A Taça de Ouro / The Golden Bowl

Nota: ★★★☆

Lançado em 2000, A Taça de Ouro/The Golden Bowl tem a assinatura, o selo, a marca registrada do trio James Ivory-Ismail Merchant- Ruth Prawer Jhabvala, com tudo o que isso implica. Há quem torça o nariz. Quem não conhece pode achar chato, enfadonho, repetitivo. Para mim, o selo Ivory-Merchant-Prawer Jhabvala é garantia absoluta de bons serviços prestados.

Ruth Prawer Jhabvala, nascida na Alemanha, descendente de indianos, escreve os roteiros. Ismail Merchant, indiano de Bombaim, cidadão do mundo, produzia – morreu em Londres, em 2005. James Ivory, americano de nascimento, inglês de coração e estilo, dirige.

Os temas da maioria dos filmes do trio são basicamente os mesmos: os costumes, o comportamento, a moral, os valores dos muito ricos, sejam americanos, sejam ingleses, em especial nas primeiras décadas do século XX.

Em geral, as histórias que contam envolvem os abismos existentes entre o amor e o casamento por conveniência ou necessidade.

O estilo é sempre o mesmo: clássico. Quase aquilo que os que adoram modernidades, modismos, chamam, com desdém, de acadêmico. Sempre excelentes atores, bem dirigidíssimos. Reconstituição de época, direção de arte, figurinos caprichadíssimos, bem cuidados até os mínimos detalhes.

Muitas vezes seus filmes se baseiam em obras literárias de grandes autores, escritas entre a segunda metade do século XIX e a primeira do XX.

Este aqui se baseia em Henry James – assim como Os Europeus, de 1979, e Um Triângulo Diferente/The Bostonians, de 1984.

Nada mais adequado para ser filmado pelo trio que uma obra de Henry James (1843-1916). James Ivory é conhecido como o mais inglês dos diretores americanos. Henry James é talvez o mais inglês dos escritores americanos.

Alguns séculos atrás, num palácio italiano, um adultério, duas execuções

O tema específico de A Taça de Ouro é infidelidade conjugal.

A primeira seqüência do filme se passa na Itália.

Como tantos americanos antes e depois dele, Henry James era fascinado pela Itália, sua história milenar, sua arte, as famílias de nobres de tradição de muitos séculos. James Ivory filmou lá Uma Janela para o Amor/A Room with a View, de 1985, que lhe deu sua primeira indicação ao Oscar de melhor diretor. (Voltaria a ser indicado por Retorno a Howards End, em 1992, e Vestígios do Dia, em 1993.)

Num palácio italiano, alguns séculos atrás – é o que vemos na primeira sequência do filme –, houve uma grande tragédia familiar. Um rapaz, com ciúme do irmão preferido de seu pai, um duque rico e poderoso, denunciou que o predileto era amante da própria madrasta, a então mulher do nobre. O duque, o filho delator e diversos guardas flagram os amantes adúlteros na cama. A esposa infiel diz ao marido que ele não é um homem, ao contrário de seu filho. O filho pede perdão e tenta jogar a culpa sobre a madrasta. São executados imediatamente, os dois.

Inesperada, forte, violenta, chocante, essa seqüência inicial é visualmente esplendorosa. O diretor de fotografia Tony Pierce-Roberts joga com as luzes das tochas e as sombras; a execução não se apresenta às claras, explícita, aos olhos do espectador, mas como se fosse num teatro de sombras chinês.

Corta, e agora estamos no início do século XX, a época em que começa de fato a narrativa. Um letreiro informa que estamos no Palazzo Ugolini, perto de Roma, em 1903 – o mesmo palácio onde se deu, séculos antes, a execução dos amantes infiéis. Quem mostra o palácio e conta a história pavorosa para a bela mulher que o acompanha é um descendente daquele duque – o príncipe Amerigo (interpretado por Jeremy Northam, na foto acima).

A namorada (amante?) que ele ciceroneia no palazzo da família é uma jovem americana, inteligente, culta, requintada, viajada, Charlotte Stant – o papel de Uma Thurman (nas fotos acima e abaixo).

