Terra de Paixões / The Hi-Lo Country

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: O inglês Stephen Frears é um sujeito que passa por todos os gêneros possíveis e imagináveis, em filmes feitos na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Irlanda – sempre com uma absurda competência. Em 1998, fez um western, Terra de Paixões/The Hi-Lo Country. Não tinha como dar errado: fez uma beleza de filme.

Não tinha mesmo como dar errado. Para fazer o filme, teve dinheiro de produtoras de três países – a sua Inglaterra natal, os Estados Unidos onde a ação se passa e o filme foi feito, mais a Alemanha. O grande Martin Scorsese foi um dos produtores. Carter Burwell, o excelente autor das trilhas sonoras dos irmãos Coen, fez um trabalho magnífico.

O diretor de fotografia Oliver Stapleton não é um nome muito conhecido, mas fez um trabalho de babar. O filme é repleto de fantásticos planos gerais da paisagem ao mesmo tempo seca, agressiva, e estupidamente bela, com vales, montanhas, casas pobres isoladas no meio de vastas áreas de terra crua.

Visualmente, o filme é de uma beleza extasiante, uma homenagem ao mais americano de todos os gêneros do cinema e seus grandes mestres, John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh, Anthony Mann – os planos gerais da paisagem desolada e bela se misturando ao clima pesado dos saloons onde se bebe muito além do que o fígado e o cérebro humano podem agüentar, e onde as tensões estão sempre a ponto de explodir.

Como se trata de Stephen Frears, com o apoio de Martin Scorsese, este não é um western tradicional. Embora todo o clima seja de um western tradicional, a ação se passa nos anos 40 – 1940, e não 1840. Os personagens centrais são caubóis – cowboys, é bom lembrar, criadores de gado. Andam a cavalo, mas os cavalos já convivem com carros, ônibus, telefones, e os grandes fazendeiros já não conduzem mais seu gado de um canto a outro do país, até o local da venda, no muque, como se fazia antigamente, e sim em caminhões.

Tirando esses detalhes – carros, ônibus, telefones, caminhões –, no entanto, o mundo que Frears mostra em seu filme não é diferente do Velho Oeste dos westerns tradicionais, o do outro século, o anterior, o que a gente chamava de século passado, e hoje é um passado absolutamente distante. O saloon, por exemplo, mudou pouquíssimo, e nele se encontram tanto os caubóis mocinhos quanto o grande fazendeiro e seus capangas, os bandidos – o grande fazendeiro é igualzinho eram os grandes fazendeiros de cem anos antes. São todos bandidos, exploradores do trabalho dos outros, roubam tudo o que podem – exatamente como são mostradas, em 99% dos filmes americanos, westerns ou não, as grandes corporações.

Já houve outros westerns passados em meio a carros e helicópteros

Não que seja absoluta novidade um western passado em pleno século XX. Em Sua Última Façanha /Lonely Are the Brave, de David Miller, de 1962, por exemplo, Kirk Douglas interpreta um cáuboi renitente que foge dos homens da lei em seu fiel cavalo – e a polícia, chefiada pelo xerife interpretado por Walter Matthau, além de carros, usa até um helicóptero na perseguição. Em O Cavaleiro Elétrico/The Electric Horseman, de Sydney Pollack, de 1979, o protagonista, interpretado por Robert Redford, um ex-campeão de rodeios tornado um autômato pela cachaça e pelo louco esquema de Las Vegas, foge pelos campos infinitos com um cavalo milionário, toda a polícia e a imprensa do país atrás.

E, em O Indomado/Hud, de Martin Ritt, de 1963, o filho do vaqueiro (o papel de Paul Newman) não quer saber de vacas nem de cavalos – gosta de cachaça, mas acompanhada por seu Cadillac e qualquer mulher que passar à sua frente.

Um cruzamento de western com film noir – só que colorido

Terra de Paixões/The Hi-Lo Country tem um pouco do clima desses três westerns passados em dias bem mais recentes. Tem, sobretudo, afinidades com O Indomado/Hud: o cenário é o Oeste, bem parecido com o Velho Oeste, mas a trama se centra nas relações afetivas, familiares e amorosas.

O protagonista e narrador, Pete (Billy Crudup, à direita na foto abaixo), comprou um pedaço de terra no Novo México, no final dos anos 30, início dos anos 40. Comprou também um cavalo de um sujeito do lugar, Big Boy Matson (Woody Harrelson), mas o animal se mostrou mais arisco e violento do que Pete era capaz de aguentar, e ele então voltou até Big Boy para tentar desfazer o negócio. Para sua surpresa, Big Boy não só pagou de volta os mesmos US$ 75 como se mostrou disposto a ajudar o recém-chegado Pete no que ele precisasse. Foi o início de uma imensa, calorosa amizade. Big Boy e Pete tornam-se inseparáveis – no trabalho com o gado, e nas bebedeiras. Separam-se por alguns anos com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, mas se reaproximam logo que retornam à região de Hi-Lo, a do título original do filme.

