A Viúva / La Veuve Couderc

Nota: ★½☆☆

Dois atores soberbos, Simone Signoret e Alain Delon. Uma adaptação de obra de Georges Simenon. A Viúva/La Veuve Couderc, de 1971, prometia. Ficou na promessa.

Quando terminou, me deixou com aquela que é uma das piores sensações que se pode ter ao final de um filme: um branco. Um enorme branco, com alguns pontos de interrogação: mas, afinal, o que ele quis dizer? Qual o sentido de terem feito este filme? Para que contar esta história? O que ele acrescenta?

(Leio os dois parágrafos acima para Mary e ela assina embaixo: “É exatamente isso.”)

Longos planos gerais, filmados do alto, de uma região rural do interiorzão da França

Começa com um plano-seqüência de grande beleza. Um longo plano geral, sem cortes, a câmara em um helicóptero (ou seria um balão dirigível?). Vemos uma paisagem do interiorzão rural da França, pequenas propriedades, cursos d’água. Um canal, obra de engenharia humana.

Sobre essas imagens belas, vemos os créditos iniciais.

É uma abertura muito parecida com a de A Mulher do Lado, que François Truffaut lançaria exatos dez anos depois, em 1981. O filme de Truffaut começa exatamente assim, com longos planos gerais, filmados do alto, de uma região rural do interiorzão da França.

A câmara que filma do alto finalmente encontra o objeto que quer perseguir – um velho ônibus interiorano. Um letreiro nos avisa que estamos em 1934 – e os títulos de jornais carregados pelo ônibus falam de um país dividido, à beira de uma confrontação entre fascistas e anti-fascistas.

Dentro do ônibus cheio viaja uma senhora vestida de preto. Uma mulher de traços fortes e belos, que parece beirar os 50 anos, talvez um pouco menos – é a viúva Couderc do título original, na pele da maravilhosa Simone Signoret, que estava, em 1971, com exatos 50 anos de idade.

O ônibus se dirige, através de uma pequena estrada secundária, para Dijon, e vai parando nos pequeninos vilarejos.

Ele ultrapassa, na estrada, um caminhante solitário, que carrega uns poucos pertences. Numa bela tomada – o filme é repleto de belas tomadas –, vemos a viúva sentada no último assento do ônibus, em segundo plano, e, em primeiro plano, o caminhante, interpretado por um Alain Delon no auge daquela beleza extasiante dele, com um bigodinho fino semelhante ao que ele havia usado oito anos antes na obra-primíssima de Luchino Visconti O Leopardo, no papel de Tancredi Falconeri.

Delon estava, em 1971, ano de lançamento de La Veuve Couderc, com 36 anos. Catorze anos, portanto, o separavam de Madame Signoret, na época, e sempre, a senhora Yves Montand.

A viúva e o desconhecido trocam pouquíssimas palavras. São secos um com o outro

O ônibus pára num pequeno vilarejo – lugar mínimo, de umas poucas casas. A viúva desce. Da área de bagagens do ônibus, o motorista retira um objeto grande, pesado. Veremos depois que é uma incubadeira para criação de pintinhos.

O ônibus parte, e a viúva está sozinha ao lado do grande objeto.

O caminhante que havia sido ultrapassado pelo ônibus a essa altura alcança o vilarejo, chega diante da viúva. Oferece-se para ajudar. Carrega a trolha – que, avisa a viúva, tem 30 quilos – caminhando atrás dela.

Trocam pouquíssimas palavras. São pessoas secas umas com as outras.

Para chegar à sua casa, a viúva tem que atravessar uma ponte sobre o canal que já havíamos visto nas tomadas aéreas. É uma ponte móvel, que se levanta – à base do muque, do feijão – para permitir a passagem de embarcações pelo canal.

Oprimido pelo peso que carrega, o homem pergunta se é longe. A viúva diz que não, é logo ali. E de fato a casa dela fica logo que se ultrapassa a ponte – uma construção grande e sólida de dois andares. Grande, sólida e bastante humilde.

Entram na casa, pela cozinha. O homem – chama-se Jean, não apresentará nenhum sobrenome – deposita a incubadeira no chão, a viúva lhe oferece um copo de vinho. Pergunta se ele está à procura de trabalho, ele diz que sim, ela diz que pode lhe oferecer oito francos.

Estão assim combinados. Jean irá dormir no sótão – e é difícil não lembrar de O Destino Bate à Sua Porta, o clássico noir de 1946: um caminhante solitário que aceita o primeiro trabalho que lhe oferecem, numa casa onde há uma mulher.

Dá perfeitamente para imaginar, aí quando estamos com uns dez minutos de filme, que a viúva e o desconhecido irão para a cama.

É a França dos anos 1930, mas não parece muito diferente da Idade Média, ou da época das cavernas

É o interior rural da França, não muito longe de Dijon, em 1934, no entre-guerras que, como dizia Georges Moustaki, não era propriamente a paz – mas não parece muito diferente da Idade Média, ou da época das cavernas.

