Um Só Pecado / La Peau Douce

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Não são felizes os amantes, nas histórias de amor filmadas por François Truffaut. La Peau Douce, a pele doce, no Brasil Um Só Pecado, de 1964, é uma triste história de amor. Da mesma forma que o anterior Jules et Jim e os posteriores As Duas Inglesas e o Amor, A História de Adèle H. e A Mulher do Lado.

Jules et Jim e As Duas Inglesas e o Amor baseiam-se em romances, os dois do mesmo escritor, Henri-Pierre Roché (1879-1959). A História de Adèle H. se baseia nos diários da filha de Victor Hugo, Adèle. Este La Peau Douce, um de seus primeiros filmes, assim como A Mulher do Lado, seu penúltimo, são histórias originais do próprio Truffaut – La Peau Douce tem argumento e roteiro assinados por ele e Jean-Louis Richard.

Sejam criações do próprio cineasta, sejam baseados em romances ou em fatos reais, todos eles mostram amores tumultuados, tempestuosos, trágicos – ou simplesmente amores que não dão certo.

La Peau Douce é, entre esses cinco filmes que tratam das paixões amorosas, o de história mais simples, mais curtinha, mais linear, mais sem grandes surpresas – pelo menos até os dez minutos finais. Fala de uma história de amor que não dá certo.

Um homem bem sucedido, casado com bela mulher – mas surge outra

Truffaut estava com 32 anos quando fez este filme, em que o personagem central, Pierre Lachenay, está na faixa dos 40 e tantos. Jean Desailly– ator de teatro de imenso prestígio que interpreta o protagonista, na foto –, tinha 44.

Os números não são gratuitos. Indicam claramente que Truffaut estava falando de uma experiência de vida que ele mesmo ainda não tinha tido.

Pierre Lachenay é um homem bem sucedido. Tem uma pequena editora, edita uma revista literária, é autor de diversos livros sobre literatura, conhece profundamente a vida e a obra de Stendhal e Balzac, é convidado para dar palestras em diversos locais. Quando a ação começa, ele está chegando em casa – um amplo, confortável apartamento parisiense –, para pegar a mala e ir o mais depressa possível para o aeroporto, para uma viagem a Lisboa, onde faria uma palestra sobre Balzac.

Mal tem tempo de conversar com sua mulher, Franca (Nelly Benedetti, na foto acima), que está recebendo a visita de uma grande amiga, Odile (Paule Emanuele). Discutem um pouco sobre ela levá-lo até Orly – ele não poderia ir sozinho de carro porque perderia muito tempo para estacional, e Franca lembra que ele sempre implica com o jeito dela de dirigir. Acaba pegando carona com o marido de Odile, que leva junto a filhinha de Pierre e Franca, Sabine (Sabine Haudepin), garotinha de uns oito, nove anos.

No avião de Paris a Lisboa, Pierre Lachenay vai ver pela primeira vez Nicole – o papel de Françoise Dorléac, belíssima, maravilhosa, radiante em seus 22 aninhos de idade.

Uma narrativa feita de pequenos detalhes

Ao rever o filme agora, depois de ter visto uma vez muitas décadas atrás, me impressionou demais como a narrativa de Truffaut, em La Peau Douce, se faz de pequenos detalhes.

Um detalhe bem en passant: Pierre implica com o jeito como sua mulher Franca dirige.

No caminho entre a casa de Pierre e o aeroporto de Orly, a câmara mostra duas ou três vezes o marido de Odile trocando a marcha de seu carro. Um pequeno detalhinho para mostrar a pressa que ele tinha, Pierre estando em cima da hora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um pequeno detalhe que não tem qualquer importância na narrativa, mas é de especial interesse para os brasileiros: Pierre embarca num avião da Panair do Brasil. O nome Panair do Brasil será visível em diversas tomadas, a bandeira do Brasil, também. Uma pequena relíquia histórica. La Peau Douce é de 1964, o ano do golpe militar que acabaria levando ao desaparecimento da Panair.

