The Runaways – Garotas do Rock / The Runaways

Nota: ★★½☆

Anotação em 2011: Este The Runaways demonstra claramente que foi feito com cuidado, dedicação, esmero. Tem ótimas interpretações de duas atrizes bem jovens e já veteranas, Kristen Stewart e Dakota Fanning – esta, em seu primeiro papel já adolescente, depois de uma longa carreira como atriz mirim.

É, portanto, um filme bom, bem bom. Faz uma reconstituição aparentemente muito acurada, muito fiel, dos poucos anos que durou a banda The Runaways, entre 1975 e 1979.

Quem mesmo?

Pois é. Este é o problema. A não ser para os seus fãs, e tirando o fato de que foi a primeira banda de rock formada apenas por mulheres – cinco garotas extremamente jovens, adolescentes –, The Runaways, que eu saiba, não tem qualquer importância na história da música pop. E a história da banda, a rigor, não tem lá grande interesse. Sexo, drogas & rock’n’roll – a mesma história de sempre. Grande sucesso quase instantâneo, muita, muita, muita droga – e a banda acaba.

Cherie Currie – alguém sabe quem é? Tá bom: Joan Jett eu conhecia, claro. Nunca me pareceu nada muito especial; não chega a ser uma Chrissie Hynde, a líder dos Pretenders, que tem uma marca pessoal, uma figura forte, com algum carisma.

Ou o mundo está cheio de fãs de carteirinha de Joan Jett, e eu é que estou absolutamente por fora?

Vou ao AllMusic, o grande site enciclopédico primo-primeiro do AllMovie.

Parece que o problema é meu. Parece que alguma importância a banda teve, sim. O AllMusic traz um longo texto – seis grandes parágrafos sobre o grupo. “Frequentemente menosprezada durante sua existência como uma invenção de marketing, The Runaways cresceram em estatura ao longo dos anos como a primeira banda só de mulheres a deixar uma impressão substancial no público por tocar um rock & roll alto, direto, à base de guitarras. Já que todos seus membros eram adolescentes (algumas das quais ainda estavam aprendendo a tocar seus instrumentos quanto começaram a se apresentar), a música da banda era frequentemente crua e amadora. Na mídia, The Runaways foi vítima da sua própria marca, criada pelo promotor-empresário Kim Fowley. A insistência de Fowley numa imagem escandalosa do grupo permitiu que a imprensa dispensasse o grupo como uma fantasia adolescente sem gosto – uma impressão que se escorava na qualidade errática de sua música no início.”

As duas estrelas da banda acompanharam as filmagens

Muito bem. É preciso dizer que esta é uma filmobiografia autorizada. Não se pretende esconder isso. A própria Joan Jett foi a produtora executiva, e acompanhou as filmagens, ajudando a garota Kristen Stewart – imenso sucesso de bilheteria com a trilogia Crepúsculo – a compor seu personagem. E o roteiro se baseia no livro autobiográfico de Cherie Currie, que também acompanhou as filmagens e deu as dicas para Dakota Fanning, que a interpreta. (Na foto, as roqueiras reais e as atrizes que as interpretam: da esquerda para a direita, Joan Jett, Kristen Stewart, Dakota Fanning e Cherie Currie.

O interessante é que o fato de ser uma biografia autorizada, em que as duas principais figuras das Runaways tiveram participação direta, não fez com que o filme se transformasse numa versão pasteurizada, limpa das, digamos assim, “impurezas”, dos pecados, das baixarias. Até porque, se as “impurezas” fossem retiradas, não sobraria história. O filme mostra tudo às claras – o sexo que corria solto, a clara opção homo de Joan Jett, a clara opção topa tudo de Cherie Currie, e as drogas, as drogas, as drogas. Meu, é absolutamente incrível como essas moças sobreviveram e estão aí hoje (o filme é de 2010) para contar a história. Era droga demais da conta.

Uma garota com jeitão punk, uma outra fã de David Bowie

O roteiro – escrito pela própria diretora Floria Sigismondi – se concentra nas duas figuras mais importantes da banda, Joan Jett, guitarrista, co-autora de várias das canções, e Cherie Currie, a vocalista. Não se fala da família de Joan, mas mostra-se bastante a de Cherie: o pai (Brett Cullen), com problema pesado com o álcool, é expulso de casa pela mãe. A mãe, por sua vez, namora um sujeito que mora na Indonésia e de repente anuncia para as duas filhas – Cherie é a caçula – que está se mudando para lá. A mãe, que aparece pouquíssimo, é interpreta por Tatum O’Neal, a garotinha inesquecível de Lua de Papel, de Peter Bogdanovich, de 1973. O tempo passa.

A iniciativa de se criar uma banda é de Joan, uma garotinha que pegou antes de muita gente o espírito punk que começava a se espalhar na Inglaterra. É ela que procura Kim Fowley (Michael Shannon), já então famoso como produtor de discos. Fowley – uma figura absolutamente anos 70, muito doidão, cheio de idéias, cheio de frases definitivas tipo rock é isso, rock é aquilo, rock é aquilo outro – acha o nome da garota sonoro, sente que a idéia de uma banda só de mulheres pode dar certo.

