Sangue de Pantera / Cat People

Nota: ★☆☆☆

Credo em cruz, como é ruim Sangue de Pantera/Cat People, um clássico famoso, respeitado, elogiadíssimo, feito por Jacques Tourneur na sua fase Hollywood, em 1942!

Não é que seja ruinzinho. É um horror, é pavoroso, é agressivamente, grotescamente, pateticamente ruim. Não há absolutamente nada nele que funcione, que tenha algo que remotamente lembre algum talento, alguma inteligência.

A história, a trama é ridícula, inacreditavelmente ilógica, sem pé nem cabeça. As situações são canhestras, daquelas de dar profunda vergonha no pobre espectador. Os diálogos são caricatos. Os atores estão pessimamente dirigidos.

Ed Wood, que passou para a história como o pior diretor de cinema do mundo, morreria de vergonha se seu nome fosse associado a esta monumental trolha.

E, no entanto, o filme é tido como um clássico. Mereceu loas e loas (em seguida vou transcrever algumas que certamente vou encontrar nos alfarrábios), deu origem a uma continuação, Maldição do Sangue de Pantera/The Curse of the Cat People, de 1944, com o mesmo trio central de atores, mas dirigido por Gunther von Fritsch e Robert Wise. E teria uma refilmagem nos anos 1980, com o mesmo título original, Cat People, no Brasil A Marca da Pantera. Vi essa refilmagem – dirigida por Paul Schrader, com a deslumbrante Nastassja Kinski no papel central – na época, e, fora a beleza da atriz, nada me impressionou muito.

Um spoiler? Ou seria chover no encharcado?

Claro, como a refilmagem é de 1982, exatamente a época em que o cinema partia para a explicitude total, a transformação da heroína em pantera é absolutamente explícita, enquanto no original ela não é mostrada.

Vixe – seria um spoiler dizer que heroína se transforma em pantera? Mas se o próprio título do filme já indica isso…

Será que o filme é bom mesmo e eu é que estava num dia ruim, e isso é que explicaria por que o achei tão absolutamente horrendo?

Pode ser, pode ser. Essas coisas acontecem com frequência. Assim como o santo da gente simplesmente às vezes não vai com o santo de outras pessoas, isso também acontece em relação aos filmes. Pode ser, pode ser. Mas devo dizer que tinha imensa curiosidade em ver o filme tão badalado; não tenho absolutamente nada contra Jacques Tourneur, ao contrário; e me sentei para ver o filme com a melhor boa vontade do mundo. E gosto muito dos filmes de horror dos anos 30 e 40.

Mas só com base na primeira seqüência já dava para ver que o filme é ruim.

A moça Irena (Simone Simon) está no zoológico, diante da jaula da pantera, com um grande bloco de papel de desenho à sua frente. Desenha um pouco, rasga uma folha, joga no chão. O rapaz Oliver (Kent Smith, na foto acima com Simone Simon) pega a folha, indica para a moça um cartaz que adverte contra a sujeira. Daí a pouco estão conversando, se apresentando, se conhecendo. Daí a dez minutos estão se casando – mas sem sexo, porque sexo e/ou ciúme, essas coisas fortes, poderiam despertar em Irena o sangue de pantera que ela carrega em suas veias originárias da Sérvia.

Essa simples descrição pode não indicar algo tão ruim – mas é tudo ruim demais. Toda a situação, os diálogos, é tudo forçado, artificial, falso – falso, falso como uma nota de três guaranis.

E ainda por cima a atriz central não tem qualquer tipo de graça ou charme

A história que a moça conta para o rapaz, sobre o Rei João da sua Sérvia natal – o rei que expulsa os maus da Sérvia… É tudo bobo, bocó, bocó demais.

E não adianta a argumentação de que a, a rigor, a rigor, as histórias de Drácula e Frankenstein são tão ilógicas quanto a do Rei João da Sérvia e o povo mau, povo de gato, que ele combateu. As histórias de Drácula e Frankenstein têm sua própria lógica interna, e, nessa lógica, tudo funciona. Já essa história aqui, não: ela não tem lógica alguma, não tem sentido, não se sustenta, é tudo falso e forçado.

