Um Homem Misterioso / The American

Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2011: Não é apenas que este Um Homem Misterioso, no original The American, seja um filme horroroso, uma porcaria absoluta. Ele é horroroso, uma porcaria absoluta, sim, mas é pior que isso: é um embuste, uma fraude, uma falsidade.

Quanto mais eu fico velho, tendo aprendido mais na vida, visto mais filmes, mais me encanto com os que contam boas histórias de forma simples – e mais enojado fico com os que contam histórias ruins de forma pretensamente “inteligente”, “intelectual”. Cada vez fica mais claro para mim que há, basicamente, dois tipos de filmes: os feitos para as pessoas, os seres humanos, e os feitos para agradar aos jurados de festival e aos que dizem gostar de “filmes de arte”.

São esses os dois tipos de filmes. Essa é a grande diferenciação. As demais diferenciações são menores, menos importantes: se são de grande orçamento ou pequeno orçamento, se são americanos ou filipinos ou argentinos ou coreanos ou iranianos ou brasileiros. Mesmo se são filmes bons ou filmes ruins é uma diferenciação menor.

A grande diferenciação é esta: há os filmes que contam uma história de forma simples, e há os filmes metidos a besta.

Este aqui é um caso típico, exemplar, de filme metido a besta.

É tão metido a besta que pega um tema, uma trama, que é típica do que eles, os “intelectuais”, os de narizinho empinado que se consideram geniais, acham menor, acham “americana”, e a apresentam como se fosse um filme “europeu”, “cerebral”, “inteligente”.

É uma imensa farsa, um imenso embuste. Não é “anti-cinema americano”, “anti-cinema comercial”, nem “europeu”, “cerebral”, “inteligente”. É só idiota. E chato. Chato a não poder mais. Chato de galocha.

É fingido. É mais falso que uma nota de três guaranis.

É ruim. É porcaria.

“Só é obscuro quem não sabe o que quer dizer”

A ação começa num lugar perdido na Suécia: o personagem de George Clooney (pode ser Jack, pode ser Edward) está numa cabana isoladérrima no meio do inverno sueco com uma moça quente. Saem para passear. De repente Jack (ou Edward, quem saberia o nome do cara?) percebe que alguém vai atirar nele. O cara que vai atirar nele não consegue nada, mas Edward (ou Jack) dá dois tiros certeiríssimos – o herói não desperdiça bala. Aí Jack (ou Edward) diz para a moça quente do inverno sueco voltar para a cabana – e em seguida tasca-lhe um tiro certeiro na nuca. Pega um carro, e no caminho aproveita para matar uma terceira pessoa.

E, ato contínuo, está em Roma. Liga de um telefone público para seu empregador, ou seja lá o que for, diz que está em Roma, marca um encontro. Seu empregador, ou seja lá o que for, aparece depois de muito tempo, e dá instruções para Edward (ou Jack) ir para uma determinada cidadezinha perdida sabe-se lá onde na Itália e ficar lá bem quietinho.

Jack (ou Edward) vai para a tal cidadezinha, mas não vai com a cara dela. Viaja até outra pequena cidadezinha italiana, onde aparentemente aluga uma casa e fica lá fazendo flexões, exercícios corporais daqueles bem antigos. De repente aparece uma mulher muito bonita e encomenda a ele uma arma muito especial. De repente também Edward (ou Jack) está trepando com um puta do local muito linda, Carla. Ah, sim, e também muito de repente Jack (ou Edward) fica amigo do padre do local.

O padre irá falar frases supostamente muito sérias a respeito de pecado, céu, pecadores, solidão, redenção, deus e o diabo na terra do velho império romano. Muita filosofia, sabe, irmão?

Será que George Clooney acreditou que o filme tinha uma “mensagem”?

Quem, afinal de contas, meu Deus do céu e também da terra, é Jack (ou Edward)? O que ele está fazendo ali numa cidadezinha perdida da Itália? Quem é o chefe dele? Por que ele matou com tiro na nuca a bela sueca com quem trepou? Quem é a mulher bonita que encomenda a ele uma arma como nunca houve na vida qualquer outra arma?

Há duas possíveis respostas (pelo que eu consiga perceber) para essas perguntas, esses questionamentos:

a) Ah, cara, não seja um idiota da objetividade; é tudo muito misterioso porque a gente queria ganhar uns prêmios nuns festivais, e virar cult entre o pessoal muito inteligente;

Ou então:

b) Não percebeu, cara? É uma parábola, uma fábula: estamos mostrando como os Estados Unidos, os americanos, o Império, fabrica e vende armas para o mundo inteiro, sem nenhuma outra consideração a não ser obter o maior lucro possível.

