A Múmia / The Mummy

Nota: ★★★☆

A Múmia de 1932 é assim: se o espectador conseguir se abstrair totalmente da lógica, se não se preocupar o mínimo com a absoluta falta de verossimilhança, então ele poderá se encantar com um filme que tem importância histórica, muito clima e algumas seqüências de prodigiosa beleza.

A importância histórica é fácil de perceber. Foi a obra que iniciou uma longa tradição de filmes sobre múmias do Egito Antigo. A mesma história foi refilmada na Inglaterra em 1959. Segundo o Cinemania, uma CD-ROM de 1997, até aquele ano haviam sido feitos filmes com a palavra “múmia” no título em 1940, 1942, 1944 (dois no mesmo ano: The Mummy’s Ghost e The Mummy’s Curse), 1955, 1963, 1964, 1967, 1972.

Uma busca no IMDb, mais completo, mais enciclopédico, mostra incríveis 127 títulos com a palavra múmia.

Entre esses 127 filmes com múmia no título estão, é claro, A Múmia de 1999, com Brendan Fraser e Rachel Weisz, um sucesso estrondoso de bilheteria, com renda de US$ 415 milhões, e suas continuações, O Retorno da Múmia, de 2001, US$ 433 milhões nas bilheterias, e A Múmia – A Tumba do Imperador Dragão, de 2008, US$ 401 milhões.

E não são só os americanos que adoram uma múmia. Só para dar um exemplo, o francês Luc Besson fez em 2010 um filme delicioso em que múmias de faraós e seus ajundantes passeiam pela Paris do início do século XX, As Múmias do Faraó/Les Aventures Extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec.

Um sacerdote supremo enterrado ainda com vida, por ter cometido crime inominável

A Múmia de 1932 tem tomadas de grande beleza – e é sempre bom lembrar que 1932 – 80 anos atrás! – está bem longe, muitíssimo longe da era das imagens geradas por computador.

Por exemplo, a seqüência, bem no início do filme, em que a múmia de Im-Ho-Tep volta à vida, depois de 3.700 anos mortinha da silva.

Os dois homens mais doutos, mais experientes, haviam saído da cabana construída para abrigar os achados da expedição do Museu Britânico ao Egito em 1921. Lá dentro havia ficado apenas o outro membro da expedição, um jovem recém-formado em Oxford, Norton (Bramwell Fletcher).

Lá fora, embaixo das estrelas que brilhavam sobre o deserto egípcio, os dois homens mais velhos conversam. São o professor Muller (Edward Van Sloan), de Viena, uma das maiores autoridades mundiais em ciências ocultas, e o arqueólogo inglês Sir Joseph Whemple (Arthur Byron). Muller tenta convencer Sir Joseph a não abrir a caixa que haviam encontrado junto com o sarcófago da múmia de Im-Ho-Tep.

Ao examinar a múmia, o professor Muller havia visto a inscrição que identificava Im-Ho-Tep como “sacerdote supremo do Templo do Sol de Karnak”. Havia visto também que as palavras sagradas usadas para proteger a alma na ida para o outro mundo haviam sido raspadas do caixão. Com base no que observou, o estudioso concluíra que Im-Ho-Tep havia sido enterrado ainda com vida. “Ele foi condenado à morte não só neste mundo, mas também no seguinte.” Ficaram conjeturando qual crime inominável, que grande sacrilégio teria cometido Im-Ho-Tep para ter um fim tão cruel.

A caixa encontrada junto do sarcófago trazia uma inscrição claríssima, que Sir Joseph, com seu absoluto domínio sobre a linguagem do Egito Antigo, decifrara com facilidade: “Morte – castigo eterno para qualquer um que abrir esta caixa. Em nome de Amon-Rá, o rei dos deuses”.

Assim que a terrível maldição fora lida, o jovem Norton, afoito como todo jovem, exclamara:

– “Bem, vamos ver o que tem lá dentro!”

E então o professor Muller havia convidado Sir Joseph para conferenciarem lá fora, sob o céu de estrelas.

Uma sequência maravilhosa: a múmia volta à vida, após 37 séculos

Eles estão lá conferenciando quando, dentro do barraco, há a seqüência maravilhosa.

Norton tenta trabalhar na catalogação das peças que haviam encontrado, mas a curiosidade é grande demais, e ele não resiste: abre a caixa que não poderia ser aberta nunca, por ninguém – ou a maldição de todos os faraós recairia sobre o desobediente.

