Amar é Sofrer / The Country Girl

Nota: ★★★★

Talvez uma das principais características de Amar é Sofrer/The Country Girl seja o fato de que é pouco falado, pouco badalado, menos elogiado do que mereceria. É um filmaço – e tem a mais bela interpretação da carreira de Grace Kelly.

É o único filme em que Grace Kelly aparece “enfeada”, desglamourizada. O diretor, George Seaton, o departamento de maquiagem e a própria atriz fizeram um trabalho imenso para obscurecer, na maior parte do tempo, a beleza fora de série, absurda, acachapante, daquele que é um dos mais belos rostos que já passaram diante de uma câmara, em mais de cem anos de cinema. O trabalho todo não consegue propriamente enfear Grace Kelly, porque isso é uma tarefa humanamente impossível (razão pela qual usei aspas no enfeada lá em cima), mas o esforço todo resulta em algo impressionante, único, na carreira meteórica dessa atriz-estrela maravilhosa em todos os quesitos possíveis.

Em apenas algumas cenas – flashbacks, na maior parte – ela aparece em seu natural, como se vê na segunda foto abaixo. É chocante a diferença.

Eu mesmo não me lembrava de que Grace Kelly havia ganhado o Oscar por sua maravilhosa interpretação de Georgie Elgin, a garota do interior do título original.

A interpretação de Grace Kelly é fantástica. Mas é fantástica também a atuação de Bing Crosby, esse outro fenômeno, um dos mais perfeitos cantores do século XX, ator como segunda profissão. Ao rever o filme agora, fiquei em dúvida sobre quem está melhor – se Grace, se Bing. Mas isso é bobagem. Os dois estão igualmente maravilhosos.

Bing, aliás, também foi indicado ao Oscar, pelo papel de Frank Elgin. Foi sua terceira indicação – algo fantástico para um sujeito que, antes de ser ator, era basicamente, fundamentalmente, um cantor. Havia sido indicado antes por O Bom Pastor, de 1944, e levado para casa a estatueta dourada. Logo em seguida teve outra indicação, por Os Sinos de Santa Maria, de 1945.

The Country Girl (Amar é Sofrer é um título horroroso) teve nada menos que sete indicações ao Oscar, em 1955. Levou os prêmios de melhor atriz para Grace Kelly e melhor roteiro para George Seaton; e teve indicações, além da de Bing Crosby para ator, também para melhor filme, melhor direção para George Seaton, melhor fotografia em preto-e-branco para John F. Warren e melhor direção de arte em preto-e-branco para uma equipe que começava com o sempre presente Hal Pereira.

Um filme com sete indicações e duas vitórias no Oscar. Como é possível que seja pouco lembrado hoje? Ou eu estou completamente enganado, e todo mundo se lembra do filme? Sei lá.

Um belo estudo de caráter, de personagens, um filme sobre relações humanos – e sobre alcoolismo

The Country Girl é baseado numa peça de teatro. Baita drama, dramão, do grande teatro americano, de autoria de Clifford Odets. Muitos críticos de cinema seguramente devem ter escrito que o filme é “teatro filmado” – uma expressão que indica profundo desprezo, profundo nojo, dos críticos de cinema, algo tão negativo, tão vilipendiador, ofensivo, quanto “não inovador”, ou “acadêmico”.

Verdade. The Country Girl é teatro filmado. É não inovador, e, por que não?, acadêmico. Não tem invencionices, criativóis, fogos de artifício. Tem uma belíssima história para contar, e a conta muito bem contada. Isso irrita profundamente nove entre dez críticos de cinema.

E não é só uma belíssima história muito bem contada, sem invencionices, criativóis, fogos de artifício. É também, ou sobretudo, uma beleza de estudo de caráter, de personalidades.

É uma beleza de filme sobre o ambiente teatral de Nova York – mas, principalmente, é um filme sobre relações humanas – e sobre alcoolismo.

Um ator e cantor que já foi excelente, mas mas despencou nas duas carreiras e enfiou-se na bebida

Bernie Dodd (o personagem de William Holden) é um grande diretor teatral da Broadway. É muito, muito bom de serviço. Está preparando uma peça de produção cara, um musical sobre a conquista do Oeste, uma lenda americana, a Americana em si mesmo, cujo protagonista tem que ser um excelente cantor e um excelente ator, as duas coisas juntas. Quer, para o papel, Frank Elgin (Bing Crosby), um ator já veterano, que ele admira desde a juventude. O problema é que Frank, nos últimos anos, despencou nas duas carreiras, de ator e de cantor, e, segundo a noção de todos no meio, é um bêbado.

