O Último Vôo / Le Dernier Vol

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Toda a ação de O Último Vôo se passa no deserto do Saara– e a sensação é de que o filme foi de fato filmado lá. O diretor Karim Dridi carrega o espectador para o deserto: há tomadas de uma beleza extraordinária – e, no final, o filme, os dois personagens centrais e o espectador mergulham num clima angustiante, exasperante.

O filme começa com algo que parece um reexame dos pecados do colonialismo europeu na África, aqui especificamente o francês: estamos em 1933, e vemos, no início da narrativa, as posições antagônicas de dois oficiais franceses de uma guarnição no Ténéré. O capitão Vincent (Guillaume Marquet), o comandante da guarnição, chegou da França faz pouco tempo; é um oficial de carreira, cheio de convicções, certezas, um imenso orgulho do poder imperial de seu país, que domina tamanho espaço do território africano. Tem a absoluta certeza de que seu dever, como comandante de um posto militar do colonizador, é exatamente colonizar, impor sobre aqueles seres selvagens, os tuaregues, os habitantes do Ténéré, os valores de sua civilização superior.

O tenente Antoine (o ótimo Guillaume Canet, ator e também diretor de talento) é o exato oposto do capitão Vincent, em tudo por tudo. Vem de classe social mais humilde, enquanto o outro vem de família rica (isso não é dito explicitamente, mas fica claríssimo); entrou para o exército aos 17 anos, durante a guerra, a Primeira, de 1914-1918, e não saiu mais – mas quis sair da França. Está no deserto há muito tempo, fala a língua dos tuaregues, conhece seus costumes, é amigo deles – e é amante da filha de um dos líderes tribais.

Um oficial supremacista cheio de certezas, outro oficial amargurado por dúvidas

O que o capitão supremacista tem de certezas, o tenente Antoine tem de dúvidas.

Haverá, ao longo do filme, bons diálogos que esclarecem as posições de um e de outro diante do fato de que são representantes de uma potência estrangeira colonizando terras que pertencem a outros povos. O filme aborda, sim, o reexame dos pecados do colonialismo. Mas isso é secundário. O tema central mesmo é de uma grande paixão, uma paixão louca, que acaba gerando uma obsessão: pousa ali no deserto, perto da guarnição francesa, um pequeno avião, pilotado solitariamente por uma jovem, Marie Vallières de Beaumont – o papel da tão bela quanto talentosa Marion Cotillard.

Marie quer a ajuda dos oficiais para encontrar Bill Lancaster, como ela um aventureiro e aviador naqueles primórdios da aviação intercontinental. Lancaster havia se lançado ao desafio de fazer a travessia entre Londres e a África do Sul – e seu avião havia caído ali, no Ténéré. Marie tem a absoluta certeza de que ele ainda está vivo, e tem a determinação férrea de encontrá-lo, resgatá-lo.

São amantes, ela e Bill Lancaster. Participaram juntos de vôos históricos; na Austrália, haviam sido recebidos como heróis.

Uma descida ao inferno no deserto sem fim

O capitão Vincent vai se negar a ajudá-la. Diz que precisaria de autorização de seus superiores. Tem seus próprios problemas. O filho do líder tribal tuaregue – o irmão da amante do tenente Antoine – está ameaçando reunir diversas tribos e enfrentar o poderio francês.

Eventualmente, o capitão Vincent vai liderar uma caravana de seus soldados e os tuaregues que são fiéis aos franceses na caçada do jovem líder tribal rebelado. Marie insiste em participar da caravana, na esperança de encontrar Lancaster.

A jornada pelo deserto será uma descida ao inferno.

Uma incrível justaposição de dor, desespero, com a beleza da paisagem

O cinema já mostrou muitas jornadas através de desertos. John Ford filmou uma delas, em O Céu Mandou Alguém/3 Godfathers – e a duríssima caminhada do personagem de John Wayne é capaz de deixar o espectador aflito para que aquilo acabe logo. David Lean criou seqüências memoráveis de travessia do deserto em Lawrence da Arábia.

Não me lembro, no entanto, de nenhuma jornada em deserto que tenha me deixado mais exasperado do que a mostrada neste filme aqui. A dureza enfrentada por Marie-Marion Cotillard e Antoine-Guillaume Canet é impressionante. Esse diretor Karim Dridi consegue criar um clima asfixiante, pavoroso.

