Sonhos Roubados

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Duro, triste, honesto, sensível mergulho no universo de três garotas adolescentes na periferia pobre do Rio de Janeiro, conduzido com muita competência pela diretora Sandra Werneck.

Para os papéis centrais, das garotas Jéssica, Daiane e Sabrina, foram escolhidas, respectivamente, Nanda Costa, Amanda Diniz e Kika Freitas. Esta última já vinha atuando desde 2003; Amanda Diniz já havia tido uma experiência no teatro e uma na TV, no Sítio do Picapau Amarelo; Nanda Costa também já havia trabalhado antes no cinema e na TV. Para papéis importantes, mas secundários, Sandra Werneck juntou alguns grandes, experientes atores: Marieta Severo, Nelson Xavier, Daniel Dantas. Com seu talento para a direção de atores, conseguiu um elenco com boas atuações – o que, na minha opinião, ainda é algo raro no cinema brasileiro.

A fotografia, a cargo do veterano mestre Walter Carvalho, é soberba, maravilhosa – e mostra muitas cores, e cores fortes, do esmalte das meninas às paredes das casas humildes. Mas a vida daquelas pessoas não tem absolutamente nada de cor-de-rosa. É uma vida dura, barra pesada, sem horizontes, sem saída, sem esperança.

Três garotas e uma barra pesada

Jéssica (Nanda Costa) mora com o avô, Horácio (Nelson Xavier), que tem uma pequena oficina de conserto de bicicletas. Tem 17 anos, e já é mãe de uma garota de uns dois anos, Britney. O pai da menina existe, chama-se Anderson (Sílvio Guindane), e ele divide com Jéssica o cuidado da criança; a mãe dele, no entanto, Dona Jandira (Zezé Barbosa), crente, não se dá nada bem com Jéssica, até porque ouve boatos de que a moça sai com homens.

E ela sai mesmo. Jéssica dá para quem pagar. Não é propriamente uma prostituta, não tem dedicação total – mas está bem perto. Um de seus melhores clientes será um Ricardo (M.V. Bill), um homem que está preso, e que providencia para ela uma certidão de casamento de modo a permitir visitas íntimas no presídio.

Daiane (Amanda Diniz) é a mais jovem das três amigas; no início da narrativa, está fazendo 14 anos. Mora com a tia, irmã da mãe, Socorro, e o marido dela, Peri (Daniel Dantas). O tio é tarado pela garota. A mãe sumiu quando ela tinha um ano de idade. O pai, Germano (Ângelo Antônio), mora ali perto, tem uma pequena oficial, mas não a reconhece como filha, diz que a mãe dela era louca e não tinha condições de saber quem era o pai.

Por acaso, Daiane acabará fazendo amizade com Dolores (Marieta Severo), dona de um pequeno salão de beleza, uma boa pessoa, coração grande. Eventualmente, Dolores vai aconselhar Daiane a prestar queixa contra o tio abusador.

Sabrina (Kika Freitas) foi expulsa de casa pela mãe. Trabalha como balconista numa lanchonete chinfrim de um chinês, mas acabará deixando o emprego. Num baile, fica conhecendo um bandido, Wesley (Guilherme Duarte), que se interessa por ela e a porá para viver num apartamento de razoável conforto.

São muitos os dias em que não há aula. E as garotas gostam disso

As três garotas estudam na mesma escola pública. Volta e meia ficam sem aula, professores em greve, professores faltando. Mas não reclamam disso – ao contrário, ficam felizes quando não há aula.

Não estudam, não se interessam por estudo, não se interessam em aprender algum ofício, alguma profissão. Estão condenadas a viver eternamente naquela vida de pobreza – em grande parte porque não há mesmo opção, é a miséria de país subdesenvolvido e de imensa injustiça social mesmo. Mas, em parte, também – e acho que o filme deixa isso muito claro, sem discursos, sem panfleto, mas deixa – por culpa delas próprias, por sua inapetência em tentar qualquer saída, a não ser um dinheirinho aqui e ali via sexo.