Joan e Fowley chegam até Cherie por causa da beleza dela, e das roupas que usa: com apenas 15 anos, Cherie era uma fã absoluta de David Bowie e de sua aparência, aquela coisa glitter, brilhos, plumas e paetês.

Cair no muito sexo, muita droga e muito rock’n’roll aos 15 anos de idade é de endoidar qualquer um. Joan, um pouco mais velha, consegue se atirar em todas mas permanecer consciente, lúcida. Cherie endoida feio. Bravo.

São as próprias atrizes que cantam as muitas canções

Kristen Stewart parece de fato ter encarnado Joan Jett. Tem, repito, uma bela interpretação. Impecável. Tanto ela quanto Dakota Fanning cantam elas próprias nos números musicais.

Mas, para mim, a coisa mais impressionante do filme é Dakota Fanning. Criatura especial, essa menina nascida em 1994, no interior da Georgia. Em 2010, ano em que o filme foi feito, estava com 16 anos de idade, e seu currículo já beirava os 40 filmes e/ou episódios, com 17 prêmios e 19 outras indicações. Em 2006, bem antes de ter tido a idéia de fazer este site, anotei, depois de ver O Amigo Oculto/Hide and Seek: “A menina Dakota Fanning enfrenta um Robert De Niro, um Denzel Washington, de igual para igual. (…) Já trabalhou ao lado de Tom Cruise, Robert De Niro, Denzel Washington, Sean Penn, Kevin Bacon, Kris Kristofferson. Um absurdo.”

De fato é um absurdo, Dakota Fanning.

Ao ver A Vida Secreta das Abelhas, feito em 2008, anotei: “E esse talento espantoso que é Dakota Fanning acrescentou mais isto ao seu belíssimo currículo: o primeiro beijo que ela deu no cinema foi num rapaz cuja cor da pele é diferente da dela. Algo inimaginável – e proibido por lei no Sul do Império – até menos de 50 anos atrás, período de tempo que é uma pequena poeirinha dentro da História.”

Aos 16 anos, fez, então, pela primeira vez, um personagem real – uma garota que, entre os 15 e os 16, deu mais que chuchu na cerca, tomou todo tipo de droga, virou personagem constante na imprensa, nas revistas sobre música e sobre celebridades, vendeu milhares de discos, virou estrela, e antes dos 18 já tinha apagado.

É – Dakota Fanning e sua personagem neste The Runaways se merecem. Vida intensa é isso aí.

Felizmente, pelo que ela já mostrou até aqui, Dakota Fanning não corre o risco de apagar. Que brilhe muito, no futuro, como já brilhou até agora.

Um detalhinho: as garotas achavam Don McLean um horror

A diretora Floria Sigismondi tem fortes ligações com o rock. Trabalhou como fotógrafa especializada em acompanhar bandas de rock, e fez vídeos de David Bowie, Björk, The White Stripes.

Um detalhinho: uma música incidental num filme sobre música, músicos. Numa das primeiras excursões das Runaways que o filme mostra, as cinco garotas estão em um carrão dirigido pelo rapaz que se designa road-manager do grupo. A rádio do carro começa a tocar “Vincent”, na voz aveludada, suave, doce, de seu autor, o grande Don McLean. Tem sentido: a ação se passa a partir de 1975, e “Vincent” é do disco American Pie, de 1971. Ouvi muito pouco Joan Jett na vida, e, das Runaways, acho que só ouvi o que toca na trilha sonora deste filme, mas, na minha opinião, “Vincent” sozinha vale por tudo o que o conjunto e a cantora, guitarrista e compositora fizeram a vida inteira. É uma homenagem a Van Gogh: o cantautor americano dialoga com o pintor holandês, para concluir que “este mundo não foi feito para alguém belo como você”.

Pois bem. Quando “Vincent” começa a tocar no carro das garotas roqueiras, protopunks, uma delas, revoltada com aquele som MOR, middle of the road, como os críticos de rock gostavam de dizer, aquela coisa doce, melosa, uma delas muda imediatamente de estação. Uma só – acho que Cherie – pede para voltar para “Vincent”, mas é voto vencido.

Uma canção suave e doce não foi feita para que as Runaways ouvissem.

The Runaways – Garotas do Rock/The Runaways

De Floria Sigismondi, EUA, 2010

Com Kristen Stewart (Joan Jett), Dakota Fanning (Cherie Currie), Michael Shannon (Kim Fowley), Stella Maeve (Sandy West), Scout Taylor-Compton (Lita Ford), Alia Shawkat (Robin), Riley Keough (Marie Currie), Tatum O’Neal (a mãe de Cherie), Brett Cullen (o pai de Cherie)

Roteiro Floria Sigismondi

Baseado no livro Neon Angel: The Cherie Currie Story, de Cherie Currie

Fotografia Benoît Debie

Produção River Road Entertainment, Linson Entertainment. DVD Paris Filmes.

Cor, 106 min

**1/2

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