Quatro Confissões / The Outrage

Nota: ★★★½

Quatro Confissões/The Outrage, feito em 1964 por Martin Ritt, é um filme excelente. Passa-se no Velho Oeste, mas não é propriamente um western. Fala de um crime brutal – uma mulher é estuprada diante do marido, que depois é morto –, mas não é um policial. Há um julgamento, mas não é um filme de tribunal.

É mais um estudo sobre o comportamento das pessoas, uma discussão séria sobre aparências e verdade, sobre como um único acontecimento pode ter diferentes versões, sobre a violência, sobre alguns dos piores instintos humanos, sobre a necessidade que temos de nos mostrarmos melhores do que na realidade somos.

É também um filme que desmente uma afirmação que volta e meio faço, nestas minhas anotações: a de que as refilmagens, as adaptações de outras obras são desnecessárias, ruins, descartáveis.

Quatro Confissões, como sabe muito bem quem conhece o filme, é a adaptação, para o ambiente do Oeste americano, de Rashomon, a obra-prima do mestre Akira Kurosawa.

A fotografia é assinado por um mestre, um mago, James Wong Howe

Obviamente, há pelo menos duas maneiras de se ver Quatro Confissões. A primeira seria fazendo as comparações com a obra original. A segunda seria tentar abstrair, não relacionar o filme com Rashomon – o que, na prática, na verdade, é absolutamente impossível. Eu mesmo quis rever Quatro Confissões apenas alguns dias depois de rever Rashomon. Mas vou tentar falar um pouco de Quatro Confissões sem remeter ao filme de Kurosawa. Até porque o filme de Martin Ritt tem existência própria, não depende de o espectador ter visto antes o do mestre japonês.

Quatro Confissões não tem créditos iniciais – vemos na tela apenas o nome do estúdio, a Metro-Goldwyn-Mayer, e o título original, The Outrage – o ultraje, e também o insulto, a violência, a atrocidade, a violação, o abuso. Todos os substantivos em português servem perfeitamente para o original inglês.

É um pequeno detalhe, este – a ausência de créditos iniciais com os nomes dos atores, dos principais profissionais da equipe –, e hoje em dia isso é absolutamente comum. Mas não era comum, de forma alguma, em 1964. E o fato é que quem vê o filme pela primeira vez, sem ter lido sobre ele, só depois do fim da narrativa ficará sabendo que a trilha sonora é de Alex North (1910-1991), um dos maiores compositores de trilhas do cinema americano, 15 indicações ao Oscar, e que o diretor de fotografia é James Wong Howe (1899-1976), um mestre, um mago, um dos mais talentosos e ousados de seu ramo, dois Oscars, outras oito indicações.

Wong Howe ganhou um Oscar por fotografia em cores – O Velho e o Mar, a adaptação do livro inadaptável para o cinema de Ernest Hemingway – e obteve uma indicação pelo colorido de Funny Lady, mas sua especialidade era mesmo o preto-e-branco, que ele começou a dominar como assistente de fotografia em 1919, oito anos antes de o cinema aprender a falar.

Na noite escura, tempestuosa, dois homens travam conversa triste, soturna

Há muito preto e bem pouco branco nas primeiras tomadas de Quatro Confissões. É noite profunda, tempestuosa, e o breu só quebrado de tempos em tempos pelos raios que cortam o céu. Uma pequena, micro, mínima estação de parada de trem num descampado que o espectador não consegue ver. Ali estão dois homens: um religioso, mais jovem, e um sujeito um tanto rude, mais velho. Vê-se que um é um padre, ou muito mais provavelmente um ministro de profissão protestante, por causa do colarinho branco sob a roupa negra. Não saberemos seus nomes; durante toda a ação, para o religioso será usada a palavra preacher, pregador; e o outro, veremos que é um garimpeiro, homem pobre, humilde.

O religioso (interpretado por William Shatner (à esquerda na foto acima), que teria a carreira marcada por sua interpretação do Capitão Kirk de Jornada nas Estrelas) está à espera de um trem para levá-lo embora daquele lugar; veremos que ele desistiu de exercer seu magistério ali, depois das coisas chocantes que ouviu durante um julgamento, pouco antes.

O garimpeiro (Howard da Silva, no meio na foto acima, coadjuvante em 80 filmes, no papel talvez mais marcante de sua longa carreira) também esteve no julgamento. Na verdade, os dois foram ouvidos pelo juiz.

Conversam, uma conversa triste, soturna. O garimpeiro gostaria que o religioso não fosse embora daquele lugar, não desistisse de sua missão.

