Os Sapatinhos Vermelhos / The Red Shoes

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Os Sapatinhos Vermelhos é um dos maiores clássicos do cinema inglês, um filme respeitadíssimo – e extremamente respeitável. Feito em 1948 pela dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, tem um visual deslumbrante, e números de dança esplendorosos, avançadíssimos, muito à frente do seu tempo.

Inspira-se num conto de Hans Christian Andersen, e tem, propositadamente, um tom estilizado, de um conto de fadas para adultos. O estilo de interpretação dos atores – teatral no pior sentido do termo, exagerado – pode assustar as platéias de hoje. Confesso que me assustou um pouco, eu, que vejo clássicos há meio século.

É um musical sobre balé e música, sobre o mundo dos bailarinos clássicos e compositores – e é absolutamente fantástico que seja uma criação da dupla Powell-Pressburger, responsável por diversos filmes absolutamente realistas, diversos dele sobre guerra, a Segunda Guerra Mundial que havia terminado apenas três anos antes.

Jovens fanáticos por música erudita como se fosse um show de rock

Quando a ação começa, dois guardas fortes estão segurando as portas da Royal Opera House, junto do Covent Garden, em Londres. Na hora em que finalmente as portas são abertas, uma multidão compacta, irrequieta e barulhenta de jovens sobe as escadas correndo e em um minuto ocupam todos os assentos do balcão – os mais baratos. Parecem jovens entrando num estádio para ver um show de rock, que naquela época ainda existia. Vão ouvir música erudita, ver um balé.

Na primeira fileira do balcão senta-se Julian Craster (Marius Goring), estudante de música na Academia, um fã apaixonado do professor Palmer (Austin Trevor), autor da música que será apresentada naquela noite.

Num dos elegantes camarotes estão Lady Neston, a condessa de Neston (Irene Browne), e sua sobrinha e protegida, Victoria Page (Moira Shearer). Enquanto a plateia aguarda o início da apresentação, Lady Neston manda um cartãozinho para o professor Palmer, convidando-o para uma recepção íntima que ela dará para uns poucos amigos mais tarde, e pedindo a ele que leve também Boris Lermontov (Anton Walbrook). Lermontov está sentado ao lado do professor Palmer em seu camarim. É o dono da companhia de dança que irá se apresentar ao som da música de Palmer, um dos mais respeitados e admirados grupos de balé da Europa.

Craster, o estudante de música, perceberá, entre furioso e frustrado, decepcionado, que a peça assinada por seu bem amado professor Palmer, que terá naquele momento sua primeira apresentação, não passa do plágio de uma composição dele próprio, Craster.

Para, como se diz, make a long story short, ou apertar um pouquinho a tecla de avanço rápido para que esta anotação não fique longa demais, teremos que, com uns 20 minutos de filme, o jovem e pobre Craster estará trabalhando na companhia de Lermontov, como compositor – e vai se revelar, ao longo da história, um compositor de grande talento. E a jovem riquíssima Victoria também será contratada por Lermontov, como bailaria – e, assim como Craster, vai demonstrar talento de sobra.

Um triângulo amoroso num meio de imensos egos

Lermontov é carismático, certeiro em suas escolhas, um competentíssimo administrador. Administra sua companhia de forma absolutamente tirânica.

Um patrão egocêntrico, tirânico. Um jovem compositor de talento. Uma jovem bailarina de talento. Os dois homens vão se apaixonar pela bela Victoria.

Para que Victoria brilhe como prima ballerina, Lermontov encomenda a Craster a música para um balé inspirado na história de Andersen, Os Sapatinhos Vermelhos. Na história do autor dinamarquês, uma vez calçada com os sapatinhos vermelhos mágicos, a bailarina não poderá nunca mais parar de dançar.

Lá pela metade do filme, há a apresentação do novo balé da companhia Lermontov, com música composta por Craster e estrelada pela jovem Victoria Page.

(A música é de Brian Easdale, executada pela The Royal Philharmonic Orchestra, sob a regência de Sir Thomas Beecham. A coreografia é de Robert Helpmann. E Moira Shearer, naturalmente, não tem dublê – a prima ballerina é ela mesma.)

