A Trama / The Parallax View

Nota: ★★★☆

A Trama/The Parallax View, que o diretor Alan J. Pakula lançou em 1974, é provavelmente um dos filmes políticos mais sombrios, lúgubres, desesperançados já produzidos nos Estados Unidos.

Seu clima pesado, de absoluto desalento, faz lembrar A Conversação, de Francis Ford Coppola (não por coincidência, lançado exatamente no mesmo ano) e também Um Lance no Escuro/Night Moves, de Arthur Penn (não por coincidência, lançado no ano seguinte, 1975, e com o mesmo ator do filme de Coppola, o grande Gene Hackman).

O protagonista de A Trama é Warren Beatty.

Dois anos depois, em 1976, Pakula, o diretor de fotografia Gordon Willis e a mesma equipe de direção de arte de A Trama se reuniriam novamente para fazer Todos os Homens do Presidente, aquela obra-prima. Todos os Homens tem como protagonistas, nos papéis de Carl Bernstein e Bob Woodward, os dois repórteres que acabaram sendo responsáveis pela renúncia do presidente Richard Milhous Nixon, os atores Dustin Hoffman e Robert Redford.

Nada, absolutamente nada disso é coincidência.

Pakula, Coppola, Penn, Beatty, Hoffman e Redford eram, todos eles, pró-Partido Democrata, progressistas, liberais – no sentido americano do termo, de anti-reacionários, anti-conservadores, anti-Partido Republicano.

Uma série de fatos trágicos explica por que tanto desalento, tanta desesperança

A Trama – assim como A Conversação e Um Lance no Escuro – reflete exatamente o período sombrio, lúgubre, desesperançado que os americanos progressistas, liberais, viviam, naqueles meados dos anos 1970.

Algumas datas explicam por quê:

22 de novembro de 1963 – o presidente democrata John F. Kennedy é assassinado;

4 de abril de 1968 – o reverendo Martin Luther King Jr, é assassinado;

6 de junho de 1968 – o senador Robert F. Kennedy, pré-candidato democrata à presidência, é assassinado;

5 de novembro de 1968 – o republicano Richard Nixon é eleito presidente;

17 de junho de 1972 – em meio à campanha para a presidência, o comitê do Partido Democrata em Washington, no Edifício Watergate, é invadido por um grupo que a princípio parece ser formado por ladrões comuns;

20 de junho de 1972 – reportagens de Carl Bernstein e Bob Woodward começam a ligar os assaltantes de Watergate a membros do comitê pela reeleição de Nixon e à própria Casa Branca;

7 de novembro de 1972 – Richard Nixon é reeleito presidente;

10 de outubro de 1973 – o vice de Nixon, Spiro Agnew, renuncia, após as denúncias de corrupção enquanto ele era governador de Maryland;

Julho de 1974 – as investigações do Congresso americano sobre Watergate comprovam o envolvimento de todos os homens do presidente Nixon no assalto a Watergate.

A Trama estreou nos Estados Unidos em 14 de junho de 1974, enquanto o ambiente político em Washington fedia mais que o Tietê em tempos de seca. Como fede a Esplanada dos Ministérios em Brasília em ano em que seis ministros são demitidos por corrupção.

Nem dois meses depois da estréia de A Trama, em 8 de agosto de 1974, sem condições de continuar mentindo, às vésperas de ser aberto um processo de impeachment, Richard Nixon renuncia.

O filme começa com o assassinato de um político

Em um período de menos de dez anos, um presidente e um candidato a presidente pelo Partido Democrata assassinado, um líder da luta pelos direitos civis e pela igualdade racial assassinado, um vice-presidente republicano que renuncia após denúncias de corrupção, um presidente republicano que renuncia após ser comprovado que sua equipe planejou o ataque ao comitê adversário.

Tempos sombrios, lúgubres, desesperançados.

A Trama começa com o assassinato de um político.

Comemora-se o dia da independência. Estamos em Seattle. Não há letreiro indicando isso, mas a câmara mostra diversas vezes a torre que é o cartão postal obrigatório da cidade do extremo Noroeste americano. O senador Charles Carroll (Bill Joyce), um independente, no auge da fama, talvez se preparando para concorrer à presidência, visita a cidade e é recebido com festa e fanfarra. É preparada para ele uma recepção no restaurante no alto da torre. A segurança é rígida. Uma repórter de TV, Lee Carter (Paula Prentiss), que havia entrevistado pouco antes o principal assessor do senador Carroll, Austin Tucker (William Daniels), exibe sua credencial e é autorizada a entrar no elevador que leva até o alto da torre.

