A Garota da Capa Vermelha / Red Riding Hood

Nota: ★★½☆

Tanto filme importante para ver ou rever, e resolvi pegar A Garota da Capa Vermelha. Tsc, tsc. Mas quer saber? Não é um filme ruim.

Certo: é dirigido ao público adolescente ou aos adultos de alma adolescente, como a personagem de Charlize Theron em Jovens Adultos, de Jason Reitman. Ao público que adora a série Crepúsculo. Não é à toa que o filme foi dirigido por Catherine Hardwicke, uma texana que começou como diretora de arte em 1986 e dirigiu Crepúsculo, o primeiro da série.

Mas, apesar disso, tem uma trama bastante interessante. Foi uma recriação bem esperta da velha história infantil de Chapeuzinho Vermelho. E a produção é caprichada, a direção de arte é excelente e todo o visual do filme é muitíssimo bem cuidado.

Uma história muitíssimo mais antiga do que este país

Seria possível – e seguramente fascinante – ir fundo na história da história de Chapeuzinho Vermelho. As indicações são de que a primeira versão escrita da história apareceu em 1697, no livro Histoires ou Contes du Temps Passé, que Charles Perrault (1628-1703) escreveu para divertir seus filhos, e incluía outras histórias do folclore europeu, como A Bela Adormecida, O Gato de Botas e Barbazul, conforme vejo aqui na Britannica.

O que mesmo acontecia no Brasil, menos de 200 anos após a chegada dos primeiros portugueses? A capitania hereditária do Maranhão já pertencia aos Sarneys?

Em 1697 a história já era antiquíssima!

Muito mais tarde, em 1812, a história de Chapeuzinho Vermelho apareceria na primeira edição do livro Kinder- und Hausmärchen (mais ou menos Contos de Crianças e do Lar), dos Irmãos Grimm.

Claro que não vou entrar muito na história da história, mas só essas datas aí, e o fato de Chapeuzinho Vermelho ter sido contada por Perrault e pelos Irmãos Grimm já são fascinantes.

Chapeuzinho Vermelho, Le Petit Chaperon Rouge, Little Red Riding Hood ou Little Red Cap, Rotkäppchen, Caperucita Roja, Cappuccetto rosso. É fantástico.

Não vou fundo, também, na quantidade de vezes que a história foi contada no cinema, mas vale mencionar que Georges Meliès – homenageado em 2011 por Martin Scorsese no deslumbrante A Invenção de Hugo Cabret – fez uma versão cinematográfica de Chapeuzinho em 1901, em que a personagem foi interpretada por Rachel Gillet.

Mary Pickford – a primeira namoradinha da América, uma das fundadoras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e da United Artists, ao lado de D.W. Griffith, Charles Chaplin e seu marido Douglas Fairbanks – interpretou Chapeuzinho em um filme de 1911.

O IMDb registra mais de 120 filmes em que aparece o personagem Chapeuzinho Vermelho.

Misturados dentro de um caldeirão, Jane Austen, Agatha Christie, M. Night Shyamalan, Tolstói…

Legal, mas vamos ao filme de 2011, A Garota da Capa Vermelha/Red Riding Hood.

Está nas livrarias um livro com os mesmos títulos, o original em inglês e o escolhido para o Brasil, e que usa foto do filme na capa (ao lado). O livro é assinado por Sarah Blakley-Cartwright. Assim, todas as indicações são de que foi nesse livro que se baseou o filme. As aparências enganam. Na verdade, o livro é uma novelização baseada numa versão original do roteiro do filme.

Não foi Sarah Blakley-Cartwright que criou a história do filme. O autor da recriação da história de Chapeuzinho, da transformação da história de Chapeuzinho nesta narrativa dark, sanguinolenta, chama-se David Leslie Johnson. Cabem a ele todas as glórias – ou, para quem detestar tudo isso, a culpa.

Esse David Leslie Johnson, como se fosse o druída Panoramix das histórias de Goscinny e Uderzo, pegou um imenso caldeirão e jogou dentro dele: a) a história milenar de Chapeuzinho Vermelho; b) umas pitadas de Jane Austen; c) um pouquinho dos romances whodunit, quem é que fez, quem é que matou, à la Agatha Christie; d) um suave toque de A Vila, do indiano-americano M. Night Shyamalan; e)  toneladas de lobisomem; e ainda f) um saborzinho de infidelidade conjugal, à la Tolstói, à la Flaubert, à la Eça.

Jogou tudo isso lá dentro do caldeirão, botou para assar, misturou bem, e daí saiu a história do filme A Garota da Capa Vermelha.

Peter que ama Valerie que ama Peter. Lucie que é irmã de Valarie e ama Henry prometido a Valerie

Passa-se numa pequena vila, um tanto isolada do mundo, no meio de um bosque; os moradores têm medo de ir ao bosque, e ensinam às suas crianças, desde cedo, a tomar extremo cuidado ao pisar fora dos estreitos limites da vila, pois lá fora há uma fera perigosa, um lobo. (Nisso aí está a pitada do filme de M. Night Shaymalan.)

