A Vida Íntima de Sherlock Holmes / The Private Life of Sherlock Holmes

Nota: ★★★½

Uma beleza de filme, uma obra de Billy Wilder muito menos badalada e reconhecida do que merece. Para mim, este filme conta uma das mais fascinantes, bem urdidas, bem sacadas tramas vividas por Sherlock Holmes, essa figura tão absolutamente fascinante que, para milhares de pessoas em todo o mundo, é uma pessoa real.

A trama maravilhosa é uma criação original da dupla Billy Wilder e I.A.L. Diamond. Mas é impressionantemente fiel ao estilo das 60 histórias criadas por Sir Arthur Conan Doyle – ou então, para me ater à crença dos sherlockianos do mundo inteiro, das 60 histórias relatadas pelo médico John H. Watson, companheiro de Holmes em suas aventuras e investigações, e que foram entregues a seu colega e agente literário Arthur Conan Doyle para serem editadas.

Conan Doyle – perdão, o dr. Watson redigiu 56 contos e 4 novelas relatando os casos investigados por Sherlock Holmes. A primeira história a ser publicada, “Escândalo na Boêmia”, saiu na Strand Magazine, de Londres, em 1891. A última veio a público em 1927. Este conjunto é chamado pelos aficionados, com todo o respeito que merece, de O Cânone.

Acontece que, fora do Cânone, houve dezenas e dezenas de outras histórias de que Sherlock Holmes é o protagonista. Diversos autores se aproveitaram da fama inigualável do gênio da dedução para escrever outras aventuras que não aquelas 60 cuja originalidade é mais que comprovada.

Essas novas histórias que não constam do Cânone Sherlockiano têm se multiplicado ao longo das décadas, em contos, novelas, peças teatrais e – em imenso número – no cinema. Surgem como uma praga. Ainda em 1893 – quando o grande detetive ainda estava vivo, portanto – uma paródia de Sherlock Holmes foi apresentada no Royal Court Theatre, em Londres. Em 1905, ele já estava no cinema, em um filme chamado As Aventuras de Sherlock Holmes, frouxamente baseado em O Signo dos Quatro (esta, sim, uma obra real do Cânone) e exibido na Inglaterra com o título de Held for a Ranson.

E, depois disso, “mal se passava um ano sem que Sherlock Holmes aparecesse na tela em algum lugar do mundo, mesmo que apenas no título”, segundo escreveu o historiador Michael Pointer em seu livro The Public Life of Sherlock Holmes, lançado em 1975.

A febre continua até hoje, passado bem mais de um século da primeira aparição de uma história de Holmes na Strand Magazine. Em 2009, o diretor Guy ex-Madonna Ritchie lançou seu Sherlock Holmes, e em 2011 estava na fase de pós-produção um segundo filme, da mesma equipe, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras.

Como tantos outros diretores e escritores, Guy Ritchie se valeu do nome, da fama de Holmes e seu parceiro Watson, de muitas de suas características, e de outros personagens constantes no Cânone, para criar novas histórias.

A própria história de vida do filme é extraordinária

Billy Wilder e I.A.L. Diamond haviam feito a mesma coisa 40 anos antes, neste filme interessantíssimo, fascinante.

Criaram, eles próprios, novas tramas protagonizadas por Holmes e Watson. Mas, ao contrário do filme de Guy Ritchie de 2009, extremamente criticado por ter fugido bastante das descrições originais feitas nos textos de Conan Doyle, perdão, de John Watson, Wilder e seu fiel colaborador criaram tramas que Watson poderia perfeitamente ter escrito. Foram bastante fiéis às características dos protagonistas descritas nos relatos originais publicados entre 1891 e 1927. Mais ainda: o próprio desenrolar da trama principal segue com fidelidade às vezes até assustadora a forma com que Conan Doyle, perdão de novo, Watson narrava as histórias originais do Cânone.

A Vida Íntima de Sherlock Holmes é tão fascinante que ele mesmo, o filme, tem uma trajetória, uma história de vida, se é que se pode usar o termo, extraordinária. O filme que chegou aos cinemas em 1970 e podemos ver hoje em DVD não é propriamente o filme que Billy Wilder dirigiu.