Pierre viaja na primeira classe. Nicole é aeromoça da primeira classe do avião da Panair do Brasil.

Quando o avião está chegando perto de Lisboa, Nicole vai para a área dianteira do avião, perto da cabine dos pilotos, e fecha a cortina. Entre a extremidade inferior da cortina e o chão fica um pequeno espaço de uns dez centímetros. Pierre vê – assim como o espectador –, naquele pequeno espaço, que Nicole tira o sapato de salto baixo que estava usando até então, e calça sapatos de salto alto. Pierre chega a esboçar um sorriso ao ver a cena deixada à mostra pela fresta entre a cortina e o chão.

Truffaut adora pernas de mulher, pés de mulher. Haverá mais detalhes sobre pernas e pés, no filme e nesta anotação.

Uma coincidência, dessas de que a vida é cheia – e começa um caso de amor

Na hora do desembarque, Nicole desce a escada do avião logo atrás de Pierre. Há fotógrafos e repórteres na pista, à espera da sumidade francesa que chega para dar palestra em Lisboa, e são feitas fotos em que a bela aeromoça aparece ao lado do conferencista. No dia seguinte, uma foto dos dois estará na primeira página de um jornal lisboeta.

Evidentemente, não houve qualquer combinação, mas o hotel em que Pierre se hospeda em Lisboa, o Tívoli, é o mesmo em que está a tripulação. Uma coincidência, destas de que a vida é cheia.

Entram juntos no elevador do hotel – Nicole, um colega dela, o co-piloto Franck (Gérard Poirot), e Pierre. Franck desce primeiro – ficam no elevador Nicole e Pierre. Pierre estava hospedado no terceiro andar, mas não desce. Ninguém fala uma palavra. O elevador sobe bem devagar.

Detalhes, pequenos detalhes.

Um pacote que Nicole carrega cai no chão – e, junto com ele, a chave do quarto. Pode-se ver o número do apartamento – 813.

O pacote caiu no chão, simplesmente? Ou Nicole o deixou cair de propósito, junto com a chave, para que Pierre soubesse o número do apartamento em que está hospedada?

Nicole fecha a porta para que a câmara, discreta, não veja a cena de sexo

A narrativa prosseguirá sempre assim, feita de pequenos detalhes. No vôo de volta a Paris, Nicole anota o número de seu telefone no verso de uma daquelas caixinhas de fósforo promocionais, e, ao servir os passageiros da primeira classe, entrega a caixinha a Pierre. Ele faz menção de que não é necessário, mas ela insiste em que ele a guarde. Só algum tempo depois, já em Paris, ele abrirá a caixinha e verá o número do telefone. Guardará cuidadosamente o pedaço de papel em sua carteira – a câmara mostra o pedaço de papel em close-up mais de uma vez.

Bem mais tarde, lá pelo meio da narrativa, talvez já na segunda metade, depois de uma desgastante, exasperante experiência de Pierre e Nicole em Reims, os dois amantes conseguem enfim ter um dia calmo num hotelzinho de província. É uma das raras vezes em que os vemos conversar, o intelectual maduro, respeitado, famoso, casado e pai de uma filhinha encantadora, e a jovenzinha aeromoça tão inculta e bela quanto a última flor do Lácio do país em que se conheceram.

Pierre faz perguntas sobre ela, seu passado, seus namorados, seus amantes. É também uma das poucas seqüências em que a câmara de Truffaut e do maravilhoso diretor de fotografia Raoul Coutard, o fotógrafo de 9 em cada 10 filmes da nouvelle-vague, repousa mais longamente sobre o rosto resplandescente de Nicole-François Dorléac.

A conversa se encaminha para um ponto em que cessará para dar lugar à ação. Pierre abraça Nicole. Nicole se levanta, pega a bandeja do café do manhã e a leva para fora do quarto, deposita-a no chão, e fecha a porta. A câmara fica ali parada mostrando a bandeja com os restos do café da manhã no chão e a porta fechada.