De tempos em tempos, os moradores oferecem um animal para satisfazer a fome da fera. Com isso, conseguem passar às vezes longas temporadas sem um ataque a um ser humano.


Não se diz onde fica essa vila, nem em que época exatamente se passa a história. O espectador tem que dar de barato que é qualquer lugar da Europa, na Idade Média. Um dos trailers falou no século XIV – mas nada no filme especifica exatamente a época.

A protagonista da história, ela também a narradora, chama-se Valerie. Quando a narrativa começa, Valerie é uma garotinha aí de uns 8 anos; apesar dos avisos de seus pais, ela às vezes sai da vila e brinca na floresta com seu amiguinho Peter.

(Peter. Pedro e o Lobo, como na história musicada por Prokofiev. O plágio, a cópia, a citação, as coincidências são básicas em todas as culturas.)

Corta, e estamos agora dez anos depois. Valerie aparece na beleza nada padrão de Amanda Seyfried, essa moça que parece fazer cinco filmes a cada ano. Como acontecia dez anos antes, Valerie ainda sai às vezes da vila para dar uma olhadinha em Peter (Shiloh Fernandez), agora um jovem lenhador.

Peter ama Valerie que ama Peter – mas Peter é pobre, e os pais de Valerie já a prometeram a Henry (Max Irons, na foto abaixo), jovem bem mais rico, filho do ferreiro da vila. (E aí está a pitada de Jane Austen na história.)

Henry quer Valerie – afinal, ela é a moça mais bela da vila –, mas quem quer Henry é Lucie (Alexandria Maillot), a irmã de Valerie.

(Haveria aí também uma pitada da quadrilha drummondiana. Mas não creio que David Leslie Johnson tenha ouvido falar em Drummond. E, além disso, as quadrilhas, as rondas, além de drummondianas, são também universais, Max Ophüls que o diga.)

A mãe das duas moças, Suzette (a sempre linda Virginia Madsen, que deveria fazer mais filmes do que faz), conta para Valerie, na tentativa de consolá-la com a história do casamento arranjado, que ela mesma não amava seu marido, Cesaire (Billy Burke), ao casar com ele. Quando era bem jovem, amava outro homem. (Mais uma pitadinha de romance clássico inglês.) Mas depois aprendeu a amar seu marido, assim como certamente no futuro Valerie aprenderá a amar Henry.

Um padre que é também um guerreiro, um déspota, um macarthista

Lucie, a irmã de Valerie, aparece morta, atacada pela fera.

Os homens da vila decidem sair para caçar a besta. Na caçada, se dividem em vários grupos. A fera ataca e mata o pai de Henry. Mas os homens conseguem matar um grande lobo, e crêem que seus perigos acabaram.

Mas então chega à vila o Padre Salomon – interpretado por um Gary Oldman fazendo um papel oposto ao que desempenhou em O Espião Que Sabia Demais, feito no mesmo ano de 2011. Como o George Smiley do filme baseado no livro de John Le Carré, Gary Oldman atua em tom menor, o tempo todo; fala baixo, tem gestos pequenos, suaves.

O Padre Salomon é o oposto de George Smiley. Não fala – berra. Não pede – dá ordens o tempo todo.

Tantos ingredientes no caldeirão do roteirista David Johnson, mas não consigo ver de onde ele tirou a figura desse padre que é ao mesmo tempo religioso e uma espécie assim de Van Helsing, o caçador de vampiros. Talvez David Leslie Johnson tenha querido fazer uma referência à Inquisição, à época em que alguns padres e parte da Igreja Católica foram inquisidores, macarthistas, caçadores de bruxas e hereges de maneira geral, doidos para jogar na fogueira (literalmente ou não) qualquer Giordano Bruno, Galileu, Joana d’Arc.

O Padre Salomon vem com um pequeno exército de soldados muito bem armados e treinados, um elefante de ferro semelhante ao Cavalo de Tróia para torturar suspeitos, e uma teoria assustadora: a fera, a besta que age na região há gerações, que matou agora Lucie e o pai de Henry, não é um lobo. É um lobisomem. E pode ser qualquer um ali dos próprios habitantes da vila, que vive normalmente durante a maior parte do tempo e, nas noites de Lua Vermelha, vira lobisomem e ataca.

E aí a história de A Garota da Capa Vermelha passa a ter seu lado Agatha Christie: se qualquer um dos habitantes da vila pode ser o lobisomem, quem será?

E a trama do quem foi que fez?, quem foi que matou? funciona muito bem no filme. O roteiro, espertamente, espalha dúvidas na cabeça do espectador.

A besta, a fera, o lobisomem pode ser Peter, o amado de Valerie. Pode ser Henry. Pode ser até o próprio padre da vila, o padre Auguste (interpretado por Lukas Haas, que, quando garotinho, fez o filha da jovem amish que testemunha um crime, em A Testemunha, de Peter Weir, de 1985).

Ou seria o próprio Padre Salomon – caçador e besta na mesma criatura?

Quem sabe não seria… a vovozinha? A vovozinha de Valerie (interpretada pela legendária Julie Christie), a que faz para ela a capa vermelha, bem que de vez em quando tem lá umas atitudes suspeitas.