Charlotte está absolutamente apaixonada pelo príncipe belo e formoso, e o príncipe, por sua vez, não poderia desprezar aquele mulherão todo, que Deus a tenha. Mas há um problema, o problema de sempre, em tantos romances de escritores daquela época, como Henry James, Edith Wharton, E. M. Forster, ou de época mais antiga, como Jane Austen: o dinheiro. Ou, para ser mais exato, a falta dele.

O príncipe Amerigo vem de uma digníssima linhagem de nobres italianos, que passa inclusive por um Amerigo de quatro séculos antes, e que acabaria originando o nome do continente em que nasceria a bela Charlotte, América, de Amerigo, ou Américo, Vespucci.

Mas os nobres antepassados do atual Amerigo, além de ocasionalmente mandar executar mulher e filho, torraram toda a fortuna da família. O príncipe tem linhagem, elegância, postura – mas bufunfa, quase nenhuma.

Como as personagens de Jane Austen, o príncipe precisa encontrar dinheiro através do melhor meio disponível: o casamento. E ele já está noivo. Portanto, diz ele à bela americana – que tem beleza, cultura, educação, mas também não tem dinheiro –, a melhor solução para os dois seria encontrar um homem bondoso, e muitíssimo rico, para ela.

Numa loja, o casal vê uma taça bizantina coberta de ouro

O príncipe vai se casar com Maggie (o papel da sempre linda Kate Beckinsale), a quem fora apresentado por uma amiga da alta sociedade londrina, Fanny Assingham (a sempre maravilhosa Anjelica Huston).

Maggie acontece de ser a filha do primeiro americano a ter uma fortuna superior a um bilhão, o primeiro bilionário americano, Adam Verver (o papel de Nick Nolte, aqui bem menos careteiro do que seu normal). Filha e pai, viúvo havia muito tempo, estão, na época, residindo em Londres, ocasionalmente também em algum castelo alugado no interior inglês.

Maggie acontece também de ser amiga de infância de Charlotte.

Os ex-namorados (amantes?) Amerigo e Charlotte, com a complacência da amiga comum Fanny, não revelarão para Maggie que já haviam se conhecido no passado.

Quando Charlotte chega do continente à Inglaterra, às vésperas do casamento, Maggie encarrega o noivo de ir buscá-la.

Antes de se dirigirem à propriedade londrina dos Ververs, os antigos namorados (amantes?) passam por uma loja; Charlotte pensa em comprar um presente de casamento para Maggie. O dono da loja, A.R. Jarvis (uma interpretação magistral de Peter Eyre) exibe para o casal uma taça bizantina coberta de ouro.

A taça de ouro terá importância fundamental na história. E dizer isso não é um spoiler, já que a golden bowl deu título ao livro de Henry James e ao filme da trinca Ivory-Merchant-Prawer Jhabval.

Também não será spoiler, creio, antecipar que o bilionário Adam Verver, após conviver com a amiga de sua filha adorada, aquele mulherão todo, a pedirá em casamento. Isso acontece quando estamos com exatamente 25 minutos dos 130 de duração de A Taça de Ouro.

O escritor que ajudou a moldar o mito do americano no estrangeiro

Último romance de Henry James, The Golden Bowl foi lançado em 1904, na maturidade de seus 61 anos e no auge de seu reconhecimento como um dos maiores autores não só da jovem literatura norte-americana como da de língua inglesa. Foi um autor prolífico: escreveu 20 romances, 112 contos, 12 peças e vários volumes de relatos de viagens e críticas.

Diz dele a Britannica:

“A carreira de Henry James foi uma das mais longas, mais produtivas – e mais influentes – das letras americanas. Um mestre na prosa de ficção desde o início, ele a praticou como um inovador fértil, ampliou sua forma, e colocou nela a marca de um estilo e método altamente individuais.”

“Além de sua arte, ele se transformou numa formidável figura da cultura transatlântica. Reconheceu e ajudou a moldar o mito do americano no estrangeiro – o encontro do Novo Mundo com o Velho –, e incorporou esse mito no ‘romance internacional’ de que foi o artesão e mestre. Seu tema fundamental era a inocência do Novo Mundo, a corrupção – e a sabedoria – do Velho, e o choque entre as duas. Em sua visão de uma exuberante e democrática América confrontando uma aristocrática cultura alienígena, ele teve uma percepção perturbada e profética do amadurecimento dos Estados Unidos e dos problemas morais com que o país se defrontaria como uma potência mundial no século XX.”

