A Grande Mentira ou No Limite da Mentira / The Debt

Nota: ★★★½

Uma surpresa total, uma beleza de filme, esta co-produção Inglaterra-EUA-Hungria de 2010, dirigida pelo inglês John Madden, realizador de Shakespeare Apaixonado, A Prova e O Exótico Hotel Marigold.

A trama é brilhante, e envolve muitas situações e temas. É um filme que reúne traços de diversos gêneros: um drama de espionagem, um filme de ação, um filme político sobre ativistas que seqüestram um opositor e convivem com ele – e uma emocionante história de amor, um triângulo amoroso que atravessa três décadas.

É ótimo em cada um desses vários gêneros.

É tão vasto, em seus 104 minutos que passam depressa demais, que os distribuidores brasileiros não se contentaram com um único título. No original é The Debt, a dívida. No Brasil, foi lançado como No Limite da Mentira, e depois como A Grande Mentira.

The Debt vai contra duas crenças minhas – ou talvez fosse mais apropriado dizer gostos, manias, idiossincrasias. Implico com roteiros que ficam indo e voltando no tempo sem parar, feito bola de pingue-pongue, de tênis, e o filme faz isso. Implico com refilmagens, em especial de obras recentes, e o filme de John Madden é a refilmagem de uma obra recentíssima, Ha-Hov, uma produção israelense de 2007, dirigida Assaf Bernstein, ele próprio um dos autores do roteiro original.

Pois o filme é tão bom que minhas idiossincrasias foram para o lixo.

Sim, gostaria de ter oportunidade de ver o filme israelense original – mas a refilmagem é um brilho. Não dá para não admitir.

E o roteiro tinha que ser assim mesmo, indo e vindo no tempo. Não teria sentido contar a história em ordem cronológica. A história é ótima, sensacional – e fica ainda mais envolvente da forma com que é contada, indo e vindo no tempo.

O roteiro – baseado no filme israelense – é assinado assim: Matthew Vaughn & Jane Goldman e Peter Straughan. Se entendo corretamente as fórmulas usadas pelo Writers Guild, o sindicato dos roteiristas, isso quer dizer que Matthew Vaughn & Jane Goldman trabalharam juntos no roteiro; depois, o trabalho deles foi reescrito ou no mínimo revisto e remexido por Peter Straughan.

Deu trabalho. Mas o resultado é de babar.

No comecinho, três jovens agentes do serviço secreto voltando de missão no exterior

Começa em Israel, em 1966. Três pessoas estão descendo de um avião militar em uma base aérea: dois homens e uma mulher, todos bem jovens. A mulher, Rachel, tem 25 anos, um dos homens, David (ao centro, na foto), tem 29 e o outro, Stephan, um pouquinho mais velho, foi, saberemos depois, o mais jovem chefe de equipe do Mossad, o serviço secreto israelense.

São três agentes do Mossad, voltando para casa depois de uma missão no estrangeiro.

Corta, e estamos em Tel Aviv, em 1997, três décadas depois, portanto. Prepara-se o lançamento festivo de um livro que reconta a missão daqueles três jovens. O livro foi escrito pela jovem Sarah Gold (Romi Aboulafia), filha de Rachel.

          Três atores para interpretar os personagens quando jovens, três outros para a idade madura

Em geral, quando um filme tem que mostrar os mesmos personagens ao longo de várias décadas, escolhem-se atores mirins ou bem jovens para interpretar os papéis do passado e atores já adultos para fazer os papéis na fase madura; sempre que necessário, envelhecem-se os atores adultos com maquiagem.

Há literalmente milhares de exemplos disso. Em J. Edgar, o recente filme de Clint Eastwood, os atores Leonardo DiCaprio e Naomi Watts, ele com 37, ela com 43, interpretam J. Edgar Hoover e sua fiel secretária Helen Gandy desde aí a faixa dos 20 e muitos até mais de 70 anos. Em Pequeno Grande Homem, Dustin Hoffman interpreta o personagem título da faixa dos 20 até pouco mais de 100 anos de idade.

Mas bastaria lembrar de Cidadão Kane: Orson Welles, aos 26 anos, interpreta Charles Foster Kane, aliás, William Randolph Hearst, do início da idade adulta até para lá dos 70.

