A Missão do Gerente de Recursos Humanos / The Human Resources Manager

Nota: ★★★½

Depois de duas maravilhas, A Noiva Síria, de 2004, e Lemmon Tree, de 2008, o diretor israelense Eran Riklis mantém o nível, a categoria, o talento: A Missão do Gerente de Recursos Humanos, sua obra de 2010, é um grande filme. Mais um grande filme.

Transpira um imenso humanismo, um forte, frank-capriano amor pelas pessoas, seus muitos equívocos, trapalhadas, derrapagens, asneiras. Em A Missão do Gerente…, Eran Riklis demonstra um delicado carinho por esses seres imperfeitos e suas dificuldades. Seus personagens não são anjos, nem heróis, nem bandidos. São pessoas em geral bem intencionadas, que tentam fazer direito o que lhes cabe, mas muitas vezes tropeçam nas suas incapacidades, na sua dificuldade de se comunicar com os outros.

Nos dois filmes anteriores, o realizador mostrou situações em que o Estado, por suas razões próprias, por causa de seus interesses, infernizava a vida de pessoas comuns – em A Noiva Síria, a família da noiva, que mora junto da fronteira de Israel com a Síria, enfrenta uma burocracia gigantesca, maluca, para atravessar os postos de guarda; em Lemmon Tree, uma palestina viúva vê sua vida se transformar num horror porque se muda para bem perto de sua casa e seu quintal de limoeiros um ministro do governo israelense.

Logo após ver A Noiva Síria, anotei: “Enquanto corriam os créditos finais, ao som de uma trilha sonora excepcional, assinada por Cyril Morin, me peguei pensando que, ao fim e ao cabo, o que fica é a certeza – que tanta gente boa já teve muito antes de mim e de Eran Riklis, mas que ele expressa de maneira genial com seu filme – de que os Estados, as ideologias servem é para estragar a vida das pessoas. Que as pessoas são muito mais importantes que essas estruturas loucas, imbecis, paquidérmicas, jurássicas, que sustentamos com nossos impostos e que nos entregam de volta, na melhor das hipóteses, serviços da pior qualidade, burocracia, problemas, dificuldades, encheção de saco.”

Os Estados são assim, imbecis, paquidérmicos, jurássicos, por definição, em qualquer circunstância. Eran Riklis mostrou em A Noiva Síria e Lemmon Tree que a situação de Israel é pior ainda, pelas circunstâncias geopolíticas todas – por estar cercado de nações árabes, muitas deles abertamente hostis, por cercar e espezinhar territórios palestinos, por ser mais rico e poderoso e bem armado que todos os vizinhos.

Grandes problemas que surgem por causa de besteiras que as pessoas cometem

Em A Missão do Gerente…, ao contrário de nos dois filmes anteriores, não se sente tanto a presença opressiva do Estado de Israel na vida dos personagens. Os problemas aqui surgem em parte pela situação específica de Israel, mas principalmente por questões que não dizem respeito ao Estado. São questões das empresas, do relacionamento das empresas com a opinião pública através da imprensa – mas, principalmente, basicamente, questões que viram grandes problemas por causa das besteiras que as pessoas cometem.

Besteiras que as pessoas cometem sem querer, não por mal, por má intenção – mas porque são falhas, têm defeitos, não sabem se comunicar direito.

Primeira missão do gerente: redigir uma nota à imprensa, em nome de sua empresa

A narrativa começa no final da tarde de uma quarta-feira. Estamos em Jerusalém, em 2002, como informa de cara um letreiro. Mais especificamente, em uma gigantesca panificadora, provavelmente a maior da cidade, do país. Não uma padaria – uma grande indústria do ramo da panificação.

O gerente de recursos humanos (Mark Ivanir, numa excelente interpretação) está já de saída quando vê chegar um fax. Lê o fax – o espectador não fica sabendo do que se trata –, e então sobe as escadas. Vai falar com uma senhora que, aparentemente, é a patroa, a dona do negócio (interpretada por Gila Almagor). A patroa pergunta se é mesmo da empresa o hollerith, o contracheque, e o gerente de RH diz que sim.

A legenda do DVD usa a expressão “folha de pagamento”. Claro, é um erro da legenda; trata-se do paycheck, do comprovante de pagamento de saláro emitido pela empresa, ou contracheque, ou hollerith, ou holerite, como alguns dicionários já admitem.