Mas é informação demais. É necessário ir por partes.

Uma caixa guarda documentos a serem revelados 50 anos após a morte de Watson

Um pouco sobre o que podemos ver no filme tal qual ele existe hoje.

A primeira tomada é de uma placa prateada, pregada em uma parede externa de um prédio londrino: “Cox & Co, Bankers” – e, refletido na placa, o trânsito de Londres, um dos tradicionais ônibus vermelhos de dois andares passando.

Enquanto começam a rolar os créditos iniciais, e vemos dois homens entrando em um cofre-forte, ouvimos a narração de uma voz em off:

– “Em um cofre de um banco em Londres, há uma caixa com o meu nome. (Vemos a caixa, com a inscrição John H. Watson, MD, MD de medical doctor, que os dois homens pegam.) Ela não pode ser aberta antes que se passem 50 anos da minha morte. Contém certas recordações da minha ligação com o homem que elevou a ciência da dedução a uma forma de arte. O primeiro e, inegavelmente, mais famoso detetive particular do mundo.”

A caixa começa a ser aberta, e os dois homens vão tirando o que há dentro dela, em meio ao pó das décadas: o famoso chapeuzinho, o famoso cachimbo em forma de meia lua, depois algemas, um relógio de bolso – com a foto de uma mulher na parte interna da tampa –, uma partitura musical assinada por Sherlock Holmes, uma agulha de injeção, ou seringa hipodérmica…

Um pequeno detalhe: não se usa, no original, a expressão private detective, ou private investigator, que passariam a ser mais usadas nas décadas seguintes àquelas em que Sherlock Holmes viveu, em especial nos Estados Unidos, onde, a partir de private investigator, difundiu-se a expressão private eye, já com o eye, de olho, se pronuncia como a letra i, a primeira letra de investigator.

Como a voz que ouvimos é de um ator representando John Watson, ele usa a expressão consulting detective – consulting, de consultor, mesmo. Detetive consultor, que era como John Watson se referia, em seus textos, a Holmes.

“Aventuras que envolvem assuntos de natureza delicada e às vezes escandalosa…”

E então, depois de retirar de dentro da caixa mais uma série de itens – uma lente de aumento, uma carta de baralho, uma plaquinha com o número 221b, o mais famoso endereço de Londres depois do número 10 da Downing Street –, os dois homens chegam finalmente a um grande molho de páginas manuscritas. A voz em off lê o início do texto contido nelas:

– “Para meus herdeiros. (Parágrafo. Na outra linha:) Ao longo da minha vida, registrei cerca de 60 casos que demonstram os talentos singulares de meu amigo Sherlock Holmes, abordando desde o Cão de Baskervilles até seu misterioso irmão Mycroft e o diabólico Professor Moriarty. Mas houve outras aventuras que decidi não divulgar publicamente, por razões de discrição, até este momento bem mais tardio. Elas envolvem assuntos de uma natureza delicada e às vezes escandalosa, como poderão constatar a seguir. Em agosto de 1887, voltávamos de Yorkshire…”

E a partir daí vemos na tela o que Watson relatou nos papéis guardados a sete chaves por meio século.

Uma bela sacada de Wilder & Diamond – que respeita perfeitamente o Cânone

É uma grande sacada da dupla Wilder & Diamond. A história que os dois criaram incorpora com perfeição tudo o que Conan Doyle digo Watson escreveu em vida sobre ele próprio e Holmes. O Cânone é perfeitamente respeitado.

Watson escrevia à mão seus relatos, e os entregava ao amigo Conan Doyle, que se encarregava de fazê-los publicar, primeiro na Strand Magazine, depois em forma de livros.

Mas aquele manuscrito especificamente não foi dado à divulgação no período entre 1891 e 1927 porque continha temas que Watson gostaria de preservar, de manter em segredo. Meio século depois, aí sim, aquelas histórias poderiam ser conhecidas, já que o mal que eventualmente fizessem à reputação tanto dele quanto de Holmes não mais os atingiria; estariam mortos faria muito tempo.