Um repórter cabeludo (os repórteres, assim como todo mundo, éramos cabeludos, em 1974) tenta entrar no salão dos elevadores, mas é barrado pela segurança. Tenta dizer que está com a repórter de TV, mas ela nega, e o repórter cabeludo é barrado. Chama-se, veremos pouco depois, Joe Frady, e será o protagonista da história – é o papel de Warren Beatty.

Lá em cima da torre, no restaurante, há a confusão de sempre quando há político importante presente.

O senador Carroll pede a palavra. Vai fazer um breve pronunciamento.

No meio do pronunciamento, é atingido por tiros.

O filme mostra para o espectador o homem que deu os tiros. Está usando as roupas dos garçons do lugar.

Outro homem, também usando roupa de garçom, se movimenta como se fosse ele o autor dos disparos. Os homens da segurança seguem esse outro homem – que o espectador sabe que não foi o assassino. Perseguido pelos seguranças, esse outro homem acaba caindo do alto da grande torre de Seattle.

Pakula faz questão de mostrar para o espectador que o verdadeiro assassino está solto.

Estamos com cerca de seis minutos de filme.

A comissão de investigação conclui: foi o gesto tresloucado de um único homem

Corta, e temos uma um plano geral de uma mesa, no alto de uma bancada, em que há sete homens sentados. Como é um plano geral, os homens estão distantes, lá longe. Não dá para ver a fisionomia deles. É uma comissão de investigação; não é dito explicitamente, mas fica bem claro que é a comissão de investigação formada pelo Senado.

A câmara fica parada, os sete homens lá longe, enquanto ouvimos o que um deles diz: “Senhoras e senhores, vocês foram convidados aqui hoje para o anúncio oficial da investigação da morte do senador Charles Carroll. Este é um anúncio, não uma entrevista coletiva. Por isso, não haverá perguntas. Uma transcrição completa da investigação está sendo preparada para publicação no dia 1º de março. Na ocasião, o comitê dará uma entrevista coletiva abrangente. Depois de quase quatro meses de investigação, seguida por nove meses de audiências, este comitê concluiu que o senador Carroll foi assassinado por Thomas Richard Linden.”

Está claríssimo para o espectador que Thomas Richard Linden foi o homem que não matou o senador; era o homem que fez gestos para atrair as atenções dos seguranças, enquanto o verdadeiro assassino fugia sem ser percebido.

O orador prossegue:

“Nossa conclusão é de que ele agiu inteiramente sozinho, motivado por um senso de patriotismo e um desejo psicótico de reconhecimento público. O comitê deseja enfatizar que não há qualquer evidência de qualquer conspiração mais ampla; nenhuma evidência, absolutamente.”

(“No evidence whatsover.” Desde que vi 2001 – Uma Odisséia no Espaço, pela primeira vez, em 1968, não consigo ouvir a palavra whatsover sem lembrar da voz do computador HAL 9000 respondendo à inquirição feita por Frank: “None whasover, Frank”, dizia, soturna, a voz de HAL 9000. Como todo criminoso apanhado com a boca na botija, como Richard Nixon, como os mensaleiros, como os ministros de Lula e Dilma, HAL 9000 nega tudo. None whatsover.)

O orador prossegue:

“Temos a esperança de que isso porá um fim ao tipo de especulação irresponsável feita pela imprensa nos últimos meses, como eu disse no texto completo das audiências, que deram as bases para as conclusões do comitê que serão publicadas no dia 1º de março. Quando vocês puderem examinar as evidências, vocês terão todas as oportunidades de fazer as perguntas que ainda houver, se é que haverá alguma. Isto é tudo. Muito obrigado.”

A repórter que presenciou o atentado está apavorada: teme ser morta também

Ao longo do pronunciamento, surgem os créditos iniciais. Ao final deles, os créditos e o pronunciamento, surge um letreiro: “Três anos depois”.

E aí veremos Joe Frady, o repórter cabeludo, o protagonista da história, em ação. Joe Frady é um repórter investigativo, daquele tipo que parte sempre da certeza de que as autoridades – sejam quais forem – sempre agem errado.

Joe Frady-Warren Beatty recebe a visita de Lee Carter-Paula Prentiss.

Lee está apavorada. Tem certeza de que há alguém tentando assassiná-la. Mostra para Joe recorte de jornal da época do assassinato do senador Carroll: segundo ela, seis testemunhas do assassinato do senador foram mortas em acidentes suspeitos, ao longo dos últimos três anos.

Joe, o repórter investigativo, que questiona as autoridades sempre, a priori, está convencido de que Lee está enganada. Houve, sim, mortes de pessoas que estavam presentes no momento do assassinato do senador – mas foram todas mortes acidentais, ou por doença.

Estamos com menos de 15 minutos de filme quando Lee aparece morta.