A conversa faz acordar um outro tipo que dormitava na pequena estação à beira da estrada de ferro, um salafrário, pequeno bandido, jogador de cartas, aplicador de golpes – interpretado, maravilhosamente, pelo grande Edward G. Robinson.

O golpista se dirige aos dois reclamando, falando palavrões. O garimpeiro manda ele maneirar com a linguagem – aquele homem é um pregador. Ao que o golpista responde:

– “Pregador, é? Não pode ser. Ele me acordou. Os pregadores me dão sono.”

A versão do bandido, depois a da mulher, depois a do morto. E a do garimpeiro que viu tudo

Ao saber que os dois haviam testemunhado em um julgamento, o golpista – um fazedor de frases de brilho e impacto –, interessado, curioso, vai tentar extrair deles a história, os detalhes sobre o crime.

Um homem havia sido morto, uma mulher fora estuprada. Um bandido conhecidíssimo em toda a região, um mexicano sujo, insolente, orgulhoso de sua maldade, sua violência, chamado Carrasco, havia sido preso, acusado dos crimes.

O religioso havia avistado o casal, pouco antes que os crimes fossem cometidos. O garimpeiro havia visto parte do que acontecera quando o casal se encontrara com Carrasco.

O espectador verá, então, a versão de Carrasco (interpretado por Paul Newman) para os fatos.

Depois verá a versão da mulher (interpretada, magnificamente, por Claire Bloom, belíssima aos 33 anos então, 116 filmes no currículo hoje, desde Luzes da Ribalta, de Chaplin, de 1952, até o recente O Discurso do Rei).

Depois verá a versão do homem agora morto, um coronel sulista que perdeu tudo durante a Guerra Civil e estava indo para o Oeste com a mulher para tentar recomeçar a vida (interpretado por Laurence Harvey). Pouco antes de morrer, ele havia contado os fatos a um índio, que seria então testemunha no julgamento de Carrasco.

Três versões sobre um mesmo fato – algumas coisas em comum, outras absolutamente diferentes a cada nova versão.

Para, finalmente, haver a quarta versão – a do próprio garimpeiro, que observara tudo, mas não tivera coragem de contar a verdade ao juiz.

Uma narrativa muito longe de qualquer “realismo”. E atuações soberbas

Não é um tipo de narrativa “realista”, “naturalista”. Não pretende ser, e está muito longe de ser. É um tanto “teatral”, em especial nas sequências passadas na estação de trem. A colocação dos três atores, o enquadramento de seus rostos, é tudo cuidadosamente medido, estudado. Tem o tom um tanto solene. Faz lembrar um tanto a tragédia grega, um tanto os dramas shakespearianos. Não, não é, absolutamente, uma narrativa “naturalista” – e isso eventualmente poderá causar estranheza para alguns espectadores.

Mas é tudo belíssimo, denso, sério, pesado – brilhante.

A escolha de Paul Newman (que trabalhou várias vezes com o diretor Martin Ritt) para o papel do bandido mexicano pode também causar espanto. E Carrasco – na voz daquele ator magnifico, bem formado no Actors Studio – fala o tempo todo num espanglês macarrônico, misturando as duas línguas em cada frase.

O papel – que, no filme original, coube a Toshiro Mifune, o ator japonês mais conhecido no Ocidente – é difícil, muito difícil. Mas, na minha opinião, é uma grande interpretação de Paul Newman. Como são grandes, aliás, todas as interpretações dos poucos atores que aparecem na tela.

William Shatner está bem; faz um religioso contido, de poucos gestos, amargurado, dobrado sob o peso de tanto pecado testemunhado, ouvido, recontado.

Howard da Silva enfrenta Edward G. Robinson de igual para igual, embora o papel deste último – sujeito falante, fraseur, um bandido filósofo, fascinante, cheio de tiradas inteligentes – dê mais espaço para que ele roube todas as cenas em que aparece.

O inglês Laurence Harvey é um grande acerto de casting – tem o tipo físico perfeito para fazer o sujeito de família nobre, distinta, rica, um cavaleiro do Sul, um coronel confederado cheio de empáfia e orgulho mesmo depois de perder tudo na vida.

E Claire Bloom está magnífica no papel que talvez seja ainda mais difícil que o do bandido violento, estuprador. Ela é a que mais muda de personalidade em cada um dos quatro relatos da mesma realidade – e soube se adaptar bem a todas as diferentes facetas que exibe ao longo do filme.

Belas sacadas na passagem dos personagens originais para a realidade americana

Nos créditos finais, dá-se o devido registro: “Baseado no filme Rashomon de Akira Kurosawa, a partir de histórias de Ryunosuke Akutagawa, e na peça Rashomon, de Fay e Michael Kanin”.