É possível, penso eu, que George Clooney, sujeito liberal, da ala esquerda do arco partidário americano, tenha aceitado fazer esta imensa asneira por acreditar que o filme pretendia passar a mensagem b) para os espectadores.

Será que Clooney é tão pasqualo quanto belo? Bem, pode ser. Sabe-se lá. Alguns dos grandes liberais do cinema americano mostram-se às vezes politicamente ingênuos, como Warren Beauty, por exemplo, ao proclamar a revolução bolchevique como a coisa mais bela do mundo em Reds.

Na pequena cidade italiana, as putas e o mecânico falam inglês

É interessante como o umbigocentrismo americano consegue estar presente até mesmo num filme que pretende ser anti-americano até a medula. Na mais interiorana das cidades italianas, as putas falam inglês. O mecânico fala inglês. O americano fala algumas palavrinhas de italiano, mas todo o mundo que passa diante dele sabe inglês. Fantástico.

Ah, sim, e ainda tem uma coisa: aproveita para mostrar uma trepada. Tipo assim: se o Bertolucci virou gênio por mostrar trepadas em O Último Tango em Paris, por que não eu? Algum crítico vai dizer que eu sou genial porque mostro uma trepada.

É preciso dizer: toda a parte técnica do filme é um brilho. A fotografia é suntuosa, assim como a trilha sonora.

Tadinhos: não conseguiram prêmios…

Puxou tanto o saco dos jurados de festival – mas, tadinho, não ganhou nada. Talvez porque seja uma produção EUA-Inglaterra, coisa de branco de olho azul, e branco de olho azul não tá com nada, nestes tempos do politicamente correto.

Meu profundo desprezo por este filme aqui não vem, no entanto, por razões ideológicas, e sim lógicas, e cinematográficas. Este é um filme de merda. Um gigantesco embuste, uma falsidade. Uma imensa porcaria.

E o belo e bem intencionado George Clooney, na minha modestíssimas opinião, deveria raciocinar mais antes de adotar projetos idiotas. Assim como deveria, também, interpretar menos a si mesmo em todos os papéis que faz. Senão, vira um Jack Black qualquer.

***

Um complemento, um mês depois de ver o filme, na hora de reler a anotação para botar o post no ar: Afemaria, me surpreendo ao ver como este filme realmente mexeu com o meu fígado. Faz algum tempinho que não relia um texto tão bravo, tão figadal quanto este aí acima.

Por respeito ao eventual leitor deste site, que afinal de contas não tem nada a ver com meus ódios extremados, procuro alguma outra opinião.

O AllMovie (que, aliás, ali por maio de 2001 foi inteiramente repaginado, e para pior, na minha opinião) começa sua crítica, assinada por Perry Seibert, assim: “Às vezes a linha entre o deliberado e o tedioso fica difícil de ser, mas The American, de Anton Corbijn, claramente a atravessa demasiadamente. A história começa quando o assassino de aluguel Jack (George Clooney) chega a uma pequena cidade italiana depois de um problema no seu trabalho anterior. Enquanto seu chefe diz a ele para ficar frio e esperar por novas ordens, Jack se esforça para ficar invisível – mas um padre simpático (Paolo Bonacelli) consegue fazer o taciturno americano abrir-se ligeiramente. Jack também se interessa por uma prostituta local chamada Clara (Violante Placido). Quando seu chefe finalmente aparece com um novo trabalho para ele, é para construir uma arma muito específica para um outro assassino de aluguel. Enquanto ele constrói sua nova arma, velhos inimigos fazem nova tentativa de tirar sua vida, convencendo Jack de que ele precisa sair fora do jogo dos assassinatos de uma vez por todas.”

E continua:

“É preciso dizer que The American tem um belo visual – Corbijn tem um belo olho para a composição e consegue comunicar um sentido de localização. Trabalhando com o diretor de fotografia Martin Ruhe, o diretor consegue fazer com que você sinta as pedras do calçamento e as ruas da cidade, assim como a beleza majestática do interior da Itália, e a beleza da pele cor de oliva de Clara. Infelizmente, há tão pouco acontecendo na trama que há pouco a fazer a não estudar quão belo tudo parece.”