Norton abre a caixa, e tira lá de dentro um papiro. Abre-o, começa a anotar a tradução do que dizem os hieróglifos.

A luz de uma lanterna ilumina seu rosto.

Uma tomada do rosto da múmia. Ela abre os olhos, lentamente. A câmara move-se para baixo, mostra as mãos da múmia, que começam a se mexer.

Corta. Nova tomada do jovem Norton, traduzindo freneticamente o que diz o papiro que não deveria ser lido por ninguém. O papiro está no canto esquerdo da tela. Vemos uma das mãos da múmia aproximando-se do papiro.

Corta. Nova tomada do rosto de Norton, os olhos se arregalando, o pânico tomando tomando conta. Ele dá um grito de horror.

Corta. Uma tomada do chão do barraco, perto da porta. Pedaços do pano que cobriam a múmia estão saindo pela porta.

Uau! Uma beleza de sequência!

A iluminação cria uma imagem espetacular do homem que era múmia

Avança-se no tempo. Estamos agora em 1932, onze anos após a múmia de Im-Ho-Tep ter voltado a viver – 1932, exatamente o ano em que o filme foi lançado.

Quem está agora no Egito, fazendo escavações em busca de novos achados arqueológicos, é o filho de Sir Joseph, Frank Whemple (David Manners). Im-Ho-Tep, que agora se chama de Ardeth Bey (o papel de Boris Karloff, que, um ano antes, em 1932, havia feito o monstro no Frankenstein de James Whale), aparece na construção que abriga a nova expedição do Museu Britânico e leva Frank Whemple até o local onde está o túmulo da princesa Anck-es-en-Amon.

Quando estamos aí com uns 20 minutos de filme, há nova seqüência deslumbrante.

Festa para estrangeiros endinheirados num hotel chiquérrimo do Cairo. Estão na festa o jovem Frank Whemple, o mesmo velho professor Muller, o estudioso de ciências ocultas que já havíamos visto antes, e uma jovem protegida dele, Helen Grosvenor (Zita Johann). Helen é filha de um inglês, então governador do Sudão, e de uma egípcia de família tradicional.

Naquele mesmo momento, Im-Ho-Tep/Ardeth Bey consegue burlar a vigilância do Museu do Cairo, e, com uma pequena lamparina, está ao lado do sarcófago da princesa Anck-es-en-Amon. Ao lado dele, iluminado pela lamparina, está o mesmo papiro que Im-Ho-Tep havia roubado do acampamento britânico onze anos antes.

O papiro contém uma oração para trazer os mortos de volta à vida.

Close-up do rosto de Im-Ho-Tep/Ardeth Bey-Boris Karloff. Um belíssimo trabalho de maquiagem deixa o rosto de Karloff bem parecido com o que deve ser o rosto de uma múmia de 3.700 anos, e a iluminação criada pelo diretor Karl Freund cria uma imagem espetacular.

Im-Ho-Tep repete, com uma voz cavernosa, vinda de quase quatro milênios antes, o nome da princesa embalsamada: “Anck-es-en-Amon, Anck-es-en-Amon, Anck-es-en-Amon…”

No salão do belo e moderno hotel, Helen Grosvenor se paralisa em meio a uma dança. Está enfeitiçada, hipnotizada. Abandona o par, vai à chapelaria, pega uma leve estola de peles, caminha até a porta principal do hotel, entra um táxi e manda o motorista seguir para Le Musée d’Antiquités – assim, em francês, sabe-se lá por quê.

“Uma tolice, mas também de uma beleza perturbadora”

Não dá para perguntar por que, neste filme de história maluca em que a múmia de um sacerdote supremo embalsamado e enterrado em vida volta a viver e hipnotiza de longe uma jovem que dançava numa festa para estrangeiros endinheirados. Lógica, verossimilhança – A Múmia passa muito longe dessas coisinhas sem importância. Mas tem momentos de grande, esplendorosa beleza visual.

Leonard Maltin se derreteu diante do filme. Deu 3.5 estrelas em 4: “Clássico de horror é estrelado por Karloff como múmia egípcia, revivida após milhares de anos, acreditando que (Zita) Johann é a reencarnação de antiga companheira. Maquiagem e atmosfera fantásticas provocam calafrios antes de de muitas imitações.”

Pauline Kael, a grande dama da crítica americana lembra que Karl Freund foi um dos grandes diretores de fotografia da UFA, o estúdio alemão que produziu alguns grandes clássicos do expressionismo nos anos 20, aqueles filmes em que a iluminação fazia prodígios.

