Sexo Sem Compromisso / No Strings Attached

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2011: Ninguém é de ferro, todo mundo tem direito a um descanso. A moça Natalie Portman, essa maravilha, esse portento, uma das melhores atrizes de sua geração, descansou dos papéis pesados, duros, nesta comedinha romântica bobinha como tantas, previsível como todas, só que mais previsível e bobinha ainda do que a maioria.

Natalie Portman foi a razão pela qual Mary pegou o filme na locadora num domingão, e, a rigor, a razão pela qual não desistimos de ver o filme aí com uns 15, 20 minutos, quando ele já havia mais do que demonstrado que é bobo, menor.

Bobo, menor – mas não propriamente idiota, não agressivamente ruim. Tem até algumas coisas boas, além de Natalie Portman.

Gostei, por exemplo, da primeira tomada, com o letreiro “15 anos atrás”. Uma sacadinha interessante: o normal seria o filme mostrar alguma coisa de hoje, e aí, em seguida, vir com “15 anos atrás”. Começar com o “15 anos atrás”, de cara, me pareceu esperto.

Numa comedinha romântica do cinemão comercial americano de hoje, até uma sacadinha esperta merece algum respeito. Um velho, calejado espectador tem que baixar um pouco suas exigências, se se dispuser a ver uma comedinha romântica do atual cinemão comercial de Hollywood. Não estamos mais nos anos 60, nem nos 50, e portanto muito, muito longe dos 40, ou dos 30.

Quinze anos atrás, o menino encontrou a menina num acampamento de férias. Estavam aí com uns 14, 15 anos. O menino estava meio deprê porque seus pais estavam se divorciando. A menina foi franca, disse a ele que não era do tipo que sabe consolar os outros. Ele perguntou se poderia passar a mão nela, ela disse peremptoriamente que não.

Novo letreiro: “Cinco anos atrás”. Cinco anos atrás, o rapaz reencontrou a moça numa daquelas festas de fraternidades de escolas americanas, em que há ferrenha disputa para ver quem fica mais bêbado e mais imbecil. Aí então eles já são Natalie Portman, no papel de Emma, e Ashton Kutcher, no papel de Adam.

Corta, novo letreiro: “Um ano atrás”. Emma e Adam se reencontram de novo, ela com um grupo de amigos, ele com a namorada, Vanessa (Ophelia Lovibond). Trocam números de telefone, da maneira que se faz hoje em dia (o filme é de 2010): Emma põe seu número no celular de Adam.

A namorada do herói o dispensa – e passa a namorar o pai dele

E aí chegamos ao hoje em dia. Adam, que trabalha em algo como auxiliar de produção num show de TV, vai visitar o pai, Alvin (o grande Kevin Kline, fazendo um papel grotesco; as pessoas precisam sobreviver, pagar o leite das crianças), um famosíssimo nome da TV. A relação de pai e filho, vê-se logo, não é nada boa. Alvin pergunta se Adam tem trepado, o filho diz que sim. O pai insiste, quer saber se ele está bem – afinal, argumenta, o namoro com Vanessa terminou faz um ano. Oito meses, retifica Adam.

E aí aparece Vanessa – a ex-namorada do filho está agora namorando o pai!

Adam sai da casa do pai enfurecido, profundamente deprê. Enche a cara com os amigos, diz que vai sair catando todas as moças que já conheceu na vida, cujos números estão em seu celular, até encontrar uma que dê para ele.

É a heroína que propõe o acordo: muito sexo, zero de compromisso

Acorda pelado, ressaqueado, com amnésia alcoólica, na sala de um apartamento, uma espécie de república, onde vivem Emma, duas amigas e um amigo, todos eles jovens médicos residentes.

Estamos aí com uns 15 minutos de filme, e então Emma e Adam trepam pela primeira vez.

Emma é quem propõe o acordo: vão fazer sexo, os dois, with no strings attached, como diz o título original, sexo sem compromisso, como diz o título brasileiro.

Seguem-se sequências rápidas de Emma e Adam fazendo sexo em tudo quanto é lugar e ocasião possíveis e imagináveis.

Essa coisa de sexo sem compromisso… grandes coisa

O filme passa a sensação de que esta é uma realidade nova, recente, moderníssima, de 2010 – o sexo sem compromisso, commitment, o sexo pelo sexo, no strings attached, sem envolvimento emocional qualquer.

