A Condenação / Betty Anne Waters ou Conviction

Nota: ★★★☆

Este A Condenação – um filme independente lançado em 2010 – conta uma horripilante história de uma investigação policial grosseira, suja, criminosa, que leva a erro judiciário absurdo: a prisão, por 18 anos, de um homem inocente. E é uma história real.

Em 1980, no interior do rico Estado de Massachusetts, uma mulher foi assassinada, com requintes de crueldade, em sua casa, na área rural não tão rica de uma pequenina cidade, Ayer. Nancy Taylor (interpretada pela sempre ótima Melissa Leo), uma policial dura, inflexível, prendeu como suspeito Kenny Waters (Sam Rockwell).

Não havia provas contra Kenny – exceto o fato de que ele tinha ficha na polícia, e um passado turbulento.

Nos primeiros minutos do filme, misturam-se fatos de diferentes épocas. Vemos a casa em que o crime bárbaro aconteceu, em 1980, e a prisão de Kenny pela policial Taylor. E, em flashback, vemos cenas da infância de Kenny: ele e sua irmã mais jovem, Betty Anne (interpretados, quando garotos, por Tobias Campbell e Bailee Madison) eram filhos de uma mulher absolutamente irresponsável, mãe ausente, ou não-mãe (Karen Young). Mais adiante na narrativa, em novos flashbacks, veremos que essa mulher perdeu a guarda de Kenny e Betty Anne, que passariam a ter diversos pais adotivos.

Além de voltar para bem antes de 1980, o ano do crime, o filme, logo no início, avança no tempo, para mostrar que Betty Anne, adulta, mãe de dois filhos, separada do marido, trabalhando duro como garçonete para se manter, estudava Direito, com o firme propósito de defender o irmão preso – ela tem absoluta certeza – por um crime que não havia cometido.

A narrativa se concentra na figura de Betty Anne, a irmã do acusado de assassinato

Desde esse início de narrativa em três épocas diferentes, fica claro que o filme vai se concentrar na figura de Betty Anne – interpretada por Hilary Swank, essa atriz forte, interessante, grandes filmes e dois Oscars no currículo (por Meninos Não Choram, de Kimberley Peirce, de 1999, e Menina de Ouro, de Clint Eastwood, de 2004). Hilary Swank foi também uma das produtoras executivas do ilme.

Lutar para provar que o irmão amado era inocente transformou-se numa obsessão para Betty Anne. Por causa de seu comportamento obsessivo, de sua idéia fixa, ela seria abandonada pelo marido, pai de seus dois garotos – e acabaria sendo deixada também por eles.

Quando os filhos adolescentes pedem para passar a viver com o pai, Betty Anne tem um momento em que sua eterna força vai embora. Desconsolada, angustiada, chega a abandonar a faculdade de Direito por alguns dias. É salva pela única amiga que tem na escola, Abra Rice (uma boa interpretação de Minnie Driver).

Naquele estado, não havia pena de morte; se houvesse, o inocente teria sido executado

O julgamento em que Kenny Waters foi condenado à prisão perpétua, em 1983, é mostrado cedo, na primeira meia hora de filme. Não há nenhuma prova concreta, mas há dois depoimentos que o incriminam, dados por sua mulher, Brenda (Clea DuVall), mãe de sua filhinha ainda bebê, e por uma amante, Roseanna (a fantástica Juliette Lewis).

Dois depoimentos – e o passado turbulento. Kenny sempre foi, desde criança, brigão, valentão.

Isso é o suficiente para o júri condená-lo à prisão perpétua. Em Massachusetts não há pena de morte; se houvesse – como Betty Anne dirá, numa determinado altura –, ele teria sido executado.

Na faculdade de Direito que cursa pensando apenas no irmão, Betty Anne aprende que novas descobertas científicas podem ser usadas como provas para tentar inocentar condenados. Em 1983, quando Kenny foi julgado, não havia teste de DNA, apenas a identificação do tipo sanguíneo. O sangue encontrado na casa da vítima era do mesmo tipo do de Kenny, e, apesar de essa coincidência não ser prova cabal, foi mais um indício que levou à condenação.

A existência do teste de DNA nos anos 90 renova as esperanças de Betty Anne. Ela irá atrás da ajuda do Innocence Project, liderado por um advogado famoso, Barry Scheck (Peter Gallagher), batalhador contra a pena de morte, que tem exposto uma série de absurdos erros judiciários.

As histórias de erros policiais seguidas de erros judiciários são muitas, e parecidas entre elas

Toda essa história de Kenny Waters e de sua irmã Betty Anne – uma trama intrincada, mas ao mesmo tempo clara, límpida – parece ter saído de um livro de John Grisham, ele mesmo um fervoroso combatente da pena de morte e denunciante de erros judiciários. Em seu livro A Confissão, de 2010, o mesmo ano em que foi lançado este A Condenação, Grisham conta a história de um jovem negro de uma pequena cidade racista do Texas, que é preso e acusado de ter assassinado uma linda garota branca. O corpo jamais foi encontrado, e não havia provas irrefutáveis contra o jovem acusado, mas policiais incompetentes e promotor ambicioso forçam a barra, obtêm depoimentos mentirosos de testemunhas e, mediante um interrogatório digno de torturadores, conseguem até mesmo uma confissão, e o preso é condenado. Como a história se passa no Texas – um Estado que não só permite como parece adorar uma pena capital –, o jovem vai para o corredor da morte. Quando falta muito pouco tempo para a execução, um homem se apresenta a um religioso de um outro Estado e confessa o crime.