Os temas sobre os quais se fala bastante, nessas histórias a serem divulgadas postumamente, são apenas arranhados nos relatos publicados por Watson, e que constam do Cânone. Mas eles estão lá, nas narrativas originais. Não foram inventados por Wilder & Diamond.

São eles – e creio que posso citá-los aqui, sem que isso seja um spoiler – a questão da sexualidade de Holmes; a sua dependência de cocaína (injetada, não aspirada); e, talvez mais comprometedor do que os dois anteriores, o fato de que, pelo menos uma vez na vida, provou-se que o grande detetive não era infalível.

E os personagens são a mais pura representação de como Holmes e Watson são descritos no Cânone. Holmes é brilhante, genial – e sua inteligência é tão gigantesca quanto sua pose, seu ego, seu egocentrismo, sua empáfia. Cheio de si, impávido colosso, padece de terrível solidão, não mitigada pela presença eterna do companheiro Watson, amigo fiel, de quem ele de alguma forma gosta, apesar de considerá-lo um ser inferior.

Watson, por sua vez, é um sujeito suavemente bronco. Coração gigantesco, eticamente irrepreensível, uma pessoa boa, boníssima – e fascinada pelo fato de ter tido a oportunidade de conviver com um ser de inteligência superior.

O Holmes e o Watson do filme de Wilder são absolutamente fiéis ao Cânone.

Ou pelo menos é isso que me parece – e aqui aproveito para dizer que não sou um especialista em sherlokismo. Não sou especialista em nada, não entendo profundamente nada de nada. Sou apenas um curioso – e então que perdõem meus erros os sherlockistas de fato. (E, se possível, que os erros sejam apontados.)

O criador que tomou ódio da criatura

E aí faço uma pequena digressão.

Regina Lemos entendia de Conan Doyle. Tinha lido tudo, e entendido tudo, e feito todas as associações possíveis. (Bem ao contrário de mim, que li mas não compreendi tudo.) Fez uma beleza de matéria para o Jornal da Tarde, na época em que nos conhecemos, 1976, mostrando como Arthur Conan Doyle passou a odiar profundamente o personagem que havia criado. O criador tornou-se prisioneiro da criatura – e passou boa parte da vida querendo se libertar dela. Arthur Conan Doyle passou a ter um ódio profundo de Sherlock Holmes. Tentou matá-lo diversas vezes.

Um filme com duas histórias distintas

A Vida Íntima de Sherlock Holmes que passou nos cinemas em 1970 e está disponível em DVD (lançado no Brasil pela Versátil, em acordo com a MGM, que herdeu os direitos ao comprar a United Artists) é um filme de duas horas e cinco minutos. Conta duas histórias distintas.

A primeira envolve a maior bailarina clássica daquele final dos anos 1880, Madame Petrova (Tamara Toumanova), prima ballerina do Balé Imperial Russo. O Balé está se apresentando em Londres, e o diretor do corpo tem uma tarefa para Holmes executar. Caso aceite, Holmes, violinista diletante, receberá um Stradivarius autêntico, de valor incalculável.

Essa primeira história, que tem pouco mais de 30 minutos de duração, é apresentada com um toque cômico. Mas um tom cômico à la Billy Wilder – irônico, sarcástico, porém até mesmo sutil. Nada, absolutamente nada a ver com o humor aberto, escrachado, à la Mel Brooks, de O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes/The Adventures of Sherlock Holmes’ Smarter Brother, que Gene Wilder, seguindo as pegadas de seu mentor Brooks, dirigiria em 1975.

É um delicioso episódio, este, envolvendo Madame Petrova – mas é apenas o hors d’oeuvre, uma saborosíssima, porém bem pequena entrada, antes do prato principal. (Na foto acima, o dr. Watson dança com bailarinas russas nesse primeiro episódio.)

Temos então que, lá pouco antes dos 35 minutos de filme, Holmes está morrendo de tédio em sua casa na Baker Street, 221b, na falta de um caso intrigante, extraordinário, Watson escrevendo seus manuscritos, talvez relatando o episódio envolvendo Madame Petrova, quando um motorista de charrete, o táxi londrino da época, bate a campainha da porta para entregar ali uma mulher.