Como se, tímida, ou melhor, discreta, a câmara tivesse se recolhido para não mostrar o ato de amor que se passa entre as quatro paredes do quarto.

É um pequeno detalhe – mas um pequeno detalhe maravilhoso, um toque de ternura, uma marca registrada do cineasta.

Ele poderia ter cortado aquela tomada da bandeja no chão após alguns poucos segundos – seu recado já estava dado. Mas, não. A câmara continua fixa, mostrando a bandeja, e um gatinho se aproxima, experimenta as iguarias contidas na bandeja.

Um pequeno detalhe, mais uma marca registrada de François Truffaut.

Em A Noite Americana, de 1973, seu filme sobre os filmes, o cinema, o universo do cinema, o próprio Truffaut, fazendo o papel do diretor do filme que está sendo rodado dentro do filme, colocará um gatinho em cena, para se aproximar de uma bandeja deixada diante de um quarto de hotel. O gato se recusa, durante algum tempo, a executar os movimentos desejados pelo diretor.

Cinema com assinatura, pessoal e intransferível.

O jeans esconde as pernas de Nicole – e então ela veste uma saia

Antes da malfadada experiência em Reims, há outros pequenos detalhes fascinantes. Os dois, Pierre e Nicole, estão viajando no pequeno carrinho de Pierre (como eram pequenos, os carros franceses da primeira metade dos anos 60…) de Paris para Reims. Há uma tomada de cima para baixo das pernas de Nicole, como se a câmara fosse os olhos de Pierre. Ele comenta que nunca a tinha visto de blue jeans – e acaba por confessar que prefere vê-la de vestido, ou saia. Param num posto de gasolina para reabastecer. Detalhe dentro do detalhe: a câmara focaliza diversas vezes a mangueira na abertura do tanque de gasolina, diversas vezes a bomba de gasolina marcando o número de litros e de francos. Sem que Pierre perceba, Nicole escapa. Tanque cheio, Pierre nota que Nicole não está no carro. Começa a ficar inquieto – e ela reaparece, vinda do banheiro do posto de gasolina, vestindo uma saia.

Nicole adormece. E então Pierre e a câmara de Truffaut acariciam a pele doce

Pierre havia sido convidado para dar uma palestra em Reims, e convenceu Nicole a ir com ele; ele daria a palestra, e em seguida os dois teriam dois dias inteiros sozinhos, em algum pequeno hotel do interior, antes de voltar a Paris.

A viagem a Reims acaba se tornando o centro, o fulcro, a essência da história de Pierre e Nicole, na minha opinião. É quando se evidencia mais a imensa diferença entre os dois, a distância que os separa – de idade, de classe social, de nível cultural, de tudo.

Pierre não quer ser visto com Nicole pelas pessoas que o convidaram para a palestra.

Simples medo de que seu caso extra-conjugal se torne público? Sim, certamente – em parte por isso. Mas também para não expor que sua amante não é uma pessoa culta, de fina educação, de fina origem? Em que medida há o temor de que a informação se espalhe e chegue aos ouvidos de Franca, a esposa, e em que medida há o preconceito social, o convencionalismo, a caretice pequeno-burguesa?

O que Nicole enfrenta em Reims é penoso, humilhante, degradante. O espectador fica com raiva de Pierre, de sua fraqueza, sua tibieza, sua pequenez.

E no entanto Nicole o perdoa. Dessa vez, ao menos. Primeiro fala em voltar sozinha de trem para Paris, mas depois aceita ir com ele para os prometidos dois dias de calma, só para os dois, no hotelzinho sossegado de província.

É logo após a chegada ao hotelzinho que há o que, para mim, é a seqüência mais bela do filme.

Chegam ao hotel no início da manhã, depois da exasperante experiência em Reims e de uma madrugada na estrada. Nicole está exausta; deita-se na cama e adormece instantaneamente, enquanto Pierre fecha as cortinas das janelas. Está toda vestida, não teve forças para tirar sequer o sapato. Pierre a contempla na penumbra. Tira seus sapatos, um a um, devagarinho – close-up dos pés. Depois ergue o vestido, e a câmara mostra em close-up a liga que prende a meia de nylon, no alto da coxa. Pierre acaricia a coxa enquanto tira a meia.