Mas Bernie insiste, briga com o produtor, Cook (Anthony Ross): Frank Elgin é o ator/cantor perfeito para o papel.

Frank aparece para um teste. O produtor Cook não gosta do que vê, o diretor Bernie gosta muito. Cook cede: tudo bem, então vamos contratá-lo por duas semanas, para a estréia em Boston. (Antes de estrear na Broadway, as peças são apresentadas em outras cidades, enquanto são feitos os aperfeiçoamentos, as polidas. Só depois, quando as coisas já foram testadas, as imperfeições corrigidas, as peças vão para o maior e mais exigente mercado do mundo, os teatros daquele pedacinho da ilha de Manhattan na Broadway e suas travessas.)

Mas, logo após sua apresentação no teste, Frank desaparece.

O diretor Bernie sai atrás dele. Não o encontra nos bares mais próximos. Vai até a casa dele – e então fica conhecendo a mulher de Frank, Georgia – o papel de Grace Kelly.

É um pequeno apartamento, muito pequeno, e muito pobre, em cima de uma padaria ou restaurante. Os Elgins, que já haviam tido boa vida quando Frank era cantor e ator famoso, agora estão na pior. Não é a miséria total – mas é uma pobreza danada, em especial para quem já havia sido rico.

O diretor que aposta no velho ator e a mulher dele se detestam à primeira vista. E à segunda, terceira…

Georgia é uma mulher que havia estudado, tinha cultura. Tinha tido dinheiro, posição social, quando casada com um artista de sucesso bem mais velho do que ela. Agora era uma mulher enfeada, metida em roupas muito simples, humildes. Basta olhar para o apartamento que se percebe que o casal está bem perto de passar fome.

Bernie e Georgia se detestam à primeira vista. Vão se detestar também à segunda, terceira, quarta vistas.

Bernie está fazendo uma aposta arriscadíssima: contra a vontade do produtor, contra as evidências de que Frank é alcoólatra, o diretor da peça aposta que ele conseguirá interpretar muito bem o papel central.

Frank faz para Bernie uma imagem terrível de Georgia: depois de virar alcoólatra, e de ter tentado o suicídio, ela virou uma dominadora, que procura controlar cada passo que ele, Frank, dá.

O desenrolar da trama irá demonstrar que nada do que é mostrado na primeira metade do filme é a verdade dos fatos.

“Elas começam como Julietas, e acabam como Lady Macabeth.”

Nunca li em livro peça de Clifford Odets, mas já o conhecia. Me lembrava de que ele havia sido um personagem importante na vida de Frances Farmer, atriz de extraordinária beleza nos anos 30, que teve uma vida excepcionalmente trágica, retratada num belo filme, Frances, de 1982, em que é interpretada pela então muito jovem Jessica Lange.

Clifford Odets (1906-1963) foi um grande dramaturgo, e também roteirista de cinema. Era daquela geração que acreditava no sonho do socialismo, a sociedade justa, sem desigualdades. Quem, naqueles anos de 1930, 1940, 1950, não acreditasse no sonho do socialismo, não tinha alma, não tinha generosidade. E Odets acreditava.

(Olhando assim agora para o passado, penso que foram bons aqueles anos em que era permitido ter crenças, esperanças.)

O texto brilhante de Clifford Odets que o roteirista e diretor George Seaton levou para o filme pode parecer um tanto misógino.

Na primeira vez em que Bernie se encontra com Georgia, ele diz que há dois tipos de mulheres: as que se cuidam pouco, e as que se cuidam demais.

Quando Bernie ouve a versão de Frank sobre sua vida com Georgia, ele diz:

– “Elas começam como Julietas, e acabam como Lady Macabeth.”

Meu, que frase brilhante.

Mais tarde, quanto Bernie tem dura confrontação com Georgia, ele diz:

– “Por que as mulheres acham que nos entendem, a nós, homens, melhor do que nós mesmos?”

Mas, repito, nada do que é mostrado na primeira metade do filme é a verdade dos fatos – e se verá depois que, não, absolutamente, não é uma história misógina. Muito ao contrário.

Judy Garland era a franca favorita ao prêmio de melhor atriz

É hora de ir aos alfarrábios, ver informações e outras opiniões.

A produção original da peça The Country Girl estreou na Broadway em 10 de novembro de 1950. Houve 236 apresentações. Uta Hagen venceu o Tony de melhor atriz em drama pelo papel de Georgie Elgin, que daria depois o Oscar a Grace Kelly.

Parece que as opiniões sobre a interpretação de Grace foram bastante divididas. Houve críticas dizendo que não foi uma boa escolha colocar a atriz radiante, elegantérrima, belíssima, no papel daquela mulher sofrida, triste, amargurada.