E vamos em frente:

“Jack é taciturno – parece que um terço do filme consiste em Clooney sentado numa cadeira atrás de uma mesa olhando fixamente para a frente, perdido em seus pensamentos. Já que o filme se baseia em um romance, você começa a achar que essas longas passagens estão no lugar de páginas e páginas descrevendo o passado ou a vida inteior de Jack. Infelizmente, quase nada disso aparece no filme.”

E mais adiante:

“O ritmo lânguido do filme certamente é uma marca de integridade artística; Corbijn e companhia estão de fato tentando fazer um thriller sério, inteligente. Mas, enquanto é verdade que eles não nos dão de comer na colher, o problema maior é que eles não nos dão alimento algum. Não importa quanto Clooney fique taciturno, o farto é que não há substância suficiente aqui para fazer The American muito mais que uma fantástica ode à beleza da Itália e de suas mulheres.”

E a conclusão é a seguinte:

Hum… Acho que, no fundo, no fundo, o que a crítica do AllMovie diz, de maneira elegante, é mais ou menos o mesmo que eu disse com uma irritação vomitativa. Foram generosos e sutis, enquanto eu fui impaciente e boquirroto.

Quer saber? Digo agora, um mês depois de ter visto o filme e de ter escrito sobre ele com o fígado: eta filmezinho de merda.

Um Homem Misterioso/The American

De Anton Corbijn, EUA-Inglaterra, 2010

Com George Clooney (Jack/Edward), Violante Placido (Clara), Thekla Reuten (Mathilde), Paolo Bonacelli (Padre Benedetto), Johan Leysen (Pavel), Irina Björklund (Ingrid)

Roteiro Rowan Joffe

Baseado no romance A Very Private Gentleman, de Martin Booth

Fotografia Martin Ruhe

Música Herbert Grönemeyer

Produção Focus Features, Greenlit Rights, Smoke House, This Is That Productions.

Cor, 105 min

1/2

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7 Comentários para “Um Homem Misterioso / The American”

  1. Muito do filme fica sem explicação. Muito? Muito não! Tudo, a começar por “quem é ele”. Nem este ponto básico é abordado. Nada, também nenhuma explicação para as mortes iniciais causadas pelo bandido. Muito menos sobre as traições. E os amigos, quem são? Adivinha… Ah, e o motivo para ele se redimir? As mulheres? Mas ele atira nelas! Bem ruim mesmo, Sergio

  2. Nao creio, nao creio… eu adorei esse filme qdo eu vi, adoro esse diretor, tanto seus clips do Depeche Mode, U2 etc como seu filme anterior, o Control. Adorei a historia, achei muito boa!!! Po, Sergio, sera q vc nao estava de mau humor qdo viu esse filme??

  3. É bem possível, sim, Cláudia. Isso acontece mesmo, né? Tem vezes em que o santo da gente simplesmente não bate com o do filme…
    Um abraço.
    Sérgio

  4. rsrsr, ri muito com sua crítica! Tem cada filme que não dá para entender como é que alguém ainda perde tempo produzindo e atuando… Viva o capitalismo!

  5. Fui assistir esse filme achando que era mais um
    do Clooney. Não sei se faz algum tempo que não vejo filmes assim, meio sem pé nem cabeça, que muita coisa fica no ar… Eu gostei do filme, me prendeu a atenção e fiquei bastante curioso em saber quem era aquele homem, que ao meu ver, seria um assassino de aluguel que também sabia, como ninguem construir armas. Que tinha muita gente querendo matá-lo. O filme mostra um pouco o lado humano do personagem Clooney, em sua relação com o padre e as garotas, mostrando seu passado, seus pecados, seus temores, sua tensão, e que também outros erravam, mas que na fé (com Deus) teria esperança(caso do Padre); ….. O que não entendo é: O Pavel (pessoa que ele encontra em Roma) contratou a mulher Mathilde para matar o americano (personagem clooney)? E por que no final o Pavel vai pessoalmente matar clooney e também mata a mulher? Se ele foi pessoalmente, por que ele nao fez antes? e por que não deixou a mulher matar o clooney para depois matar a mulher mathilde? …. nesse ponto acho que ficou sem explicação…Aliás, mesmo sem explicação fica ao meu ver mais como uma falha, ou fantasia. Quem tiver alguma opinião a respeito, divulgue!! .

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