É uma sequência longa, que dura 14 minutos – e arrebatadoramente bela, moderna, arrojada. É um absoluto deslumbre.

A fotografia – as cores são todas vibrantes, fortes, fortíssimas – é do grande Jack Cardiff, que seria mais tarde diretor de seus próprios filmes.

Me ocorreu, ao ver essa seqüência extraordinária, que aqueles dois ingleses, Michael Powell e Emeric Pressburger, devem ter virado um para o outro e feito para si mesmos o desafio: vamos fazer um musical com números de dança mais ousados, mais deslumbrantes que tudo que aqueles americanos já fizeram.

Pois conseguiram, os filhos da mãe.

Um final que me decepcionou, que me pareceu um tanto machista

O final do filme me decepcionou bastante. Me pareceu reducionista, bobo, antiquado – enquanto o filme é todo moderno, avançado, para a época em que foi feito – e até um tanto machista.

Mas isso é um detalhe, uma bobagem. Este é um filme que os pais deveriam mostrar para os filhos. Olha aí, meninada, vamos ver um musical inglês antigo, um conto de fadas com dança. As coisas eram assim, antigamente, no tempo de seus avós. Sabiam vocês, garotos, que o mundo começou antes de vocês nascerem?

Uma prima ballerina que brilhou pouco no cinema

Foi o primeiro dos únicos sete filmes estrelado por Moira Shearer. O segundo, Os Contos de Hoffmann, de 1951, também foi dirigido pela dupla Powell-Pressburger. Moira nasceu em 1926, na Escócia – estava, portanto, na flor dos 22 aninhos quando fez a Victoria Page de Os Sapatinhos Vermelhos. Estreou como bailarina em 1941; entre 1942 e 1952, dançou como prima ballerina em praticamente todos os grandes balés clássicos existentes. O cinema foi apenas uma segunda profissão – Moira Shearer sempre foi mesmo uma bailarina. Morreu em 2006, em Oxford.

Sobre o diretor Michael Powell, os franceses Raymond Lefèvbre e Roland Lacourbe escreveram, num livro chamado Trente Ans de Cinéma Britannique: “O cinema é uma arte que, por vezes através e com ajuda de seus impactos puramente físicos, consegue atingir o coração e depois o espírito. Mas essa performance é rara. Michael Powell é um dos dois ou três grandes cineastas que conseguiram esse milagre”.

Pauline Kael não gostou do filme. Diz ela: “O mais ‘criativo’ e elaborado musical de bastidores já filmado que muitos chamam de clássico. (…) Lacrimoso e pretensioso, afeta algumas pessoas passionalmente, e não há como negar que é de certa forma um clássico. Escrito, produzido e dirigido por Michael Powell e Emeric Pressburger – mestres fabricantes de alto kitsch.” (O itálico do passionalmente é dela, e não meu, é claro.)

Leonard Maltin adorou, deu 4 estrelas, cotação máxima: “Um conto de fadas soberbo, estilizado. Jovem bailarina fica dividida entre dois homens criativos e possessivos, um compositor e o outro um autocrático empresário de dança. Um marco do cinema por sua integração de dança e trama, e um favorito perene dos amantes do balé. A trilha sonora de Brian Easdale e a direção de arte de Hein Heckroth e Arthur Lawson ganharam Oscars, e a fotografia de Jack Cardiff deveria ter ganho. Shearer é exquisite em sua estréia cinematográfica.” Exquisite, claro, é um monte de coisas: excelente, refinado, requintado, apurado, primoroso.

O Cinebooks’ também dá cotação máxima, 5 estrelas. Diz o seguinte: “Você não precisa ser um amante de balé para gostar de The Red Shoes, embora o balé seja parte integral do filme. Filmes como The Turning Point (1977, no Brasil Momento de Decisão) fornecem um olhar muito mais realístico às pirouettes e plies, e The Red Shoes é na verdade uma história de amor nos bastidores que, de muitas maneiras, é muito similitar a qualquer dos muitos musicais da Warner Bros. dos anos 1930. No entanto, o filme é cheio de uma dança tão gloriosa e atuações tão excelentes que essa semelhança termina depressa.”

Gosto mais do que diz o guia de Maltin que a avaliação do Cinebooks’. Não vejo semelhanças com os musicais americanos dos anos 30, mas tudo bem.