Disso eu nunca soube, até rever agora o filme. Então o casal Fay e Michael Kanin criou primeiro uma peça teatral a partir do clássico de Kurosawa. E depois Michael Kanin a adaptou para o roteiro do filme que Martin Ritt dirigiria.

Não é fácil fazer comparações entre Rashomon e esta sua refilmagem. Eu, pelo menos, não me sinto em condições de fazer comparações. Mas acho que foi uma bela adaptação – ao mesmo tempo fiel ao espírito do filme original, e também com algumas pequenas diferenças para ser melhor compreendida pelo público ocidental. Por exemplo: me pareceu uma bela sacada transformar o que no filme japonês é um médium, que conversa com o morto, por um índio que ouviu do moribundo um relato dos fatos. Assim como foi uma bela idéia transformar o samurai em um rico fazendeiro sulista, agora sem suas posses mas mantendo a pose.

E a transformação da esposa nobre do samurai numa mulher humilde, filha de empregados, que ascendeu socialmente ao casar com o patrão rico, não faz perder nada do original, e ainda acrescenta campo para a discussão do abismo entre as classes sociais.

De resto, o bandido do Oeste selvagem é tão bandido e tão repugnante quanto o japonês da Idade Média, e a figura do religioso na refilmagem é bem próxima da do religioso no original. Também o homem do povo (aqui o garimpeiro) e o bandidinho safado, o golpista, mantiveram um perfil bem semelhante ao da obra-prima de Kurosawa.

Diálogos maravilhosos – frases seriíssimas e tiradas sarcásticas

Há diálogos maravilhosos em Quatro Confissões. Frases marcantes, pesadas, sérias, dolorosas sobre, em suma, a condição humana – que o autor e roteirista Michael Kanin tempera com as tiradas sarcásticas, agressivas, do golpista.

No início da narrativa, o religioso observa a chuva, e diz: – “Posso compreender uma tempestade. É uma coisa natural, que não foi feita para machuchar ninguém. Mas a violência dos homens, sua crueldade, sua selvageria… contra os outros… contra si próprios…”

Me parece uma adaptação fiel à sensação de transmite uma frase do original japonês:

“A vida realmente é delicada e passageira, como o orvalho da manhã.”

Ousaria dizer que mestre Kurosawa deve ter gostado do que os americanos criaram a partir de sua obra-prima.

Anotação em setembro de 2011

Quatro Confissões/The Outrage

De Martin Ritt, EUA, 1964

Com Paul Newman (Carrasco), Laurence Harvey (marido), Claire Bloom (mulher), Edward G. Robinson (golpista), William Shatner (religioso), Howard Da Silva (garimpeiro)

Roteiro Michael Kanin

Baseado no filme Rashomon, de Akira Kurosawa, por sua vez baseado em histórias de Ryunosuke Akutagawa, e na peça Rashomon, de Fay Kanin e Michael Kanin

Fotografia James Wong Howe

Música Alex North

Montagem Frank Santillo

Produção Metro-Goldwyn-Mayer.

P&B, 97 min

R, ***1/2

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 14 dezembro 2011 às 3:31 pm | Permalink

    Não sabia da existência deste filme.
    O nome de Martin Ritt não me é estranho mas penso que só um filme dele, conforme estive a conferir na IMDb: “O Espião que Veio do Frio” e de que gostei muito.
    Gosto muito de romances e filmes de espionagem, os antigos, quando havia a guerra-fria.
    E John le Carré dava cartas.

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  1. […] nove indicações ao Oscar, duas vitórias, 14 prêmios no total, The Hustler ajudou a consolidar Paul Newman como grande astro, e virou cult para muita gente que não conhece nenhum outro tipo de cult movie. […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Valerie em 5 Abril 2012 às 4:48 pm

    […] que o mestre Akira Kurosawa dirigiu em 1950, e que seria adaptado nos Estados Unidos, no western Quatro Confissões/The Outrage, em 1964. Este Valerie foi feito sete anos depois de Rashomon, e sete anos antes de Quatro […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Rachel, Rachel em 24 julho 2014 às 2:17 am

    […] poucos exemplos, o revolucionário Emiliano Zapata em Viva Zapata!, o criminoso Juan Carrasco em Quatro Confissões/The Outrage, o renegado John Russell em Hombre, o prisioneiro rebelde Luke em Rebeldia Indomável/Cold Hand […]

  4. […] não existem, e então refilmaram, 14 anos depois, em 1964, a história original de Rashomon como Quatro Confissões/The Outrage. Há algumas refilmagens que são grandes filmes, e The Outrage é uma […]

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