O diretor John Madden e os produtores de The Debt decidiram fazer diferente. Pegaram três atores na faixa dos 25 a 35 anos para interpretar os jovens Rachel, David e Stephan – respectivamente Jessica Chastain, Marton Csokas e Sam Worthington. E escolheram três atores maduros para interpretar os três na meia-idade. Três grandes atores. Helen Mirren faz Rachel, Ciarán Hinds faz David e Tom Wilkinson, Stephan.

Foi uma decisão acertadíssima, em tudo por tudo. Todos os seis atores estão muitíssimo bem; o trabalho de maquiadores e cabeleireiros – e o das próprias atrizes, que copiaram gestos, usares, uma da outra – fez a garota Jessica Chastain se parecer bastante com uma jovem Helen Mirren.

Identificar, nas primeiras idas e vindas no tempo, quem é David e quem é Stephan em 1965-1966 e em 1997 é um pouquinho mais complicado. Eu, pelo menos, me atrapalhei um tanto no início do filme. Mas isso é apenas um pequeno detalhe; rapidamente o espectador compreende quem é quem.

É uma história complexa – mas que não é contada, de forma alguma, seguindo esse preceito moderninho segundo o qual Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar? Nada disso. Pode ter dado trabalho (e deve sem dúvida ter dado), mas é uma beleza de roteiro. Claro, nítido, direto – poderoso.

Uma missão quase impossível, em todas as suas várias etapas – e não há super-heróis

Em Tel-Aviv, em 1997, numa festividade – um jantar de gala – pelo lançamento do livro de Sarah Gold sobre a missão dos três jovens do Mossad, a moça pede que a mãe, Rachel, leia um dos capítulos.

Rachel-Helen Mirren começa a ler – e então voltamos para 1965, a última noite do ano, quando Rachel-Jessica Chastain está em uma casa em Berlim Oriental, cuidando do homem que o grupo mantém prisioneiro.

O Mossad havia conseguido identificar onde vivia, em 1965, Dieter Vogel, conhecido como o carrasco de Birkenau – um médico-monstro que havia cometido todo tipo de experimentação genética, toda espécie de atrocidade contra prisioneiros judeus no campo de concentração de Birkenau.

Vogel morava agora, em 1965m  em Berlim Oriental. Trabalhava como ginecologista numa clínica, com o nome de Doutor Bernhardt (ele é interpretado por Jesper Christensen, numa atuação magnífica – e apavorante).

A missão do comando chefiado por Stephan e composto apenas por ele, David e Rachel (ela em sua primeira missão no campo): entrar em Berlim Oriental com falsas identidades, alugar um apartamento, aproximar-se do monstro nazista, seqüestrá-lo, sair do lado comunista e passar para o setor ocidental da cidade dividida pelo muro, e finalmente levar o criminoso para um julgamento em Israel.

Missão quase impossível, em cada uma de suas etapas – mas não estamos num filme de ficção/fantasia com Tom Cruise. Aqui não há super-heróis – há pessoas de carne e osso e medos. Estamos diante de um drama sério, pesado, denso.

E põe sério, pesado, denso nisso.

Agentes oficiais de Estado que agem exatamente como guerrilheiros (ou terroristas)

A dura, dramática convivência dos jovens do serviço secreto israelense com seu prisioneiro, um criminoso nazista empedernido, firme em suas convicções, faz lembrar outros bons filmes, todos baseados em episódios reais:

O Que É Isso, Companheiro, de Bruno Barreto, baseado no livro de Fernando Gabeira, em que um bando de jovens brasileiros que tinham abraçado a luta armada contra a ditadura militar de direita seqüestram o embaixador americano Charles Burke Elbrick (interpretado pelo grande Alan Arkin).

Estado de Sítio/État de Siège, de Costa-Gavras, em que um bando de jovens uruguaios que tinham abraçado a luta armada contra a ditadura militar de direita seqüestram o agente americano Dan Mitrione (interpretado pelo grande Yves Montand).

Bom Dia, Noite/Buongiorno, Notte, em que um bando de jovens italianos que tinham abraçado a luta armada contra o governo perfeitamente democrático seqüestram o primeiro-ministro Aldo Moro.

E é fascinante que este The Debt faça lembrar exatamente três filmes em que guerrilheiros (ou terroristas, dependendo de quem usa o termo), em ações violentas, armadas, seqüestram adversários políticos.

A distância que separa os três jovens agentes do Estado de Israel dos guerrilheiros (ou terroristas) mostrados nesses belos filmes às vezes é muito pequena. Ínfima. Quase nenhuma.