E a partir daí Joe fica convencido de que, ao contrário das aparências, ao contrário do que o douto comitê de investigação havia concluído, o senador Carroll foi, sim, vítima de um complô. Um complô tão grande que levou à morte de nada menos de sete testemunhas, Lee incluída.

Quantas testemunhas do assassinato de Celso Daniel, então prefeito petista de Santo André, morreram em circunstâncias misteriosas?

Um filme em que as coisas não são ditas abertamente, ou são ditas só pela metade

Todo o tom de A Trama/The Parallax View é de coisas não ditas, ou ditas pela metade. Tudo é implícito, nunca explícito.

O encontro de Lee e Joe, no apartamento dele, aí bem no início do filme, é exemplar nisso. Nos primeiros minutos do filme, Lee havia se negado a dizer que Joe estava com ela, e desta maneira impediu que ele pudesse subir até o topo da torre em Seattle, onde o senador Carroll seria assassinado.

Quando Lee chega ao apartamento de Joe, ele está com uma mulher, uma namorada, uma transa eventual. Fica implícito que Joe e Lee tinham tido um caso. Mas nada é dito explicitamente.

Esse é exatamente o tom do filme. Nada é explícito.

Alan J. Pakula fez um filme sombrio, lúgubre, desesperançado, em que nada é explícito.

Joe, o repórter que acredita que toda autoridade é culpada, até prova em contrário, recusa-se a aceitar a idéia de que o assassinato do senador Carroll fazia parte de uma grande trama – até que sua ex-mulher, ou namorada, aparece morta, de um jeito que parece natural, mas é a sétima morte seguida de testemunha do atentado ao político.

Apesar de toda a insistência na coisa implícita, não falada abertamente, fica muito claro que A Trama foi feito para contestar a tese de que os assassinatos de John e Robert Kennedy e Martin Luther King Jr. foram obra de loucos que agiram sozinhos.

Foi feito para dizer que foi tudo uma grande conspiração.

A teoria conspiratória da história é chata, e muitas vezes, ela mesma, fruto de mentes doentes.

Acontece que, às vezes (e muitas vezes), há conspirações. E a afirmação veemente de que não foi, de forma alguma, conspiração, que foi tudo obra de um único louco, só faz acirrar a pergunta: epa, mas será que não foi mesmo uma conspiração?

“Um thriller político conduzido num ritmo ofegante, que parte da ausência de todas as ilusões”

Dei uma olhadinha no que Leonard Maltin, Roger Ebert e Jean Tulard escreveram sobre o filme. Maltin gostou, deu 3.5 estrelas em 4: “Equipe do diretor-fotógrafo-diretor de arte mais tarde responsável por All the President’s Men dá a esse thriller político um olhar brilhante, com o repórter Beatty investigando o assassinato de um senador. História apavorante se revela a cada pedaço de evidência que ele descobre. Absorvente até o finalzinho.”

Já Ebert, que admiro mais, faz um texto longo para negar qualquer qualidade ao filme.

O Guide des Films de Jean Tulard diz: “A referência ao assassinato do presidente Kennedy é evidente. O mundo do jornalismo é igualmente evocado, um prelúdio aos Hommes du Président, outra obra marcante de Pakula. Notavelmente construído, esse thriller político é conduzido num ritmo ofegante, que parte da ausência de todas as ilusões. Uma obra importante dentro do cinema americano”.

Volta e meia acontece isso. Depois que escrevo trocentas linhas, vou ao Guide do Tulard e vejo que ele corrobora com a minha visão. Só que num texto brilhante e enxuto – o contrário do meu.

Anotação em janeiro de 2012

A Trama/The Parallax View

De Alan J. Pakula, EUA, 1974

Com Warren Beatty (Joseph Frady, Hume Cronyn (Edgar Rintels), William Daniels (Austin Tucker), Paula Prentiss (Lee Carter), Kelly Thordsen (xerife L.D.), Earl Hindman (assistente Red), Bill Joyce (senador Charles Carroll), Jim Davis (senador Hammond)

Roteiro David Giler e Lorenzo Semple Jr.

Baseado na novela de Loren Singer

Fotografia Gordon Willis

Música Michael Small

Montagem John W. Wheeler

Produção Alan J. Pakula, Doubleday Productions, Gus, Harbor Productions.

Cor, 102 min

R, ***

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  1. […] é o fato de que o pai, o boa praça bancário Joe, tenha a mania de, com o amigo e vizinho Herbie (Hume Cronyn), um fanático por histórias policiais, ficar sempre falando sobre crimes, formas de assassinar […]

  2. […] e seu marido é o tenente William McConnel, ou Mac. (Bev é interpretada a bela Paula Prentiss, de A Trama, 1974, e As Esposas de Stepford, 1975. Mac é o papel de Tom Tryon, que tinha estado em O Mais […]

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