A própria atriz que faz Irena, a sérvia, Simone Simon… A moça não tem atrativo nenhum, absolutamente nenhum. Não é bela, não tem presença forte, não sabe atuar, o papel é ridículo, os diálogos são falsos.

Entre Simone Simon e Jane Randolph, a atriz que faz Alice, a colega de trabalho de Oliver que causa ciúmes em Irena, não pode haver dúvida possível: Jane Randolph (na foto abaixo) dá de cem a zero. É mais bonita, tem mais presença, tem mais charme. Um caso exemplar de má escolha de atores.

A única coisa que Simone Simon tem que talvez justificasse sua escolha para fazer a sérvia é seu sotaquezinho francês. Bem, francês não tem nada a ver com sérvio, mas, para o público americano, sotaque estrangeiro é sotaque estrangeiro, e pronto.

O sotaquezinho francês de Simone Simon vem acompanhado de um leve tique em que o canto direito dos lábios dela vira para cima.

“A história e os elementos da trama não se seguram, mas…” Ah, bom…

Bem, chega de reclamar que nem mendigo na chuva. Vamos à chuva de loas a este grande clássico do filme de terror.

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4: “A história e elementos da trama não se seguram, mas momentos de choque e terror permanecem intocáveis no primeiro dos famosos filmes de horror do produtor Val Lewton. Smith se apaixona por mulher estranha, tímida (Simon) que teme a antiga maldição da pantera dentro de si.”

Pauline Kael, a grande dama da crítica americana:

“O psicanalista (Tom Conway) calmamente explica à sua paciente (Simone Simon) que sua idéia de que ela está se transformando num membro da família dos gatos é uma fantasia; ela o silencia. Val Lewton fez seu nome como produtor com este irônico filme de horror, produzido para a RKO com um orçamento minúsculo. Enquanto outros produtores de horror de orçamento B ainda estavam usando gorilas, casas assombradas e braços decepados do corpo, Lewton e o diretor, Jacques Tourneur, empregavam a sugestão, efeitos sonoros horripilantes, e inventivos ângulos de câmara, deixando tudo para a imagem cheia de medo do espectador. Os filmes de Lewton não são propriamente muito bons, mas são tão imaginativos que a maioria dos filmes de horror que outros produtores estavam criando nessa época, e a sua ingenuidade parecia praticamente revolucionária. Algumas seqüências, como a do medo na piscina, são, à sua própria maneira, clássicas. A atuação da maior parte do elenco não está à altura dos efeitos.”

As coisas sob a perspectiva histórica. Tá bom. Mas…

OK: Dame Pauline Kael pôs as coisas sob a perspectiva histórica, contextual, do momento. Isso é uma maravilha, isso é preciso ser feito. Eu mesmo quase sempre procuro fazer isso, e não fiz em relação a este filme aqui – só fiquei desencando com os piores adjetivos que me vinham à cabeça.

De fato, há bons ângulos de câmara. Há bom aproveitamento das sombras. Nada que o expressionismo alemão já não tivesse feito 20 anos antes, mas, sim, há bons ângulos, bom uso das sombras. Mas para mim uma pantera não é algo tão mais imaginativo como fonte de terror que um gorila, ou casas assombradas.

A sequência da piscina, sim, a sequência da piscina. De fato é bem feita. Bastante bem feita, aliás. O uso das sombras, o teto da piscina coberta refletindo sombras e luzes. Os ruídos. Sim, é uma bela sequência – embora completamente gratuita dentro da história. Não havia nada para justificar que Alice fosse dar um mergulho naquele momento. Mas tudo bem – deixando a lógica de lado, é uma bela sequência.

Só que o susto acaba ficando comprometido com a posição em que o diretor colocou a pobre Jane Rudolph-Alice no meio da piscina, sem poder ficar de pé, e então ela fica paralisada de susto mas ao mesmo tempo tendo que agitar braços e pernas, nadando feito cachorrinho, para não afundar. Não dá para o espectador se assustar, se ele está morrendo de vergonha do papelão que obrigaram a pobre atriz a fazer!