A câmara de Truffaut acaricia a pele doce.

La peau douce. The soft skin, como o filme se chamou nos Estados Unidos. Silken skin, como foi o título na Inglaterra. La piel suave, o título na Espanha.

Os exibidores brasileiros, idiotas, inventaram este Um Só Pecado. Em Portugal, para não ficar atrás, chamaram o filme de Angústia.

Um homem fraco, que não toma decisões, atitudes, e é levado pela vida

Não sei, é claro, exatamente o que Truffaut quis dizer, com essa história de amor que não chega propriamente a ser uma história de amor. É, a rigor, a história de um amor que não deu certo – ou sequer chegou a existir. Para mim, a sensação que ficou, nesta revisão, é que a rigor Pierre não consegue amar ninguém. Intelectual, autor de livros, respeitado, famoso, gosta, naturalmente, de ser admirado, incensado – mas dar amor, disso é absolutamente incapaz.

O que se mostra de sua relação com Franca, a esposa, não é amor, respeito e admiração mútuos. Ele está sempre impaciente com ela, cobrando pequenas coisas, irritado com pequenas coisas. Se houve amor no passado, agora, ao menos, não há mais – é uma relação de comodidade, de hábito, ele fornecendo o dinheiro, ela cuidando das coisas materiais dele.

Trata com simpatia a filhinha – mas não há, propriamente, interação entre eles, interesse dele em estar de fato com ela.

E sua atração por Nicole… Nicole é a beleza jovem, com todo seu gigantesco poder de atração. A pele doce. Ele chega até a fazer perguntas sobre ela, demonstra interesse em conhecer um pouco dela – mas pára por aí. Chega até a escrever um telegrama em que declara amor a ela – mas não tem coragem de entregar.

É um homem que se relaciona com o mundo via pensamento, estudo, verniz cultural. Não sabe expressar sentimentos, emoções – se é que os tem.

Na verdade, Pierre é um homem fraco – como fica absolutamente explícito nas seqüências em Reims. Não toma decisões, não toma atitudes. É levado pela vida, pelos que os outros decidem. Em especial, pelo que as mulheres decidem.

E Nicole, por sua vez… Pierre a atrai exatamente pela erudição, pelo conhecimento intelectual acumulado, pelo fato de ser famoso, respeitado, bem de vida. Não é uma base de atração que possa permanecer por muito tempo mesmo. Nicole é jovem demais, bela demais, forte demais, independente demais para dedicar muito tempo de sua primavera a Pierre. É uma história fadada a não dar certo.

Delerue compôs para o filme uma trilha sonora terna, suave – e até um fado

Quero ir aos alfarrábios, ver o que o próprio Truffaut fala de seu filme, mas, antes, é preciso registrar um pouco que seja sobre Georges Delerue.

Para La Peau Douce, George Delerue compôs até um fado. Chama-se “À Lisbonne”. É quase um fado legítimo – é uma bela canção, um prenúncio de romance.

A trilha de Delerue para La Peau Douce é terna, suave, quase sutil. Perfeitamente apropriada a uma história simples de um amor que não chega a acontecer – bem diferente da trilha que ele faria quase duas décadas depois para A Mulher do Lado, uma história de um amor tempestuoso, agitado, nervoso, à beira de um ataque fatal. Para A Mulher do Lado (uma cena do filme aparece na capa do CD que reúne as trilhas sonoras para os filmes de Truffaut sobre as paixões amorosas, na foto),  Delerue faria uma trilha com toques fortes nos violinos – que chega até a fazer lembrar um pouco as melodias fortes, pesadas, trincantes, que Bernard Herrmann, o compositor de vários filmes de Hitchcock, compôs nas suas duas colaborações com Truffaut, em A Noiva Estava de Preto e Fahrenheit 451.