A viúva havia chegado àquela casa como empregada, quando tinha 14 anos. Foi estuprada pelo dono da casa e também pelo filho dele – e depois havia se casado com o filho. O filho havia morrido, ela se tornara viúva, e vivia ali com o pai do marido; trabalhava como uma camela, uma moura, uma escrava, e ainda tinha que dar para o pai do marido, Henri (Jean Tissier), na época um velhinho surdo e quase autista.

O falecido marido tinha uma irmã, Françoise (Monique Chaumette). A irmã do falecido, filha portanto de Henri, mora bem em frente à casa onde vive a viúva, do outro lado do canal. Ela e o marido (interpretado, salvo engano, por Jean-Pierre Castaldi) são os responsáveis por levantar e baixar a ponte sobre o canal, de acordo com as necessidades.

Têm ódio mortal da viúva – e ela deles. O casal tenta de tudo para que o pai, Henri, transfira a propriedade de sua casa para a filha, de maneira a poderem expulsar de lá a viúva.

O casal tem uma filha, Félicie (Ottavia Piccolo), uma lolitinha de 16 anos que parece, literalmente, uma cadela no cio, e está sempre carregando no colo o bebezinho que teve sabe-se lá com quem.

Félicie vai se oferecer de todas as maneiras para o desconhecido que agora está comendo a mulher de seu falecido tio, a qual também dava para seu avô.

Lá pelas tantas, o espectador verá que Jean carrega um revólver. E saberá que ele vinha de uma prisão.

Ódio, disputa, inveja, ciúme, cio. Nada parecido com amor, afeição, respeito

Interior rural da França em pleno século XX – mas não muito distante das cavernas. Ódio, disputa pelos poucos bens, inveja, ciúme, cio. Nenhum sentimento humano tipo amor, afeição, respeito. Nenhum tipo de conversa, comunicação, troca de idéias, experiências.

Pessoas que, infelizmente, não tiveram a oportunidade de estudar, de aprender, de ter curiosidade, de se interessar pelas coisas.

Um bando de animais.

Será que era isso que Georges Simenon pretendia mostrar, e que o diretor Pierre Granier-Deferre quis reproduzir?

É preciso registrar: a fotografia de Walter Wottitz é impecável. A câmara faz belos movimentos – está sempre se movimentando, em belos travellings. Em alguns momentos, faz zooms interessantes.

E a trilha sonora de Philippe Sarde é excelente, extraordinária. Como tantas outras que esse grande compositor criou.

“A estranheza ao mundo do herói se inscreve dentro de uma lógica e um percurso mais complexo”

Pelo que pude ver na internet (não conheço este livro de Simenon), o final do romance é bastante diferente do escolhido pelo realizador do filme. Não têm nada a ver um com o outro, os dois finais.

Granier-Deferre, também autor do roteiro, aparentemente pretendeu dar um significado político ao personagem do andarilho Jean. Não colou. Todas as seqüências finais, que fazem lembrar um pouco as de Bonnie & Clyde de Arthur Penn e Butch Cassidy and the Sundance Kid de George Roy Hill, parecem simplesmente incompreensíveis, inconsistentes, longe de qualquer verossimilhança.

Também na internet, vejo uma comparação entre o personagem de Jean com o de O Estrangeiro, de Albert Camus. Ambos, o Jean criado por Simenon e o Meursault de Camus, teriam um imenso distanciamento do mundo, da realidade. “André Gide diria que Simenon, sem se dar muitos ares, vai mais longe que Camus no sentido de que a estranheza ao mundo do herói se inscreve dentro de uma lógica e um percurso mais complexo e mais humano.”

Legal. Bonito, isso.

Eu, na minha estranheza em relação ao mundo intelectualóide-filosófico-papo-cabeça-furado, na minha caipira mania de manter os dois pés no solo, à la Zorba, o Grego, continuo me perguntando por que raios gastaram tempo e talento fazendo este filme.

Anotação em maio de 2012

A Viúva/La Veuve Couderc

De Pierre Granier-Deferre, França-Itália, 1971

Com Alain Delon (Jean Lavigne), Simone Signoret (a viúva Couderc), Ottavia Piccolo (Félicie), Jean Tissier (Henri), Monique Chaumette (Françoise), Jean-Pierre Castaldi (o pai de Félicie)

Roteiro Pierre Granier-Deferre e Pascal Jardin

Diálogos Pascal Jardin

Baseado no romance La Veuve Couderc, de Georges Simenon

Fotografia Walter Wottitz

Música Philippe Sarde

Produção Lira Films, Pegaso Cinematografica. DVD CinemaX.

Cor, 90 min

*1/2

Um Comentário

  1. Sara
    Postado em 18 julho 2014 às 5:05 am | Permalink

    nossa, poderiam usar um vocabulário menos chulo, não?

Um Trackback

  1. […] um chamamento da população à revolta. Os gaullistas – liderados por Jacques Chaban-Delmas (Alain Delon) – preferiam esperar a chegada dos exércitos aliados, chefiados pelo general Patton (o papel de […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*