“Quando Karl Freund, o grande fotógrafo da UFA, veio para os Estados Unidos, dirigiu a fotografia de Drácula e Assassinatos na Rue Morgue para a Universal, e então o estúdio ofereceu a ele a chance de dirigir A Múmia. O que fez foi tão elegante e não-comercial que ele só teria outra chance de dirigir (Dr. Gogol, o Médico Louco/Mad Love, em 1935), e foi para outro estúdio, e em um estilo mais obviamente macabro. A Múmia enerva o espectador porque, em vez dos arrepios rápidos, há longas cenas silenciosas, sinistras; a iluminação é tão magistral e os climas são mantidos com tanta eficácia que as imagens nos provocam sensações espinhosas.”

“Uma tolice”, prossegue a grande crítica, “mas também de uma beleza perturbadora. Nenhum outro filme de horror jamais conseguiu tantos efeitos emocionais com a iluminação; este filme de orçamento barato tem um sentimento lânguido, poético, e o erotismo que continua vivo sob a enrugada pele de pergaminho de Karloff parece um pesadelo de amor eterno”.

O filme tem tanta atmosfera, tanto clima, que Zita Johann, um tribufu, chega a parecer gostosa

O texto de dona Kael, sempre brilhante, me deixa com vergonha das minhas mal traçadas, mas vamos lá.

Erotismo. Verdade. Zita Johann não é propriamente uma mulher bonita. Na verdade, a rigor ela é bem chegada a um tribufu. Mas o filme tem tanta atmosfera, tanto clima, que Zita Johann chega a parecer gostosa, sensual – uma sensualidade que ficou adormecida por 3.700 anos após a morte da princesa virgem desejada pela alto sacerdote.

E a sacada de Im-Ho-Tep/Ardeth Bey mostrar para Helen Grosvenor os fatos que se passaram nos 3.700 anos em que a Princesa Anck-es-en-Amon esteve morta, e o desenrolar da História aparecer numa piscininha de fumaça, como se fosse uma tela da televisão ou do computador que ainda não existiam em 1932?

Ah, meu! O que que é aquilo?

Devia ser poderoso o alucinógeno que aquele pessoal tomou para bolar essa seqüência.

Não sei se A Múmia foi lançado em DVD no Brasil. A locadora que frequento, excelente, com um excelente acervo de clássicos, não tem o DVD. Mas a cópia que está sendo apresentada pelo Telecine Cult é extraordinária. Nítida, clara, como se o filme tivesse sido feito este ano.

Anotação em janeiro de 2012

A Múmia/The Mummy

De Karl Freund, EUA, 1932.

Com Boris Karloff (Im-Ho-Tep / Ardeth Bey), Zita Johann (Helen Grosvenor / Princesa Anck-es-en-Amon), David Manners (Frank Whemple), Edward Van Sloan (Professor Muller), Arthur Byron (Sir Joseph Whemple), Bramwell Fletcher (Norton), Noble Johnson (o núbio)

Roteiro John Balderston

Baseado em história de Nina Wilcox Putnam e Richard Schayer

Fotografia Charles Stumar

Montagem Milton Carruth

Maquiagem Jack Pierce

Produção Carl Laemmle Jr., Universal

P&B, 72 min

***

2 Comentários

  1. Carla
    Postado em 1 abril 2012 às 7:53 pm | Permalink

    Pois é, vi o filme quase na íntegra no Telecine Cult no sábado de manhã. Se é frágil comparado aos efeitos de hoje, no total faz bonito por conseguir tanto “clima” sendo um filme de 1932. E eu gostei da sequência mais para o fim, com o rosto de Boris Karloff mudando, se esfarinhando, parecendo um pergaminho que se esfarela…
    O filme tem seu charme. Embora eu seja fã de carteirinha de Fraser e seu A Múmia recente.

  2. eleni
    Postado em 15 julho 2012 às 7:52 pm | Permalink

    O filme A Múmia de 1932 com Boris Karloff é uma preciosidade… Espetacular! Todos os filmes com o Karloff são magníficos.

2 Trackbacks

  1. […] este O Filho de Frankenstein, lançado em 1939 pela Universal, o terceiro da série com Boris Karloff como o Monstro, depois de Frankenstein, de 1931, e A Noiva de Frankenstein, de […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Frankenstein em 5 setembro 2016 às 3:46 pm

    […] Frankenstein de 1931, produzido por Carl Laemmle, dirigido pelo inglês James Whale, com Boris Karloff no papel do Monstro, não foi o primeiro grande filme de terror – basta lembrar que em 1922 o […]

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