O Vencedor / The Fighter

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: O Vencedor/The Fighter, sete indicações ao Oscar de 2011, vencedor de duas estatuetas e de mais 36 prêmios, fora 45 outras indicações, é sem dúvida um ótimo filme, feito com extrema competência. Mas é também, na minha opinião, um filme cansativo. Depois de vê-lo, me sentia exausto, quase como se tivesse levado uma surra de Micky Ward, o protagonista, o vencedor do título, interpretado por Mark Wahlberg.

A câmara do diretor David O. Russell é nervosa, muy nerviosa, parece estar permanentemente à beira de um ataque de nervos. Parece querer transmitir um senso de urgência, de realidade que está sendo captada naquele momento, como uma reportagem de TV no meio de uma briga, um tumulto. Anda entre os personagens carregada nas mãos, treme – e avança para cima deles, em big-close-ups. Os rostos dos personagens enchem a tela, parecem querer invadir o ambiente em que está o pobre espectador.

Para aumentar esse senso de urgência, essa proximidade de um ataque de nervos, a narrativa começa mostrando uma equipe de TV – da HBO, precisamente – fazendo um documentário sobre a vida de Dicky Eklund (o personagem de Christian Bale, à esquerda na foto abaixo). Então temos a câmara nervosa do diretor David O. Russell perseguindo os personagens do documentário que está sendo filmado pela HBO, e perseguindo igualmente os camaramen da emissora de TV.

E, para piorar ainda mais a sensação de sofreguidão, o tal Dicky Eklund não pára quieto um momento sequer. É um sujeito agitado, agitadíssimo, faz caretas, fala aos borbotões, pula, faz outra careta, dá outro pulo, parece ter o que antigamente se chamava de doença-de-São-Guido.

E, como se não bastasse tanta agitação, tanta câmara nervosa, temos ainda que a família de Dicky Eklund e seu meio-irmão Micky Ward é uma zorra – mamãe Alice Ward (Melissa Leo, uns 20 quilos mais magra do que no filme anterior que vi dela, Rio Congelado/Frozen River, de 2008) teve nada menos que nove filhos, de vários maridos diferentes. Além dos dois homens, Dicky e Micky, há sete mulheres, e todas falam muito, e muito alto, e ao mesmo tempo, e gesticulam muito.

Um tour-de-force.

Um tour de canseira.

Um boxeador que enfrenta duras batalhas com a família

Trata-se de uma história real. Dicky Eklund, nascido em 1957, num bairro pobre de Lowell, Massachusetts, teve momentos gloriosos no boxe, que lhe garantiram o apelido de O Orgulho de Lowell. Foi campeão da Nova Inglaterra e, no seu momento culminante, em uma arena em Boston, em 1978, chegou a derrubar e derrotar Sugar Ray Leonard, uma lenda do boxe mundial. Como tantos outros atletas que vieram de famílias pobres, humildes, e atingiram a glória, depois do cume teve seu nadir; afundou-se no crack e na vida, cometeu pequenos crimes, foi preso.

Antes de ir para a cadeia, foi o mentor e treinador de seu irmão Micky Ward, oito anos mais novo – Micky nasceu em 1965.

O filme mostra como Micky, treinado por Dicky e com a carreira dirigida pela mãe Alice, ia de mal a pior. Depois de várias derrotas, lutas contra adversários mal escolhidos, Micky consegue sair da tutela da família. Sob a influência de uma namorada de personalidade forte, Charlene (interpretada por Amy Adams, essa belezinha de atriz), sua carreira finalmente engrena.

Conseguir se tornar independente do irmão e da mãe, no entanto, vai se mostrar uma luta árdua, dificílima – bem pior do que as que enfrenta nos ringues.

Bons atores em grandes atuações

Todas as atuações dos atores são primorosas. São exageradas, são over do over, como o próprio ritmo do filme, como a inquietude da câmara – mas são excelentes. Mark Wahlberg e Amy Adams estão muito, muito bem, mas Christian Bale e Melissa Leo (ela está ao centro na foto ao lado), até porque representam os personagens que são mais over do que todos os demais, roubam o show. Estão extraordinários.

Os dois, Christian Bale e Melissa Leo, levaram os Oscars de ator e atriz coadjuvantes. As demais cinco categorias em que o filme conseguiu a indicação para o prêmio da Academia foram filme, direção, roteiro original, atriz coadjuvante para Amy Adams e montagem, para Pamela Martin.

Mark Wahlberg batalhou anos para levar a história às telas

A história do filme, de como ele foi feito, é fascinante, pelo que vejo na internet. Aparentemente, o grande lutador para que o projeto de filmar a história dos irmãos Dicky e Micky foi Mark Wahlberg, que começou a treinar para o papel do mais jovem dos irmãos boxeadores em 2005. Mas o projeto não saía do papel, porque os grandes estúdios não aceitaram fazer o filme. O roteiro acabou indo parar nas mãos do produtor Ryan Kavanaugh, que mandou que a trama fosse reescrita para se tornar mais acessível às grandes audiências. O próprio produtor conseguiu amealhar os US$ 25 milhões do orçamento, e as filmagens finalmente começaram em julho de 2009.

Segundo o IMDb, até que o filme começasse a ser feito, vários nomes foram procurados. O projeto foi oferecido a Martin Scorcese – o autor de um dos mais elogiados filmes sobre boxe já feitos, Touro Indomável/Raging Bull, de 1980, com Robert DeNiro –, mas o grande cineasta recusou. Matt Damon e Brad Pitt foram procurados para interpretar Dicky, mas o papel acabaria ficando com o galês Christian Bale, revelado por Steven Spielberg em Império do Sol, de 1987, e que se tornaria grande astro como o Bruce Wayne/Batman de Christopher Nolan, em Batman Begins, de 2005, e Batman – O Cavaleiro das Trevas, de 2008.

O filme estreou nos Estados Unidos nos últimos dias da corrida para o Oscar, em 10 de dezembro de 2010. E aí vieram as sete indicações ao prêmio da Academia, e o sucesso na bilheteria: O Vencedor faturou US$ 93 milhões nos EUA, US$ 35 milhões fora, US$ 129 milhões no total. Os grandes estúdios de Hollywood às vezes provam que são incompetentes até quando escolhem não fazer um filme.

O Vencedor/The Fighter

De David O. Russell, EUA, 2010

Com Mark Wahlberg (Micky Ward), Christian Bale (Dicky Eklund), Amy Adams (Charlene Fleming), Melissa Leo (Alice Ward), Mickey O’Keefe (ele mesmo), Jack McGee (George Ward)

Roteiro Scott Silver e Paul Tamasy & Eric Johnson

Fotografia Hoyte Van Hoytema

Música Michael Brook

Montagem Pamela Martin

Produção Closest to the Hole Productions, Fighter, Mandeville Films, Relativity Media, The Weinstein Company. Blu-ray e DVD Imagem Filmes.

Cor, 116 min

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