Tanto o IMDb quanto a Wikipedia mencionam que foi um duríssimo páreo a escola da melhor atriz aquele ano. A favorita disparada era Judy Garland, por sua maravilhosa interpretação na refilmagem de Nasce uma Estrela. Segundo o IMDb, teria havido uma diferença de apenas seis votos a favor de Grace Kelly. E, segundo a Wikipedia, o favoritismo de Judy Garland era tão grande que a rede NBC mandou uma equipe para o hospital onde a atriz estava, poucos dias após o nascimento de seu filho, Joey Luft, para entrevistá-la logo depois do anúncio do Oscar. Groucho Marx teria mandado um telegrama a Judy Garland dizendo que aquele tinha sido “o maior roubo desde o da Brinks”.

Na seção de informações inúteis, o IMDb diz que, durante as filmagens, Grace Kelly conseguiu a proeza de manter casos com William Holden, Bing Crosby e ainda Clark Gable.

Na sua curtíssima carreira no cinema – que durou entre 1952 e 1956 –, Grace trabalhou em outro filme com William Holden, As Pontes de Toko-Ri, e em outro filme com Bing Crosby, Alta Sociedade. Sujeitos de sorte, Holden e Crosby.

Um “pântano sadomosoquista”, define Pauline Kael

Leonard Maltin dá 3.5 estrelas em 4: “Kelly ganhou um Oscar como a mulher de um cantor alcoólatra (Crosby) tentando um retorno com a ajuda de um diretor (Holden). Crosby excede em um de seus mais belos papéis. O roteirista-diretor Seaton ganhou um Prêmio da Academia pela adaptação da peça de Clifford Odets.”

Pauline Kael, ao contrário, detestou o filme, que chama de “pântano sadomasoquista”. Segundo ele, é inexplicável que a Academia tenha dado um Oscar a Grace Kelly e ao diretor por seu “inconsistente e incoerente roteiro”, e que o filme tenha sido um dos maiores sucessos de bilheteria no ano de seu lançamento.

Todo mundo tem direito à sua opinião, é claro, e Pauline Kael afinal de contas é a primeira dama da crítica americana, mas acho que nesse caso aqui pisou feio no tomate.

O Guide des Films de Jean Tulard desempata a favor do filme: “Certamente uma excelente peça. E, finalmente, um bom filme”.

Cada cabeça, uma sentença. Para mim, é um brilho de filme.

Anotação em dezembro de 2011

Amar é Sofrer/The Country Girl

De George Seaton, EUA, 1954

Com Bing Crosby (Frank Elgin), Grace Kelly (Georgie Elgin), William Holden (Bernie Dodd), Anthony Ross (Phil Cook), Gene Reynolds (Larry), Jacqueline Fontaine (cantor)

Roteiro George Seaton

Baseado na peça teatral de Clifford Odets

Fotografia John F. Warren

Música Victor Young

Canções de Harold Arlen e Ira Gershwin

Montagem Ellsworth Hoagland

Produção William Perlberg, Paramount Pictures. DVD Paramount.

P&B, 104 min

R, ****

Título em Portugal: Para Sempre. Título na França: Une Fille de la Province.

2 Comentários

  1. Postado em 4 Janeiro 2014 às 1:29 pm | Permalink

    Eu ainda não vi o filme. Estou na procura. Um filme com Bing Crosby (meu cantor favorito), Grace Kelly (uma formosura) e William Holden (um ator com muitas nuances). Como poderia ser um filme ruim?

  2. Postado em 26 agosto 2014 às 9:38 am | Permalink

    procuro por filme antigo decada 50/60,sinops mais ou menos assim,casal jovem morando rico balneario,marido planeja propria morte em acidente de lancha para esposa receber o premio do seguro, esperando por ele como hospede em hotel,mas um dos hospedes se encanta por ela,ela fica apavorada sem saber se ele é investigador da seguradora…,e não vi o resto do filme,gostaria de rever.

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  1. […] (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), às vezes melodramáticos demais (Os Brutos Também Amam, Amar é Sofrer, Fogueira da […]

  2. […] Os guias, os livros se referem a Os Sinos de Santa Maria como a continuação de O Bom Pastor/Going My Way, lançado um ano antes. Não é exatamente uma continuação: é uma segunda história com o personagem central, o padre O’Malley, interpretado – com graça, com imensa simpatia –  por Bing Crosby. […]

  3. […] narrador – a voz, os cinéfilos mais atentos logo percebem, é de William Holden – […]

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