Uma diretora de grande talento. Que faça mais e mais filmes

Sonhos Roubados é o sexto filme da diretora Sandra Werneck. Em 1996, ela fez um documentário, Os Sete Sacramentos de Canudos. Em 1997, fez Pequeno Dicionário Amoroso, um pérola, um alento. Vieram depois Amores Possíveis, de 2001, Cazuza – O Tempo Não Pára, de 2004, e o documentário Meninas, de 2006. Não vi ainda este documentário, mas, de uma certa forma, ele deve ter servido de ensaio para este Sonhos Roubados: naquele filme anterior, Sandra Werneck mostrava o cotidiano de um grupo de adolescentes grávidas de uma favela carioca.

Um registro: para cantar a canção-tema composta para o filme (por João Nabuco, Antonio Villeroy e Eugênio Dale), que é apresentada no início e no fim da narrativa, como bookends, apoiadores de livros, como o círculo que se fecha, de volta ao começo, foi escolhida Maria Gadu. Uma feliz, belíssima escolha. A idade, a figura, a postura de Maria Gadu combinam perfeitamente com a geração das jovens protagonistas da história. Muito provavelmente, quando, daqui a algumas décadas, se for procurar o som, a trilha sonora do Brasil em 2009, 2010, Maria Gadu será lembrada. Mais uma bela sacada dos realizadores do filme.

Nanda Costa ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema do Rio, em 2009, em que o filme foi eleito o melhor pelo júri popular.

As três garotas estão muito bem, na minha opinião. A que mais me impressionou não foi a mais experiente, Nanda Costa, e sim a muito jovem Amanda Diniz. Espero que todas elas tenham outras boas oportunidades no futuro. Assim como espero que Sandra Werneck nos dê muitos outros belos filmes. É uma diretora de grande talento.

Sonhos Roubados

De Sandra Werneck, Brasil, 2009

Com Com Nanda Costa (Jéssica), Amanda Diniz (Daiane), Kika Farias (Sabrina), Marieta Severo (Dolores), Nelson Xavier (Seu Horácio), Daniel Dantas (Tio Peri), Lorena Da Silva (Tia Socorro), Ângelo Antônio (Seu Germano), M.V. Bill (Ricardo), Guilherme Duarte (Wesley), Silvio Guindane (Anderson) , Zezé Barbosa (Dona Jandira)

Roteiro Paulo Halm, Michelle Franz, Adriana Falcão, José Joffilly, Maurício O. Dias, Sandra Werneck

Baseado no livro As Meninas da Esquina – Diários de Sonhos, dores e aventuras de seis adolescentes do Brasil, de Eliane Trindade

Fotografia Walter Carvalho

Produção Sandra Werneck, Cineluz. DVD Europa Filmes.

Cor, 85 min

***

10 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 14 setembro 2011 às 9:17 pm | Permalink

    Aí, Sérgio, só pra vc não dizer que tenho preconceito contra filme brasileiro, este eu vou querer ver.
    Mas como sempre tem um “mas”, vou abaixar o volume quando a Maria Gadu começar a cantar. Não gosto dela, da voz, nem do estilo.

    A primeira foto lá em cima (não sei se é do pôster de divulgação ou da capa do DVD) é idêntica à capa do livro no qual o filme foi baseado. Por um momento até esqueci que este é um site sobre filmes e pensei que vc fosse falar sobre o livro.

  2. José Luís
    Postado em 15 setembro 2011 às 1:09 pm | Permalink

    É curioso mas penso que nunca vi um único filme brasileiro.
    Há um que tentei ver “A Cidade de Deus” que foi muito bem recebido aqui, mas desisti, não consigo perceber o que dizem os brasileiros, sempre tive essa dificuldade que se agravou com a idade e a consequente perda de capacidade auditiva.
    Só com legendas…

  3. Jussara
    Postado em 15 setembro 2011 às 8:56 pm | Permalink

    José Luís, tb tenho um pouco de dificuldade em entender o português de Portugal, preciso redobrar a atenção, é um pouco cansativo.

    No filme Cidade de Deus eles falam muito rápido e usam muitas gírias, talvez por isso vc não tenha conseguido entender.