(Cacete: que texto. É por isso que a Britannica é cara, e a Wikipedia é grátis.)

O Novo Mundo não parece tão inocente assim. Nem o Velho parece tão corrupto

Ao contrário de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), autor americano que também descreveria a vida de seus milionários compatriotas expatriados no Velho Mundo, sem nunca ter propriamente pertencido à classe social deles, Henry James tinha berço esplêndido. O avô, um imigrante irlandês que tinha ido para Albany, no Estado de Nova York, logo após a independência americana, em 1776, amealhou boa fortuna, o suficiente para que o jovem Henry e seu irmão mais velho, William, tivessem bons tutores e governantas, enquanto alternavam sua infância e adolescência entre a na época provinciana Manhattan e viagens por Londres, Paris e Genebra. (A Itália, ele só iria conhecer já adulto.)

Conhecia bem, portanto, o mundo que descreveu em seus romances e contos.

O que me parece irônico é que, em The Golden Bowl, as coisas não se dão exatamente como se o Novo Mundo fosse tão inocente assim, diante de um Velho Mundo tão corrupto assim. É a jovem americana – exuberante, ah, isso sim, exuberante, mas nada inocente – que toma as iniciativas todas, e não o nobre europeu de família empobrecida com o passar das gerações que se torna milionário com o dinheiro ajuntado num piscar de olhos pelo sogrão americano. Pelo menos na adaptação do romance feita por Ruth Prawer Jhabvala. (Infelizmente, não li o livro.)

Por três vezes coloquei, aí em cima, a palavra amante entre parênteses e seguida de interrogação. Explico. Repito que não sei como é no livro, mas, no roteiro de Ruth Prawer Jhabvala, não fica explícito se, quando se conheceram na Itália, Charlotte e Amerigo chegaram às vias de fato, para usar uma expressão tão pudica quanto eram pudicos aqueles tempos vitorianos. Não fica explícito; creio que a intenção foi deixar em aberto, para que cada espectador tivesse sua opinião. Os indícios são de que, sim, a bela moçoila americana afinal nada inocente não tinha tido lá os pruridos que acometia toda aquela sociedade. Mas é também verdade que não era propriamente o costume as moçoilas chegarem às vias de fato com os namorados – até porque estavam, afinal, à procura de um casamento, e esperava-se que chegassem vestais, virginais, ao leito nupcial.

E o desenrolar da narrativa mostrará que a trepada em terras da Rainha Victoria demora bastante a finalmente se dar.

Mas isso tudo, claro, é apenas um detalhe.

Um inglês interpreta um italiano, uma inglesa faz uma americana e uma americana, uma inglesa

Me pareceu um tanto irônico, também, que o produtor Merchant e o diretor Ivory, tendo em geral à sua disposição bons orçamentos e liberdade para a escolha do elenco, tenham optado por colocar o inglesérrimo Jeremy Northam, nascido em Cambridge, para fazer o papel de um italiano, a londrina Kate Beckinsale para fazer o papel de uma americana e a americana Anjelica Huston para interpretar uma dama da sociedade inglesa.

Não que estejam mal, Northam, Kate e Anjelica. Ao contrário, estão muito bem. Todos os atores estão ótimos – como costuma acontecer sob a batuta de James Ivory. Só achei estranho.

Num elenco cheio de grandes nomes, me impressionei em especial com a interpretação do coadjuvante Peter Eyre como A.R. Jarvis, o dono da loja em que está à venda a taça de ouro. É um papel bem pequeno, mas de extrema importância – e Peter Eyre dá um show.

Para registrar: o romance final de Henry James já havia dado origem a uma série da BBC de Londres, em 1972. Deve seguramente ter sido uma bela série, porque a BBC simplesmente não tem talento para fazer coisa alguma ruim. Não conheço, no entanto, os atores que interpretaram os principais papéis – Barry Morse, Jill Townsend, Daniel Massey, Gayle Hunnicutt.