Está encharcada, a mulher. O motorista conta que ela havia pulado no Tâmisa, e ele havia pulado para tirá-la da água – a qual, diz ele, com aquele delicioso sotaque cockney, estava especialmente gelada. Na mão, ela carregava o endereço – Baker Street, 221b.

– “Vão ficar com ela, ou devo jogá-la de volta ao rio?”, pergunta o motorista.

A segunda história é de mistério e suspense, e o mistério só vai se adensando

É uma mulher bonita. As roupas são boas – não é, de forma alguma, uma mendiga. Parece em estado de choque. Não sabe dizer seu nome, de onde vem, o que faz ali, por que carregava o endereço de Holmes. O dr. Watson diagnostica na hora um caso de amnésia pós-traumática.

Pouco acostumados a receber visitas femininas na casa, tanto Holmes quanto Watson e Mrs. Hudson (Irene Handl ), a severa, britaniquíssima governanta levam um tempo imenso até botar a moça embaixo de um chuveiro (se é que havia chuveiro em Baker Street, 221b, em 1887, ou 1888), ou no mínimo tirar as roupas encharcadas dela.

Finalmente, põem a misteriosa mulher para dormir no quarto de Watson, que se transfere para o sofá da sala de estar.

De madrugada, a misteriosa mulher se levanta da cama – peladinha, peladinha – e se aproxima de Holmes, chamando-o de Emile.

Dá vontade de adiantar ao menos os elementos que virão a seguir na história envolvendo a mulher misteriosa vinda sem memória das águas geladas do Tâmisa, mas não é o caso. Atrapalharia quem ainda não viu o filme.

O que posso dizer, na verdade repetir, é isto: o que virá a seguir no filme é uma das mais belas tramas envolvendo Sherlock Holmes e o dr. Watson que foram criadas – seja as verdadeiras, as originais, as constantes no Cânone, seja as posteriores, as criadas pela imaginação de uma dezena, centena de outros autores.

Nessa história que se inicia com a chegada da mulher misteriosa, e dura três quartos do filme na forma em que ele existe hoje, Wilder não se furta a algum humor. Ele não evita humor nem quando fala de solidão, desespero, infidelidade conjugal, tentativa de suicídio, como em Se Meu Apartamento Falasse, nem quando mostra a vida de prisioneiros de guerra em um campo na Alemanha nazista, como em Inferno Nº 17.

Só que, aqui, o humor é bem mais sutil e suave do que no episódio envolvendo a companhia de balé russa. O clima é de mistério, de gostoso suspense – vão aparecendo mais e mais elementos, e as coisas não vão se esclarecendo. Ao contrário, o mistério vai se adensando – até quase o desfecho, quando os fios todos da trama se ligam. Um brilho.

É de alguma forma assustador pensar que, quando queria, Billy Wilder, com a ajuda de seu parceiro I.A.L. Diamond, era capaz de criar uma trama que faria inveja a Sir Arthur Conan Coyle, ao dr. John H. Watson.

É muita concentração de talento num cara só. Não há MST – movimento dos sem-talento – que consiga dar um jeito nisso.

Nos papéis centrais, dois bons atores pouco conhecidos hoje

Ainda não falei sobre os atores do filme. O trio central é formado por Robert Stephens (Holmes), Colin Blakely (Watson) e Geneviève Page (a mulher misteriosa). Imagino que só aficionados malucos conheçam Robert Stephens e Colin Blakely. Eu, que sou aficionado maluco, não conhecia. São dois bons atores das Ilhas Inglesas, aquelas ilhotas que têm a maior quantidade de bons atores por quilômetro quadrado que qualquer outro lugar do planeta.

Robert Stephens, bom físico para Sherlock, magro, alto, é inglês, fez 86 filmes. Colin Blakely, bom físico para Watson, mais parrudo, mais baixo (talvez um pouco menos gordinho do que o Watson das ilustrações do Strand Magazine), é irlandês do Ulster, fez 78 filmes.

