A Casa dos Bebês / Casa de los Babys

Nota: ★★★½

Denso, pesado, amargo, tristíssimo filme de John Sayles, esse realizador independente, sério, sempre voltado para temas graves, políticos e sociais.

Trata não de um, mas, ao mesmo tempo, de pelo menos dois temas importantíssimos. A absurda má divisão de riqueza entre as nações – os Estados Unidos, o Império mais rico que já houve neste planeta, e o que vem abaixo do Rio Grande, nosostros mismos, nuestra América Latina, que tanto insiste em ser América Latrina. E a absurda má divisão da capacidade de se ter filhos – uns com tantos, outros sem nenhum.

John Sayles é um realizador que se dedica a dizer que tudo é injusto.

Que tudo, no mundo, é injusto, a rigor a gente já nasce sabendo. Uns nascem sem cérebro, outros nascem Einstein. Uns nascem na Finlândia, outros nascem na Somália. Uns nascem perfeitos, outros nascem aleijados. Uns nascem lindos, outros nascem débeis. E aqui talvez eu devesse pedir perdão por usar termos que há muito foram considerados politicamente incorretos. Mas a escolha de linguajar politicamente correto não consegue esconder a verdade dos fatos: uns de nós nascem perfeitos, outros aleijados, débeis.

John Sayles é um realizador que se dedica a dizer que tudo é injusto. Como todos já sabemos disso desde que nascemos, então o que John Sayles tem a acrescentar?

Talento. Ele tem talento.

John Sayles nos diz o óbvio de uma forma tão clara, e forte, e talentosa, que é impossível não admirar seus filmes.

Metade dos diálogos do filme é em espanhol; até o título original tem espanhol

Há um axioma na indústria cinematográfica americana: filme com legenda não faz sucesso. O público americano não está habituado a ler, não gosta de ler – é o que se depreende desse axioma.

Admiro profundamente quem vai contra essa regra. Kevin Costner, que depois nunca mais teria tanto sucesso, fez um filme brilhante, maior, quando optou por botar os índios falando em suas próprias línguas, em Dançando com Lobos – e os americanos que lessem legendas, se quisessem compreender o que estava sendo dito. O filme era tão bom que a vetusta Academia se rendeu a ele e deu-lhe um monte de estatuetas de gesso.

John Sayles provavelmente jamais vai ganhar uma daquelas estatuetas de gesso, porque seus filmes são sérios demais, independentes demais, ousados demais.

Metade dos diálogos de A Casa dos Bebês é em espanhol. O próprio título original do filme é agressivamente – para o público americano padrão, monoglota – em duas línguas: Casa de los Babys.

Um grupo seleto de atrizes talentosas, de belas filmografias

O filme começa mostrando bebês, bebês de semanas, poucos meses, deitadinhos em berços colocados um ao lado do outro, numa ampla e limpa sala.

Depois veremos uma senhora carregando um dos bebês no colo, caminhando entre os diversos berços, cantando, suavemente, baixinho, a canção “Duerme Negrito” – aquele lindo acalanto politicamente incorretíssimo, que pede para a criança dormir com a ameaça de que, se não o fizer, “viene el diablo blanco y zás – le come la patita, chacapumba, chacapumba, apumba, chacapumba”.

É de manhãzinha.

E então vemos uma moça – Asunción (Vanessa Martínez) – que ajuda os dois irmãozinhos mais jovens a se arrumarem para ir à escola, enquanto ela mesma se apronmta para sair. Asunción mora numa quase favela, em um morro. Quando ela sai de casa e vai até o ponto de ônibus, vemos dezenas, centenas de pessoas caminhando pelas ruas sem calçamento, todas indo também para o trabalho na cidade lá embaixo.

Asunción trabalha num hotel, uma pousada junto da praia, que pertence à Señora Muñoz, interpretada por Rita Moreno – ela mesma, a atriz que ganhou o Oscar de melhor coadjuvante em West Side Story, de 1961.

Nessa pousada costumam ficar mulheres americanas, à espera da liberação da papelada para adotar uma das crianças da Casa de los Babys. Estão hospedadas lá, naquele momento, seis mulheres – interpretadas por Daryl Hannah, Mary Steenburgen, Marcia Gay Harden, Maggie Gyllenhaal, Lili Taylor e Susan Lynch.

Um bando de atrizes talentosas, de belas filmografias. John Sayles é independente, não tem nada a ver com o cinemão comercial de Hollywood, mas bons e famosos atores gostam de trabalhar com ele.

Enquanto esperam pelo bebê que vão adotar, as americanas fazem mover a economia

Não se fala, em momento algum, que país é aquele onde se passa a história. A tendência natural do espectador é acreditar que é o México, pobre México, tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus, como se costuma dizer. Pensa-se no México exatamente pela proximidade geográfica, pelo fato de ser o país latino-americano mais perto do Império. E, nos créditos finais, será dito que todo o filme foi rodado em Acapulco. Mas John Sayles – autor do argumento, do roteiro e da montagem do filme – faz questão de inserir um diálogo que mostra que não, não se trata do México.

A intenção, claríssima, é dizer que aquela é uma cidade de um país qualquer da América Latina de língua espanhola. Um país qualquer, não identificado, que pode ser qualquer um.

O fato é que naquele país, na história fictícia criada por Sayles, é legal a adoção de crianças por estrangeiros. “É o nosso principal produto de exportação”, dirá um habitante local lá pelo meio do filme.

A adoção é legal – mas há diversas exigências feitas aos casais interessados. E a burocracia faz com que o processo de adoção demore, o que faz movimentar a economia local. As americanas ficam lá semanas, às vezes meses, antes de conseguir finalmente pegar a criança na Casa de los Babys. E, enquanto esperam, gastam dinheiro nos hotéis, nos restaurantes, no comércio. E com os advogados locais – é preciso constituir um advogado local para tocar o processo.

