As cartas estão sendo enviadas para um pequeno jornal editado ali no Queens por Loren Bridges, uma jornalista independente, ativista incansável, sempre atrás de uma denúncia de brutalidade, abuso de poder ou corrupção policial ou de qualquer outra autoridade. Loren Bridges é o personagem interpretado por Juliette Binoche.

Logo depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, a opinião pública de Nova York – mostra o filme – foi tomada de amor e respeito pelos bombeiros e policiais, muitos dos quais perderam a vida na tarefa de resgate dos sobreviventes da destruição das Torres Gêmeas. Mas, passados alguns meses, essa lua-de-mel acabou, e o jornal de Loren Bridges volta a pegar no pé das autoridades.

Aqui e ali, em pinceladas rapidíssimas, o filme deixa entrever – para os espectadores especialmente atentos – que o local dos Projects é, em 2002, alvo de intensa cobiça dos empreendedores imobiliários. Já decadentes nos anos 80, os prédios de apartamento não pararam de decair, mas a localização geográfica do conjunto habitacional fez valorizar muito o imenso terreno. Se os moradores aceitarem as ofertas de compra dos apartamentos, os prédios, de uns cinco, seis andares, poderão ser demolidos, para dar lugar a luxuosas torres de apartamentos para gente endinheirada. Há policiais corruptos que podem estar sendo pagos pelas imobiliárias para forçar a retirada dos moradores originais.

Um desfecho que não tem qualquer lógica

Me alonguei na descrição da história, dos temas envolvidos na trama, mas creio que não vai aí propriamente algum spoiler. Não adiantei nada que aconteça além da primeira meia hora do filme.

E não vou, naturalmente, revelar nada do que acontece na segunda metade da narrativa. Mas devo dizer que, quando a trama toda se revela, nos últimos minutos, tanto eu quanto Mary ficamos chocados. Cada um de nós conclui por si que não tem lógica alguma o que se apresenta no final; depois, fizemos diversas conjeturas, e concluímos que de fato o desfecho da história não tem lógica.

Foi até divertido ver, nos diversos comentários a respeito do filme no IMDb, que houve uma nítida divisão entre os leitores do grande site enciclopédico. Deu-se um Fla-Flu: houve os que amaram o filme de paixão, e houve os que viram nele uma trama com mais furos que queijo suíço.

Um leitor se sobressaiu no meio desse tiroteio, na minha opinião. Passou uma descompostura em quem acusava o filme de ter furos, e se pôs a enumerar as questões da trama, dizendo que tudo fazia sentido. Tem lógica o que ele diz. Mas ele não aborda a questão específica que deixou Mary e eu estupefatos: qual poderia ter sido o motivo pelo qual o denunciante, o autor das cartas anônimas, se deu por satisfeito aos 47 minutos do segundo tempo, e então se calou.

Roteirizar no estilo Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar? é um direito que assiste a qualquer um. Está na Declaração Universal dos Direitos do Homem – ou deveria estar. Dirigir no estilo Podendo-Embaraçar-a-Compreensão,-Por-que-Mostrar-os-Fatos? também é um direito inalienável.

Agredir a lógica, no entanto, me parece pecado.

Bah. Perdi tempo depois com este filme.

Anotação em novembro de 2011

Anti-Heróis/The Son of No One

De Dito Montiel, EUA, 2011.

Com Channing Tatum (Jonathan White), James Ransone (Thomas Prudenti), Ray Liotta (capitão Marion Mathers), Katie Holmes (Kerry White), Ursula Parker (Charlie White), Brian Gilbert (jovem Vinnie), Tracy Morgan (Vinnie adulto), Jake Cherry (jovem Jonathan), Simone Jones (jovem Vicky), Decorte Snipes (Vicky adulta)

e, em participações especiais, Al Pacino (detetive Charles Stanford) e Juliette Binoche (Loren Bridges)

Fotografia Benoît Delhomme

Música Jonathan Elias e David Wittman

Produção Hannibal Pictures, Millennium Films, Nu Image Films.

Cor, 90 min

**

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Novato / The Recruit em 11 abril 2012 às 6:59 pm

    […] aí com uns 20, 30 minutos de filme, o agente veterano bem treinadíssimo Walter Burke (o papel de Al Pacino) faz um discurso aos recrutas. Pergunta a eles por que estão ali, submetendo-se a testes […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Paris em 1 novembro 2014 às 10:43 pm

    […] tem também a sorte de poder contar com toda a ajuda da única irmã, Élise (o papel de Juliette Binoche, linda, maravilhosa e boa atriz como sempre). Ao saber das notícias sobre a saúde do irmão, […]

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