A patroa diz ao gerente que o jornal sairá com aquela reportagem na edição de domingo, mas, felizmente, o jornal deve um favor a ela, e então na mesma edição deverá publicar uma nota da empresa. O gerente diz que no dia seguinte redigirá a nota, mas a patroa diz que não, que ele tem que levantar todos os fatos e redigir a nota ainda naquela noite:

– “Temos que descobrir exatamente o que aconteceu, e escrever um texto preciso, esclarecedor e cordial.”

O diretor e o roteirista optaram por uma narrativa cheia de elipses

O roteirista Noah Stollman e o diretor Eran Riklis optaram por fazer uma narrativa pontuada por elipses. Não só neste iniciozinho do filme, mas ao longo de todos os belos 103 minutos de duração.

Neste início, as elipses chegam mesmo a tornar um pouco difícil o entendimento do que se está passando. Até porque é tudo muito rápido, e nestes primeiros minutos do filme a ação se mistura aos créditos iniciais, o que, a rigor, a rigor, é uma certa canseira.

Sábia, Mary sempre reclama dessa coisa de créditos iniciais que se intercalam com a ação. Ora, raios: se uma coisa se intercala com a outra, o pobre espectador não sabe bem em que prestar atenção – se aos créditos, se à ação. Por que não aquela forma tradicional, primeiro os créditos, e depois a ação? Tudo bem – quer ter ação antes do início dos créditos? Acha que funciona melhor já começar com a ação, para depois virem os créditos? Tudo bem – então por que não mostrar primeiro o lead, o início da narrativa, e aí interromper para mostrar o nome dos atores, do diretor de casting, do diretor de fotografia, etc, etc, etc, e depois retomar a ação?

Calculo que em uns 80% dos filmes pós anos 80 se faça essa mistura, essa mixórdia de créditos e ação, em que o pobre espectador ou não consegue ver bem uma coisa, ou não consegue ver bem outra. Faz parte daquele projeto Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar?

O cinemão comercial adora esse tipo de coisa. Penso que os produtores acreditam que, se complicarem bastante o que têm a dizer, que em geral é pouco e raso, pode ficar parecendo algo mais inteligente do que na realidade é.

Não estou dizendo que A Missão do Gerente… siga esse projeto – até porque o filme de Eran Riklis não tem, abençoadamente, nada a ver com o cinemão comercial. Não é isso – embora seja um pouco parecido. Os realizadores optaram por um estilo elíptico, de sonegar ao espectador durante algum tempo determinadas informações. É uma opção de narrativa – e, como eles são talentosos, tudo funciona.

Um diálogo brusco, áspero, entre o gerente e o supervisor da noite

Depois que recebe a ordem da patroa – descobrir exatamente o que aconteceu e escrever um texto preciso, esclarecedor e cordial, sobre o que o espectador ainda não sabe –, o gerente recebe a visita de uma mulher que havia aparecido nas tomadas iniciais. Não se diz exatamente quem é ela, mas é a secretária dele, que, obviamente, sabe mexer na base de dados da empresa melhor que ele. A secretária é quem identifica o nome da pessoa em questão (que questão, o espectador ainda não sabe), e levanta sua ficha: chama-se Yulia Petracke. Mulher jovem, bonita, estrangeira, imigrante. Trabalha – trabalhava – na limpeza, no turno da noite.

O gerente dispensa a secretária e vai à procura do supervisor da noite.

O diálogo entre o gerente de RH e o supervisor da noite não é nada cordial. É perceptível, visível, audível, que o supervisor da noite, trabalhador qualificado, imerso na atividade-fim da empresa, tem imenso desprezo pelo homem de gravata, do escritório, que não entende do que a empresa faz e no entanto ganha bem, mais do que quem de fato faz o pão que é a razão da existência da empresa.

Qualquer pessoa que já tenha tido a oportunidade de trabalhar numa empresa de mais de 500 pessoas conhece muito bem essa situação.

O supervisor da noite informa ao gerente de RH que demitiu Yulia Petracke, cerca de um mês antes. O gerente de RH questiona por que seu departamento não foi avisado da demissão – afinal, sem ter sido avisado, o RH continuou a pagar o salário e os benefícios da empregada.