Diversos personagens – um mosaico, à la Short Cuts

Toda a ação de Casa de los Babys se concentra em um dia e meio. Começa de manhãzinha, vai até a noite, e termina na manhã do dia seguinte.

As protagonistas são as seis mulheres, mas o filme mostra também – como se fosse um mosaico, à la Short Cuts, à la Altman – diversos habitantes locais, como a Señora Muñoz, a arrumadeira Asunción, Celia (Martha Higareda), uma garotinha de 15 anos, de família rica, que engravidou e terá que doar seu filho à Casa de los Babys, Diómedes (Bruno Bichir), um desempregado à procura de um trabalho, um bico qualquer, e, sobretudo, um grupo de garotos de rua, pivetes sem família, tristes serezinhos abandonados à sua própria sorte.

Um pouco sobre as seis mulheres que, por uma razão ou outra, não puderam ter filhos biológicos e estão ali para adotar um bebê:

Nan (Marcia Gay Harden) é a mais chata, antipática, pentelha do grupo. Implica com tudo e todos, é fofoqueira, mandona, e ferozmente reacionária, em qualquer tipo de posição, de opinião na vida. Um ser desprezível.

Gayle (Mary Steenburgen, na foto acima) é o contrário de Nan. É calma, suave, paciente, tolerante. Procura sempre ver as coisas pela perspectiva dos outros, não gosta de julgar, condenar as pessoas. Só perderá um pouco a paciência com a insuportável Nan. Veremos, lá pelo meio do filme, que ela luta contra um problema.

A pessoa de quem Gayle mais se aproxima é Leslie (Lili Taylor, na foto), uma judia nova-iorquina extremamente amarga, pessimista. Trabalha como editora de livros, é culta, fala bem o espanhol – é a única do grupo que domina a língua estrangeira. À noite, está junto com Gayle em seu quarto na pousada, e liga a TV. Poucos minutos depois, sentencia:

– “A programação deles é pior que a nossa!”

E Gayle, sempre suave: – “Gostaria de saber essa língua como você”.

Ao que Leslie retruca: – “Você não precisa entender as palavras para ver TV. A estupidez é uma linguagem universal.”

Leslie, me parece, é assim uma espécie de alter-ego de John Sayles.

Skipper (Daryl Hannah) é atlética e new age, pós-hippie. Nan, a pentelha, acha que ela é lésbica. Pratica exercícios físicos louca, obsessivamente: nada, corre, malha. E tem toda aquela preocupação de tantos americanos com a comida – tudo tem que ser natural, não industrializado. Faz massagens, busca a aura das pessoas que massageia, como faz com Jennifer.

Jennifer (Maggie Gyllenhaal, na foto abaixo) é a mais rica e mais angustiada do grupo. É casada com um milionário dominador, e o casamento está em crise. Tem esperança de tudo se ajeitar com a chegada do filho adotivo.

E, finalmente, há Eileen (Susan Lynch). Vem de uma família irlandesa, católica, mora em Boston – e é a mais pobre do grupo. O marido está desempregado, ela tem o dinheiro curto e contado, economiza o quanto pode, faz refeições regradíssimas.

Uma conta seu sonho, outra conta seu pesadelo. Nenhuma entende o que a outra diz

Num filme repleto de situações tristes, amarguradas, e argutas observações sobre o comportamento humano, Eileen protagoniza o que, na minha opinião, é a seqüência mais brilhante que John Sayles criou.

Ela está em seu quarto – procura sair o menos possível, para não ter que gastar dinheiro –, quando Asunción chega para fazer a arrumação. Eileen diz que a moça pode arrumar o quarto mesmo ela estando lá dentro. Asunción sabe um pouquinho de inglês, bem pouquinho, só o mais básico. Eileen conta para ela uma longa história a respeito de sonhos que ela costuma ter sobre o filhinho que vai adotar.

Asunción, então, conta, em espanhol, o seu pesadelo real: engravidou quando era adolescente, e então seus pais a convenceram a dar a criança para adoção. Não sabe em que cidade vive o filho que nunca mais viu, mas tem a esperança de que ele esteja sendo bem tratado pelos pais adotivos nos Estados Unidos.

Asunción não entendeu nada da longa história do sonho de Eileen. Eileen não entendeu uma palavra do pesadelo da vida de Asunción.

Beleza de filme.

Anotação em abril de 2012

A Casa dos Bebês/Casa de los Babys

De John Sayles, EUA-México, 2003

Com Daryl Hannah (Skipper), Lili Taylor (Leslie), Mary Steenburgen (Gayle), Marcia Gay Harden (Nan), Maggie Gyllenhaal (Jennifer), Susan Lynch (Eileen), Rita Moreno (Señora Muñoz), Vanessa Martínez (Asunción), Bruno Bichir (Diómedes), Martha Higareda (Celia), Pedro Armendáriz Jr. (Ernesto)

Argumento, roteiro e montagem John Sayles

Fotografia Mauricio Rubinstein

Música Mason Daring

Produção IFC Films, Springall Pictures, Blue Magic Pictures. DVD Casablanca Filmes,

***1/2

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 3 fevereiro 2013 às 9:14 pm | Permalink

    Não gostei embora a temática seja do meu agrado.
    Achei o filme aborrecido, sensaborão, hora e meia a ver mulheres à espera, e eu à espera que acontecesse algo que me despertasse da sonolência, e nada, acabou como começou.
    Está feito com cuidado e tem boas acrtizes mas falta-lhe qualquer coisa que nos dê um safanão.

Um Trackback

  1. […] Rita Moreno tem um papel pequeno no filme, como Zelda Zanders, uma das atrizes do Monumental Pictures, o […]

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