Delerue foi o autor de pelo menos 11 trilhas dos filmes de Truffaut. O cineasta trabalhou com outros compositores – além de Hermann, houve trilhas de Antoine Duhamel e Maurice Jaubert, além de colaborações esparsas com Jean Constintin e Maurice Le Roux. Mas a parceria mais constante foi, sem dúvida, com Delerue.

La Peau Douce foi o quarto filme de Truffaut musicado por Delerue. Só oito anos mais tarde os dois voltariam a trabalhar juntos.

É uma bela trilha – são músicas que criam os climas das seqüências, mas que têm vida própria, e são extremamente agradáveis de se ouvir sem o filme.

Aos alfarrábios, finalmente. Truffaut escreve sobre Françoise

Em 1968, Truffaut escreveu para o número 200-201 dos Cahiers du Cinéma um belo, emocionante, emocionado texto sobre Françoise Dorléac, essa moça que passou pela vida rápido demais, feito um cometa:

“Os filmes desaparecem e também aqueles que os realizam, aqueles que os julgam e aqueles que a eles assistem. Aqueles que os representam também, e ainda que os Cahiers se interessem menos por estes, peço permissão para publicar uma ou duas fotos de Françoise Dorléac, que morreu em 26 de junho do ano passado (1967) num acidente de carro, a caminho do aeroporto de Nice. Para o público, era uma notícia qualquer, cruel porque atingia uma belíssima moça de 25 anos, uma atriz que ainda não tivera tempo de se tornar estrela. Para todos os que a conheceram, François Dorléac representava antes uma pessoa como se vê pouco na vida, uma jovem incomparável cujo encanto, feminilidade, inteligência, graça e incrível força moral a faziam inesquecível para qualquer um que falasse com ela por uma hora.”

E depois:

“O difícil, para jovens atrizes, é efetuar harmoniosamente a passagem de adolescente para a mulher, abandonar os papéis juvenis pelos papéis adultos; creio que Françoise Dorléac, mulher precoce e prematura com rosto e corpo já feitos, era a única jovem atriz de quem se podia achar que agradaria cada vez mais.”

O artigo de Truffaut tinha o título “Ela se chamava Françoise”. Muitos anos mais tarde, em 1996, a irmã mais nova de Françoise, Catherine Deneuve, escreveu, juntamente com Patrick Modiano, uma fotobiografia da atriz morta aos 25 anos de idade, cujo título é exatamente o mesmo, apenas seguido de reticências: Elle s’appelait Françoise

Truffaut primeiro trabalhou com Françoise, neste filme aqui, de 1964. Só mais tarde trabalharia com Catherine, em A Sereia do Mississipi, de 1969, e O Último Metrô, de 1980. Consta que se apaixonou por Catherine – ele sempre se apaixonou por suas atrizes -, e que tiveram um caso.

Quando jovem crítico, ele reclamava dos diretores que diziam que o cinema é difícil

A definição de Truffaut sobre o filme, numa entrevista em outubro de 1963, antes, portanto, que a obra ficasse pronta e estreasse:

“É a história, bastante minuciosa, de um adultério. Foi escrita misturando histórias autênticas acontecidas nos últimos anos. Sou um grande amante de histórias reais, e tenho um grande dossiê. A partir de histórias que me intrigaram ou me apaixonaram, com Jean-Louis Richard, escrevemos La Peau Douce.”

Ninguém lê mais que dez linhas na internet, e já escrevi dez mil, mas paciência. Vou em frente.

Numa outra entrevista, de 1964, antes de concluir La Peau Douce – também transcrita no maravilhoso livro Truffaut par Truffaut, editado por Dominique Rabourdin –, o cineasta faz uma extraordinária confissão a respeito da imensa pretensão que ele, como crítico de cinema, tinha. Diz que, quando era crítico, tinha a tendência a ironizar os diretores que diziam que “o cinema é muito difícil,”. Preferia aqueles que diziam que “é muito fácil”.