Dá-se o seguinte diálogo:

Supervisor: – “Sabia que ela tinha um diploma de engenharia?”

Gerente: – “E daí?”

Supervisor: – “Você a colocou para lavar o chão e agora quer me culpar? Ela recebeu um mês extra, qual o problema? Deduza do meu salário. Preciso voltar ao trabalho. Não tenho mais nada a dizer.”

Parece bastante claro que ele tem, sim, mais a dizer.

Gerente (depois de uma pausa): – “Sua engenheira foi morta num atentado suicida. Ela está no necrotério, e ninguém sabia que ela estava sumida. Mas encontraram com ela um holerite. Agora estão nos acusando de conduta criminosas e desumanidade. Entendeu?”

A expressão do supervisor da noite é de grande perplexidade.

Estamos com oito minutos de filme, e então o espectador acabou de ficar sabendo do que tratava o fax do jornal. Se juntar as informações e as elipses, mais o que virá depois, o espectador compreenderá que houve um atentado suicida – a coisa mais comum do mundo em Jerusalém – e que Yulia Petracke foi uma das vítimas. Seu corpo foi parar no necrotério, e ninguém deu pela falta dela. Alguém do necrotério vazou para um jornalista a informação de que uma das vítimas do atentado não foi procurada por nenhum familiar ou representante do empregador. E então o jornal iria divulgar a reportagem acusando a grande panificadora de conduta criminosa e desumanidade. De sequer dar pela falta, durante dois ou três dias, de uma de suas empregadas.

O gerente não gosta do que faz, está insatisfeito com o trabalho – e tudo sobra para ele

E tudo vai cair nas costas do gerente de recursos humanos.

A opção preferencial do roteirista e do diretor Eran Riklis pela elipse é tão grande que os personagens do filme não têm nome próprio – com exceção da mulher morta, Yulia Petracke.

Nos créditos finais, no cast of characters, o quem interpreta quem, o gerente de RH aparecerá como o gerente de RH. A patroa, a dona da grande padaria, como a viúva.

Quando estamos com quase 30 minutos de filme, o gerente de RH vai à casa da patroa, a viúva. Está muito puto dentro das calças: acabou de ver a matéria do jornal que acusa a empresa de conduta criminosa e desumanidade, e, segundo a matéria, ele, o gerente de RH, teria assumido toda a culpa. Não era o que havia sido combinado, cobra o gerente: “Eu virei um bode expiatório!”

O diálogo entre o gerente e a viúva patroa mostra que eles já se conheciam fazia muito tempo; que cada um deve gratidão ao outro – ajudaram-se, no passado, um ao outro. Mas, mantendo a opção da elipse, não se revela, hora alguma, o que foi exatamente que se passou entre eles anteriormente.

OK: não é fundamental. A narrativa elíptica é uma opção, um estilo. Nada contra.

Explicita-se, no diálogo entre o gerente a a viúva patroa, e em outros, que ele, coitado, não está bem. Não gosta do emprego, não gosta de trabalhar dentro de um escritório, diante de uma mesa – onde a secretária se dá muito melhor que ele. É um homem de campo – exatamente o que ele havia feito no passado, isso a gente não fica sabendo.

Sabemos, apesar de todas as elipses, é que ele se separou da mulher, parece que não faz muito tempo. A ex-mulher vai aparecer – e, meu, que mulheraça, essa atriz que faz a ex-mulher do gerente, que, se eu não estiver enganado, é Reymond Amsalem. Mulheraça. Por que eles se separaram, ah, aí fica na elipse. A filha do casal, que tem aí uns 10, 12 anos, é uma gracinha: gosta do pai, gosta da mãe, está tentando enfrentar o início da aborrescência somada à separação dos pais. Há uma viagem de escola marcada para os dias seguintes, e o pai promete que irá com ela.

Só que aí a viúva, a patroa, decide que a) os restos mortais da funcionária serão enviados a seu país de origem, para ser enterrado lá, todas as despesas pagas, e uma boa soma em dinheiro será dada à família dela, e b) quem se encarregará de levar o caixão, e providenciar tudo, será, claro, o gerente de recursos humanos.

Um caixão sendo levada por estradas e mais estradas de um país muito pobre

A partir aí de uns 40, 50 minutos de projeção, A Missão do Gerente… se transforma em um road movie.