O problema é que essa tal realidade nova, recente, moderníssima, que o filme mostra, é mais velha que andar pra frente. Ou talvez o problema seja que velhinhos calejados não devessem ver comedinhas românticas recentes do cinemão americano, porque tudo, tudo, tudo tem a maior sensação de profundo déjà-vu.

Quando o filme estava por aí com uns 20 minutos, e Adam e Emma trepavam em tudo quanto eram lugares e ocasiões possíveis e imagináveis, me lembrei de Sobre Ontem à Noite…/About Last Night…, que não vi na época do lançamento, 1986, e só vim a ver agora há pouco. Sobre Ontem à Noite…, lançado em 1986, era a filmagem da peça de David Mamet de 1974. A peça de 1974 e o filme de 1986 já mostravam exatamente essa mesma realidade que o filme de 2010 mostra dando a sensação de que esse troço de sexo sem compromisso é moderníssimo, fruto desta época de celulares e mensagens e torpedos.

Não é. É quase tão velho quanto andar pra frente.

Já se trepava sem compromisso – e pra cacete – nos velhos anos 1970, muito antes do iPhone e do Blackberry.

Essa coisa de no commitment já era velha 40 anos atrás.

OK, tá bom: cada geração acha que está reinventando a roda, e a ronda. Tá certo que em geral os 35 mil filmes que já falaram de no commitment, no strings attached, sem compromisso, referiam-se aos homens, esses animais porcos, chauvinistas, perdidos, mais perdidos ainda depois da revolução feminista. Eram os homens que não queriam saber de compromisso, nos 35 mil filmes que já falaram do assunto – e neste aqui quem não quer saber de commitment, strings attached, compromisso, afeto, conversa, namoro, é a moça.

Big deal, essa diferença. Ou, como a gente já dizia em Minas nos anos 60, com erro de concordância mas muita propriedade (e seguramente já se dizia no tempo do meu avô): grandes coisa.

Será que este filme bobo vai acabar sendo simbólico de sua época?

OK, digo de novo. Pode ser que daqui a 20 anos os que foram jovens nestes anos 2000 a 2010 revejam o filme e se reconheçam: pô, olha lá, era assim que nós éramos. Pode ser, pode ser – tudo, a rigor absolutamente tudo pode ser. Mas duvido muito que Sexo Sem Compromisso seja, daqui a 20 anos, tão simbólico, tão emblemático dos anos 2000 quanto, por exemplo, Sobre Ontem à Noite… (para não falar de uma dúzia de filmes de fato importantes) foi e é com relação aos anos 1970 e início dos 1980.

Duvido, mas pode ser. Pode ser, mas duvido. A vida muitas vezes é feita de adversativas.

Um senhor sexagenário não deveria estar fazendo filmes sobre adultos?

Como muitos filmes recentes, Sexo Sem Compromisso não tem créditos iniciais. Só depois do final do filme, nos créditos finais, fiquei sabendo que o diretor é Ivan Reitman. Não consegui conter uma exclamação: cacete, como o filho é melhor que o pai.

Ivan Reitman nunca foi um diretor de grandes filmes. Fez alguns filmes divertidos, interessantes, como Os Caça-Fantasmas/Ghostbusters, de 1984, e Dave – Presidente por um Dia/Dave, de 1993. Fez até um filme muito interessante, Perigosamente Juntos/Legal Eagles, de 1986.

Já seu filho, Jason, até agora só tem acertos, ótimos filmes – Obrigado por Fumar, Juno e Amor Sem Escalas.

Ivan Reitman é de 1946. Deveria, ou no mínimo poderia, estar fazendo filmes maduros, sobre pessoas e situações maduras. Pena que esteja, na casa dos 60, quase 70, falando de jovens – que repetem situações de muitos outros jovens antes deles.

Mas tudo bem, OK, digo, pela terceira vez: o cinemão comercial é cruel, exige que se façam filmes sobre os mais jovens. Então tá. Mas é esquisito, e triste, ver o jovem Jason falar de temas importantes como desemprego, os efeitos das crises econômicas, a incapacidade de pessoas maduras se relacionarem de forma madura com os outros, em um filme tão sério quanto Amor Sem Escalas, enquanto o velho Ivan se perde em bobagens como esta aqui.