Mestre Jean Tulard também se seduziu pelas graças da felina que não quer saber de sexo porque o sexo – assim como o ciúme – poderia despertar a pantera que existia nela. Diz ele, no seu Guide des Films, sobre La Féline, como o filme se chamou na França:

“Admirável filme fantástico em que tudo é sugerido, pela falta de meios mas também por decisão voluntária, para mais amedrontar. A obra teve um enorme sucesso na época do lançamento e fortaleceria a RKO.”

Mestre Jean Tulard, Dame Pauline Kael, o contexto histórico, todos eles que me perdoem, mas para mim a verdade dos fatos é que Cat People não é um filme de horror: é um filme horroroso.

Anotação em setembro de 2011

Sangue de Pantera/Cat People

De Jacques Tourneur, EUA, 1942

Com Simone Simon (Irena Dubrovna Reed), Kent Smith (Oliver Reed), Tom Conway (Dr. Louis Judd), Jane Randolph (Alice Moore), Jack Holt (o Comodoro)

Roteiro DeWitt Bodeen

Fotografia Nicholas Musuraca

Música Roy Webb

Montagem Mark Robson

Produção Val Lewton, RKO.

P&B, 73 min

*

Título na França: La Féline. Título em Portugal: A Pantera

6 Comentários

  1. Carla
    Postado em 4 dezembro 2011 às 8:31 pm | Permalink

    Tsc, tsc. Discordo completamente.
    Ah, eu gosto da ‘sequencia da perseguição’ – Alice (Jane Randolph) seguida pelo Central Park, cena aliás muito criticada por Stephen King. Mas eu gostei. E gosto de Simone Simon.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 4 dezembro 2011 às 9:01 pm | Permalink

    Caríssima Carla, temos aí um saudável exercício da diferença de opiniões… E você está em ótima companhia, com o Tulard, a Pauline Kael.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. José Luís
    Postado em 5 dezembro 2011 às 3:03 pm | Permalink

    Nunca vi este filme mas li referências muito elogiosas.
    Vi a versão de Paul Schrader e nessa altura os críticos deram muita porrada neste último.
    Fico às aranhas com os srs. críticos.

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 6 dezembro 2011 às 12:37 pm | Permalink

    É, caríssimo José Luís, todas as referências são elogiosas. Existem casos assim, que eu não consigo compreender. Alguns filmes passam a ser intocáveis; todos os críticos fazem coro, ninguém ousa discordar. Alguns – como este aqui – são grandes blefes, imposturas.
    Um abraço.
    Sérgio

  5. Postado em 31 dezembro 2011 às 7:02 am | Permalink

    Pegando em suas próprias palavras, caro Sérgio, você só podia estar mesmo em dia ruim quando assistiu a esta pequena jóia do Tourneur.
    Mas compreendo que haja filmes assim, que por qualquer motivo – quase sempre obscuro e pouco racional – não nos despertam outro sentimento que não a da embirração mais básica. E compreendo porque eu próprio já tive casos assim, que posso resumir no título português daquele filme com o Sidney Poitier e a Lulu dos anos 60: “O ódio que gerou o amor” (“To Sir With Love”)
    Por isso deixe passar algum tempo e num dia não muito problemático volte a este filme. É capaz de nessa altura valer mesmo a pena a nova tentativa.
    Também gostei da versão dos anos 80, com a Kinski e o McDowell, mas claro, o grande clássico é mesmo este.
    Um bom ano de 2012

  6. jose osmir fiorelli
    Postado em 23 outubro 2013 às 3:30 pm | Permalink

    Prezado Sérgio! Este filme causou-me grande impacto pela cena da metamorfose. Já tinha visto metamorfoses de lobisomens, é claro, mas uma metamorfose sensual como aquela, foi a primeira. Realmente adorei a cena. Pena que os infelizes criaram uma sequência absurda, fazendo a pantera “desistir” de devorar o amante. A cena em que o mocinho devolve a mocinha ao mundo dos gatos também não me agradou; foi um finalzinho muito fraco. Contudo, ainda assim gostei do filme, sem elevá-lo à categoria dos “clássicos”. Cordial abraço.

Um Trackback

  1. […] a Neve Voltar a Cair, no original Days of Glory, que o francês Jacques Tourneur fez nos Estados Unidos em 1944, é um baita abacaxi azedo, uma porcaria. No entanto, tem, […]

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