As ações são muito semelhantes. Mesmo que um dos seqüestrados seja de fato um monstro que cometeu crimes horripilantes. O que define se uma ação é digna, justa, legal, e outra é criminosa, e vice-versa, é apenas a ideologia de quem as examina.

Israel prendeu de fato criminosos nazistas, e levou-os para julgamento lá. Exatamente como era para acontecer nessa história fictícia escrita por dois israelenses para o filme Ha-Hov, de 2007. E a figura de um médico-monstro que agiu no campo de concentração de Birkenau se aproxima bastante de Joseph Mengele.

Assim, essa trama de ficção tem aproximações grandes com a realidade história. É ficção pura – mas tudo parece verossímil, possível.

Não compreendi por que o filme chama o campo de concentração de Birkenau, e não do nome pelo qual ele ficou muito mais conhecido, Auschwitz. Deve haver alguma explicação simples, coisas dos judeus que não entendo. Mas paciência. Isso é só um detalhinho ínfimo.

Uma bela discussão sobre verdade e versão, uma bela história de um triângulo amoroso

A seqüência que se passa na última noite de 1965 – a jovem Rachel na casa-esconderijo de Berlim Oriental, em que está preso o carrasco de Birkenau – surge no início do filme, aí pelos 20 minutos de ação.

Ela voltará a ser mostrada bem mais tarde, já na segunda metade da narrativa. Algumas das tomadas são idênticas, nas duas vezes. Outras são bastante diferentes.

Porque The Debt vai fundo na discussão sobre verdade e versão. É um dos brilhantismos de um filme brilhante.

Um outro brilho é o triângulo amoroso que se estabelece entre os jovens – e que continuará existindo três décadas depois. É um triângulo amoroso triste, tenso e angustiante como todos, mas talvez ainda mais que a maioria, por causa da quantidade de dramas envolvidos.

É uma fascinante história de amor, assim como é um fascinante thriller de espionagem, um bem feito filme de ação, com reflexões importantes sobre a convivência seqüestradores-seqüestrado e sobre o que deve ser a verdade apresentada ao público por um Estado que está sempre em guerra contra os vizinhos – mas se pretende democrático.

No meio de gigantes, brilha essa moça Jessica Chastain

No meio dos gigantes Helen Mirren, Tom Wilkinson e Ciarán Hinds – todos ótimos em seus papéis –, impressionam, em especial, esse Jesper Christensen, que faz o criminoso nazista, e a garota Jessica Chastain.

Não me lembrava de Jesper Christensen, ator dinamarquês nascido em 1948 que trabalhou 25 anos no teatro. Sua filmografia tem mais de cem títulos. Vejo que participou, além de dezenas de filmes escandinavos, também de produções americanas ou internacionais, como A Jovem Rainha Vitória, 007 – Quantum of Solace, 007 – Cassino Royale, A Intérprete.

Essa garota Jessica Chastain, californiana nascida em 1977, chegou com tudo. Está excepcional em Histórias Cruzadas/The Help. Só em 2011, esteve também em Coriolano, A Árvore da Vida, Wilde Salome e Em Busca de um Assassino.

A moça promete. Na verdade, já está cumprindo.

É uma das muitas ótimas coisas deste filme excelente.

Anotação em setembro de 2012

A Grande Mentira ou No Limite da Mentira/The Debt

De John Madden, Inglaterra-EUA-Hungria, 2010.

Com Jessica Chastain (Rachel jovem), Helen Mirren (Rachel), Marton Csokas (jovem Stephan), Tom Wilkinson (Stephan), Sam Worthington (jovem David), Ciarán Hinds (David), Jesper Christensen (doutor Bernhardt/Dieter Vogel), Romi Aboulafia (Sarah)

Roteiro Matthew Vaughn & Jane Goldman e Peter Straughan

Baseado no filme Ha-Hov, roteiro de Assaf Bernstein & Ido Rosenblum

Fotografia Ben Davis

Música Thomas Newman

Produção Miramax Films, Marv Films, Pioneer Pictures. DVD Universal.

Cor, 104 min

***1/2

 

 

Um Comentário

  1. Cássio D. Versus
    Postado em 2 junho 2013 às 9:30 am | Permalink

    Concordo, filme brilhante. Mas o original é realmente uma sutil obra-prima. Este remake serve, principalmente, para apresentar o longa de 2007 ao mundo.

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