Em seu livro de 2006, O Inocente, Grisham relatou a história de outro erro judicial – um homem inocente foi condenado à morte por dois assassinatos ocorridos em uma pequena cidade de Oklahoma. O Inocente tem uma trama semelhante à do livro A Confissão e à deste filme aqui, A Condenação. Só que, como o filme, é o relato de uma história real.

As histórias de erros policiais seguidos de erros judiciários são muitas. Não diferem muito umas das outras. Cada uma delas é um panfleto, um libelo contra a pena de morte.

Kenny Waters passou 18 anos preso por um crime que não cometeu, assim como o personagem do livro de não-ficção de Grisham. Erros trágicos, absurdos. Como reparar um erro destes? Não há reparação possível – mas pelo menos Kenny Waters, como o homem cuja vida Grisham levantou em detalhes, sobreviveu.

Se houvesse pena de morte em Massachusets, Kenny Waters teria sido assassinado a sangue frio pelo Estado por um crime que não cometeu.

Ao término da narrativa de A Condenação, antes dos créditos finais (não há qualquer tipo de crédito inicial), letreiros informam que, desde 1989, graças aos testes de DNA, 242 sentenças judiciais foram anuladas – inclusive 17 de pessoas que aguardavam a execução no corredor da morte.

Dois títulos diferentes, fracasso na bilheteria mas algum reconhecimento em festivais

Um detalhe: nos créditos finais do filme no DVD lançado por uma empresa nova, Vinny Filmes, o título é Mary Beth Waters, o nome da heroína desta história real. No entanto, no IMDb, e em cartazes na internet, o filme tem o título de Conviction, condenação. Aparentemente, o título original não pareceu atraente, e os produtores resolveram optar por um que acreditaram ser mais marqueteiro. Não adiantou muito. As indicações são de que o filme foi um fracasso comercial. Custou US$ 12 milhões, e arrecadou apenas US$ 9,7 milhões.

Teve reconhecimento, no entanto; ganhou cinco prêmios e teve quatro outras indicações. Hilary Swank teve uma indicação para melhor atriz no Screen Actors Guild, o sindicato dos atores; Juliette Lewis teve uma indicação para melhor coadjuvante da Sociedade de Críticos de Boston, e, no Boston Film Festival, A Condenação ganhou os prêmios de melhor filme e melhor ator para Sam Rockwell.

Um diretor experiente que lida bem com seus atores; Juliette Lewis está excepcional

Não conhecia Tony Goldwyn, o diretor deste filme. Nascido em Los Angeles, em 1960, é um profissional experiente. Tem mais de 60 títulos – entre séries de TV e filmes – como ator, e 17 como diretor. Já dirigiu episódios de várias séries de grande sucesso: Dexter, Law & Order, The L Word, Grey’s Anatomy, Damages.

Mostra competência, neste A Condenação. Sabe dirigir atores. Teve aqui um ótimo elenco. Sam Rockwell está muito bem como Kenny Waters, e a modificação física pela qual ele passa, desde a época em que foi preso, até 18 anos depois, é impressionante. E com Hilary Swank não tem erro: ela nunca desaponta.

Mas, na minha opinião, a melhor interpretação do filme é de Juliette Lewis, essa garota que começou com tudo e depois passou a se dedicar mais à carreira musical. É verdade que nunca parou propriamente de atuar, mas tem trabalhado menos do que deveria.

Aqui, no papel de uma amante de Kenny, ela aparece em apenas duas sequências – uma no tribunal, testemunhando contra o acusado, e outra muitos anos mais tarde, já envelhecida. O trabalho dos maquiadores – que se mostrou da maior qualidade com Sam Rockwell – é brilhante, ao transformar a bela atriz que estava então com apenas 37 anos (é de 1973) numa velha destruída pela vida e pelas drogas, um farrapo humano.

Mas é a interpretação da atriz que mais impressiona. Um absoluto brilho.

Anotação em maio de 2012

A Condenação / Betty Anne Waters ou Conviction

De Tony Goldwyn, EUA, 2010

Hilary Swank (Betty Anne Waters), Sam Rockwell (Kenny Waters), John Pyper-Ferguson (Aidan), Minnie Driver (Abra Rice), Melissa Leo (Nancy Taylor), Peter Gallagher (Barry Scheck), Bailee Madison (Betty Anne garotinha), Tobias Campbell (Kenny garotinho), Clea DuVall (Brenda Marsh), Ari Graynor (Mandy Marsh), Juliette Lewis (Roseanna Perry), Karen Young (Elizabeth Waters)

Roteiro Pamela Gray

Fotografia Adriano Goldman

Música Paul Cantelon

No DVD. Produção Omega Entertainment, Longfellow Pictures, Oceana Media Finance, Prescience. DVD Vinny Filmes

Cor, 107 min

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