Por estradas e mais estradas vai indo o caixão que carrega os restos mortais de Yulia Petracke (ou quem sabe não são dela?)

Não se diz, em momento algum, na narrativa, que pobre país é aquele, de onde Yulia Petracke quis fugir, de onde emigrou para Israel. O que veremos é que é um país pobre, muito pobre – evidentemente, um país que viveu sob o regime comunista até o desabamento do império soviético.

Não se diz qual é o país – propositalmente, é claro. Par indicar que poderia ser qualquer um do Leste Europeu. Mas é a Romênia; o país que tem encantado o mundo com belos filmes é um dos co-produtores de A Missão do Gerente de Recursos Humanos, ao lado de Israel, Alemanha e França.

Um caixão que é levado por estradas e mais estradas – é impossível que não venha à lembrança do espectador Guantanamera, o excelente filme cubano da dupla Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío.

Um drama pesado que expõe faces grotescas dessa coisa sem jeito que somos nós

Chega de falar da trama.

Alguém poderia classificar A Missão do Gerente… como uma comédia de humor negro.

Não é bem isso, penso eu.

O filme tem, sim, sem dúvida alguma, um tom de humor; é uma narrativa bem humorada. Ao longo da missão do gerente de relações humanas há tantos episódios que beiram, malgrados eles mesmos, a comicidade, que seria até legítimo classificar este filme como sendo de humor negro.

Tenho um problema histórico com humor negro. Não consigo entendê-lo, não consigo entrar em sintonia com ele. Como sintonizei perfeitamente com A Missão do Gerente…, digo que este é um drama pesado que expõe faces grotescas dessa coisa sem jeito que somos nós, os seres dessa estranha espécie animal que se crê criada à imagem e semelhança de Deus.

Somos capazes dos maiores equívocos, trapalhadas, derrapagens, asneiras – e no entanto temos de nós uma imagem muito mais perfeita do que aquilo que realmente somos. Somos muitas vezes cheios de certezas – sem ter nenhum motivo para isso.

A ninguém ocorreu – nem à viúva patroa, nem ao gerente de recursos humanos, nem ao repórter do jornal, o Fuinha – tentar uma comunicação, antes de tomar todas as decisões. A ninguém ocorreu tentar perguntar para as pessoas do país distante: o que vocês querem?

Porque não sabem se comunicar, porque são cheias de si, as pessoas – mesmo sendo basicamente boas, bem intencionadas – cometem besteiras, erros absurdos.

Como Frank Capra, o israelense Eran Riklis mostra a imensa quantidade de equívocos que as pessoas podem cometer, mas mostra tudo isso com um imenso, generoso carinho por elas.

Um filme que nos dá uma sensação de alento

Dá alento ver mais uma vez que de Israel não sai apenas empáfia, sensação de grandeza, de poderio, de superdimensionamento de seu próprio papel, de supremacismo – muitas vezes tão próximo, o supremacismo do Estado de Israel, da noção de supremacismo que levou ao assassinato de 6 milhões de judeus entre os anos 30 e 40 do século passado.

Dá alento ver que artistas como Eran Riklis, ou como o egípcio de A Banda, Eran Kolirin, conseguem fazer na região mais instável do planeta belas obras que mostram como as pessoas são mais importantes que os Estados, as ideologias, as religiões, os preconceitos.

Anotação em fevereiro de 2012

A Missão do Gerente de Recursos Humanos/The Human Resources Manager

De Eran Riklis, Israel-Alemanha-França-Romênia, 2010

Com Mark Ivanir (o gerente de Recursos Humanos), Gila Almagor (a viúva), Reymond Amsalem (a divorciada), Noah Silver (o garoto), Guri Alfi (Fuinha, o repórter), Irina Petrescu (a avó), Julian Negulesco (o vice-cônsul), Bogdan E. Stanoevitch (o ex-marido), Papil Panduru (o motorista)

Roteiro Noah Stollman

Baseado na novela A Woman in Jerusalem, de Abraham B. Jehoshua Fotografia Rainer Klausmann

Música Cyril Morin

Produção 2-Team Productions, EZ Films, Libra Film, Pallas Film, Pie Films. DVD Imovision.

Cor, 103 min

***1/2

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