Ao voltar da guerra, com uma boa soma de dinheiro do salário de combatente, Pete planeja comprar umas centenas de cabeça de gado. Num bar, reencontra Mona (Patricia Arquette), a mulher mais bela do pedaço, e Josepha (o papel de Penélope Cruz), a mocinha certa para qualquer sujeito que queira o amor em paz.

E aqui se dá um bem feito cruzamento de um western passado nos 40 com um film noir que era o gênero quente daquela época. Mona, naquele lugar perdido nos confins do Novo México, é muito parecida com as femmes fatales que percorriam os bares de Nova York ou Los Angeles nos film noirs, enlouquecendo a cabeça dos homens. Para cada femme fatale está destinado um pato, e Pete é o pato, tadinho. Entre a mocinha certa e a mulher mais bela do pedaço, casada com o capataz do grande fazendeiro mas obviamente doidinha para pular todas as cercas, Pete, o pato, escolhe a segunda.

Só depois de tragado pela paixão por Mona é que Pete descobre que Mona já está pulando a cerca – e exatamente com o maior amigo dele, Big Boy.

Um fracasso comercial, apesar de todos os talentos envolvidos

Não me parece que o filme – embora muito bom, feito por diretor de renome, com produtor de renome maior ainda – tenha sido um sucesso nos Estados Unidos. De fato, segundo o Box Office Mojo, o filme rendeu apenas US$ 166 mil no mercado americano, uma merrequinha de nada. Fico imaginando se ao menos parte desse fracasso não se deve ao elenco escolhido por Stephen Frears. O elenco é ótimo, está absolutamente brilhante – mas não eram, na época, grandes astros Woody Harrelson, Billy Crudup e Patricia Arquette. A maior estrela do elenco hoje é Penélope Cruz, mas na época ela ainda era uma desconhecida nos Estados Unidos – tinha apenas 24 anos, a espanhola deslumbrante; tinha já uma penca de filmes em seu país, mas estava apenas começando a carreira internacional.

Woody Harrelson é um ator excepcional, mas não é astro. É o anti-John Malkovich, o anti-Jack Black, esses sujeitos que fazem eternamente o papel deles mesmos. Em cada filme ele tem uma cara, uma personalidade. Está brilhante como o cáuboi de boa alma e maneiras bruscas e violentas, aferrado às tradições – inclusive à de não se importar muito com o fato de que todo mundo acabará sabendo que ele come a mulher do capataz do grande fazendeiro.

E Patricia Arquette… Patricia Arquette é uma figura. Como o diretor Stephen Frears, é versátil. Como Woody Harrelson, é absolutamente camaleônica. É preciso ser ótimo fisionomista para sacar que essa atriz que faz Mona, a femme fatale de The Hi-Lo Country, é a mesma de Vivendo no Limite/Bringing Out the Dead, de Martin Scorsese. E é preciso ter boa memória para não confundi-la com a irmã Rosanna, que também trabalhou com Scorsese – em Depois de Horas/After Hours. Talvez o excesso de camaleonismo tenha acabado prejudicando Patricia Arquette, impedindo que ela se tornasse uma grande estrela. Mas é uma bela atriz – é tão boa atriz que consegue parecer mais bonita que a lindérrima Penélope Cruz bem jovem. Se não para todos os espectadores, para todos os homens daquele lugar perdido no meio do Novo México.

E o filme tem uma ponta de Katy Jurado. Aparece em apenas uma sequência, a veterana atriz – faz o papel de uma vidente, uma cartomante, que Big Boy, o bravo, Pete, o pato, Mona, a femme fatale, e Josepha, a mocinha perfeita, vão consultar, quando o filme já está se aproximando do final.

Deve ter sido provavelmente do produtor Martin Scorsese, um estudioso do cinema, um admirador das grandes obras do passado, a idéia de chamar Katy Jurado (1924-2002) para um papel, ainda que mínimo, nesse western moderno. Ou pode ter sido de Stephen Frears, quem sabe. O fato é que é uma bela homenagem a essa mexicana de Guadalara que fez tantos westerns, nos anos 50 e 60 – impossível não lembrar dela como a mulher do personagem safado interpretado por Karl Malden em A Face Oculta/One Eyed Jack, o único filme que Marlon Brando resolveu dirigir na vida; e, principalmente, como a mulher da vida que esteve no passado do xerife Will Kane, e que agora, no momento da ação, os 90 minutos mais cronometrados da história do Oeste, dá guarida à jovem esposa dele, a ex-amante toda de preto, a jovem esposa toda de branco, em Matar ou Morrer/High Noon.