Cada tomada em que aparece Natalie Portman é uma maravilha para os olhos

Mas eu disse lá no início da anotação que o filme tem coisas boas.

De fato tem.

Embora um tanto meio perdidas entre tantos clichês, tantas situações previsíveis e repetitivas (até os ácaros e as minhocas sabem no que vai dar a história de Adam e Emma, e através de que etapas), vão em Sexo Sem Compromisso algumas observações sobre a sociedade em que vivemos, a sociedade que criamos. O culto da aparência. A procura da aparência jovem. A tendência geral, uniforme, irrestrita do puxa-saquismo, da adoração de quem se deu bem na vida. A capacidade que algumas pessoas têm de ser calhordas.

Já é alguma coisa.

Natalie Portman é belíssima. Cada tomada em que Natalie Portman aparece é uma maravilha para os olhos. E é claro, é óbvio que qualquer pessoa gostaria de acabar o filme com Natalie Portman. Mas sua Emma é uma chata. Eu mesmo tive a maior simpatia foi por Lucy (Lake Bell), a mocinha sem graça e sem jeito perdidamente apaixonada por Adam, que faz tudo para ajudá-lo quando ele está down and out, fodido e mal pago.

Faz muitas décadas que aprendi que a beleza é uma maravilha, mas a inteligência é melhor. E a bondade, o bom caráter, é ainda melhor que a inteligência.

Mas, naturalmente, não se pode esperar uma ode à bondade e ao bom caráter numa comedinha romântica boba, menor, do cinemão de Hollywood dos anos 2000.

Sexo Sem Compromisso/No Strings Attached

De Ivan Reitman, EUA, 2010

Com Natalie Portman (Emma), Ashton Kutcher (Adam), Kevin Kline (Alvin), Cary Elwes (Dr. Metzner), Greta Gerwig (Patrice), Lake Bell (Lucy), Olivia Thirlby (Katie)

Roteiro Elizabeth Meriwether

Baseado em história de Mike Samonek Elizabeth Meriwether

Fotografia Rogier Stoffers

Música John Debney

Produção Paramount Pictures, Cold Spring Pictures, Spyglass Entertainment, Montecito Picture Company. Blu-ray e DVD Paramount.

Cor, 108 min

*1/2

4 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 13 novembro 2011 às 9:19 pm | Permalink

    Mais um da série “texto melhor que filme”.
    Eu não gosto do tipo de beleza do Sr. Demi Moore, meio perfeitinha. Não que ele seja feio, mas não é meu tipo. Um dos raros galãs por quem sempre babei foi o Tom Cruise (no auge de Top Gun, eu era adolescente e cheguei a ter pôster dele, quem não?) Ele tem algo mais além da beleza, coisa que o Ashton Kutcher não tem (peguei birra desse cara e nem sei o porquê).
    Concordo que inteligência é melhor que beleza, e acho até que a inteligência deixa os desprovidos de beleza mais bonitos, atraentes, interessantes. E claro, como vc bem disse a bondade e o bom caráter estão acima dela.
    Só espero que esse filme não seja o símbolo dos jovens desses anos 2000.

  2. eden
    Postado em 17 novembro 2011 às 2:24 am | Permalink

    Mas essa não é mesma história do filme com Justin Timbarlake e Mila Kunis?

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 18 novembro 2011 às 3:10 pm | Permalink

    Não vi esse filme com Justin Timberlake e Mila Kunis, “Amizade
    Colorida/Friends with Benefits”, mas, pela sinopse dele no IMDb, parece de
    fato que a trama é bem parecida com a deste “Sexo Sem Compromisso”.

  4. Danilo Vicente
    Postado em 19 novembro 2011 às 7:57 am | Permalink

    É realmente um filme para ver numa bela tarde sem outra opção. Divertidinho.

    Sergio, gosto também da Natalie Portman. Mas a moça já fez Zoolander, Marte Ataca! e, o mais recente, Thor, ou seja, tem uns filmes ruinzinhos no currículo. Claro, tem o outro lado, os ótimos. Mas que é estranho ver a Cisne Negro neste Sexo Sem Compromisso, ah, isso é.

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