E é incrível a justaposição da dor, da angústia, do desespero daqueles dois personagens com a imensa beleza das paisagens, aquele oceano de areia que não termina nunca, não tem fim – depois de uma duna há sempre outra duna, centenas, milhares de outras dunas, e mais nada. O filme mostra o calor insuportável dos dias e o frio cortante das noites, os dias de céu azul sem uma única nuvem, as noites de céu mais estrelado que o Planetário.

É impressionante, chocante, a junção de beleza plástica com sofrimento.

Estranhamente, o filme mistura uma atmosfera extremamente realista – as filmagens foram mesmo no deserto, no Marrocos, a areia é real, não é de estúdio, os atores estão montando camelos no deserto real – com um toque mágico, ou fake: Marie está sempre elegante, mesmo depois de dias perdida no deserto, com pouca comida, água do cantil acabando.

Não dá para saber se isso foi proposital – um toque de distanciamento brechtiano no meio de uma narrativa de resto realista de deixar o espectador com sede, calor e desespero.

O livro que deu origem ao filme se baseia em personagem reais

O Ténéré é o nome dado à região central do Sul do Saara. Vai – aprendo agora – da Nigéria até o Chade, ocupando uma área de 400 mil quilômetros quadrados. 400 mil quilômetros quadrados de areia, dunas e dunas e dunas, só areia.

Nos créditos iniciais já se diz que o filme se baseia em um romance de autoria de Sylvain Estibal, Le dernier Vol de Lancaster. Ao final da narrativa, antes dos créditos finais, surgem letreiros com informações sobre os personagens, o que aconteceu com eles após o que é mostrado no filme – como se costuma fazer nos filmes baseados em personagens reais, em histórias reais.

Sim, o romance que deu origem ao filme se baseia em um personagem real. Bill Lancaster, aventureiro e aviador, existiu de fato. O romance, aparentemente, parte de alguns dados reais e cria uma ficção.

Uma trilha sonora espetacular, marcante

À beleza visual estonteante do deserto e de Marion Cotillard, soma-se a beleza estonteante da música. É uma trilha sonora belíssima, emocionante, de grande força – dessas que, terminado o filme, deixa o espectador determinado a ir atrás do disco.

Com um jeito de quem se considera um gênio, o diretor Karim Dridi – um tunisiano nascido em 1961 – escreveu o seguinte, no site oficial do filme: “Eu sabia que, para um filme como Le Dernier Vol, com dois grandes astros, um orçamento razoável, cenários grandiosos e um roteiro romanesco, a música teria toda chance de cair no clichê da ‘grande’ música de cinema. Decidi então não procurar um compositor especializado no trabalho para imagens, de não recorrer a uma grande orquestra, de não utilizar a música ocidental pintada de orientalismo (…). Eu queria que essa música fosse um motor dramático e estético do meu filme, mas sobretudo que ela estivesse em harmonia com a pessoa que eu sou, ou seja, um autor que pega sua inspiração e sua força dentro de uma cultura nascida do casamento do Ocidente com o Oriente.”

O cara pode se achar o máximo, mas o fato é que ele conseguiu o que queria: a música é extraordinária. É composta por um tal Trio Joubran, formado por três irmãos palestinos, os três exímios instrumentistas – tocam o oud, o instrumento usado no Oriente Médio que é parente distante do violão, mais próximo talvez do alaúde. Parece que o primeiro disco deles foi lançado em 2005 – são jovens, fazem um som inspirado em raízes, mas forte, poderoso.

É uma das melhores coisas deste filme que de fato deixa o espectador angustiado, exasperado. Um belo filme.

O Último Vôo/Le Dernier Vol

De Karim Dridi, França, 2009

Marion Cotillard (Marie), Guillaume Canet (Antoine), Guillaume Marquet (Vincent), Frédéric Epaud (Louis), Saïdou Abatcha (Saïddou), Michaël Vander-Meiren (Vasseur)

Roteiro e diálogos Pascal Arnold e Karim Dridi

Baseado no romance Le dernier Vol de Lancaster, de Sylvain Estibal

Fotografia Antoine Monod

Música Le Trio Joubran

Produção Gaumont, Les Films du Dauphin, France 3 Cinéma, Canal+, CinéCinéma. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 98 min

***

Um Trackback

  1. […] Marion Cotillard (nas duas fotos abaixo) também tem um Oscar numa estante de casa (por Piaf – Um Hino ao Amor), e coleciona outros 29 prêmios e 21 indicações. É uma das mais requisitadas atrizes do cinema francês, com vários trabalhos também no cinema americano. Está linda, ótima, diáfana, no papel de Adriana, a mulher que come Ernest Hemingway, Pablo Picasso e quem mais passar pela sua frente – e que deixa Gil e os espectadores extasiados. […]

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