  4. José Luís
    Postado em 15 setembro 2011 às 10:40 pm | Permalink

    É isso mesmo Jussara.
    Quando falam moderadamente e sem gíria eu percebo mais, mas assim é muito difícil e cansativo a perco logo a vontade de ver o filme até ao fim.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 16 setembro 2011 às 1:18 am | Permalink

    Pois eu digo a vocês, caros Jussara e José Luís: eu não tenho a menor vergonha. Para ver filmes portugueses (vejo menos do que gostaria) e brasileiros (acho que vejo menos do que deveria), aciono a teclinha de legendas. Os DVDs têm legendas. Por que não usá-las? Fica muito mais fácil.

  6. Sérgio Vaz
    Postado em 16 setembro 2011 às 1:16 pm | Permalink

    Caro José Luís,
    As legendas existem na maior parte dos DVDs lançados no Brasil – da mesma
    maneira como há legendas em português nos filmes americanos, ou europeus, ou
    de onde for, há também legendas em português nos filmes brasileiros. E
    também em portugueses que andei vendo.
    Claro, não são todos. E não sei como é aí em Portugal. Talvez o melhor
    fosse, numa locadora (essa instituição quase em extinção aí, conforme você
    já me falou), você pedir para verificar, num aparelho deles, se há legendas
    em português no filme que for de seu interesse, como “Cidade de Deus”, por
    exemplo.
    Mas, por exemplo, eu vi com legendas “Capitães de Abril” e “Dot.com”, dois
    bons filmes portugueses. Sem as legendas, teria sido bem mais difícil…
    Um abraço!
    Sérgio

  7. Jussara
    Postado em 18 novembro 2011 às 10:41 pm | Permalink

    Gostei bastante do filme.
    Concordo com vc que as meninas estão muito bem. A atriz que mais me impressionou tb foi a Amanda Diniz, perfeita numa atuação meio contida, assim como a personagem dela. Achei a Nanda Costa um pouco acima do tom, meio caricata.

    É uma triste realidade a dessas meninas. A maioria começa a vida sexual muito cedo, ainda criança, muitas são vítimas de abuso e exploração sexual. Várias são as causas, mas acho que a falta de uma família estruturada e de uma educação de base pesam bastante. E daí desviar pelo caminho mais curto e aparentemente mais fácil acaba sendo quase inevitável.

    Na verdade, acredito que todos somos um pouco responsáveis por essa situação, e isso também inclui o descaso do governo com a educação, que ao invés de atrair os jovens para a escola acaba por repelir.

    Gostei bastante das caracterizações das personagens e dos figurinos, dos pontos que o filme toca tão bem, como o exacerbado culto ao corpo em oposição ao estudo, as roupas extremamente curtas, o consumismo e a preocupação com o que para elas acaba sendo supérfluo, e que as levam muitas vezes a se prostituir ou cometer pequenos furtos para adquirir: um hidratante, um xampu, esmaltes, tinta pro cabelo, um dinheirinho para a chapinha e até para bobagens que evidenciam o lado ainda criança ou de quem cresceu queimando etapas: pirulito, bala, bolacha, refrigerante.

    Impressionante como a personagem da Amanda ficou com uma aparência bem mais velha depois que tingiu o cabelo de loiro (e hoje é bem comum que as meninas – de todas as classes – tinjam o cabelo cada vez mais cedo).

    O filme é bastante diferente do livro, mas não decepciona. Para quem quiser se aprofundar recomendo o livro. O documentário tb é bom, mas dá um foco maior na gravidez na adolescência (e acho que deveria ser passado em todas as escolas para as meninas verem que a vida real é bem diferente da novela).

  8. Sérgio Vaz
    Postado em 19 novembro 2011 às 2:57 pm | Permalink

    Jussara, caríssima, delícia de texto, maravilha de comentário. Melhor que o
    meu.
    E fico contente porque sei que foi por minha causa que você decidiu ver o
    filme.
    Um abraço.
    Sérgio

  9. Jussara
    Postado em 20 novembro 2011 às 8:28 pm | Permalink

    Obrigada pelo elogio, mas pro meu comentário ser melhor que o seu texto só se eu morrer e nascer de novo.
    É verdade, só vi o filme por sua causa e esqueci de falar, ainda bem que vc já sabia. hehe

  10. Willian
    Postado em 8 setembro 2015 às 1:56 am | Permalink

    Gostaria muito do nome de uma música, é na parte que Jéssica Dança com Ricardo no presídio se não me engano é na parte 41 :29

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