Visto hoje pela primeira vez, Os Sapatinhos Vermelhos pode assustar, causar estranhamento. Sim, é um filme datado. Os mais jovens em geral não sabem disso, mas o mundo começou antes que eles nascessem. Já houve outros estilos no cinema, antes da bobajada que o cinemão comercial mainstream joga em cima de nossas cabeças.

Os Sapatinhos Vermelhos/The Red Shoes

De Michael Powell e Emeric Pressburger, Inglaterra, 1948

Com Anton Walbrook (Boris Lermontov), Moira Shearer (Victoria Page), Marius Goring (Julian Craster), Leonide Massine (Grischa Ljubov), Robert Helpmann (Ivan Boleslawsky), Albert Basserman (Sergei Ratov), Edmond Knight (Livy), Ludmilla Tcherina (Irina Boronskaja), Irene Browne (Lady Neston), Austin Trevor (Professor Palmer)

Roteiro Michael Powell, Emeric Pressburger, Keith Winter

Fotografia Jack Cardiff

Música Brian Easdale

Diretor musical Sir Thomas Beecham

Montagem Reginald Mills

Coreografia Robert Helpmann

Figurinos Hein Heckroth

Cor, 133 min

Produção The Archers, J. Arthur Rank, Michael Powell, Emeric Pressburger.

***1/2

4 Comentários

  1. Postado em 4 julho 2011 às 5:44 pm | Permalink

    Olá Sérgio, bem vindo das tuas (curtas) férias. Um dia destes também o Rato vai de abalada mas por um período bastante maior.
    Quanto a estes “Red Shoes” é dos tais que a cada revisão melhor sabem. E se calhar é mesmo por ser um filme datado. Porque isso não é ruim. é antes uma bela oportunidade para nós podermos voltar a viver aqueles tempos do passado. Aliás, eu faço isso constantemente, quer através do cinema quer através da música. Sou tão fanático dessas “viagens temporais” que muitas vezes vou ao meu livrinho de apontamentos verificar que filme estava vendo num certo dia mas há algumas décadas atrás. Depois é só ir à prateleira buscar o respectivo DVD e enfiá-lo na “máquina do tempo”.
    Dei também a cotação máxima aos “Red Shoes”. Pode conferir o meu comentário AQUI

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 5 julho 2011 às 4:28 pm | Permalink

    Olá, Rato! Parabéns. Seu texto sobre Os Sapatinhos Vermelhos é excelente, repleto de
    informações. Dá de 200 mil a zero no meu. Tentei colocar lá um comentário
    mas não consegui – o programa não aceitou minha senha.
    Acho que o link que você passou ai acima não está correto. Encontrei o texto no endereço http://ratocine.blogspot.com/2010/12/red-shoes-1948.html .
    Quem vir o filme e eventualmente chegar a esta minha página deveria lê-lo.
    Sérgio

  3. Luciana
    Postado em 8 julho 2011 às 10:54 pm | Permalink

    Eu considero soberbo o termo adequado. Quando vi o incensado Cisne Negro só pensei; rá, sapatinhos vermelhos é tão melhor…também tinha escrito um post sobre o filme (claro que não tão bom quanto o seu ou o do link acima mencionado). De qualquer forma, sapatinhos vermelhos é daqueles filmes que moldou meu olhar.

  4. Ivan
    Postado em 24 setembro 2012 às 4:48 pm | Permalink

    Acabei de assistir no canal TCM da Net. De início,eu relutei,pois não sou muito fã de musicais mas,como diz numa sinopse,”é um filme marcante que desde seu lançamento,tem influenciado vários cineastas”.E,depois que vi,concluí não ser apenas um musical,também é
    acima de tudo,um romance muito bonito,uma linda história de amor.
    Aquela sequência da apresentação do novo balé da Cia, como dizes,Sergio,Um brilho.
    Da mesma forma que tu,também não gostei do final, não precisava ser daquela forma mas, como dizes,foi um mero detalhe.
    Um grande filme !!!!!!!!

Um Trackback

  1. […] 50 anos de cinema: http://50anosdefilmes.com.br/2011/os-sapatinhos-vermelhos-the-red-shoes/ […]

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