Em algumas sequências, James Ivory deixa de lado seu estilo clássico. Uma maravilha

Falei lá em cima que o estilo dos filmes da trinca é clássico, quase acadêmico, se não acabadamente acadêmico. É verdade. No entanto, nem tudo é preto ou branco, e existem muito mais que 50 tons de cinza.

Há momentos em que James Ivory abandona um pouco seu estilo clássico. Não que produza gigantescos fogos de artifício, ou que solte de uma vez a franga, não. Mas surpreende. Quando Charlotte, a americana há tanto tempo desterrada no Velho Mundo, olha para as fotos da Cidade Americana, a clássica narrativa ivoryana quase enlouquece, como a própria Charlotte parece ficar perto de enlouquecer diante da perspectiva maldita, mortal, fatal, de ser obrigada a voltar para sua própria pátria, e ficar ali desterrada para todo o sempre.

É brilhante, essa seqüência.

Uma americana desterrada que não consegue aguentar a idéia de voltar atrás na vida para sua própria terra, tão poderosa, tão pujante, tão em rápido desenvolvimento, modernização – e feia, suja, poluída, sem brilho, graça.

A Taça de Ouro participou da mostra competitiva de Cannes em 2000. Participar já é um prêmio – mas este foi o único que o filme ganhou, ao contrário de outras obras do trio. Uma Janela para o Amor teve 25 prêmios (inclusive 3 Oscars) e 21 outras indicações; Retorno a Howards End, 30 prêmios (inclusive 3 Oscars) e 30 outras indicações; e Vestígios do Dia, 26 prêmios (inclusive 8 Oscars) e 18 outras indicações.

OK. Não é uma obra-prima, como são esses três citados acima. Mas é uma beleza de filme.

Anotação em agosto de 2012

A Taça de Ouro/The Golden Bowl

De James Ivory, EUA-Inglaterra-França, 2000

Com Uma Thurman (Charlotte Stant), Kate Beckinsale (Maggie Verver), Jeremy Northam (príncipe Amerigo), Nick Nolte (Adam Verver), Anjelica Huston (Fanny Assingham), James Fox (Bob Assingham), Madeleine Potter (Lady Castledean), Nicholas Day (Lord Castledean), Peter Eyre (A.R. Jarvis)

Roteiro Ruth Prawer Jhabvala

Baseado no romance homônimo de Henry James

Fotografia Tony Pierce-Roberts

Música Richard Robbins

Direção de arte Andrew Sanders e Lucy Richardson

Produção Merchant Ivory Productions e TF1 International. DVD

Cor, 130 min

***

 

3 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 3 outubro 2012 às 12:29 am | Permalink

    Eu gosto de filmes assim, acho que não sou “muderna”. Vestígios do Dia é um dos meus preferidos.
    Quase que só tem filmão nessa “primeira página”, adoro quando isso acontece e vou só anotando pra baixar depois.

    “Cacete: que texto. É por isso que a Britannica é cara, e a Wikipedia é grátis.)” #Rialto

  2. Postado em 3 outubro 2012 às 6:03 am | Permalink

    Hoje não venho aqui para comentar, Sérgio. Aliás, nem nunca vi este filme. A razão é outra: enviei para ti um “pedido de amigo” para o Facebook. O nome é Jota Marques. Aguardo a tua concordância.

    ABRAÇÃO

  3. Carla
    Postado em 13 outubro 2012 às 9:15 pm | Permalink

    Nem sabia que esse romance de meu amado Henry James fora filmado (sabia de outros, como As asas da pomba, que acho, ganhou o título de As asas do amor). Não é o meu favorito dele, embora revele um toque de sensualidade em uma passagem – algo inesperado em se tratando de HJ. Você está certo: ele foi o mais inglês dos escritores americanos.
    Ah, todo esse comentário foi sobre o romance, não sobre o filme…
    Eu também acho Beckinsale linda, mas subaproveitada na maioria dos filmes. Northam eu conheço desde Emma, baseado em Jane Austen (este, eu vi o filme além de ler o livro. rs). Uma Thurman parece-me perfeita para ter sido Charlotte Stanton. Mas ver o Northam como o príncipe ia me fazer querer bater nele (como aconteceu ao ler o livro).

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