“Depois que me tornei cineasta, percebi que me era proibido juntar àqueles da segunda tendência. A inquietude, a ansiedade, a dúvida, o ceticismo, o pessimismo, e eu ousaria acrescentar a angústia, são meu cotidiano desde o primeiro dia de redação do roteiro até a última noite de montagem. Já fiz três filmes; La Peau Douce é o quarto. (…) Gostaria que meu quarto filme não fosse mais um navio em perdição, mas um trem que atravessa o interior.”

Que maravilha! Não basta o cara filmar genialmente, e escrever genialmente – ele também fala genialmente…

“O fracasso dá vontade de trabalhar depressa, de recomeçar”

Em 1968, quatro anos depois da estréia de La Peau Douce, em outra entrevista, ele diria:

La Peau Douce, eu soube muito depressa que seria um fracasso. Desde que concluí a montagem. Vi o filme muito lucidamente, como se tivesse sido feito por outra pessoa, e vi que ele era deprimente, que era um filme que ‘caía’. Compreendi então que seria um filme desagradável de se ver. Um filme que ‘cai’ raramente é amado.”

Aí então o entrevistador pergunta se o fracasso o deixou muito abatido. E François Truffaut responde que não, que, ao contrário, o fracasso é estimulante. Depois do sucesso, diz ele… “a expressão ‘repousar sobre os louros’ não foi inventada de graça”. “Creio que há algo excitante no fracasso. Dá vontade de trabalhar depressa, de recomeçar.”

Tão díspares em quase tudo, Truffaut e Lelouch reagem ao fracasso da mesma maneira

Em All That Jazz, de Bob Fosse, o cineasta-coreógrafo-escritor-roteirista-montador Joe Giddeon, ao ver na TV uma crítica de cinema descer a lenha em seu mais recente filme, sente os sintomas de um novo ataque cardíaco, mais um.

Em Um Homem, Uma Mulher Vinte Anos Depois, de Claude Lelouch, a produtora Anne Gauthier, assim que percebe que seu mais recente filme é um fracasso, reúne sua equipe e parte para um novo filme.

Quando vi o filme, em 1986, terminei meu texto sobre ele na revista Afinal dizendo que para Lelouch não importa muito se sua obra mais recente foi um sucesso ou um fracasso: “Como Anne, seu personagem, Lelouch responde partindo para mais um filme”.

É fascinante ver que Truffaut e Lelouch, dois dos cineastas que mais me encantam, tão díspares em quase tudo – um sempre incensado, com toda razão, o outro sempre vilipendiado, absurdamente – pensam e agem da mesma maneira.

Um Só Pecado/La Peau Douce

De François Truffaut, França, 1964.

Jean Desailly (Pierre Lachenay), Françoise Dorléac (Nicole), Nelly Benedetti (Franca Lachenay), Daniel Ceccaldi (Clément), Laurence Badie (Ingrid), Philippe Dumat (diretor do cinema de Reims), Paule Emanuele (Odile), Maurice Garrel (Bontemps), Sabine Haudepin (Sabine Lachenay), Dominique Lacarrière (Dominique, a secretária), Gérard Poirot (Franck, o co-piloto) Argumento e roteiro François Truffaut e Jean-Louis Richard

Fotografia Raoul Coutard

Música Georges Delerue

Produção Les Films du Carrosse, Sédif Productions, Simar Films, Produções Cunha Telles. DVD Silverscreen Collection.

P&B, 113 min

R, ***

Título em Portugal: Angústia

4 Comentários

  1. Postado em 7 novembro 2011 às 8:36 pm | Permalink

    Eu devo ter chegado por aqui em um post assim: um texto que faz parecer mais próximo e conhecido o que já me é familiar e faz desejável o que ainda tenho a ver. Dos textos que emocionam pelo quê, mas ainda mais pelo como.

  2. Glória
    Postado em 14 novembro 2011 às 12:48 am | Permalink

    O dia mais feliz da minha vida será quando você falar de “Jules et Jim ” e “Os Incompreendidos”. Estou sendo chata? Estou. Mas sinto que aguardo a melhor fatia do bolo.