Geneviève Page é, como Stephens e Blakely, uma boa atriz – e, se não fosse boa, não estaria em um filme de Billy Wilder. Francesa de Paris, viva ainda, tem 50 títulos na filmografia do IMDb – inclusive Belle de Jour de Buñuel e El Cid de Anthony Mann. (Ela faz a princesa Urraca, caráter ruim, mas grande beleza. Me lembro dela. Preciso rever El Cid.)

Wilder e Diamond trabalharam por dez anos no roteiro do filme

Agora, um pouco da história de vida de A Vida Íntima de Sherlock Holmes. Nunca soube de nada disso até agora, até depois de rever o filme agora e dar uma olhadinha nos alfarrábios. É uma história fantástica.

Consta (na verdade, mais do que consta; há indicações claras) que Wilder queria, a princípio, nada mais nada menos que Peter O’Toole como Holmes e Peter Sellers como Watson. Sonhar não custa nada, e faria todo sentido. O grande O’Toole é alto, bonito, e tem gestos que minha mãe chamaria de efeminados. O grande Sellers é mais baixo, mais atarracado, embora não tão gordinho quanto imaginamos Watson.

Bem, por algum motivo não deu para ter O’Toole e Sellers no elenco, e quem não tem cão caça com gato, e Stephens e Blakely estão ótimos.

Segundo um depoimento de Ernest Walter, que está no DVD da Versátil, Wilder & Diamond trabalharam no projeto de A Vida Íntima de Sherlock Holmes ao longo de dez anos.

Wilder e Diamond assinaram juntos os roteiros a partir de Amor na Tarde, de 1957. A parceria durou até Amigos, Amigos, Negócios à Parte/Buddy Buddy, de 1981, o último filme dirigido pelo mestre, que se aposentou a partir daí. (Ele viveria até 2002. Morreu aos 95 anos.)

Se é verdade o que diz Ernest Walter – e não há motivo algum para duvidar dele –, os dois amigos começaram a trabalhar na Vida Íntima… três anos após o início da parceria.

Ernest Walter (1919-1999) é uma figura impressionante. É uma das pessoas mais low profile, simples, tranqüilas, menos show off, estrela, ego inflado de que já tive notícia. Seu depoimento dura uma meia hora. Em nenhum momento ele chama alguma glória para si, se elogia, se enaltece. Fala de seu trabalho como um bancário, ou vendedor de seguros, ou copydesk que descrevesse seu dia a dia cinzento, sempre igual, modorrento.

Foi o responsável pela montagem de 33 filmes; trabalhou com Blake Edwards, Franklin F. Schaffner, Mark Robson, Philip Dunne, Michael Anderson; assinou a edição de filmes do cinemão americano que foram sucesso comercial. Não esconde que a maior glória que teve na vida foi ter montado um filme de Billy Wilder – o único filme do mestre filmado nas Ilhas Britânicas, conforme assinala esse humilde senhor do País de Gales.

Guardou, cuidadosamente – de forma parecida com que o banco londrino guardou os manuscritos do dr. Watson –, o calhamaço com as centenas de páginas do roteiro final de A Vida Íntima de Sherlock Holmes. Exibe o calhamaço, enquanto dá o depoimento. Conta que Wilder filmou tudo exatamente de acordo com o roteiro. Sem espaço algum para improvisação, criação de última hora. Ouviu de Diamond que o roteiro, trabalhado ao longo de tantos anos, estava perfeito, e portanto, na filmagem, tudo tinha que ser exatamente como escrito.

Era até fácil o trabalho de montagem, conta ele, exatamente porque Wilder filmava tudo seguindo com rigor o roteiro. “Era praticamente só cortar fora a claquete, e juntar com a tomada seguinte”, diz ele, não exatamente com essas palavras, mas é o que ele quer dizer, num tom de voz monocórdico, sem um traço de orgulho, como se montar um filme de Billy Wilder fosse exatamente igual a carimbar papéis em um banco.

“Não entendo como a Mirish Company estranhou que o filme tivesse ficado grande”, diz ele – e de novo não estou citando ipsis literis, mas transcrevendo o sentido do que ele diz.