“As imagens são como a realização: simples, amplas e belas”

Sempre é bom ver a opinião dos outros, e checar alguns fatos

Stephen Frears ganhou o Urso de Prata em Berlim pela direção do filme. Foi o único prêmio importante que o filme levou – teve quatro prêmios e quatro indicações.

Leonard Maltin deu 2.5 em 4. Segundo ele, o filme tem tantas coisas a seu favor – inclusive a extraordinária interpretação de Woody Harrelson e a fotografia de Oliver Stapleton – que é uma pena que não seja uma maravilha. E ele diz que Patricia Arquette está uma chata.

O Guide des Films de Jean Tulard diz que é um western nostálgico, onde encontramos as seqüências obrigatórias do gênero – as conversas no saloon, o trabalho com o gado, “a femme fatale e a jovem pura”, etc. “Mas o que parece interessar prioritariamente a Stephen Frears é a ligação com um mundo em via de desaparecimento, com os valores universais da amizade viril ou o gosto por uma vida rude, mas livre. As imagens são uníssonas com a realização: simples, amplas e belas. E o fim é de uma grande intensidade dramática.”

Essas duas últimas frases do guia francês definem perfeitamente o filme, muito melhor do que tudo o que eu havia dito antes. Mas também o nome do cara é Jean Tulard, e o meu é apenas Sérgio Vaz.

Depois do que se diz no guia de Tulard, não é preciso dizer mais nada, mas acrescento: num filme povoado por imagens simples, amplas e belas, uma seqüência, em especial, chama a atenção, faz quem gosta de cinema babar, querer rever e rever de novo: a sequência do baile, em que Pete já entra sabendo que os homens do grande fazendeiro vão atacar Big Boy. É antológica. Dizer que é tão brilhante quanto a cena do baile de O Leopardo, de Visconti, seria um exagero. Mas olha – é quase tão.

Terra de Paixões/The Hi-Lo Country

De Stephen Frears, EUA-Inglaterra-Alemanha, 1998

Com Billy Crudup (Pete Calder), Woody Harrelson (Big Boy Matson), Patricia Arquette (Mona Birk), Penélope Cruz (Josepha O’Neil), Sam Elliott (Jim Ed Love), John Diehl (Les Birk), Cole Hauser (Little Boy Matson), James Gammon (Hoover Young), Katy Jurado (Meesa)

Roteiro Walon Green

Baseado no romance de Max Evans

Fotografia Oliver Stapleton

Música Carter Burwell

Produção De Fina-Cappa, Polygram Filmed Entertainment

Working Title Films. DVD NBO Entertainment

Cor, 114 min

***

Título em Portugal: Terra Perdida.

2 Comentários

  1. Postado em 15 março 2011 às 4:25 pm | Permalink

    Sérgio, ah, Sérgio meu amigo(ouve-se um suspiro),

    se eu nunca tivesse vindo aqui, hoje eu teria chegado por uma via ou outra. Porque esse filme faz sal nos meus olhos e coceira na garganta e pede reprises? Também. Mas ainda mais porque em sua resenha você conseguiu sair listando quase tudo que me apaixona no cinema. Se houvesse um motor de busca assim – cinemacoraçãoluciana – de imediato viria parar aqui:

    – western
    – noir
    – Stephen Frears
    – O Leopardo
    – Brando
    – John Ford, Howard Hawks
    – Matar ou Morrer

    enfim, podia continuar um tempão e ainda haveria coisas pra dizer. O seu nome é apenas Sérgio Vaz? Prazer, o meu é apenas Deslumbrada 😉

    PS. Não posso ver estas coisas e não pensar em vocês (se cansar dos links, avise):

    http://www.etudogentemorta.com/2011/03/quem-me-dera-que-michelle-pfeiffer-estivesse-morta/

    http://www.etudogentemorta.com/2011/03/apocalypse-now/

    Um beijo!

  2. OLIVER NETTO OLIVEIR
    Postado em 15 dezembro 2011 às 7:42 pm | Permalink

    Simplesmente lindo… Adorávellll…

3 Trackbacks

  1. […] Cruz. Dois anos antes, em 1998, ela havia feito, sob a direção do inglês Stephan Frears, Terra de Paixões/The Hi-Lo Country, em que ainda era coadjuvante. Este aqui foi de fato o primeiro filme falado em inglês em que ela […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Virada no Jogo / Game Change em 14 janeiro 2013 às 4:07 pm

    […] estrategista da campanha presidencial do republicano John McCain, Steve Schmidt (interpretado por Woody Harrelson), e a jovem governadora do Alasca, Sarah Palin, escolhida para concorrer à vice-presidência […]

  3. […] 2000), de cuidadosa recriação de fatos históricos recentes (A Rainha, 2006) a western (Terra de Paixões, […]

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