Todos os personagens – com uma única exceção – têm olhos castanhos

O suspense criado pelo roteirista funciona. Ele soube usar bem a tática de Agatha Christie, de espalhar suspeita entre os mais diversos personagens.

O filme pode ser bobo, dirigido a adolescentes. Mas funciona. É bem realizado.

E chega. Ou quase chega. Antes de concluir, devo confessar que não consegui ver na atriz que interpreta a avó a mulher que me fascina desde… desde… Bem. Seguramente desde que fez a Lara criada por Boris Pasternak em Doutor Jivago e levada ao cinema por Sir David Lean em 1965, e o papel duplo em Fahrhenheit 451 de François Truffaut de 1966. Quem via filmes em 1965 e 1966 e não se apaixonou perdidamente, para a vida inteira, por Julie Christie, ou é muito doente da cabeça, do pé e de tudo o mais, ou simplesmente não existe.

Revi Julie Christie mais recentemente, em Em Busca da Terra do Nunca (2004), A Vida Secreta das Palavras (2005) e New York Eu Te Amo (2009), mas não a reconheci na pele da avó. Sabia que era ela, só poderia ser ela – não há outro personagem idoso na história –, mas não conseguia reconhecê-la.

Uma pequena informação no IMDb talvez ajude a explicar isso. O site enciclopédico que tem tudo traz a informação de que todos os atores que trabalham no filme – com a única exceção de Amanda Seyfried, com aqueles olhões azuis gigantescos dela – têm olhos castanhos ou então usaram lentes de contato para que ficassem castanhos. Inclusive Julie Christie, a atriz dos olhos azuis marcantes, inesquecíveis. Isso porque os olhos do lobisomem são castanhos.

Ah, sim, uma última coisinha. Adolescente que gostar especialmente de sangue esguichando pela carótida poderá ficar desapontado. A Garota da Capa Vermelha é um filme dark, dark como a Idade Média, que os de língua inglesa chamam de Dark Ages, quase tão dark quanto um filme noir dos anos 40, mas não é um slasher movie.

Anotação em agosto de 2012

A Garota da Capa Vermelha/Red Riding Hood

De Catherine Hardwicke, EUA-Canadá, 2011

Com Amanda Seyfried (Valerie), Shiloh Fernandez (Peter), Max Irons (Henry), Gary Oldman (Padre Solomon), Billy Burke (Cesaire, o pai)

Virginia Madsen (Suzette, a mãe), Lukas Haas (Padre Auguste), Julie Christie (a avó), Shauna Kain (Roxanne), Alexandria Maillot (Lucie)

Roteiro David Leslie Johnson

Fotografia Mandy Walker

Música Alex Heffes e Brian Reitzell

Produção Warner Bros. Pictures, Appian Way, Random Films. DVD Warner Bros.

Cor, 100 min.

**1/2

 

3 Comentários

  1. Postado em 17 agosto 2012 às 6:10 pm | Permalink

    Mau demais Sérgio, já falei sobre esta “coisa” no blogue do Rato.

  2. Dininha Torres Luize
    Postado em 31 agosto 2012 às 8:12 am | Permalink

    Eu gostei do filme. Não é um grande filme, mas é competente!
    A fotografia é fantástica e sombria na medida certa para dar o “tom” da história.
    Também demorei para reconhecer a Julie Christie na avó e, não convencida e confusa pela cor dos olhos, procurei no Google. Mesmo irreconhecível, ela ainda é uma bela mulher de 70 anos!
    A propósito, Doutor Jivago provocou outra paixão! Eu tinha uns 12 anos qdo assisti ao filme e me apaixonei perdidamente pelo Omar Shariff! Que olhos negros, meu Deus!!!

  3. amaral milhomem
    Postado em 22 maio 2013 às 1:08 am | Permalink

    Achei o filme meio marqueteiro. Fiquei o tempo todo com a impressao de que era so um cacaniquel na onda de crepusculo. Os aspectos tecnicos realmente sao muito bons, o que e natural devido o investimento. Ainda curto uma narrativa razoavel e nao encontrei nada que chegasse nem perto nessa obra. Bom saber que um apreciador de cinema gostou, talvez esperei demais de obra levando emconsideracao a participacao de Oldman e a premissa supee interessante. Infelismente, nao foi dessa vez que superaram Na Companhia dos Lobos, filme que pra mim melhor representou a estranha estoria do bosque misterioso que ha seculos permeia nossas mentes. Parabens pelo texto.

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  1. […] Dela tem como protagonista Julie Christie, uma mulher que a superdotada Sarah Polley sempre disse admirar, tanto como atriz quando como […]

  2. […] para completar sua missão. Enquanto isso, as forças do mal usam o ganancioso e cruel Zorg (um Gary Oldman fascinantemente careteiro) e um grupo de mercenários Mangalores para tomar as pedras dos quatro […]

  3. […] personagem interpretada pela eterna rebelde, anti-Establishment Julie Christie se mantém apegada às idéias antigas, de 30 anos antes – assim como, só para citar um exemplo […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Lovelace em 27 fevereiro 2014 às 3:19 pm

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