O chamado first cut, a primeira edição de todo o material filmado, tinha quase quatro horas de duração. Cleópatra, que quase quebrou a Fox, tinha 3 horas e 12 minutos quando chegou aos cinemas. Ben-Hur tinha 3 horas e 32 minutos. Mas o tempo desses dinossauros já havia passado, quando Billy Wilder filmou A Vida Íntima de Sherlock Holmes. E então a Mirisch Company encomendou ao humilde Ernest Walter que cortasse a trolha, transformasse aquele gigante em algo próximo das 2 horas de projeção.

Wilder & Diamond haviam escrito e filmado quatro histórias diferentes.

Os produtores incumbiram Ernest Walter de extrair fora duas das quatro histórias. Ficaram de fora um episódio chamado “O curioso caso do cômodo invertido” e outro chamado “O espantoso negócio dos recém-casados nus”. Extirpadas essas duas histórias, o filme ficou com sua duração de duas horas e cinco minutos.

Se fosse hoje em dia, Walter teria que cortar mais. O cinemão comercial não anda admitindo filmes com mais de 90, 100 minutos.

“Tudo é muito longo, menos a própria vida e o própro pênis”

Alguns trechos extirpados da versão que chegou aos cinemas – e que é a mesma que está no DVD da Versátil – chegaram a aparecer em uma edição americana do filme em laser disc.

Segundo a Wikipedia, um crítico chamado Kim Newman, na revista Empire, chamou a obra de “melhor filme de Sherlock Holmes jamais feito”, “infelizmente subestimado no Cânone de Wilder”.

Gostei desse Kim Newman. Legal essa brincadeira dele sobre o Cânone de Billy Wilder.

Vou agora ver a versão do próprio Billy Wilder no livro definitivo sobre sua obra, Billy Wilder – e o resto é loucura, do estudioso alemão Hellmuth Karasek.

Como bom alemão, Hellmuth Karasek não apenas entrevista Wilder, não apenas relata histórias que ouviu de seus vários entrevistados. Ele também filosofa e psicanalisa. Sai-se com a teoria de que o Sherlock Holmes do filme é um auto-retrato de Billy Wilder: “solitário, envolvido por uma melancolia e um esnobismo à la Oscar Wilde”, “um entediado e presa da cocaína porque, com sua inteligência arguta e ausência de preconceitos, está acima do mundo em que vive”. E a mulher misteriosa seria “o símbolo do amor de Wilder pela Alemanha e pela Áustria, amor que, no entanto, ele tem que combater”.

Deve ser por essas e outras que Caetano diz estar provado que só é possível filosofar em alemão.

“Tudo é muito longo, menos a própria vida e o próprio pênis”, disse Wilder, segundo Karasek, ao saber que iriam cortar seu filme, “tirar a vida de seu mais enredado auto-retrato.”

Karasek relata que Wilder gosta muito do filme. Que o filme, menosprezado à época do lançamento, foi depois reabilitado, com grandes elogios de críticos importantes.

A indústria fica aí lançando cinco ou seis diferentes versões de Blade Runner, nove diferentes versões de Avatar. Nada contra Avatar e Blade Runner. Mas, caral…, não poderiam lançar a versão original de Billy Wilder deste filme maravilhoso?

Anotação em novembro de 2011

A Vida Íntima de Sherlock Holmes/The Private Life of Sherlock Holmes

De Billy Wilder, EUA, 1970

Com Robert Stephens (Sherlock Holmes), Colin Blakely (Dr. Watson), Irene Handl (Mrs. Hudson), Stanley Holloway (coveiro), Christopher Lee (Mycroft Holmes), Genevieve Page (Gabrielle Valladon), Clive Revill (Rogozhin), Tamara Toumanova (Petrova), Mollie Maureen (Rainha Victoria)

Argumento e roteiro Billy Wilder e I.A.L. Diamond

Baseado nos personagens criados por Sir Arthur Conan Doyle

Fotografia Christopher Challis

Música Miklos Rozsa

Montagem Ernest Walter

Produção Billy Wilder, The Mirish Company. DVD Versátil.

Cor, 125 min

R, ***1/2

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