  3. Marcus
    Postado em 22 janeiro 2012 às 10:28 am | Permalink

    Acabo de assistir ao filme pela TV achei interessante as cenas com o avião da Panair e desconhecia o fato da atriz principal ser irmã + velha de Catherine Deneuve. Mas quem me impressionou mais foi Nelly Benedetti (Franca), bonita mulher madura e decidida.

  4. Postado em 2 julho 2013 às 8:27 pm | Permalink

    Vi o filme hoje no Telecine Cult com curiosidade. Nem sabia que existia esse título na carreira de Truffaut. Também foi o único filme com Françoise Dorleac que vi inteiro. Mas me impressionou bem o ator que faz o intelectual. Um homem de seus quarenta e tantos anos, não um galã, mas atraente, e uma garota adorável como a Dorleac (ela tem mesmo certa semelhança com Catherine Deneuve). O filme me pareceu ter aquele ritmo frio, mas absorvente, dos de Chabrol, e, no entanto, não parece um thriller (embora pareça sugerir, a todo momento, que aquele caso de amor vai acabar mal).Achei de fato o personagem do intelectual um fraco, um homem manipulável, e o episódio de Reims, em que ele não tem coragem de se livrar de um chato para se encontrar com a mulher que ama, é repleto da angústia dos covardes. Ele é bem o tipo que, diante de uma situação, ao invés de enfrentá-la, foge. Não tem a convicção de seus sentimentos, não está à altura deles, prefere talvez (como você diz) o distanciamento de uma vida mais cerebral, por isso seu comodismo e sua dependência das mulheres. Não quer problemas, em suma. Uma atitude irreal e pouco viril diante da vida. Mas achei um bom filme. E, ao contrário do que Truffaut diz, não é um fracasso. Mas certamente não é um filme para o grande público.

6 Trackbacks

  1. […] achei fascinante esse fenômeno de os franceses, de uma maneira geral, e os grandes cineastas (vide François Truffaut e Jacques Demy) de maneira especial, admirarem mais o cinema americano do que boa parte dos […]

  2. […] François Truffaut, o cineasta da ternura, fez uma declaração de amor à literatura em Fahrenheit 451 (1966), uma ao cinema em A Noite Americana (1973). O Último Metrô (1980) é uma declaração de amor ao teatro. Mas, a rigor, todos os filmes dele são amplas declarações de amor a todas as formas de arte, a todas as formas de amor – mesmo os mais trágicos, mais amargos. […]

  3. […] a irmã mais velha de Catherine Deneuve, que morreria tragicamente aos 25 anos de idade), em Um Só Pecado/La Peau Douce (1964). A história de amor dos dois é triste, muito triste – e, como outras histórias de amor […]

  4. […] Um Só Pecado/La Peau Douce, há uma seqüência de imensa beleza; há uma evidente carga erótica, mas é tudo absolutamente […]

  5. […] Um plano-sequência, em especial, deixa o cinéfilo mesmerizado: a câmara pega toda a movimentação da praça, as dezenas de pessoas atarefadas montando seus palcos, suas barracas, gente dançando, gente cantando. E aí ela vai fazendo um zoom em direção a uma grande edificação de uns três andares diante da praça, e o zoom vai chegando mais e mais perto de uma janela do segundo andar, e aí a câmara entra na ampla sala que dá para a praça, e vemos les demoiselles de Rochefort, as duas garotas românticas do título brasileiro, as gêmeas Delphine e Solange Garnier, interpretadas pelas irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac. […]

  6. Por 50 Anos de Filmes » Fahrenheit 451 em 20 março 2017 às 1:20 am

    […] Desde 1961! Em 1961, estava com apenas 29 anos; tinha realizado dois filmes, Os Incompreendidos/Les Quatre-cents Coups (1959) e Atirem no Pianista/Tirez sur le Pianiste (1960). Em 1962 lançaria Jules et Jim e o curta Antoine et Colette, e, em 1964, Um Só Pecado/La Peau Douce. […]

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